Segunda-feira, Maio 25, 2020
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As mãos que embalam os outros

 

Texto Andreia Sofia Silva

 

Fátima Galvão lembra-se bem do nome do primeiro cão que tirou das ruas. Deu-lhe o nome Boris e levou-o para casa depois de o ter visto a ser maltratado na zona das Docas de Macau. Estávamos em 1999, a meses da transferência de Macau para a China, e Fátima Galvão pensava até em ir para Portugal. Foi aquele cão, que sofria de sarna e que vagabundeava por aí, que a levou a ficar em Macau.

Desde aí que uma das fundadoras da Sociedade Protectora dos Animais de Macau (ANIMA) e criadora da Masdaw – Associação de Cães de Rua e Protecção dos Animais de Macau, tem a casa cheia de animais que recolhe na rua. Recorda-se de um ou outro momento em que, durante um simples passeio ou um regresso de um concerto, se apiedou deste ou daquele animal. Deu-lhes nomes e manda-os sossegar enquanto conversa com a MACAU.

A viver em Macau há 31 anos, Fátima Galvão conta que a vontade de ajudar os outros sempre esteve dentro de si. “Quando era criança, ouvia-se falar muito na guerra, nos miúdos subnutridos e houve uma altura em que houve cólera. Fiquei muito impressionada com isso. Punha os bonecos à minha volta na cama, à noite, e para mim eles eram aqueles miúdos e eu tinha de os proteger. Apanhei a minha mãe a tirar-me os bonecos todos e eu fiquei chateada porque ela me estava a tirar os meninos que precisavam da minha protecção. Tinha seis anos”, recorda.

A fundadora da Masdaw é um dos exemplos de como o voluntariado em Macau faz diferença e de como está mais vivo do que nunca. As associações desdobram-se e focam-se em áreas tão díspares como os animais abandonados, as crianças sem tecto ou os que sobrevivem com baixos rendimentos.

O voluntariado é algo que chega inclusivamente às empresas como uma forma de responsabilidade social. A título de exemplo, são comuns as notícias de concessionárias de jogo ou entidades bancárias que fazem donativos, organizam eventos de caridade ou incentivam os seus empregados a envolverem-se em programas de voluntariado nas mais diversas áreas.

 

O combate à solidão

O encontro faz-se, religiosamente, todas as sextas-feiras de manhã na zona da Ilha Verde. Aqui está Robby Kwok com os voluntários do grupo Hope International Volunteer. São quase dez da manhã. Na pequena sala não há rostos tristes e não há tempo a perder: há famílias à espera da sua visita, do seu saco com alguns bens essenciais, de dois dedos de conversa que ajudam a combater a solidão.

Tiram-se várias fotografias cheias de sorrisos, com os voluntários a envergarem t-shirts vermelhas. Afinal de contas, explica Robby Kwok, é importante mostrar aos idosos e aos necessitados a alegria e a vontade de vencer as dificuldades do dia-a-dia. Perto do meio-dia, distribuem-se os grupos compostos, cada um, por três a quatro pessoas. O grupo que acompanhamos irá deslocar-se à Rua do Teatro, onde mora, num quarto andar, um casal com um filho portador de deficiência.

A mulher trabalha num restaurante e o homem não pode trabalhar por ter um problema numa perna. Ao filho ninguém dá trabalho e não passou do nono ano de escolaridade. Sentamo-nos à mesa na pequena sala, enquanto Robby Kwok revê os apontamentos relativos àquela família.

Pouco saem de casa, uma vez que o prédio onde moram não tem elevador, e, para aquele homem, dar um passeio até à zona do lago Nam Van revela-se um sacrifício: já fez essa tentativa, mas caiu.

Robby pergunta o estado de saúde de ambos, vê o funcionamento de um sistema de alarme que chama caso haja algum problema. Em caso de necessidade, são os responsáveis do Hope International Volunteer que chamam os bombeiros, polícia ou assistentes sociais.

O grupo trabalha sobretudo com idosos que não conseguem sair de casa dadas as limitações físicas. Habitam prédios antigos, sem elevador, e isso faz com que precisem de companhia, mesmo que tenham rendimentos e um sítio para viver.

Robby Kwok, que também lidera uma entidade de ensino e que viveu na Austrália 12 anos, assegura que este é um problema bastante comum em Macau. Consigo trabalha todo o tipo de pessoas, tal como jovens ou mulheres de meia idade, chinesas e macaenses. Por semana, chegam a participar 20 voluntários.

“A maioria dos idosos só quer atenção e companhia”, assegura. “Querem que tomemos o almoço com eles. Dizem-nos que o Governo é bom para eles e que os ajuda, dizem que não precisam de nada, mas querem ter alguém com eles para conversar”, explica.

Yuki, de 28 anos de idade, trabalha na área do marketing educacional e faz questão de visitar famílias ou pessoas dependentes todas as semanas. “Decidi ser voluntária porque a maioria dos idosos vive sozinha e precisa de alguém que lhes faça companhia. Queria fazer algo para ajudar. Antes de ser voluntária neste projecto já tinha ajudado a recolher fundos.”

