Quarta-feira, Maio 27, 2020
Inicio Cinema Cinema | Do Festival à indústria

Cinema | Do Festival à indústria

 

Texto Marco Carvalho

 

Quando, a 14 de Dezembro, caiu o pano sobre a 2.ª edição do Festival Internacional de Cinema e Cerimónia de Entrega de Prémios de Macau (IFFAM, na sigla inglesa), a consagração não sorriu apenas a “Temporada de Caza”, filme de estreia da argentina Natalia Garagiola – considerado pelo júri o melhor do certame – ou a Xavier Legrand, cineasta francês que arrecadou o galardão para melhor realizador. De um certo modo, a última noite do Festival – que trouxe até Macau actores como o norte-americano Jeremy Renner, a malaia Michelle Yeoh ou o sul-coreano Do Kyung-soo – foi também uma noite de afirmação para o próprio evento.

O júri, liderado pelo cineasta Laurent Cantet, distinguiu “Temporada de Caza” pelo “estilo fluído e construção, a precisão da direcção e a qualidade dos actores”, atributos que não seriam inteiramente desfasados numa elegia à forma como decorreu a segunda edição do certame, a primeira sob a batuta de Mike Goodridge.

O britânico, antigo director executivo da produtora londrina Protagonist Pictures, despediu-se da edição de 2017 do Festival Internacional de Cinema com a sensação de ter cumprido parcialmente o seu dever, mas consciente de que é longo o caminho que o certame tem que percorrer para que se afirme, dentro e fora de portas. “Era, obviamente, um elemento novo na organização do evento, mas estava perfeitamente consciente de que tinha e tenho muito trabalho a fazer para melhorar o legado da primeira edição do Festival, que se deparou com alguns desafios. Sinto que fomos responsáveis por alguns avanços significativos”, reconheceu, em entrevista à MACAU.

Numa cidade onde ir ao cinema – no segundo semestre de 2017, e de acordo com os dados divulgados pela Direcção dos Serviços de Estatística e Censos, 173.400 residentes assistiram a pelo menos um filme numa das salas locais – é uma das actividades culturais de eleição. E deu a Mike Goodridge o cavalo de batalha perfeito para o seu primeira grande braço-de-ferro, o de familiarizar Macau com o IFFAM: “Devo dizer que um dos meus grandes objectivos passa por estimular a paixão pelo cinema em Macau e contribuir para que as pessoas possam ir ao cinema com maior frequência. Existem, naturalmente, várias questões que eu gostaria de abordar à medida que o tempo progride e eu tenho várias ideias sobre a forma como podemos impulsionar esta paixão pela sétima arte, mas temos agora um importante pilar onde fundamentar os nossos projectos, pelo que as perspectivas só poderão melhorar”, sustenta.

 

Novidades na forja

O optimismo de Goodridge não é imoderado. A 2.ª edição do Festival Internacional de Cinema atraiu às salas assistências significativas, mas, mais do que tudo, ajudou a iniciativa a ganhar definição. O modelo competitivo adoptado – o de privilegiar produções de realizadores que tenham assinado apenas uma ou duas longas-metragens – vai manter-se nas próximas edições, ainda que o director artístico faça questão de lembrar que a abrangência do Festival vai muito além dos galardões que atribui e dos filmes que premeia. “O foco exclusivo da secção competitiva é em realizadores que tenham assinado a sua primeira ou a sua segunda longa-metragem, mas nas restantes secções foram exibidos filmes de realizadores veteranos. Na última edição demos a conhecer o trabalho de Guillermo del Toro, de Luca Guadagnino, de Pen-ek Ratanaruang e de Laurent Cantet”, recorda.

Na calha, reitera Goodridge, está de resto a introdução de algumas novidades e a criação de novas secções. A Comissão Organizadora está a avaliar a possibilidade de avançar para a criação de uma secção dedicada aos filmes em língua portuguesa, uma opção que, no entender de Goodridge, “vai ao encontro das características mais relevantes de Macau”. “Trata-se de criar uma oportunidade para que a comunidade lusófona possa assistir a filmes na sua própria língua. Um dos elementos mais cruciais do Festival é, ainda assim, a qualidade dos filmes. Se não identificarmos filmes em língua portuguesa com grande qualidade, é óbvio que não os iremos exibir só por exibir.”

