Terça-feira, Agosto 11, 2020
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Patuá | Uma língua que teima em viver 

 

  

Texto Marco Carvalho | Fotos Gonçalo Lobo Pinheiro, Tiago Alcântara e ADM

 

O australiano Alan Baxter, especialista na investigação do português afro-brasileiro, dos crioulos de Malaca e de São Tomé e Príncipe e com vasta obra feita no estudo e na divulgação do patuá, regressou a Macau há pouco mais de um ano e meio para dirigir a Faculdade de Humanidades da Universidade de São José (USJ), depois de ter estado à frente do Departamento de Português da Universidade de Macau entre 2007 e 2011. 

Autor, em parceria com Miguel de Senna Fernandes, de Maquista Chapado, Vocabulário e Expressões do Crioulo Português de Macau, Baxter não esconde um certo afecto pelo patuá de Macau que suplementa em muito o interesse científico. Uma das primeiras medidas que tomou depois de ter assumido a direcção da Faculdade de Humanidades da USJ foi a de avançar para a criação de um curso de formação contínua em patuá. A iniciativa provou, no entender do docente, que o “maquista” não está de todo arredado da lembrança e dos interesses de quem tem Macau como casa. “Houve muito interesse por parte da própria comunidade macaense. Acho que grande parte dos alunos que integrava a turma era oriunda da própria comunidade. Eram pessoas que tinham algum conhecimento do patuá e que têm um interesse genuíno na língua”, sustenta Alan Baxter. “Elaborámos, a partir de desenhos animados, diálogos e descrições de situações em patuá e, na parte final do programa, já estávamos praticamente numa situação em que os estudantes já estavam a falar alguma coisa.” 

O interesse de uma comunidade, por mais exígua que seja, é sempre o mais relevante dos factores quando o que está em causa é contrariar a sentença de morte a que certas línguas parecem condenadas. No caso do patuá, o veredicto chegou no dealbar do novo século, com a inclusão do dialecto, por parte da UNESCO, na lista dos idiomas “criticamente ameaçados”. A UNESCO colocava, na viragem do milénio, o número de falantes do patuá na meia centena e o cenário desde então pouca melhoria registou, a julgar pelas opiniões de académicos e especialistas. 

Em Fevereiro, por exemplo, Nala H. Lee, investigadora da Universidade Nacional de Singapura, deu a conhecer as conclusões de um estudo que traça um futuro negro não apenas para o patuá de Macau, mas também para uma série de línguas de contacto que foram perdendo vitalidade de forma acelerada ao longo das últimas décadas. De acordo com Lee, o maquista é um dos idiomas mais ameaçados de uma série de 96 línguas que analisou no âmbito do trabalho de investigação que culminou com a publicação, por parte da Universidade do Hawaii, do livro Language Documentation and Conservation. 

A académica procurou quantificar o nível de ameaça a que os idiomas que estudou estão sujeitos, tendo por base quatro critérios: a transmissão do dialecto entre diferentes gerações, o número absoluto de falantes, as tendências no que diz respeito ao número de falantes e, por último, os domínios em que o idioma é utilizado. Nala H. Lee concluiu que em três dos quatro critérios de avaliação – a transmissão intergeracional, a tendência do número de falantes e os domínios do uso da língua – o patuá alcança o nível máximo de risco. 

Para Alan Baxter, este estudo pouco traz de novo, até porque o diagnóstico da vitalidade do patuá está há muito traçado. Em termos estritamente linguísticos, esclarece o director da Faculdade de Humanidades da USJ, o crioulo de Macau é um idioma tecnicamente morto, ao qual manifestações com uma carga cultural estruturante devolvem esporadicamente vida. “É muito difícil definir a morte de uma língua. Nós, os linguistas, definimos a morte de uma língua a partir do momento em que não tem mais falantes, digamos, nativos. Ou seja, a partir do momento em que deixa de ser aprendida como primeira língua por crianças”, explica Baxter. 

O linguista australiano reconhece, no entanto, que a realidade nem sempre se compadece com pressupostos teóricos e, no caso do patuá, o estatuto de referente cultural da comunidade macaense de que o idioma goza tem impedido a obsolescência total da língua. “O patuá não vai morrer porque, apesar de não ter falantes nativos e apesar de não ter uma utilidade funcional como língua de comunicação, é uma língua que tem uma carga cultural muito forte e é representada, por exemplo, em teatro”, lembra o académico. “É necessário, no entanto, clarificar que apesar de não ser uma língua factualmente morta, o patuá perdeu por completo o seu espaço como língua funcional para a comunicação do dia-a-dia.” 