Questionada sobre se outras pessoas da idade dela têm interesse em ajudar os outros, Yuki assegura que não se pode quantificar o interesse que os locais têm em relação ao voluntariado. “O interesse é assim assim. Uns interessam-se muito em ajudar os outros, mas há pessoas que não se interessam assim muito”, defende.

O grupo Hope International Volunteer foi recentemente distinguido nos Macau Business Awards e conta, ao fim de quatro anos de existência, com 8000 horas de visitas ao domicílio e com a ajuda de 6000 colaboradores. “Este é um trabalho que se faz 24 sob 24 horas, porque nunca sabemos quando é que as pessoas vão ligar a pedir ajuda”, afirma Robby Kowok.

Com grupos a trabalharem na Austrália e em Zhuhai, onde se dá apoio a crianças com necessidades educativas especiais e com deficiência, a Hope International Volunteer quer crescer em todo o mundo. “Gostaríamos de criar mais grupos noutros países, e já estamos a pensar em Hong Kong e Shenzen, mas para já o nosso foco é Macau”, frisa o responsável pelo grupo.

 

Ajudar: uma vontade que vem de dentro

Flora Fong, funcionária pública, começou a ter vontade de ser voluntária quando trabalhou numa empresa que tinha um gato como animal doméstico. Hoje presta auxílio a uma mulher que aluga um espaço que serve de casa a 40 gatos. Não pertence a nenhuma associação e faz quase tudo sozinha.

“Sempre achei que as pessoas que faziam voluntariado eram boas. A mulher que conheci, que recolhe gatos abandonados, usa todo o dinheiro que ganha para ajudar os animais. Tive conhecimento da história dela graças a um programa da TDM, e encontrei-a uma vez e aí decidi que queria ajudá-la. Fui lá a casa, vi a situação e disse-lhe que se ela precisasse de alguma coisa que podia falar comigo, eu podia ajudá-la.”

Desde então que, pelo menos uma vez por mês, esta funcionária pública leva-lhe jornais e revistas antigas. “Sempre achei que se ajudar os outros me vou sentir mais feliz. Se ganhar uma coisa não me sinto tão feliz como se ajudar os outros”, frisou.

Também Mónica Mills sempre se sentiu bem a lutar por causas. “Tenho vindo a organizar eventos e workshops em Macau para grupos, todos os domingos, uma vez por mês. Para que as pessoas estejam juntas e sintam que se podem expressar de forma criativa em conjunto. Os fundos obtidos com os eventos que realizei nos últimos anos sempre foram destinados a instituições de caridade, sobretudo que trabalhem com mulheres necessitadas que vivem em países em desenvolvimento.”

Ao fim de dois anos a residir em Macau, Mónica Mills não tem dúvidas de que há muita gente que precisa de ajuda, mesmo que tenha um ordenado ou uma reforma no final do mês. “Vim para Macau sem conhecer nada. Só sabia que havia casinos. No meu segundo ano mudei-me para a Taipa e comecei a tentar conhecer melhor o que me rodeava, e aí percebi que havia pessoas com necessidades. Comecei a perceber que havia muitas coisas que faltavam fazer, que estavam a ser negligenciadas. As pessoas têm os seus empregos, têm subsídios, mas ainda assim precisam de algo mais.”

“Os serviços de voluntariado que existem em Macau beneficiam toda a gente, independentemente do sítio de onde essas pessoas venham. Famílias que estão com dificuldades, que têm dificuldades mais específicas com os seus filhos ou familiares, e que precisam de apoio adicional”, assegura Mónica Mills, para quem ser voluntária é tão fundamental como trabalhar ou estar com os amigos.

“É uma questão de mentalidade, é algo que temos de fazer. Tem de se tornar um hábito, algo que faz parte do nosso dia-a-dia. E sem dúvida que em Macau há muitas oportunidades para fazer isso.”

 

Cáritas, uma ONG multidisciplinar 

Paul Pun é secretário-geral da Cáritas, uma das maiores associações de cariz social de Macau que apoia residentes e não residentes, novos e velhos, nas mais variadas áreas. Paul Pun não se dedica apenas a coordenar grupos de voluntários e iniciativas de apoio em Macau, realizando também várias viagens a outros locais onde a Cáritas também existe e onde é necessária ajuda.

O também director da Escola São João de Brito, destinada ao ensino profissional, explica que os principais serviços de voluntariado na Cáritas são o banco alimentar e a linha telefónica de prevenção ao suicídio. Paul Pun destaca ainda a realização anual do Bazar de Caridade, que reúne, no lago Nam Van, tendas de jogos, comidas e produtos para venda, cujas receitas se destinam a custear os serviços que a Cáritas disponibiliza a toda a população. Os subsídios concedidos pelo Governo financiam o resto.

Para Paul Pun, que foi várias vezes candidato às eleições legislativas, o maior problema para a Cáritas não é atrair voluntários, mas mantê-los. “É difícil para nós, porque muitos vêm uma vez e depois não regressam. Não é fácil manter as pessoas. Às vezes ligamos, mas também temos muitos voluntários que nos dizem ‘porque não ligou hoje? Fiz algum erro?’. Há várias situações.”