A “paixão pelo cinema” que o director artístico do IFFAM quer estimular não se fica, no entanto, pela perspectiva da popularização da sétima arte. Com Goodridge no comando, o Festival ambiciona tornar-se a pedra-de-toque de uma indústria ainda incipiente, o sustentáculo de uma Macau que se quer dar a conhecer também pelos filmes que produz. “Esperamos que o crescimento do Festival se faça acompanhar pelo desenvolvimento simultâneo de uma comunidade de realizadores locais. Queremos ser uma plataforma para a afirmação de cineastas, tanto de Macau, com internacionais”, assume o responsável. “Acredito que podemos cimentar uma posição muito sólida no circuito dos Festivais e construir uma forte reputação como um dos festivais asiáticos direccionados para a promoção de novos talentos e ainda como ponto de encontro de realizadores de várias proveniências”, complementa.

 

O exemplo balcânico

Para Mladen Milicevic, professor de composição para cinema da Universidade norte-americana de Loyola Marymount, a ideia de que um Festival de Cinema possa chamar a si o estatuto de pedra basilar no processo de afirmação da indústria cinematográfica em Macau nada tem de exagerado.

Oriundo da antiga Jugoslávia, Milicevic – bósnio de etnia sérvia nascido em Sarajevo – evoca o sucesso alcançado pelo Festival Internacional de Cinema da sua cidade-natal para ilustrar a sua posição. A Bósnia-Herzegovina, defende o académico, é um bom exemplo de uma nação cuja indústria cinematográfica enveredou por uma pequena revolução no encalço da criação de um festival de cinema. “Tivemos a guerra há 20 anos e depois a Jugoslávia desintegrou-se e deu origem a diferentes países. A minha cidade natal, Sarajevo, tem o seu próprio Festival e é algo gigantesco na Europa. É bem conhecido pela Europa fora. São muitos os que se deslocam a Sarajevo a propósito do Festival, o que acabou por ter um grande impacto sobre a indústria local”, sustenta Mladen Milicevic.

Criado em 1995, durante o chamado “Cerco de Sarajevo”, o festival teve repercussões óbvias no fortalecimento da indústria cinematográfica bósnia e o mais apetecido dos frutos acabaria por se materializar sete anos depois, de um modo um tanto ou quanto inesperado. “Um filme da Bósnia-Herzegovina ganhou um Óscar em 2002 e foram realizados outros filmes que alcançaram uma grande projecção internacional e tiveram um grande impacto. Isto só ocorreu porque o Festival influenciou os realizadores locais”, assegura o professor à MACAU.

Mais de uma década e meia depois de ter sido consagrado por Hollywood, “Ničija Zemlja” (“Terra de Ninguém”) continua a ser o único filme produzido por um dos territórios que faziam parte da antiga Jugoslvávia a ter sido distinguido com o Óscar de Melhor Filme Estrangeiro. A proeza, acredita Mladen Milicevic, pode ser replicada em Macau, com os incentivos certos. “É algo que pode muito facilmente ocorrer em Macau. Não conheço assim tão bem o panorama de Macau, mas parece-me óbvio que um Festival de Cinema é sempre bom se o que está em causa é promover e inspirar os cineastas locais”, sustenta.

Além dos incentivos certos, à receita do sucesso Mladen Milicevic junta as componentes essenciais do tempo e da formação. “É fundamental ter consciência de que nada se faz sem tempo. É necessário formar jovens realizadores, acarinhá-los e, eventualmente, eles poderão fazer algo de bom”, defende. “Como em qualquer outra circunstância, a educação é algo fundamental. Acredito que educar as novas gerações e propiciar-lhes um bom início de carreira pode ser a chave para garantir bons realizadores e filmes interessantes.”

A opinião é subscrita por Mike Goodridge. Para o director artístico do Festival em Macau, o trabalho desenvolvido pela Comissão Organizadora será inócuo se não for feito um esforço para dotar Macau de ‘know-how’ e de mão-de-obra especializada. “O que é necessário é, sobretudo, um maior investimento na formação, no ensino, mais workshops de escrita para cinema, uma maior exposição internacional e ainda mais gente disposta a realizar e a produzir filmes”, defende. “São necessários vários anos para que as infra-estruturas necessárias possam ser construídas em Macau. Refiro-me à formação de técnicos e de recursos humanos que possam ajudar a consubstanciar a realização de filmes. É um processo longo, mas é um processo que o Festival se compromete a apoiar a longo termo”, complementa Goodridge.

