Domingo, Setembro 27, 2020
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Lio Kuokman | Pauta e rota de um maestro afortunado

 

Texto Marco Carvalho | Fotos Gonçalo Lobo Pinheiro

 

Ainda não completou 37 anos e já é um dos mais bem sucedidos – senão mesmo o mais bem sucedido – maestro da sua geração, tanto no que diz respeito a Macau, como a Hong Kong. O percurso até chegar ao patamar em que se encontra, presumo, não terá sido fácil. Quando é que se consciencializou de que, mais do que um músico, o que queria mesmo ser era maestro?

Para lhe responder à pergunta: sim, foi um longo percurso desde que comecei a aprender a tocar piano cá em Macau, tinha eu quatro anos e meio, cinco anos. Não sei há quanto tempo reside em Macau, mas Macau, há trinta anos, não tinha nada que ver com o que Macau é agora. Não existiam grandes actividades relacionadas com a música clássica e havia uma única orquestra, que era, de certo modo, uma espécie de predecessora da actual Orquestra de Macau. Era um projecto dinamizado pela comunidade, com músicos semi-amadores. Apesar de ser uma orquestra comunitária, tinha uma actividade considerável. Promovia concertos uma vez por mês ou, quando muito, de dois em dois meses. Eu sempre fui muito afortunado. A minha mãe adora música clássica e foi ela que me levou ao meu primeiro concerto, um espectáculo da antiga Orquestra de Macau. Fiquei completamente deslumbrado. Não estava de todo à espera que uma orquestra pudesse soar da forma como soou. Fiquei intrigado quando vi um tipo caminhar para o meio do palco com … Lembro-me de ter dito à minha mãe: “Aquele homem leva um pauzinho na mão! É tão engraçado”. Quando reparei que o som despontava da zona para a qual ele se virava, disse à minha mãe: “Eu quero ser aquele homem com o pauzinho na mão”. Presumo que a minha mãe tenha dito para si mesma: “Está bem. Talvez este seja como eu. Talvez este rapaz goste de música”. Pouco depois de ter assistido ao concerto comecei a estudar piano.

 

Ainda assim, teve de rumar a Hong Kong para estudar música e para se tornar um músico profissional …

Sim … Bem, eu comecei a estudar música em Macau. O facto de, posteriormente, ter rumado a Hong Kong não foi mais do que um golpe de sorte. Fui afortunado, uma vez mais. Venci uma competição local e fui seleccionado nesse ano para ir para Hong Kong estudar piano. Hong Kong abriu-me a mente: fui ver quantos concertos podia. A partir daí, uma coisa levou a outra. Fui para Nova Iorque também para estudar piano e foi quando terminei o meu mestrado, em Juilliard, que decidi que o que queria mesmo era seguir o meu sonho de infância e tornar-me um maestro. Decidi candidatar-me ao Curtis Institute of Music. É claro que antes disso já tinha dirigido algumas orquestras, por um lado para ganhar experiência e, por outro, para testar as minhas capacidades. Mas, nesta altura, teria sido presunçoso da minha parte apresentar-me como um maestro. Seguiram-se alguns anos no Curtis Institute. Perguntava-me sobre o meu percurso e o quão difícil e sinuoso foi. A impressão que tenho é que algo acontecia sempre que dobrava uma nova curva e algumas destas coisas, não estava de todo à espera delas. Por exemplo, entrar em Juilliard … Não estava à espera de ser aceite numa escola como Juilliard. Depois ingressei no Curtis Institute: é uma escola fantástica. Por ano, aceitam um ou outro aluno que quer estudar direcção de orquestra. A ideia que tenho é que tive sorte a cada curva do meu caminho. Tive a sorte de me cruzar com professores formidáveis, pessoas que não só puxaram por mim, mas que demonstraram também que se importavam verdadeiramente com o que eu fazia e com a forma como eu o fazia. Tive muito bons colegas e amigos fantásticos. De uma forma muito sumária, este foi o meu percurso e agora tenho a felicidade de estar onde estou. Devo dizer, no entanto, que me deparei também com muitos altos e baixos, com muitas dificuldades a meio do caminho.

