Quarta-feira, Maio 27, 2020
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Novas perspectivas para o Fórum Macau

 

 

 

 

Texto Catarina Domingues | Fotos Gonçalo Lobo Pinheiro

 

Xu Yingzhen, secretária-geral

“Concentramos o nosso esforço nas províncias que têm realmente vontade de conhecer os países de língua portuguesa”

 

Para Xu Yingzhen, a chegada a Macau, em Junho de 2016, trouxe “grandes desafios”. A 5.ª Conferência Ministerial do Fórum para a Cooperação Económica e Comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa (Fórum Macau), que acontecia daí a quatro meses, foi um deles. Coube à nova secretária-geral do organismo a organização do evento que juntou em Macau entre 11 e 12 de Outubro desse mesmo ano líderes da China e de sete países de língua portuguesa.

“Depois da conferência ministerial, [estabeleceram-se] muitos trabalhos para efectuar os propósitos fixados pelos ministros”, lembra agora a responsável em entrevista à MACAU, referindo-se ao plano de acção assinado na ocasião.

Um segundo desafio estava associado ao cargo que agora desempenha: a língua portuguesa. “Menos mal que tenho uma base espanhola”, refere. Xu Yingzhen licenciou-se em língua espanhola pela Universidade de Economia e Negócios Internacionais de Pequim e desempenhou funções de conselheira comercial para a América Latina do Ministério do Comércio da China, tendo passado ainda pela Câmara do Comércio da China no Chile.

 

Mudanças e entrada de São Tomé e Príncipe

O Fórum Macau, criado em Outubro de 2003, tem como missão reforçar o intercâmbio económico e comercial entre a China e os países de língua portuguesa (PLP), utilizando Macau como ponte entre estes dois universos.

A promoção da lusofonia no Interior do País tem sido um dos trabalhos desenvolvidos por Xu Yingzhen, que já visitou várias regiões chinesas desde que assumiu o cargo. Zhejiang, Jiangsu, Hunan, Guangdong e Shandong são algumas das províncias onde levou o Fórum Macau.

“Diria que Jiangsu é quase uma província vanguarda na cooperação com os países de língua portuguesa”, refere a secretária-geral, adiantando que, desde 2011, aquela região no leste do País tem organizado anualmente a ‘Cimeira para o Desenvolvimento Comercial e Industrial da Província de Jiangsu, de Macau e dos Países de Língua Portuguesa’. “Concentramos o nosso esforço naquelas províncias que têm realmente vontade de conhecer os países de língua portuguesa”, nota.

A secretária-geral diz ainda que a intenção de visitar regularmente os países de língua portuguesa marca uma nova filosofia no trabalho do secretariado permanente. “Queremos ter maior contacto com os países, também para que eles nos conheçam bem e para que possamos saber quais são as suas necessidades e os seus interesses.”

Entre as mudanças observadas no Fórum Macau durante a direcção de Xu Yingzhen, conta-se a entrada de São Tomé e Príncipe no organismo em 2017, depois de no ano anterior ter restabelecido as relações diplomáticas com a China. “São Tomé e Príncipe ainda não tem embaixada em Pequim e este delegado [que representa o país no Fórum Macau] é a primeira pessoa que o país enviou para trabalhar com a nossa parte”, refere.

 

Mundos distantes

A “falta de informação e de conhecimento” é, segundo a secretária-geral do Fórum Macau, o maior obstáculo ao sucesso das relações entre empresários da China e da esfera dos países que falam português. “E a falta de canais para encontrar sócios e oportunidades, além das políticas e leis que são diferentes”, acrescenta a responsável.

Xu Yingzhen realça que compete ao Fórum contrariar esta tendência: “Organizamos seminários, encontros, precisamente para oferecer uma plataforma para que empresários de ambos os lados possam conhecer-se. No entanto, negócios concretos têm de ser realizados entre os empresários, não pelo Fórum, que só abre esta oportunidade de dialogarem e encontrarem formas de trabalhar juntos”.

Numa viagem a Cabo Verde, recorda Xu Yingzhen, foi convidada uma delegação de empresários da cidade chinesa de Qingdao. “Encontraram-se oportunidades de negócio e a cerveja [daquela cidade] conseguiu exportar para Moçambique. Nós oferecemos a plataforma.”

A responsável admite que neste trabalho de intermediação, o Fórum já “tem conseguido alguns frutos”, embora haja muito trabalho pela frente. “O caminho faz-se caminhando e ainda estamos longe”, concretiza.