 

 

O patuá como registo identitário 

À ideia de um idioma em morte suspensa, Elisabela Larrea contrapõe a noção de uma língua em fase terminal e de uma comunidade que teima em prolongar-lhe a vida. “A minha mãe costuma dizer que o patuá sofre de cancro. Nós somos os médicos. Sabemos que se trata de um cancro terminal, mas tentamos prolongar-lhe a vida o mais que nos for possível. Penso que é exactamente isso que estamos a fazer”, sustenta. 

Filha de pai basco e de mãe macaense de sétima geração, a investigadora terá sido dos primeiros “filhos da terra” a dotar o interesse pela “dóci papiaçam di Macau” de uma envolvente académica. Em 2008 abordou, na tese que lhe valeu o grau de mestre, O Macaense na Rede Global, a expressão da identidade cultural macaense no período imediatamente após a transferência de administração de Macau para a China e, de momento, ultima um doutoramento em comunicação intercultural na Universidade de Macau centrado na relevância do teatro em patuá no processo de construção da identidade macaense. 

A exemplo do que sucede com Alan Baxter, também Elisabela Larrea se recusa a alimentar a ilusão de que o patuá pode voltar a ter uso corrente e a ser uma circunstância do quotidiano. Apesar de ainda não ter concluído o projecto de doutoramento, a investigadora propõe como teoria central da sua tese que o patuá, de uma mera manifestação linguística, tornou-se em algo bem mais significativo para a comunidade macaense. “A base central da minha tese é que o patuá deixou de ser uma língua falada no espaço do lar para se tornar numa língua performativa. Com esta designação não me refiro apenas à performance em palco, mas também à natureza representacional do dialecto, que assume assim o estatuto de marca identitária”, assume Elisabela. “Hoje em dia o patuá tem uma função mais lúdica do que qualquer outra coisa, quase como se fosse uma representação que lembra a comunidade da identidade macaense.” 

O riso é a grande finalidade das récitas que o grupo Dóci Papiáçam di Macau leva ao palco com devoção, mas a relevância das peças escritas por Miguel de Senna Fernandes não se esgota em gargalhadas e aplausos. Quando, há 25 anos, o então jovem advogado assumiu a exigente tarefa de dar continuidade ao legado de José dos Santos Ferreira (mais conhecido por Adé), o conhecimento que detinha da dinâmica da língua era diminuto, mas a noção de que as artes de palco poderiam retardar o ocaso do patuá era já um aspecto central das estratégias de afirmação do dialecto como um aspecto central da identidade macaense. “O palco tornou-se um veículo fundamental para que o patuá tivesse algum suporte e é neste sentido que nós procuramos fazer com que o patuá seja conhecido”, assume o dramaturgo. “O que o Dóci Papiaçám tenta fazer ao levar o patuá ao palco é, desde logo, fazer rir. Mas há finalidades colaterais, como demonstrar a capacidade da própria língua se adaptar às novas circunstâncias”, elucida Senna Fernandes. 

Caracterizadas por uma forte componente de crítica social, as peças que o grupo leva ano após ano ao palco do Centro Cultural de Macau contradizem a própria imagem de que o “papiá cristãm di Macau” ainda goza em alguns círculos, onde é considerado uma língua de ‘nhonhas’ e ‘chuchumecas’, falada em surdina em faustosos chás gordos por gente enredada em sedas e brocados. Acutilantes e actuais, os temas desenvolvidos por Miguel de Senna Fernandes são um retrato da Macau contemporânea, num exercício que exige a adaptação progressiva do dialecto a hábitos e circunstâncias modernas. “Procuramos retratar, num sentido actual e corriqueiro, o dia-a-dia e procuramos imaginar como é que o patuá poderá ser utilizado precisamente para retratar o quotidiano que nos é comum”, explica o grande impulsionador da reabilitação do teatro em patuá. “Se os contextos que existiam antigamente já não existem agora, pois bem, vamos arranjar forma de adaptar o dialecto aos contextos actuais. E como é que se pode proceder a esta adaptação sem violentar a natureza da língua ou o tal processo de formação linguística? Passa, precisamente, por demonstrar a versatilidade do patuá para os contextos actuais”, assume o advogado. 