 

Dizia que foi, por mais do que uma vez, afortunado, mas quem tem acompanhado a sua carreira fica com uma impressão diferente, a de que foi suficientemente corajoso para arriscar quando sentia que o risco era necessário. A sua participação no concurso Svetlanov é disso um bom exemplo. Tinha 33 anos. O Concurso Internacional de Direcção de Orquestra Svetlanov é o tipo de competição que pode impulsionar uma carreira, mas que também a pode destruir. Continua a ser o maestro que mais galardões conquistou na competição. Foi um momento que lhe mudou a vida? Ou nem por isso?

É outro momento que eu defino como afortunado. Antes de me inscrever na competição, já tinha sido escolhido para o lugar de maestro assistente da Orquestra de Filadélfia. Perguntei a mim mesmo: “Devo submeter-me a concurso? Pode esta ser a última competição em que participo antes de avançar com a minha carreira?”. Acabei por me decidir: “Bem, vou dar o meu melhor”. Sabe, ao longo destes trinta e tal anos, algo que eu aprendi e que faço questão de colocar em prática é que devemos sempre procurar dar o nosso melhor. Se algo bom se cruzar no nosso caminho, devemos aproveitar e ficar feliz por ter acontecido. Se não acontecer, o melhor mesmo é virar a página e seguir em frente. Quando concluí a minha licenciatura no Instituto Curtis, depois de ali ter passado quatro anos, fui apanhado na desolação daquele que foi o pior ano de que há memória para a economia norte-americana. Concluí os meus estudos em 2009 e o meu primeiro emprego foi com uma orquestra local. Ligaram-me e disseram-me: “Hey, temos um concerto para si. Respondi-lhes que estava disponível e enviei-lhes o meu material, as minhas partituras, tudo o que tinha para enviar. Duas semanas antes do concerto ligaram-me para me dizer: “Escusa de vir porque abrimos falência”. Este foi o meu primeiro emprego. Há sempre altos e baixos em qualquer percurso, mas, para lhe ser sincero não me senti muito mal. Pelo menos tinham-me ligado. Isto aconteceu meia dúzia de dias depois de eu me ter licenciado. Apesar de tudo, foi algo bom porque se lembraram de mim. Há sempre coisas boas que acontecem, más também, mas, como lhe dizia, tive sorte porque sempre aprendi com ambas. E, para lhe ser sincero, são muitas as coisas boas que me continuam a acontecer.

 

A participação no Concurso Svetlanov, há quatro anos, fez com que o seu nome se tornasse conhecido no seio do círculo da música erudita francesa. Regressa a França com bastante frequência para concertos, tendo dirigido algumas das orquestras gaulesas mais conceituadas. Sendo o público francês um dos mais exigentes do mundo, como é que se sente com todo este reconhecimento?

Actuar em França é sempre muito entusiasmante. Como dizia, o público – ou a crítica – em França, são sempre muito … Como é que lhe posso explicar? Eles são muito bons e conhecem muito bem aquilo que escutam. Por isso, obviamente, em qualquer dos concertos que dirijo em França, tenho mesmo de dar o meu melhor. Lembro-me com bastante frequência do que me dizia um professor: “As pessoas só se lembram dos teus maus concertos. Raramente se lembram de todas as coisas boas que fizeste”. Uma má performance pode destruir uma carreira. É óbvio que, nessa perspectiva, a pressão é enorme.

Ainda assim, li algumas das críticas que lhe foram feitas e a maior parte delas são muito gratificantes: “um maestro cheio de sensibilidade e de vida” ou “um intérprete talentoso”. Este é o tipo de coisas que se lêem sobre si em jornais e na Internet. Como é que se define a si mesmo como maestro? Se tivesse que descrever a sua forma de estar na música, o que diria? Onde vai buscar a sua inspiração?