 

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Ding Tian, secretário-geral adjunto indicado pela China

“O futuro desenvolvimento do Fórum Macau deve integrar activamente a iniciativa ‘Uma Faixa, Uma Rota’”

 

“Trabalhei em três países de língua portuguesa ao longo de mais de oito anos e, durante muito tempo, estive envolvido no apoio aos países africanos”, começa por dizer Ding Tian, secretário-geral adjunto do Fórum Macau. Fluente em português, o responsável passou por Cabo Verde, Brasil e Timor-Leste e esteve ligado ao departamento de Ajuda Externa do Governo Central. Integrou a equipa do Fórum Macau em Janeiro do ano passado, embora tenha estado envolvido na criação deste mecanismo de cooperação, há exactamente 15 anos.

Sobre a natureza do trabalho que agora desempenha, assume que procurar conciliar os interesses de todos os países de língua portuguesa “é muito mais complexo que [trabalhar] nas relações bilaterais”: “As minhas anteriores funções incidiam mais sobre relações económicas e comerciais bilaterais, procurando essencialmente promover acordos bilaterais entre as partes envolvidas. Passando de um quadro bilateral para um quadro multilateral e, comparando esta experiência com as minhas funções actuais, pode dizer-se que a natureza do trabalho é diferente”, refere o responsável.

 

Timor-Leste e outros casos

Sobre os países de língua portuguesa, o secretário-geral adjunto do Fórum Macau admite um gosto particular em “discutir Timor-Leste”, onde viveu ao longo de cinco anos e trabalhou como conselheiro económico na embaixada chinesa em Díli. Admite que Timor-Leste “tem muito potencial” e que parte do trabalho que desenvolveu naquela delegação diplomática passava por divulgar o ambiente de investimento local aos empresários chineses que visitavam o país.

O Fundo Petrolífero de Timor-Leste, diz Ding Tian, é uma mais-valia: “Praticamente todos os anos tem receitas de mais de 2000 milhões de dólares norte-americanos. Eu deixei Timor-Leste em 2014 e, nessa altura, o fundo estava calculado em cerca de 16 mil milhões de dólares”, relembra o antigo conselheiro, adiantando que o país “tem dinheiro e projectos”.

Questionado sobre as dificuldades do empresário chinês no acesso ao mercado timorense, o secretário-geral adjunto do Fórum chama a atenção para as “fracas infra-estruturas” existentes no país, que acabam por impor custos e riscos mais altos ao negócio. A experiência de Ding Tiang no universo lusófono vem revelar também “uma série de embaraços” que dificultam o negócio de empresários chineses nos vários países de língua portuguesa. “Dificuldades em geral, como o visto e políticas sobre taxas ou impostos sobre o trabalho”, diz. Outra dificuldade sublinhada pelo representante é a transferência dos lucros dos empresários chineses de volta ao país de origem.

 

Uma Faixa, Uma Rota

“O futuro desenvolvimento do Fórum Macau deve integrar activamente a iniciativa ‘Uma Faixa, Uma Rota’”, defende Ding Tian, referindo-se ao projecto lançado em 2013 pela China, que ambiciona reactivar através da construção de infra-estruturas o corredor comercial que uniu em tempos antigos o Oriente e o Ocidente.

O representante chinês acredita que “de uma perspectiva macro”, o projecto pode ser visto como “um conceito para orientar o trabalho futuro”. É também, realça, um “contributo da China ao mundo”: “Trata-se de uma iniciativa para o renascimento da economia da China, regional, asiática e de todo o mundo”, conclui.

 

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Rodrigo Brum, secretário-geral adjunto indicado pelos países de língua portuguesa

“É neste reforço da actuação conjunta que os países de língua portuguesa poderão beneficiar mais”

 

Rodrigo Brum substituiu Vicente Manuel no cargo de secretário-geral adjunto (indicado pelos países de língua portuguesa) em Setembro de 2017. Nascido em Moçambique, Brum já conhecia Macau, onde trabalhou na área da economia nos anos 1990.

“Não é naturalmente um cargo simples”, revela o português à MACAU. “O relacionamento é muito bom ao nível do secretariado permanente, mas estamos enquadrados numa organização que tem um gabinete de apoio distinto do próprio secretariado permanente”, afirma.

Licenciado em Organização e Gestão de Empresas pelo Instituto Superior de Economia da Universidade Técnica de Lisboa, Brum desempenhou cargos de direcção em várias empresas. Sobre o trabalho no Fórum Macau, o economista realça que “não é simples” conciliar as “ambições e dificuldades diferentes” dos países que integram o organismo: “O Fórum visa as relações multilaterais, portanto, é complementar às relações que cada um dos países tem entre si ou com a China e esse é também um desafio muito grande”, continua.

 

PLP representam “potencial enorme”

Rodrigo Brum nota que o Fórum Macau é a mais importante entidade destinada à cooperação comercial e económica que reúne os países de língua portuguesa. Chama à atenção, porém, para “a dimensão e os níveis de desenvolvimento diferenciados” dos países representados pelo organismo.