De um ponto de vista estritamente linguístico, defende Alan Baxter, a incorporação de lexemas não é rara nem inapropriada, embora os crioulos se diferenciem por processos muito próprios de valorização semiótica. “O patuá e o kristang de Malaca, por exemplo, têm mais ou menos o mesmo número de lexemas: provavelmente entre 2000 e 3000 palavras. Isto não quer dizer que a língua seja pobre. Há muitas línguas que têm um léxico deste tamanho e são línguas com grande vitalidade, que continuam a ser faladas por comunidades reais”, explica o director da Faculdade da Humanidades da USJ. “Como é que se utiliza um léxico deste tamanho para expressar o que precisamos de expressar no dia-a-dia? Na formação de frases, em vez de utilizar uma palavra, descreve-se o referente. A sintaxe ajuda na expressão. Por outro lado, nas línguas com um léxico menos numeroso, é bastante frequente a palavra ter vários significados. A ausência de léxico tecnológico, por exemplo, só será problemática se houver a intenção de fazer uso do patuá no quotidiano. Mas não vejo porque razão é que o patuá – nomeadamente o ‘maquista chapado’, que tem mais influência do português – não pode lançar mão de algumas palavras e alterar a fonologia do lexema para que funcione bem no crioulo”, assume Baxter. 

 

 

Pode uma língua sobreviver sem falantes? 

Presidente de duas das mais representativas associações da RAEM – a Associação dos Macaenses (ADM) e a Associação Promotora da Instrução dos Macaenses (APIM) – Miguel de Senna Fernandes defende que o trabalho feito ao longo dos últimos 25 anos pelo grupo Dóci Papiáçam prova que a língua, apesar de antiga, não está necessariamente datada. O advogado está convicto que o patuá pode manter, nos tempos que correm, a versatilidade que lhe é característica. “Quando estou a escrever as récitas e tento descrever situações do quotidiano que nos são familiares, sinto-me como se estivesse a tirar do baú o vestido que era da minha avó e o entregasse à minha filha para ela levar ao baile de finalistas”, ilustra Senna Fernandes. “O desafio está em fazer com que isto seja cool.” 

Versatilidade e vitalidade não são, no entanto, a mesma coisa. Se as peças que o Dóci Papiaçám leva ao palco provam que o patuá pode sobreviver ao teste do tempo, nem por isso têm a força suficiente para garantir a legitimação do uso da língua. Se em Malaca e Singapura (ver caixa) o número de falantes ainda é suficientemente relevante para que as comunidades euroasiáticas acreditem que o recurso ao dialecto pode ajudar a salvar o kristáng, em Macau o desuso do maquista terá já atingido um ponto de não retorno. “Falta-nos um substrato humano mínimo que possa dar apoio à subsistência da língua. No caso do kristang, ainda existem falantes. São poucos, mas ainda existem – umas centenas, pelo menos. O cenário é muito diferente daquele que encontramos em Macau. Na diáspora encontramos ainda alguns falantes do patuá, mas em Macau temos pouca gente”, aponta Miguel de Senna Fernandes. “Se esse substrato humano existisse, existiria também uma certa legitimação do uso da língua. Se não tivermos isso não há versatilidade que o valha.” 

Para as gerações de jovens macaenses, as récitas que o grupo de teatro leva ao palco pauta, o mais das vezes, o primeiro contacto com um idioma que é parte intrínseca da sua própria identidade. “Vi pela primeira vez uma peça em patuá em 2002 e foi a partir daí que percebi o potencial da língua. Quando era pequena, recordo-me de ouvir patuá: uma ou outra expressão, uma ou outra palavra, mas não as identificava como sendo patuá. O teatro, a esse nível, já dá um compromisso significativo, ao amplificar a capacidade de as pessoas tomarem conhecimento e consciência desta realidade”, explica Elisabela Larrea a propósito da sua própria experiência com a língua. 

