Segunda-feira, Maio 25, 2020
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O cão (戌狗), o ancestral companheiro

 

 

 兒不嫌母醜犬不怨主貧 

O filho não se importa da mãe feia; o cão não se queixa do dono pobre (ditado popular chinês)

 

Texto Rui Rocha 

 

O cão (Canis lupus familiaris), um mamífero da família dos canidae muito próximo do lobo será, porventura, o animal doméstico mais antigo a partilhar a sua vida com o quotidiano do ser humano, tanto a Oriente como a Ocidente, pelo que diferentes povos e culturas lhe dedicam um particular afecto. 

A história evolutiva do cão tem sido recentemente estudada analisando o ADN mitocondrial e sugere que lobos e cães se dividiram em diferentes espécies há cerca de 100 mil anos. Quanto ao início da sua domesticação, alguns arqueólogos datam-na como tendo ocorrido há perto de 40 mil anos a.C. Contudo, o mais antigo cão domesticado confirmado em qualquer lugar até ao presente encontra-se num cemitério que comprova a existência de interacções entre humanos e cães que remontam a 14 mil anos a.C., em Bonn-Oberkassel, na Alemanha. 

No Oriente, o primeiro cão domesticado foi atestado na China no início do Neolítico (7000 a.C. – 5800 a.C.) no local de Jiahu, província de Henan. Evidências da coexistência de humanos e cães (mas não necessariamente da domesticação destes) podem ser encontradas em sítios do Paleolítico Superior, na Europa. Tais sítios apresentam vestígios de interacção entre cães e humanos, nomeadamente nos achados da Cave Goyet na Bélgica, e nas cavernas Chauvet em França e Predmosti, na República Checa.  

Lugares mesolíticos europeus (5250 a.C. – 3700 a.C.) como Skateholm, na Suécia, possuem sepulturas de cães, provando a importância do cão numa economia de caçadores e colectores. A Danger Cave, no Utah (EUA), é actualmente o primeiro local conhecido onde foi encontrado um sepultamento para cães no continente americano, datado de há cerca de 11 mil anos, provavelmente de descendentes de cães asiáticos. O cruzamento contínuo com lobos, uma característica verificada durante todo o histórico da vida dos cães em todos os lugares resultou, aparentemente, no lobo preto híbrido encontrado nas Américas.  

Em 2016, uma equipa de investigadores liderada pelo bioarqueólogo Greger Larson1 publicou um artigo sobre a existência de vestígios de ADN mitocondrial em dois locais de origem de cães domésticos: um na Eurásia Oriental e outro na Eurásia Ocidental. De acordo com essa análise, os cães asiáticos antigos originaram-se a partir domesticação de lobos asiáticos pelo menos há 12.500 anos; enquanto que os cães do Paleolítico europeu se originaram a partir de uma domesticação independente de lobos europeus há cerca de 15 mil anos. Diz o artigo que, em algum momento antes do Neolítico (pelo menos há 6400 anos), cães asiáticos foram transportados por humanos para a Europa, substituindo os cães do Paleolítico Europeu que, entretanto, se extinguiram. Alguns estudos sobre sepultamento de cães datados do período Kitoi do Neolítico tardio, início do mesolítico (2400 a.C.) na região de Cis-Baikal, na Sibéria, sugerem que, nalguns casos, os cães foram agraciados com o estatuto de “humano” e tratados como se de seres humanos se tratassem. Uma sepultura canina no local de Shamanaka (Sibéria), por exemplo, contém um cão macho, de meia-idade, que sofrera lesões na coluna vertebral, lesões essas que recuperaram. Avaliados os restos mortais através de radiocarbono, foi possível datar o enterro como tendo ocorrido há cerca de 6.200 anos. Trata-se de um cemitério formal, em tudo semelhante aos humanos, e esse cão terá vivido como membro de uma família. Foram também encontrados esqueletos humanos junto de um cão jovem a norte da Palestina, datados de há 12 mil anos. 

 

 

Atributos do cão 

Georges-Louis Leclerc (1707-1788), conde de Buffon, naturalista, matemático e escritor francês, descreve exemplarmente o cão no volume IV da sua Histoire Naturellegénérale et particulièreavec la description du Cabinet du Roi (1749 – 1804), uma enciclopédia de 36 grossos volumes que escreveu em vida, posteriormente completada pelos seus discípulos com mais oito volumes.  