A muitos aspectos. Muitos, muitos aspectos. Depende do que estiver a dirigir. Se estiver a dirigir um repertório alemão ou, por exemplo, o tipo de experiência que me traz agora a Macau e que é dirigir Leonard Bernstein … Neste caso, onde vou buscar inspiração? Vou pensar em Nova Iorque, transportar-me para a época em que ele compôs as obras. Trata-se de música jazz? Se sim, então vou tentar imaginar que estou num bar ou num local do género, porque foi a este tipo de sítio que ele foi buscar inspiração. É difícil para mim caracterizar a forma como dirijo uma orquestra porque cada uma das peças em que trabalho, procuro produzi-la a partir da perspectiva do compositor. Ao fim e ao cabo, são os compositores que eu devo servir. Foram eles que escreveram as músicas. Quero saber aquilo em que Beethoven estava a pensar, aquilo em que Brahms estava a pensar. É isso que eu procuro fazer.

 

A sua carreira esteve, de certo modo, focada no seu trabalho como maestro nos últimos anos, mas a verdade é que é também um pianista aclamado e um músico de câmara de reconhecido talento. Qual destas competências é para si mais difícil? É estar sozinho numa sala com um piano, com uma sala cheia a olhar para si? Ou estar em frente de sessenta, setenta ou oitenta músicos e chamar a si a responsabilidade de os orientar?

Ainda toco bastante, sobretudo música de câmara. E ainda gosto muito de tocar piano. É muito difícil para mim comparar piano e orquestra, bem como dizer-lhe de que aspecto gosto mais. Para mim, tratam-se ambos de música e a música é o meu mundo. Aquilo que lhe posso dizer é que gosto muito de partilhar o palco com alguém. Há tanta química em palco durante um espectáculo ao vivo! É algo que só acontece naquele momento e apenas aquele momento importa. Só a possibilidade de criar algo em conjunto com os meus amigos e colegas é algo que considero muito poderoso. É isso que é uma orquestra. Quanto ao piano … Sim, ensaiamos e depois enfrentámos um piano solitário no palco, mas não podemos, verdadeiramente, comparar piano e orquestra, porque se trata de duas experiências completamente diferentes.

 

A ideia de construir algo com a orquestra com que se está a tocar … É este o melhor aspecto de se ser um maestro? Qual diria que é a vertente que mais o entusiasma sempre que sobe ao palco?

O que me deixa mais entusiasmado? Há tantos aspectos. Nos ensaios há sempre algumas coisas que discutimos entre nós: “Vamos fazer isto aqui e isto acolá”. A razão pela qual o fazemos é para garantir que tudo decorre como planeamos. O que me deixa mais entusiasmado é algo que acontece apenas em espectáculos ao vivo. Há um ou outro momento em que os músicos se libertam e, de algum modo, quando tal acontece, algo mágico nasce. Para mim esse é o aspecto mais satisfatório. É uma questão de emoções. Num concerto de ópera, por vezes, vemos os cantores abraçar o momento, abraçar a música e isso é muito fascinante e poderoso. Tudo isto é algo que me deixa muito satisfeito. Somos músicos, mas aquilo que criamos é vida, é sangue. Quando fazemos algo que é planeado ao milímetro, por exemplo, quando gravamos um álbum num estúdio, a música é, de certa forma, fria. Num concerto ao vivo, por outro lado, a vida abunda. Cabe-nos a nós transmitir essa vida às pessoas para quem actuamos.

 

Referia outra característica extraordinária sobre o seu trabalho, que é o facto de se sentir tão confortável na condução de uma ópera como na direcção de um concerto sinfónico. Qual destas duas dimensões do espectáculo é mais exigente para um maestro? Qual representa um maior desafio? A ideia que fica é que quase não há espaço para o improviso num concerto sinfónico, mas numa produção operática o mesmo não acontece. Há uma certa faceta teatral. Qual dos dois domínios é mais difícil para um maestro?