Na récita “Qui di Tacho?”, que o Dóci Papiaçám levou recentemente ao palco, participaram, por exemplo, dois jovens de 14 e 15 anos. Ele estreou-se nas artes cómico-trágicas e ela juntou-se pelo terceiro ano consecutivo ao grupo de teatro, depois de ter subido pela primeira vez ao palco aos 12 anos. “O Dóci tem essa dinâmica. O objectivo é mesmo envolver mais pessoas e, precisamente, pessoas mais novas. Pessoas que se estreiam e que vão procurar dar o seu melhor. Podem não ter grande experiência, mas o que interesse é que se utilize a língua. Isso é que é fundamental”, reconhece Senna Fernandes. 

O palco não resgatou o idioma do estado vegetativo em que se encontra, mas o esforço de sustentação que o grupo de teatro tem vindo a desenvolver tem sido responsável por ganhos evidentes. Expressões como ‘sapeca’ (dinheiro), ‘chuchumeco’ (intriguista), ‘buburiça’ (disparate), ‘chacha’ (mulher de idade), ‘fula’ (flor) ou ‘amochâi’ (amorzinho) fixaram-se no português que se fala em Macau e até ultrapassaram as fronteiras das comunidades lusófonas de Macau. “Alguns dos meus amigos chineses mostram-se muito interessados com o trabalho que eu tenho vindo a fazer na área do patuá e já adquiriram algumas expressões. Um bom exemplo é ‘amochâi’. Eles sabem em que circunstâncias é que a palavra pode ser utilizada. Há uma tomada de consciência por parte da população que não se fica apenas pela comunidade”, defende Elisabela Larrea. 

A investigadora da Universidade de Macau está ciente de que, sem o substrato humano de que Miguel de Senna Fernandes fala, a sobrevivência do patuá enquanto língua viva não é mais do que uma remota miragem, mas não abre mão de um certo idealismo. Nas mãos do grupo de teatro liderado pelo advogado, sustenta Larrea, poderá estar mesmo a chave para a salvaguarda do idioma. “É verdade que os Dóci Papiaçám são um grupo de teatro e não são uma escola de línguas, mas estou certa de que o grupo poderia até enveredar por outros projectos e, quem sabe, lançar acções de formação”, realça a doutoranda. “Creio que a organização de acções de formação talvez pudesse ajudar a fortalecer o patuá. Se dependesse de mim, eu arrastava o grupo Dóci Papiaçám para a equação porque são vários os membros do grupo que dominam o patuá e que poderiam ensinar o dialecto com naturalidade.” 

 

 

Internet: o caminho que importa trilhar 

Alan Baxter conta promover, a partir de Setembro, a sequela do curso de formação contínua que lançou em Fevereiro do ano passado. A iniciativa atraiu duas dezenas de pessoas – “a maioria veio da própria comunidade, mas tivemos também portugueses, brasileiros e até um aluno chinês” – e, no entender do docente, isso demonstra que há interesse, dentro e fora dos limites da comunidade macaense, por uma abordagem mais sistemática ao patuá. A segunda edição do curso não foi lançada mais cedo porque o esforço de sistematização do ensino do maquista só será bem-sucedido e verdadeiramente abrangente quando estiverem reunidas algumas condições. “Vamos lançar uma segunda edição em Setembro. Para essa altura terei mais material disponível também, graças ao trabalho que estamos a fazer em termos de digitalização dos recursos linguísticos. Este material é algo que vai dar um grande contributo em termos de elaboração de materiais didácticos. Em Setembro já devemos ter preparada uma versão piloto dos materiais interactivos que gostaríamos de colocar à disposição de todos na Internet”, prevê Baxter. 

Apesar do número de teses, de artigos e de monografias sobre o crioulo de Macau ter disparado nos últimos anos, não foi ainda conduzida uma empreitada de sistematização do maquista do ponto de vista estritamente gramatical. A única gramática do dialecto macaense alguma vez dada ao prelo foi publicada por José dos Santos Ferreira em 1978, recorda Alan Baxter. “Temos um rascunho de uma gramática que o Adé fez e que é bastante bom, mas há muita coisa que não foi descrita. Faz falta um estudo extensivo da gramática e posso dizer que temos um projecto em andamento”, adianta o docente austaliano. “A razão pela qual estamos a colocar todo o material que temos disponível em formato digital é precisamente essa. A digitalização dos materiais vai-nos dar a oportunidade de conduzirmos tarefas de mineração de dados, de estruturas e de palavras e, em última instância, de perceber de que forma é que determinadas estruturas são utilizadas.” 