 

O papel das universidades

Contas feitas, deverão ser necessários pelo menos quatro anos para que os primeiros técnicos de cinema integralmente formados em Macau possam dar o seu contributo à incipiente indústria cinematográfica da cidade, se os planos gizados por Álvaro Barbosa não conhecerem qualquer contratempo. O director da Faculdade de Indústrias Criativas da Universidade de São José (USJ) é o grande responsável pela licenciatura em Cinema Digital que a instituição de ensino superior se prepara para lançar em Setembro próximo. O curso, que se encontra a ser preparado há três anos, é o primeiro no domínio da sétima arte a ser ministrado por uma universidade local, ainda que a Universidade de Ciência e Tecnologia já ofereça um programa de Mestrado em Gestão Cinematográfica.

“O projecto desta licenciatura de cinema não tem necessariamente a ver com o Festival de Cinema. Tem a ver com a necessidade que identificamos de existir em Macau uma licenciatura de produção em cinema, com determinado tipo de características. Felizmente que existe agora o Festival e que pode ser mais uma iniciativa que vai alavancar esta área”, explica Barbosa.

A licenciatura, que recebeu em 2017 carta branca do Gabinete de Apoio ao Ensino Superior, já aceita inscrições. Mladen Milicevic, que esteve em Macau no início do mês de Janeiro para orientar uma palestra sobre as mudanças registadas na produção de música para cinema ao longo das últimas décadas, é um dos professores convidados do novo programa académico. À RAEM, o compositor e académico traz a experiência angariada em Hollywood e na Universidade de Loyola Marymount, uma das entidades que vão ajudar a dar forma à nova licenciatura. “Já temos toda a configuração do ponto de vista dos recursos humanos, dos docentes – não só internos, mas também em parceria com a Universidade Católica e com a Universidade de Loyola Marymount. Também temos a parte das infra-estruturas; já está em curso a aquisição de alguns equipamentos”, esclarece o director da Faculdade de Indústrias Criativas da USJ.

Com o curso em andamento, deverão – espera Álvaro Barbosa – materializar-se as primeiras sinergias entre a USJ e o IFFAM. O responsável pela licenciatura e o director artístico do Festival estiveram já reunidos para acertar eventuais estratégias de cooperação, numa dinâmica que até poderá ir buscar inspiração a Portugal e ao mais conhecido festival de cinema do norte do país. “Posso dar o exemplo do que se passou no Porto com o Fantasporto. A certa altura, nós, com o curso de Mestrado em Cinema do Departamento de Som e Imagem da Universidade Católica do Porto, fizemos um conjunto de parcerias com o Fantasporto em que, anualmente, o Fantasporto apoiava e acompanhava algumas produções com os nossos alunos que resultavam em filmes muito interessantes e fazia uma secção do festival para filmes universitários e de estudantes no qual nós estivemos muito envolvidos e ganhamos imensos prémios”, recorda Álvaro Barbosa.

“Penso que este festival pode ter o mesmo papel aqui”, sustenta o director da Faculdade de Indústrias Criativas da USJ. Na calha poderá estar o estabelecimento de algumas parcerias entre a instituição de ensino superior e o IFFAM já a partir do próximo ano lectivo. “O director do Festival já visitou a nossa Escola. Estive com ele em duas ocasiões e conversamos bastante sobre essa possibilidade. Se o Festival mantiver esta estrutura e esta estratégia que tem agora, será um parceiro essencial para nós”, aponta o académico.

Da parte da Comissão Organizadora do IFFAM, o interesse é recíproco, até porque o Festival dificilmente será bem-sucedido sem um maior envolvimento da comunidade. “Uma indústria cinematográfica forte é uma mais-valia para a comunidade, na medida em que cria empregos, faz circular dinheiro, ajuda a dar a conhecer histórias de Macau e concede visibilidade à cidade numa escala mundial”, assinala Mike Goodridge.

Com um optimismo a toda a prova, o britânico está convicto que, apesar da viagem estar ainda no seu início, a RAEM está no caminho certo para se afirmar como um importante centro de produção e distribuição de filmes. “As universidades já oferecem licenciaturas em cinema, o Instituto Cultural apoia activamente realizadores e há tanto curtas, como longas-metragens a serem feitas”, lembra. “Creio que se trata apenas de uma questão de tempo para que a sociedade civil mostre um maior interesse e se envolva mais nesta área”, remata o director artístico do IFFAM.

ARTIGO