No que diz respeito ao número de pessoas em palco, é claro que que na ópera as coisas são muito diferentes. Numa produção de ópera, o habitual é estarem 150 ou 200 pessoas em palco, incluindo o coro, os cantores e a orquestra. Nesse sentido, tecnicamente falando e tendo em conta todas as tecnicalidades, talvez seja mais difícil dirigir uma ópera, mas se pergunta se uma ópera é mais flexível do que um concerto sinfónico, dir-lhe-ei que não, que não acredito que assim seja. O que eu procuro fazer … Bem, eu tenho muita sorte.  Sorte! Lá está de novo esta expressão. Gosto desta palavra, até porque me sinto todos os dias afortunado por poder subir ao palco. Sinto-me afortunado por poder dirigir muitas produções de ópera e por poder aprender com a experiência dos cantores, porque é assim que eu quero que uma orquestra soe. Numa orquestra, os instrumentos devem comportar-se como cantores. Devem cantar. Os cantores não são os únicos que devem ser flexíveis. Numa orquestra, se tiver em mãos uma melodia … Eu dou-lhe um exemplo: numa das obras de Leonard Bernstein que ensaiamos para o concerto de Macau, há uma série de solos. Eu disse aos solistas: “Sejam o mais livres que puderem, façam o quer que seja que nós vamos atrás”. É exactamente isto que sucede numa produção operática. Não é, de todo, fácil para mim dizer-lhe qual é a mais difícil, porque estamos a falar de realidades muito diferentes, mas posso lhe dizer que a direcção de ópera é algo de onde retiro muita inspiração.

 

Deixou Macau muito cedo. De que forma é que o território influenciou o seu percurso? Há alguma marca de Macau na forma como conduz o seu trabalho? Referia no início desta nossa conversa que as coisas mudaram muito ao longo dos últimos trinta anos. Tanto em Macau como em Hong Kong, o panorama, no que respeita à música clássica, é, de certa forma, vibrante. Há muita gente envolvida em coros e em orquestras e ambos os territórios recebem com frequência concertos com grandes nomes da música erudita internacional. Como vê esta transformação?

Se bem percebi, trata-se de duas questões diferentes: por um lado, de que forma é que Macau influencia o meu trabalho e, por outro, como vejo o actual panorama no que diz respeito à música clássica. É óbvio que Macau tem sobre mim uma enorme influência. Tudo começou em Macau. Comecei por aprender o trombone e por actuar numa orquestra escolar. Esta experiência ajudou-me a compreender melhor outros instrumentos, ainda que depois me tenha dedicado ao piano. Comecei a estudar piano, mas não estava exclusivamente focado na aprendizagem do piano. Bem, o que eu quero dizer é que também me interessava compreender de que forma funcionava uma orquestra, de que forma funcionava uma banda. Este aspecto, eu diria, foi a pequena semente que me fez crescer. Foi a partir daí que me comecei a interessar pela música numa outra perspectiva. Depois disso, comecei a dirigir a Orquestra Juvenil de Macau. Foi a Orquestra que me ofereceu a primeira oportunidade para testar as minhas capacidades na condução de uma orquestra. Agora, quando olho para Macau e para Hong Kong, fico estupefacto, porque as mudanças foram muitas. Fico feliz pelo facto do Governo dar um grande apoio ao sector das artes, pelo menos na minha perspectiva. É algo de que necessitamos, porque uma cidade deve ter uma orquestra profissional, precisa de ter bandas juvenis. Mesmo o público deve poder beneficiar de um terreno fértil em termos culturais, um terreno que torne possíveis concertos e espectáculos, principalmente os de música clássica. Se assim não for, não haverá qualquer vida. Necessitamos de cultura como quem necessita de pão para a boca.

 

Este é o tipo de profissão em que é absolutamente indispensável agarrar toda e qualquer oportunidade que se atravesse no caminho … Nesse sentido, o convite que recebeu da Orquestra de Filadélfia para se tornar maestro-assistente por um período de dois anos, foi para si uma bênção?