Diz o Conde de Buffon que o cão, independentemente da beleza da sua figura, da sua força, vivacidade e agilidade, possui toda uma excelência interna capaz de conquistar o ser humano. Com um temperamento apaixonado ou mesmo feroz e até sanguinário, o cão selvagem destaca-se de entre todos os animais. Contudo, no cão doméstico essas disposições hostis desaparecem e são substituídas pelos sentimentos mais suaves de apego e pelo recorrente desejo de agradar. Ele corre com entusiasmo e boa disposição ao pé do seu amo, manifestando a sua coragem, força e talentos. Ele obedece às ordens do dono, sendo sempre solícito para as executar. Ele consulta, ele interroga, ele suplica; um único olhar nos olhos do dono é suficiente, pois ele conhece os sinais externos das suas intenções e desejos. Sem ser dotado, como o homem, com a faculdade de pensar, os seus sentimentos são extremamente delicados e possui uma maior fidelidade e firmeza no seu afeto. Ele não é corroído pela ambição, por visões interesseiras, ou por um desejo de vingança; não tem sentimentos de medo, mas sim de desagrado. Ele é todo zelo, ardor e obediência. Mais apto a relembrar os benefícios do que os ultrajes, não é desencorajado por golpes ou maus tratos, mas sofre com calma e logo os esquece; ou, então, lembra-se deles apenas para aumentar o seu apego. Em vez de fugir, ou descobrir marcas de ressentimento, ele expõe-se à tortura e lambe a mão da qual recebeu o golpe. Para a crueldade do seu mestre, apenas se opõe a queixa, paciência e submissão. Mais sociável do que o ser humano e mais puro do que qualquer outro animal, o cão não é apenas instruído com rapidez nas mais variadas tarefas, mas até se conforma aos costumes, movimentos e hábitos daqueles que o governam. Ele assume o próprio tom da família em que mora. Como outros servos, ele é altivo com o grande e rústico com o camponês. Sempre ansioso para obedecer e agradar ao seu dono, ou aos seus amigos, ele não presta atenção aos estranhos, e repele furiosamente os mendigos, a quem ele distingue pelo seu vestuário, a sua voz ou os seus gestos. Quando a vigilância de uma casa ou de um jardim lhe estão adjudicadas durante a noite, a sua ousadia aumenta, e às vezes torna-se completamente feroz. Ele observa, anda nas rondas, cheira estranhos à distância e, se eles param, ou tentam saltar qualquer barreira, ele instantaneamente atira-se a eles e, por latidos e outras marcas de paixão, alarma a família e a vizinhança. Igualmente furioso contra os ladrões e contra os animais rapaces, ataca-os e fere-os, forçando-os a deixar o que quer que tenham tentado levar. Mas, contente com a vitória, deita-se no despojo e não o toca nem para satisfazer o seu apetite, mostrando, ao mesmo tempo, um exemplo de coragem, temperança e fidelidade. 

Estas notáveis e nobres características de personalidade atribuíveis ao eterno amigo do ser humano na paz e na guerra referidas pelo Conde de Buffon são invariavelmente reconhecidas e homenageadas, tanto no mundo ocidental ao longo da sua história, como no mundo oriental, muito particularmente na China e no Japão. 

Sobre o mundo antigo ocidental (Egipto, Assíria, Creta, Grécia, Roma), a arqueologia deu-nos a conhecer dezenas de exemplos dessa estreita ligação entre o cão e o ser humano. No Egipto antigo era frequente a representação de cães nas pinturas murais, nos baixos-relevos ou mesmo nos sarcófagos. Anúbis, deus da mumificação e da vida após a morte, tem corpo de homem e cabeça de cão (ou de chacal). Os baixos-relevos do palácio do rei Assurbanipal, na Assíria, mostram cães que participam activamente da caça, existindo também estatuetas de argila em sua homenagem. Em Creta, Fiktina, a deusa da caça, aparece numa pintura rupestre no monte Kapparukephala acompanhada pelo seu cão.  

Na mitologia grega o cão é uma criatura criada por Hephaistos, deus do fogo e dos vulcões, um inventor divino e criador de objectos mágicos. A origem do cão conferia-lhe, assim, uma posição privilegiada entre os animais. O cão era igualmente considerado pelos gregos como caçador e guardião e representado em vasos e colunas de edifícios. No livro Kunegitos (Sobre a caça), Xenofonte (430 a.C. – 355 a.C.) descreve pormenorizadamente a criação e o adestramento dos cães de ataque e dos cães de corrida. As histórias do cão abundam na literatura grega. Homero (séc. VIII a.C.) escreveu na Odisseia sobre o cão amado de Ulisses, Argus, que morreu de alegria depois de ter visto de novo o seu mestre pela primeira vez em 20 anos. Há, também, o relato do caçador de Actaeon que apareceu a Diana quando esta se banhava, tendo sido transformado em veado e devorado pelos seus próprios cães de caça. 

