Sexta-feira, Outubro 30, 2020
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Estímulo “verde” para a Macau do futuro

 

Texto Irene Leong | Fotos GCS

 

Foi o próprio Chefe do Executivo que assumiu sem contemplações: Macau pretende tirar o melhor partido das oportunidades de crescimento oferecidas pelos grandes reptos de desenvolvimento de infra-estruturas a nível regional e aproveitar para “promover activamente a colaboração nas vertentes de protecção ambiental e de desenvolvimento da economia verde”.

Em declarações na abertura do Fórum e Exposição Internacional de Cooperação Ambiental de Macau (MIECF, na sigla em inglês), Chui Sai On sublinhou o “papel importante” desempenhado por Macau na conjuntura de desenvolvimento da República Popular da China, articulando-se com a implementação das iniciativas nacionais ‘Uma Faixa, Uma Rota’, ‘Cooperação Regional do Pan-Delta do Rio das Pérolas’ e ‘Grande Baía Guangdong-Hong Kong-Macau’, que trarão, acredita, “grandes oportunidades para o futuro desenvolvimento de Macau”.

“Estamos empenhados em demonstrar as vantagens de Macau enquanto plataforma para o reforço da cooperação em matéria ambiental entre a China e os outros países do mundo e apoiar o sector do Pan-Delta do Rio das Pérolas no sentido da internacionalização e da captação de investimentos”, acentuou.

Grande Baía a ganhar forma

Focado na construção da Grande Baía Guangdong-Hong Kong-Macau, o MIECF 2018 reuniu 50 oradores repartidos por sete sessões (seis regulares e uma especial), e acolheu uma “mostra verde”, com 490 expositores de 19 países e territórios, nomeadamente Interior do País, Austrália, Costa Rica, Holanda, Portugal, Singapura, Estados Unidos, Hong Kong e Macau. Durante a “Mostra Verde” as quase cinco centenas de expositores apresentaram soluções ecológicas destinadas ao combate à poluição do ar, da água e dos solos, e ideias para a construção de cidades sustentáveis. Uma visita guiada a Jiangmen, na China, e visitas técnicas a unidades de reciclagem foram também destaques no Fórum Ambiental.

Na sua 11.ª edição, o evento atingiu números que, para Irene Va Kuan Lau, vogal-executiva do Instituto de Promoção do Comércio e Investimento de Macau (IPIM), atestam bem do seu crescimento, comparativamente à primeira edição, em que estiveram presentes apenas oito países, e da sua consolidação como “uma plataforma de intercâmbio muito eficaz”.

Em concreto, o MIECF 2018 terminou com 35 acordos assinados durante 349 sessões de bolsas de contacto (uma subida anual de 28 por cento), e contou, ao longo dos três dias da sua duração, com quase 4000 participantes.

Desde a sua criação, em 2008, o MIECF foi palco da assinatura de mais de 280 documentos de manifestação de interesse e acordos. A próxima edição do Fórum Ambiental vai decorrer entre 28 e 30 de Março de 2019.

Sustentabilidade

Gigantescos e sombrios centros urbanos poluídos visual e atmosfericamente, tão cheios de gente como de despersonalização. Mais do que o distópico cenário de um qualquer filme de ficção científica, a descrição aflora uma tendência que se quer evitar a todo custo. “Sustentabilidade” é a palavra de ordem, defende Christiana Figueres, antiga responsável da Organização das Nações Unidas (ONU) para as Alterações Climáticas.

Figura de proa nas palestras do MIECF deste ano, a diplomata costa-riquenha alertou para um fenómeno que parece inelutável no panorama da distribuição demográfica do planeta: responsável por 80 por cento do Produto Interno Bruto (PIB) global, metade da população mundial vive actualmente nas cidades e esse cenário vai continuar a agravar-se, sobretudo nos continentes africano e asiático, estimando-se que até 2050 cerca de 6000 milhões de pessoas vivam nos centros urbanos.

Para Hong Kong e outras metrópoles do Delta do Rio das Pérolas, as previsões apontam para o agravar da densidade populacional, tornando a sustentabilidade cada vez mais decisiva, alerta Figueres: “Conhecemos cidades que são poluídas, congestionadas e desumanizadas. No futuro, a nossa habilidade passa por construir cidades que sejam limpas, compactas, conectadas e acolhedoras”.

A ex-responsável da ONU elogiou a liderança da China na concepção das chamadas “cidades ecológicas”, um conceito inovador que se baseia no equilíbrio do desenvolvimento económico com a protecção da natureza que foi integrado na Constituição do país.

Embora o conceito de “cidade ecológica” (eco-city) não tenha uma definição concreta, para Figueres as cidades que queiram ter esse estatuto terão de ter quatro características fundamentais, ou seja, deverão ser “limpas, compactas, conectadas e preocupadas”. Mais concretamente, uma cidade “que prime pelos transportes eléctricos, pelos painéis solares, pela iluminação inteligente e por um layout que dê prioridade a caminhadas e bicicletas, será uma cidade sustentável”, conclui.

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Shuttles eléctricos na ponte

As operadoras de jogo que queiram transportar clientes pela Ponte Hong Kong-Zhuahi-Macau só o poderão fazer através de transportes eléctricos, foi uma das novidades avançadas pela ex-secretária da ONU para as Alterações Climáticas Christiana Figueres, oradora principal do MIECF, em declarações à imprensa à margem do evento. “Apenas os veículos eléctricos dos resorts vão poder aceder ao terminal da futura ponte”, na ilha artificial do lado de Macau, adiantou. A antiga responsável das Nações Unidas sublinhou “as importantes estratégias ambientais” adoptadas por várias cidades chinesas, nomeadamente com a redução das emissões de gases poluentes e com a adopção de veículos eléctricos. “Tanto o sector privado como o público estão a caminhar no sentido da electrificação”, por perceberem que é não só mais ecológico como também mais rentável, destacou Figueres.

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Aposta forte na reciclagem

O Governo de Macau vai reforçar os planos de reciclagem e de redução dos resíduos sólidos, com mais regulamentos sobre emissão de fontes fixas de poluição do ar e respectiva fiscalização, de acordo com a Direcção dos Serviços de Protecção Ambiental (DSPA). Criar uma cidade mais sustentável é um dos objectivos destas medidas, que incluem o Planeamento de Gestão de Resíduos Sólidos de Macau (2017-2026). Concluído em finais de 2017, este documento prevê “reduzir o volume médio de resíduos urbanos produzidos diariamente ‘per capita’ em quase 30 por cento”, ou seja, de 2,11 quilos, em 2016, para 1,48, até 2026. Além da publicação, nos últimos anos, de vários regulamentos com o objectivo de “reforçar o controlo das emissões de gases de escape dos veículos da região”, em 2017, um plano para acelerar o abate de motociclos e ciclomotores a dois tempos, “altamente poluidores”, levou à retirada de circulação de mais de 5450 veículos.

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