Bem, quando consegui esse emprego senti que tinha realizado um sonho. A primeira vez que vi uma actuação ao vivo da Orquestra de Filadélfia foi em Hong Kong, quando ali estava a estudar piano. A Orquestra tinha um concerto e eu lembro-me de ter estado na fila durante mais de três horas para adquirir um bilhete. Comprei ingresso para um daqueles assentos na última fila. Era estudante e não tinha dinheiro para pagar por um lugar melhor. Quando estava a assistir ao concerto disse a mim mesmo: “Meu Deus, um dia, se me tornar maestro, ficaria tão, mas tão feliz por poder actuar com eles”. Quando me foi concedido o estatuto de maestro-assistente fiquei muito, mas mesmo muito contente, não só por poder actuar com a Orquestra, mas, sobretudo, por poder ficar a saber como é que este grupo gigantesco, com tanta história, trabalhava no dia-a-dia. Todos os dias, durante o tempo que passei com a orquestra, foi muito o que aprendi com os meus colegas: com os músicos, com o pessoal de apoio, com todos quantos me contaram tudo o que havia para saber sobre a Orquestra. Senti que me foi dada a oportunidade de ler um livro –  um livro de história – durante o período em que permaneci com a Orquestra.

 

O mundo tornou-se para si um lugar bem mais pequeno depois dessa experiência com a Orquestra de Filadélfia. Depois disso já conduziu concertos em países e regiões como o Japão, Hong Kong ou a França. Actuou na Rússia em Janeiro e vai regressar à Rússia de novo em Março. Trata-se, também, de uma vida vibrante? O tempo que passa quer em Macau, quer em Hong Kong é diminuto …

Aprecio muito o tipo de vida que tenho neste momento. Gosto de ter este tipo de agenda –  agitada – porque me concede a oportunidade de conhecer novos amigos e novas orquestras, em locais diferentes do planeta, quase todas as semanas. Tento, ainda assim, reservar algum tempo para caminhar um pouco pelas cidades que visito e, quando regresso quer a Macau quer a Hong Kong, procuro encontrar-me sempre que posso como os meus amigos. Alias, gosto de viajar; gosto da oportunidade que me oferece de conhecer diferentes culturas e, em particular, cozinhas diferentes. Gosto muito de comer, de experimentar diferentes tipos de gastronomias. Tudo isso é importante para mim e é por isso que gosto tanto da vida que levo neste momento.

 

Toca com bastante frequência com a Orquestra de Macau. A Orquestra percorreu um longo caminho desde que foi fundada, há mais de vinte anos. Acredita que a Orquestra de Macau se pode tornar numa das grandes orquestras mundiais? Ou o facto de Macau ser um território tão pequeno pode refrear o seu crescimento?

Absolutamente. Bem, a expressão “grande orquestra mundial” é uma expressão com um sentido muito lato, mas, no meu entender a Orquestra de Macau tem bastante potencial e pode, definitivamente, tornar-se uma das mais importantes e mais influentes orquestras da Ásia. Acredito muito piamente que tal pode vir a acontecer. O mais interessante nesta orquestra é o facto de ser tão parecida com Macau: é o resultado de uma mistura de diferentes pessoas e de diferentes culturas, que se juntaram para fazer música. Estamos a falar de pessoas com diferentes origens. A música é precisamente isso. A música tem o poder de juntar as pessoas, dá-se-lhes um sinal e boom … elas tocam. É um momento mágico.

 

O sonho de qualquer maestro – e corrija-me se estiver enganado – passa por criar raízes numa orquestra, por se afirmar como o maestro principal de uma orquestra. É um objectivo que o atormenta? Ou é uma etapa para a qual olha com naturalidade e, como tal, sabe que se vai materializar mais tarde ou mais cedo?

Sim. Acredito que é algo que vai acontecer mais tarde ou mais cedo. Porém, não é o tipo de questão em que penso constantemente. É importante procurar a orquestra com a qual gostaria de construir uma relação de longo termo. É o tipo de circunstância que eu, enquanto maestro, desejo, ainda que não esteja, nem de longe, nem de perto, sempre a pensar nisso.

 

Já tem alguma coisa em perspectiva? Teve a oportunidade de trabalhar com várias orquestras ao longo dos últimos anos. Ficou de olho em alguma delas? Qual delas lhe deu os melhores momentos da carreira?

É muito difícil responder a esta questão. Para um maestro, encontrar uma boa orquestra é como contrair matrimónio. Antes de se casar, precisa de passar por um ou outro namoro. Passa por um ou outro namoro, procura perceber se há um bom entendimento mútuo e só depois, se as coisas funcionarem, é que vão tentar fazer crescer algo em conjunto. Se assim não for, é porque está encalhado num mau casamento. É por isso, de certa forma, que eu ainda estou à procura da orquestra certa.