A informação recolhida no processo, explica Baxter, vai permitir a elaboração de uma gramática descritiva que vá ao encontro dos princípios definidos pela linguística científica. Se o projecto chegar, como o académico deseja, a bom porto, o patuá ganha o tipo de sustentáculo que nunca teve. “A gramática pode servir de base para a elaboração de material didáctico, mas não só. As pessoas interessadas poderão utilizá-la para facilitar a elaboração de, por exemplo, novo material escrito: mais contos, peças de teatro ou, quem sabe, até de um romance”, ilustra o investigador. 

Para além da tarefa de digitalizar todo o acervo de materiais relacionados com o patuá, a USJ propõe-se investir o crioulo de Macau de uma dimensão institucional no âmbito de um novo programa de mestrado. “Nos novos planos, há uma disciplina dedicada exclusivamente ao patuá. Haverá outras disciplinas que ensinam questões técnicas e metodológicas para o tratamento de material linguístico, mas haverá uma disciplina em específico sobre o patuá. Já escrevi a proposta, que está agora em análise”, aponta Baxter.  

O professor propõe-se dinamizar acções de formação de forma mais regular, mas não esconde o desejo de conferir uma outra envolvência ao curso. “Gostava muito de incorporar a participação de mais pessoas que tenham um domínio mais natural do curso. Não falei com ninguém ainda. É uma ideia que não está totalmente configurada e amadurecida, mas gostaria de ter a participação no curso de pessoas que trabalham nas peças de teatro”, adianta Baxter. “Com a participação de pessoas da comunidade – como ajudantes, assistentes ou mesmo como professores – creio que poderíamos alcançar um reforço importante da língua.” 

Os caminhos da rede, adverte Alan Baxter, continuam em grande medida por explorar. Os esforços de tirar proveito das potencialidades da Internet têm partido da dedicação dos inefectíveis do patuá. Em 2012, Miguel de Senna Fernandes lançou um blogue, o “Como Tá Vai?”, com o qual se propunha assegurar uma presença mais visível do falar de Macau no mundo digital. Em 2016, Elisabela Larrea lançou o “Bela Maquista”, projecto no qual publica flashcards com expressões em patuá traduzidas para três línguas – português, inglês e mandarim. Os vídeos que o Dóci Papiaçám produz somam milhares de visualizações na Internet. Ainda assim, o potencial da rede está ainda por aproveitar. “A Internet é um recurso muito importante neste sentido. Acredito que devíamos seguir o exemplo de Singapura (ver caixa) e produzir pequenos vídeos para disponibilizar através da Internet a quem tenha alguma curiosidade sobre o patuá”, sugere Elisabela Larrea.  

Com uma presença residual na Internet, o patuá poderá ganhar uma morada fixa no mundo digital até ao final do ano, por iniciativa da USJ. O trabalho que a instituição está a conduzir sob a batuta de Alan Baxter deverá materializar-se com o lançamento de um portal electrónico que vai disponibilizar, entre outros aspectos, um léxico o mais detalhado possível e ainda recursos escritos e fonológicos do dialecto.  

A nova plataforma vem complementar os recursos e materiais dispersos já existentes no vasto mundo virtual. “A aposta na comunicação pela Internet é uma batalha que ainda não foi trilhada. É isto que temos de fazer”, diz Miguel de Senna Fernandes, sobre o futuro de uma língua em morte suspensa que teima em viver. 

 

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O exemplo de Singapura  

“Há muita coisa que pode ser feita e um bom exemplo é o que se faz em Singapura.” O elogio ao trabalho desenvolvido por Kevin Martens Wong e pela plataforma Kodrah Kristang (literalmente “Acorda, Kristang”) chega pela opinião avisada de Alan Baxter, académico que conhece como poucos o papiá kristang, crioulo luso-malaio que se fala em Malaca e em Singapura e, com menor expressão, também em Kuala Lumpur e em Penang. 

“Em Singapura há um jovem universitário, estudante de linguística, que formou um grupo de interesse em torno do kristang, da vertente do crioulo de Malaca que se falava em Singapura e que está na mesma situação que o patuá. Ou seja, quase não tem falantes”, recorda o actual director da Faculdade de Humanidades da Universidade de São José. 