Em Roma o cão está representado em moedas, pinturas murais e mosaicos. Num dos mais célebres mosaicos de Pompeia, um cão, amarrado e latindo guarda zelosamente a casa do seu amo, tentando protegê-la dos intrusos. Nesse mosaico aparece a legenda: “Cuidado com o cão” (Cave canem). 

 

 

Na cultura asiática 

No mundo asiático as narrativas sobre os cães e seus atributos são igualmente recorrentes. Ahura Mazda, deus principal do antigo povo ariano do subcontinente indiano (1500 a.C.), entendia que o cão era parte da gloriosa criação do mundo, fazendo-o guardião do povo ariano quer no lar, quer no campo. Artefactos encontrados na China, pertencentes a diferentes dinastias, mostram que o cão era uma presença assídua na vida das classes mais privilegiadas e um ser auspicioso. Nas ruínas de Mawangdui (Changsha, Hunan), por exemplo, foram recuperados artefactos da Dinastia Han (206 a.C – 220) onde está patente a presença do cão em baixos-relevos, na cerâmica, na estatuária, retratando-o como companheiro de caça (actividade tornada comum naquela dinastia). A representação do cão surge também nos túmulos da Dinastia Tang (618-907), bem como na pintura desde o início da dinastia Song, em 960, até ao fim da Dinastia Qing, em 1912. 

O cão teve sempre um grande capital de simpatia na cultura chinesa e é encarado como um animal benfazejo e auspicioso. Quando, por exemplo, um cão irrompe por uma casa adentro, o dono da casa deve alegrar-se com tal facto e tomar conta dele, pois é um sinal de riqueza e prosperidade iminentes a entrar pela porta. Há também um interessante ditado popular chinês que diz: “o filho não se importa da mãe feia; o cão não se queixa do dono pobre”. 

Durante a Dinastia Ming, o mais famoso e poderoso eunuco na história da chinesa, Wèi Zhōngxián (魏忠賢, 1568-1627) adoptou vários filhos, chamando a 10 deles os “10 cães”, o que era considerado honroso pelos próprios. Na Dinastia Qing, o pintor e calígrafo Zhèng Xiè (鄭燮) (1693 – 1766), comummente conhecido por Zhèng Bǎnqiáo (鄭板橋) autodesignava-se como “cão corredor”, uma forma de exprimir a sua elevada estima por Xú Wèi (徐渭, 1521-1593) um famoso pintor, calígrafo, escritor e dramaturgo da Dinastia Ming. O próprio Confúcio (孔子, 551 a.C. – 479 a.C.), ao ser descrito como um cão vadio, dado que errantemente percorria a China promovendo o seu pensamento político num período de grande turbulência e de guerras, afirmou que considerava apropriada tal designação. 

Na mitologia chinesa, o cão surge como a figura mítica Pánhù/Panghu (盤瓠), meio cão, meio dragão, que se transforma num homem e casa com uma princesa, filha do lendário imperador Dì Kù (帝嚳), igualmente conhecido por Gāoxīn Shì (高辛氏). O culto de Pánhù é celebrado entre as minorias étnicas Yao, She, Miao e Li. O culto do cão encontra-se também entre as minorias Nakhi, Lisu, Lahu, Pumi e Buyi, como animal auspicioso para as colheitas e, como tal, é proibido ser sacrificado ou comido. Já o imperador Huizong (宋徽宗, 1082-1135) da Dinastia Song do Norte, nascido no ano do Cão, havia proibido por decreto imperial a morte de cães.  

A cultura japonesa presta igualmente uma devotada atenção ao cão. Reconhece dois tipos de cães divinos (inugamu, 犬神, literalmente deus cão): um, utilizado na feitiçaria; o outro, como animal protector do ser humano. Acredita-se que o Monte Koya, a sul de Nara, onde se encontram os altares de culto mais importantes da seita budista Shingon, é um local que goza de protecção desse deus canino. Conta-se que o chefe da seita Shingon, deambulando pelo monte, terá encontrado um deus xintoísta a caçar, acompanhado por dois cães, um branco e outro preto. Uma caixa em forma de cão (inuhariko いぬはりこ-犬張子) é usada como talismã para proteção dos recém-nascidos. Em regra, são oferecidos aos bebés dois destes talismãs na primeira vez em que são levados ao templo para a cerimónia da escolha do nome (miyamairi 宮参り), ou seja, entre um mês e 100 dias após o nascimento. Uma das caixas, com um cão macho a olhar para a esquerda, guarda os amuletos de bebé; a outra caixa, com uma cadela a olhar para a direita, guarda os brinquedos e os artigos de limpeza do bebé. 