O secretário-geral da Cáritas assegura que hoje o voluntariado acontece com mais frequência porque há mais informação disponível. “Essa situação melhorou. No passado, e não era por uma questão de egoísmo, as pessoas diziam que não sabiam onde podiam, ou como, ajudar os outros. Hoje há mais associações.”

Paul Pun alerta, contudo, para a necessidade de envergar o máximo número de camisolas e para evitar ajudar apenas a Cáritas. “Alguns voluntários querem identificar-se com a Cáritas, mas temos uma mentalidade diferente. Esperamos que possam servir toda a gente e não queremos que haja esse ênfase em ser ‘voluntário da Cáritas’. Encorajamos essas pessoas a serem mais abertos em relação a outras organizações não governamentais.”

A Cáritas atrai voluntários junto de escolas e universidades, através de acções de sensibilização, mas recebe também a ajuda daqueles que são apoiados. “Antes os voluntários vinham da sociedade em geral, mas agora quem beneficia do banco alimentar também ajuda os outros. Também convidamos os mais jovens a ajudar.”

Na Cáritas trabalham pessoas a tempo inteiro, que recebem um salário, mas a maioria dos que lá está e que ajuda a entidade a erguer-se diariamente são os voluntários, que fazem de tudo um pouco. Entregam cabazes de comida, vão ao supermercado recolher as sobras de vegetais e pão no fim do dia que já não podem ser vendidas, cortam o cabelo de graça aos idosos que não conseguem sair de casa. Dá-se apoio jurídico a alguns não residentes, fazem-se reparações na casas dos mais necessitados. O trabalho não pára: afinal não são só os residentes locais, falantes de chinês, que precisam do embalo dos outros. Os pedidos de expatriados e migrantes, com muito ou pouco dinheiro, aumentaram com o boom da economia.

 

Suar por uma causa

Cintia Leite Martins sempre participou em actividades de ajuda aos outros, mas há cerca de um ano juntou-se ao marido, Guilherme, para criar um projecto de voluntariado diferente que pretende ser uma ponte com outras acções. O projecto ManaVida alia a prática de exercício físico à caridade e quem participa nas aulas sabe que vai suar e queimar calorias por uma causa.

“Criámos o ManaVida porque sabemos que as pessoas querem ajudar e não sabem como”, refere Cintia à MACAU. “Há pouca informação, pelo menos em português e inglês. Em Macau falta essa parte de estabelecer a ligação com a comunidade e com as organizações.”

Participar numa aula de Bootcamp ou de Pilates, por exemplo, é garantia de ajuda a entidades como o Berço da Esperança ou o Centro do Bom Pastor. Mas o projecto ManaVida não olha apenas para as pessoas.  “Uma vez por mês fazemos uma actividade que combina o exercício físico com a limpeza de alguns locais. O Governo faz um bom papel na limpeza mas há muito lixo escondido. Sempre que fazemos estas actividades aparecem pessoas novas que não conhecemos. Promovemos tudo pelo Facebook”, explicou Cintia.

O projecto ManaVida ainda está a crescer mas já conta com iniciativas fora de Macau. “Estamos envolvidos em dois projectos, um deles baseado na China e outro na Tailândia. Não somos parceiros, ajudamos no que podemos, tal como qualquer pessoa. Escolhemos os projectos nos quais temos confiança e temos tentado ter sempre esse cuidado.”

A fundadora do projecto não tem dúvidas de que em Macau não há falta de interesse em ajudar os outros. O que há é, muitas vezes, falta de informação. “No ManaVida queremos fazer isso, servir de ponte e estamos a começar a contactar outras organizações. Queremos criar um plano para ver como é que os nossos membros podem ajudar outras associações. Sei que as empresas maiores têm mais facilidade, mas acho que as pequenas e médias empresas têm o coração aberto e gostavam de ajudar, mas não sabem como”, defendeu.

 

Apoio emocional

Quem é voluntário depara-se com uma realidade escondida aos olhos de muitos. A fome não se vê, mas há pobrezas que se percebem em cada rua. Fátima Galvão ajuda os animais, mas não esquece as condições menos boas com que já se cruzou na sua luta diária para dar um tecto aos cães de rua.

“Macau é uma cidade em que as pessoas vivem uma vida fácil, mas há outras que vivem uma vida de pesadelo. Por detrás dos néones, há sempre alguém que precisa de ajuda. Há pessoas a viver em condições difíceis.”

Cintia Leite Martins fala sobretudo na necessidade de uma ajuda emocional a algumas comunidades de trabalhadores não residentes. “Há necessidade de ajuda financeira mas não é tão visível nas ruas. Há sim necessidade de ajudar grupos nas comunidades, das Filipinas, Indonésia, Malásia. São pessoas que, na maior parte das vezes são discriminadas e precisam de ajuda.”

Num estudo divulgado em 2013 pela Associação de Estudo Social Kuai Un, concluiu-se que 38,3 por cento dos jovens em Macau entre os 13 e os 29 anos fizeram voluntariado em 2012, uma percentagem que havia subido em relação à década anterior.

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