“Há alguns jovens que mostraram interesse em revitalizar a língua e que montaram toda uma estrutura para esse efeito. Dão aulas – inclusive para crianças – e elaboraram uma série de materiais didácticos. Há material audiovisual na Internet e até um jogo, muito interessante, em que o jogador para progredir tem de raciocinar em crioulo básico. É uma boa forma de aprender o léxico básico e algumas frases”, admite Baxter. 

Outrora uma presença audível em zonas nobres de Singapura como Katong, Joo Chiat ou a Avenida Frankel, a variante de Singapura do kristang entrou em acelerado declínio a partir da década de 1930. O facto de ser considerada pelos próprios falantes como um linguajar imperfeito, a meio termo entre o malaio e o português arcaico, acelerou a sua substituição pelo inglês e precipitou a insolvência do dialecto, ao ponto de Kevin Martens Wong, agora com 26 anos, ter tropeçado quase por acaso na existência da língua. Filho de mãe eurasiana, Wong foi confrontado com a vitalidade perdida do kristang em 2015, quando recolhia informação para um artigo sobre idiomas regionais ameaçados de extinção. 

Depois de ter aprendido a língua durante dois meses junto dos poucos falantes nativos que ainda dominam a dinâmica do crioulo, Kevin Martens Wong concebeu um ambicioso projecto que, em última instância, aponta à reabilitação e revitalização do idioma. Há pouco mais de dois anos o projecto Kodrah Kristang começou a ganhar forma. O jovem associou-se a Bernard Mesenas, um professor reformado, e lançou um curso básico de kristang em 10 lições de duas horas cada, no qual se inscreveram 14 alunos. Desde então, foram mais de 400 os residentes de Singapura que já entraram para o curso. “Podemos dividir as pessoas com interesse no kristang em três grupos: aquelas com alguma ligação biológica à língua; as com interesse em aprender sobre o legado cultural das comunidades que estiveram na origem de Singapura, e aquelas mais focadas numa perspectiva académica”, explicou Martens Wong à MACAU. 

O estudante de linguística diz que antes de empreender o esforço para relançar o interesse da comunidade eurasiana pelo crioulo de Malaca, o kristang era falado na cidade-Estado por cerca de meia centena de pessoas, sobretudo idosas. A exemplo do que sucede com o maquista, o único crioulo malaio-português que sobreviveu às tergiversações da história tem base lexical portuguesa, ainda que as estruturas gramaticais estejam em grande medida ancoradas no malaio. O kristang reflecte, no entanto, as interacções que ocorreram ao longo dos últimos séculos na região do Estreito de Malaca e, com o passar do tempo, o crioulo acabou por incorporar expressões de idiomas como o hokkien, o hakka ou o cantonês. Quando, há dois anos, Kevin Martens Wong desencadeou o movimento que levou à formação da Kodrah Kristang fê-lo com plena consciência de que reabilitar uma língua às portas da extinção não é um desafio fácil, mas nem por isso moderou o nível de ambição que coloca no projecto. Wong concebeu um plano de 30 anos, dividido por cinco fases, que tem como fim último consolidar o kristang no seio da comunidade eurasiana e, consequentemente, abrir caminho à revitalização da língua. “O nosso grupo procura utilizar o kristang sempre que pode, de forma a que este dialecto possa ganhar o seu próprio espaço no quotidiano das pessoas, que assim se familiarizam com ele e acabam por apreciá-lo. Uma vez mais, é fabuloso que as aulas que promovemos em Singapura tenham sido bem-sucedidas, mas isso não é de todo suficiente para que o kristang sobreviva”, reconhece. “É necessário que as pessoas usem o kristang, o amem e se preocupem com ele de forma a que a língua possa ter um espaço nas suas vidas. Com o patuá o mesmo acontece. O nosso grupo acredita que é possível fazer com que o kristang se torne numa língua o mais relevante possível para as próximas gerações.” O investigador tenciona agora lançar no próximo ano um manual que possa servir de sustentáculo à aprendizagem do idioma.  

 

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“A melhor maneira de lembrar Adé é reeditando a obra” 

“Se o Adé estivesse vivo, ia ralhar comigo, ia discutir comigo, mas acho que acabaria por ficar contente por existir alguém que assumiu o repto de dar continuidade ao trabalho que ele fez ao longo de mais de 50 anos.” As palavras são de Miguel de Senna Fernandes, advogado que tomou em mãos a tarefa de manter vivo o teatro em patuá após a morte, há 25 anos, daquele que foi o grande responsável por conferir ao maquista a dimensão transversal que ainda hoje possui. 