 

 

A tradição japonesa tem numerosas lendas sobre cães, sendo a mais popular Os Oito Cães de Leste (HakkendenTōhō Hakken Ibun 八犬伝 ―東方八犬異聞), adaptada de uma lenda chinesa, na qual uma jovem, Fusehime (伏姫), teria sido obrigada pelo pai a casar com o cão Yatsubara (やつばら, 奴原), que o ajudara a livrar-se dos inimigos que aterrorizavam a sua província. A jovem teve oito filhos com cabeça de cão e corpo humano, que representam as oito virtudes cardinais do confucionismo: 忠 (zhōng, lealdade), 孝 (xiào, piedade filial), 仁 (rén, benevolência), 愛 (ài, amor benevolente), 信 (xìn, confiança), 義 (, justiça), 和 (, harmonia), e 平 (píng, equidade). Outras belas histórias são a de Kuro, o Cão Fiel (um cão que acompanhou o dono até na morte), Um Cão Chamado Bola de Fogo (lenda de origem coreana sobre um cão do Mundo das Trevas que causava eclipses comendo o Sol e a Lua) ou o Cão de Pedra (inu ishi犬石, um ladido de uma pedra que salvou um ministro imperial de um naufrágio)  

Finalmente, refiram-se dois casos comoventes de fidelidade: o cão Hachikō (ハチ公), um símbolo de lealdade no Japão e a sua famosa estátua de bronze situada próximo da estação de Shibuya, em Tóquio, lugar onde esse cão de raça Akita esperou nove anos pelo regresso do seu dono, que entretanto morrera; e Tarō, que esperou pelo seu dono 17 anos. Tal como Hachikō, Tarō, o cão fiel de raça mista, morava perto da escola primária de Higashi, situada a dois quilómetros da estação JR Ishioka (prefeitura de Ibaraki, na região de Kantō) e fazia esse percurso diariamente para se encontrar com o seu dono. Tarō tem agora a sua própria estátua de bronze junto à estação de Ishioka. E ainda outra história verdadeira de força e tenacidade é a dos cães Tarō (太郎) e Jirō (二郎), agora heróis nacionais japoneses, aos quais foi erigido em 1959 pela Japanese Society for the Prevention of Cruelty to Animals (JSPCA) um monumento no sopé da Torre de Tóquio, os únicos dos 15 cães que resistiram durante um ano sozinhos, na base científica japonesa Syowa, no Antártico. Esta dramática história real foi posteriormente passada a filme pelo realizador Koreyoshi Kurahara, com o título Nankyoku Monogatari (南極物語 Antártico), com banda sonora de Vangelis e o famoso actor japonês Ken Takakura como protagonista. 

 

 

Perfil zodiacal do Cão 

Ramo Terreste:  (戌) 

Ano Lunar: Nono 

Yin-Yang: Yang 

Anos de nascimento: 2006, 1994, 1982, 1970, 1958, 1946, 1934 

Cinco elementos: Xū (戌), pertence à Terra 

Cinco Virtudes Constantes: a terra pertence à Sinceridade 

Estação do ano: Outono 

Direcções auspiciosas: este, sudeste, sul 

Cores auspiciosas: verde, vermelho e púrpura; evitar azul, branco e dourado 

Números de sorte: 3,4,9; evitar 1, 6, 7 

Flores da sorte: rosa (月季), Oncidium flexuosum (文心蘭屬), Cymbidium faberi (蕙蘭) 

Cristais de sorte: rubi, ametista, quartzo-rosa 

Protector espiritual: Amitabha 

Escolha de um nome: para os nascidos no Ano do Cão é apropriado selecionar caracteres com o radical para peixe (魚), feijão (豆) ou arroz (米), que significam abundância de comida e de bebida, assim como fama perpétua e riqueza; caracteres com o radical para pessoa (人), telhado (冖) ou cavalo (馬), que simbolizam paz, felicidade, generosidade e prosperidade; caracteres com radicais para metal (金), jade (玉), erva (艹), campo (田), madeira (木), grão (禾) lua (月), que estão conotados com abnegação, inteligência, coragem; caracteres com o radical pessoa (亻) que significa integridade, honestidade; ou carateres com o radical fogo (火) representando ética e determinação.

 

* Em memória do cão Ulisses, um belo companheiro de vida

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