 

Perguntava-lhe sobre os momentos mais gratificantes … Gostava agora de o interrogar sobre o momento contrário. Houve alguma altura em que tenha sentido: “Eu não consigo fazer isto. Vou-me embora…”

Não. (Risos). Isso nunca aconteceu. Tenho, porventura, sorte. O meu trabalho, enquanto maestro que se posiciona perante um grupo de músicos, é procurar fazer com que toquem o melhor que lhes for possível. Nunca, mas mesmo nunca, em momento algum da minha vida, acredito que possa sentir que trabalhar com músicos não é algo que me concretiza. Não me vejo a evocar esse tipo de sentimento.

 

Há algum compositor particularmente difícil de trabalhar em termos de direcção de orquestra? Há algum compositor – clássico ou não – que exija de si um maior esforço na hora de dar vida a uma partitura?

É interessante. De facto, todas as orquestras têm uma personalidade diferente: uma orquestra russa é muito diferente de uma orquestra francesa. Uma orquestra do Reino Unido tem uma personalidade muito distinta daquela que caracteriza uma orquestra dos Estados Unidos da América. Aquilo que procuro fazer quando estou a programar um concerto é aparelhar essa personalidade com uma obra com a qual a orquestra se possa relacionar mais facilmente. Se incluir no programa uma obra ou um compositor à qual a orquestra não está habituada, o mais provável é que o trabalho que tenho na direcção se complique. Por exemplo, uma orquestra russa a tentar tocar jazz … Estive em Moscovo em Janeiro com o propósito de interpretar Bernstein. Procurei fazer com que a orquestra entrasse no ritmo do compositor. É curioso: tive oportunidade de olhar para as pautas de alguns dos músicos e muitas ainda tinham rabiscos feitos à mão, dos tempos da União Soviética. Um dos músicos até fez uma observação com bastante piada: “Algumas dessas anotações ainda são mais velhas que o Bernstein”. Cada uma das orquestras com que actuo exige de mim que diligencie a melhor forma de fazer com que toquem o repertório escolhido e é por isso que não é fácil definir que compositores são ou não difíceis. Depende sempre da situação.

 

Quem é o seu compositor favorito?

Brahms. Não diria que é o melhor dos compositores. Gosto de Brahms porque, de uma forma ou de outra, Brahms esteve comigo desde o início. No primeiro concerto que vi em Macau, aquele de que lhe falava e que decorreu na Universidade de Macau, a orquestra tocou a Sinfonia nº 2, de Brahms. Lembro-me perfeitamente disso. Tinha quatro anos, mas lembro-me bem: era a Sinfonia nº 2. Na prova de selecção a que me submeti quando fui contratado pela Orquestra de Filadélfia dirigi uma sinfonia de Brahms. Quando venci o Concurso Svetlanov, em França, também optei por Brahms. Não estou a dizer com isto que me tenha especializado e que só consiga dirigir Brahms. Não é, de todo, isso. No entanto, sinto uma grande ligação à música de Brahms, talvez por ter tocado a música de câmara que compôs e muitas das suas composições para piano. Tenho um vínculo muito forte com a sua obra.

 

Um amor para a vida. Vai voltar a dirigir a Orquestra de Moscovo em Março. Onde mais o podemos ver a actuar este ano?

Bem, este ano tenho uma agenda muito entusiasmante. Regresso, como dizia, a Moscovo, para trabalhar com a Filarmónica de Moscovo num concerto onde iremos interpretar Stravinsky e Tchaikovsky e no qual vamos contar com Vadim Repin, um  vencedor do Prémio Tchaikovsky.

 

Uma combinação vencedora …

Sim. Para mim trata-se de um momento divino. Depois, no final do ano, devo conduzir Madam Butterfly em Hong Kong. É uma das óperas de que mais gosto. Em Junho viajo para o Japão, para dirigir o meu primeiro concerto em Quioto. Tenho pela frente um ano em cheio e mal posso esperar para voltar a subir ao palco.

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