Com José dos Santos Ferreira, poeta macaense mais conhecido por Adé, o patuá soltou-se dos grilhões que o mantinham acorrentado à realidade do lar e ganhou uma visibilidade inédita. Apesar de não ter chegado a trabalhar com Adé na redacção de nenhuma das muitas récitas que o seu precursor levou ao palco, Miguel de Senna Fernandes conserva de Santos Ferreira uma imagem de rigor e de dedicação à causa do patuá. Exigente consigo próprio e com os que o rodeavam, pontual e rigoroso, Adé era um purista, defende o grande impulsionador do grupo Dóci Papiaçám di Macau. “A sua escrita é muito lógica, muito constante, porque ele era um purista. Era alguém que cultivava a escrita e que privilegiava uma certa regularidades ortográfica em tudo, o que é algo que de certa forma contraria a própria natureza verbal dos crioulos”, recorda Miguel de Senna Fernandes. “O Adé inspirou-me, inspira-me e vai continuar a ser para mim uma fonte de inspiração. Espero que um dia, quando eu deixar de escrever, que outra pessoa siga o meu exemplo e pegue no meu trabalho da mesma forma que eu peguei no trabalho do Adé”, admite o advogado. 

Figura incontornável da comunidade macaense nas décadas de 1970 e 1980, José dos Santos Ferreira colaborou de forma activa com a Emissora de Radiodifusão de Macau, a predecessora da actual Rádio Macau. Desportista nato, organizou competições de modalidades tão distintas como o futebol e o hóquei em campo, tendo dirigido o Hóquei Clube de Macau e a Associação de Futebol. 

O trabalho desenvolvido por José dos Santos Ferreira na área do desporto ainda hoje é recordado, mas o seu principal legado é o esforço que empreendeu ao longo de mais de cinco décadas com o propósito de impulsionar a divulgação do dialecto de Macau. A dedicação valeu-lhe a atenção do Governo de Lisboa e, em 1979, foi agraciado pelo então Presidente da República Portuguesa António Ramalho Eanes com o Grau de Cavaleiro da Ordem do Infante D. Henrique. Cinco anos depois, o Governo de Macau atribuiu-lhe a Medalha de Mérito Cultural.  

Com mais de duas dezenas de obras publicadas, Adé morreu em Hong Kong a 24 de Março de 1993. A mais honrosa das homenagens de que foi alvo o grande cultor e divulgador do maquista materializou-se três anos após a sua morte, com a Fundação Macau a editar e publicar na íntegra a sua obra. “Autor prolífero, publicou em vida cerca de 20 títulos nos géneros da crónica, poesia e ficção. Através da sua permanente intervenção literária, em poesia e prosa, peças de teatro e comédias, récitas e programas radiofónicos do mais genuíno sabor macaense, Adé foi o grande e único cultor do moribundo dialecto macaense ou patoá. A sua obra encerra, numa simplicidade comovente, material riquíssimo para a reconstituição da ‘dóci papiaçám di Macau’ e das vivências macaenses até onde uma grande e amorosa memória pode remontar”, escreveu a Fundação Macau na contracapa das “Obras Completas de José dos Santos Ferreira”, que publicou em 1996. 

Um quarto de século após o seu desaparecimento, o legado de Adé permanece vivo pela mão de Miguel de Senna Fernandes e do grupo Dóci Papiaçám di Macau, mas os mais de 20 títulos que José dos Santos Ferreira deu à estampa desapareceram há muito dos escaparates das livrarias locais. Vinte e cinco anos depois da morte do mais dialecto divulgador do doce falar de Macau, a melhor forma de homenagear Adé, defende Alan Baxter, é através da reedição da sua obra. “O material do Adé, sobretudo o volume que contém o esboço da gramática e um pequeno léxico, merece ser publicado novamente. A edição que temos é de 1996 e foi publicada pela Fundação Macau. O que me preocupa é que o patuá não tem muita visibilidade em termos de publicações. Se há material que podia ser reeditado era este volume em particular. Gostava de ver o patuá mais visível nas livrarias”, assume o docente da USJ.  

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