“Os países de língua portuguesa, conjuntamente, representam também um potencial enorme, quer como mercados futuros, com uma população de falantes da quarta língua mundial – falada nos próprios países e também pelas suas respectivas diásporas em países muito relevantes –, quer pela sua importante capacidade produtiva”, diz Brum, que defende que “é neste reforço da actuação conjunta que os países de língua portuguesa poderão beneficiar mais”.

 

Avaliação externa de “importância inquestionável”

No mês em que Rodrigo Brum assumiu funções no Fórum Macau, foi proposta e aprovada a realização em 2018 de uma avaliação externa ao organismo. Uma iniciativa, assume Brum, que assume uma “importância inquestionável” e que deverá traduzir-se numa “significativa mudança qualitativa” do desempenho do Fórum Macau.

“As avaliações deste tipo têm como objectivo identificar os traços do passado, as falhas eventuais e ajudar a definir a evolução futura. Esperamos que nos aponte pistas importantes, também é verdade, porque estamos todos cientes de que há muito mais caminho a fazer. Eu acho que já se fez muito e que talvez não se tenha sabido divulgar tão bem o que se fez”, considera o português, realçando que a avaliação deverá reflectir-se num reforço dos “laços comerciais e de investimento”.

Na avaliação, todos os países de língua portuguesa serão consultados. “O Secretariado Permanente vai dispor de dois especialistas de cada parte participante do Fórum Macau, numa comissão de 20 especialistas que está a constituir, para acompanhamento dos trabalhos”, acrescenta o economista.

 

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Echo Chan, secretária-geral adjunta indicada pela RAEM

“Quadros qualificados são elementos indispensáveis na construção da plataforma”

 

Echo Chan foi coordenadora do Gabinete de Apoio ao Secretariado Permanente do Fórum Macau entre Março e Novembro de 2015. Regressou no início de 2017 como secretária-geral adjunta, nomeada pelo Governo da RAEM. A responsável fala cantonês, mandarim, português e inglês e foi vogal executiva do Conselho de Administração do Instituto de Promoção do Comércio e do Investimento de Macau (IPIM) e coordenadora-adjunta do Gabinete Preparatório do Parque Científico e Industrial de Medicina Tradicional Chinesa.

 

Maior envolvimento dos jovens e quadros qualificados

Para que Macau se consiga afirmar como “plataforma de cooperação entre a China e os países de língua portuguesa”, Echo Chan acredita que é necessário envolver as camadas mais jovens. “Quadros qualificados são elementos indispensáveis na construção da plataforma”, diz Chan, assumindo à MACAU a importância de formar mais “quadros profissionais bilingues de elevada qualidade”.

O Fórum Macau, continua a secretária-geral adjunta, quer continuar a envolver estudantes de língua portuguesa de Macau e do exterior em actividades ou trabalho voluntário nas actividades do organismo, nomeadamente na Conferência Ministerial, na Semana Cultural da China e dos Países de Língua Portuguesa ou na Feira Internacional de Macau, onde podem trabalhar como tradutores.

 

Sector financeiro com características locais

O conceito do desenvolvimento do sector financeiro com características próprias locais apareceu pela primeira vez na apresentação das Linhas de Acção Governativa do Governo da RAEM em 2016.

Echo Chan defende que a promoção deste sector, que está também a cargo do Fórum Macau, deve apoiar a diversificação da economia local e “procurar um caminho de desenvolvimento divergente dos centros financeiros das regiões adjacentes”, referindo-se a Hong Kong e Shenzhen.

A área da locação financeira, da gestão de fortunas e o estabelecido Centro de Liquidação em Renminbi (RMB) para os Países de Língua Portuguesa são neste momento “considerados os principais sectores” a desenvolver, explica Echo Chan.

E de que forma é que o desenvolvimento deste sector em Macau poderá beneficiar o reforço das relações entre a China e os países de língua portuguesa? Echo Chan responde: “Macau, com as suas vantagens relacionadas com o princípio ‘Um país, dois sistemas’, o porto franco e a baixa tributação, poderá fornecer um ambiente de sistema aberto às empresas chinesas na expansão de negócios ao exterior e às empresas dos países de língua portuguesa na atracção de investimentos estrangeiros”.

 

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O que é o Fórum Macau?

O Fórum para a Cooperação Económica e Comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa, também conhecido como Fórum Macau, foi criado em Outubro de 2003, por iniciativa do Governo da China e em coordenação com sete países de língua portuguesa (Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal e Timor-Leste), e com a colaboração do Governo de Macau. Em Março de 2017 acolheu São Tomé e Príncipe, que se tornou o oitavo país do universo que fala português a entrar para o organismo. O Fórum de Macau é um mecanismo multilateral de cooperação intergovernamental e tem como objectivo reforçar o intercâmbio económico e comercial entre a China e os países de língua portuguesa.

 

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