Segunda-feira, Setembro 21, 2020
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Cantão e a nova centralidade na Área Grande Baía

 

Texto José Luís Sales Marques

 

Esta iniciativa, cuja ambição e alcance quase que superam a imaginação, coloca de novo a cidade de Guangzhou, que é também conhecida com o nome de Cantão, no centro de atenções, conferindo-lhe uma reforçada centralidade. Esta faz jus à importância que teve e tem no processo histórico chinês e, de forma ainda mais relevante, no grande salto que a China deu depois de 1978, de abertura gradual da sua economia ao mundo.

Sob a liderança de Deng Xiaoping e através de experiências político-económicas e de ordenamento do território, exemplificadas com a criação de zonas económicas especiais de Zhuhai e Shenzhen, a região começou por atrair capitais de Hong Kong, Macau, Taiwan e de chineses ultramarinos do Sudeste Asiático, perante a excelente combinação de factores produtivos – abundância de mão-de-obra – e custos que oferecia. Assim nasceu a capacidade industrial exportadora que, em poucas décadas, transformou a região do Delta dos Rio das Pérolas na “fábrica do mundo”.

Entretanto, o processo de desenvolvimento interno da economia chinesa e a aposta na inovação e nas tecnologias de informação, associados aos níveis relativamente elevados do PIB per capita da região, a existência de boas instituições de ensino e a entrada de empresas estrangeiras, contribuíram para atrair e fixar talentos provenientes de toda a China neste espaço geográfico. Shenzhen, outra das cidades participantes na Grande Baía, é hoje, justamente, considerada um polo de inovação de nível mundial, sendo também conhecida como a Silicon Valley da China.

O triângulo económico Guangzhou-Hong Kong-Macau foi paulatinamente desenhado à medida que o processo de interdependência económica se aprofundava, criando uma regionalização pela via do mercado, que se acentuou com a integração das duas últimas cidades na nação chinesa, enquanto Regiões Administrativas Especiais da República Popular da China. A partir desse momento e, sobretudo, quando o Governo Central decidiu implementar os Acordos CEPA (Acordo de Parceria Económica) em 2004, sucessivamente revistos e alargados a muitos produtos e serviços. Dentre esse pacote de medidas, foi decisivo o sistema de vistos turísticos individuais para que muitos mais residentes do Interior do País pudessem visitar Macau e Hong Kong, ajudando ao crescimento das suas economias. Os fluxos turísticos originários das cidades do Delta do Rio das Pérolas têm um papel crucial para o sucesso dessas políticas.

Com a assinatura, a 1 de Agosto de 2017em Hong Kong e na presença do Presidente Xi Jingping, do Acordo-Quadro para o Reforço da Cooperação Guangdong-Hong Kong-Macau e Promoção da Construção da Grande Baía, (publicado no Boletim Oficial, n.º 31, II Série, de 2 de Agosto de 2017), o esforço institucional para integrar a região do Delta do Rio das Pérolas atinge um novo patamar.

 

Guangzhou: população e geografia

Com uma área de 7434 quilómetros quadrados, a cidade de Guangzhou, que é a capital da província de Guangdong, possui uma população de 14 milhões de habitantes, o que lhe confere uma densidade populacional de 1883 habitantes por quilómetro quadrado. Localiza-se a norte do Rio das Pérolas (Zhujiang), o terceiro maior rio da China, que atravessa a cidade e permite a navegabilidade até ao Mar do Sul da China.

O território de Guangzhou está administrativamente dividido em 11 distritos, a saber: Yuexiu, Liwan, Haizhou, Tianhe, Baiyun, Huangpu, Panyu, Huadu, Nansha, Zengcheng e Conghua.

 

História

Guangzhou foi fundada em 214 a. C., na Dinastia Qin (221-207 a. C.), e era conhecida inicialmente por Punyu. Foi sede da Dinastia Nanyue (206-111 a. C.) e a sua curta existência terminou ao ser derrotada pelos Han. Encontra-se, no centro de Guangzhou, um museu dedicado a esta dinastia sulista, cujo riquíssimo espólio inclui várias peças originárias de África e da Pérsia, que atestam o seu código genético de centro de comércio marítimo e de interacção entre culturas diversas. Começa a afirmar-se como cidade aberta desde cedo, atraindo mais do que uma centena de milhar de estrangeiros de origem árabe, persa, hindu, e de outras origens geográficas, estabelecidos durante a Dinastia Tang (618-907), para comerciar nos seus portos e mercados. Esta proeminência atraiu a cobiça de forasteiros ao longo dos séculos e foi, em tempos remotos, a 786, saqueada pelos persas.

Os estrangeiros começaram a fixar-se nesse território vivendo em bairro próprio, na periferia do núcleo urbano central de Guangzhou, com as suas famílias, as suas práticas culturais e religiões autóctones. Esse aglomerado possuía algumas características de auto-governação, sempre sob o olhar atento das autoridades mandarínicas. A primeira mesquita da China foi fundada no século VIII em Guangzhou.

A antiga Rota Marítima da Seda teve no porto de Guangzhou o seu mais importante centro, até que durante a Dinastia Song o porto de Quanzhou, na província de Fujian, passou a desempenhar essa função. Essa rede marítima não se limitava apenas a um conjunto de rotas destinadas a servir o comércio entre regiões e continentes distantes, uma vez que também desempenhava o papel de via de comunicação aberta entre povos e culturas. Essas rotas, que existiram entre o século II a. C. até ao século XV da nossa era, ligavam a China ao Sudeste Asiático, ao arquipélago indonésio, ao subcontinente indiano, às Arábias, à Somália e finalmente à Europa.

A China exportava seda, porcelana, chá, bronze e ferro e importava especiarias, plantas e flores, raridades exóticas e prata para a Corte Imperial. Materializavam, por um lado, o sistema tributário chinês e, por outro, a grande capacidade naval da China, singularmente expressas nas viagens do Almirante Zheng He, cujas armadas constituídas por gigantescos navios de 700 toneladas arribaram o Sudeste Asiático, a costa oriental africana e o sub-continente indiano. Esta rede comercial também se estendia ao norte, à Península Coreana e ao Japão, rota conhecida como a do Mar da China Oriental. Com o advento da política de proibição da actividade marítima instituída na Dinastia Ming, conhecida pelo política Haijin, a armada de Zheng He foi destruída e o comércio marítimo oficialmente proibido, embora continuasse por outros meios.

 

Economia e conectividades

As economias das 11 cidades da Área da Grande Baía Guangdong, Hong Kong e Macau atingiram em 2016 um PIB combinado de 1,34 triliões de dólares norte-americanos, representando 12 por cento da economia nacional da China, com apenas cinco por cento da sua população total. A nível da Grande Baía, o PIB de Guangzhou foi de 285 biliões de dólares norte-americanos, ou seja 21,3 por cento do total, o que faz dela a segunda maior economia a seguir à de Hong Kong, cujo PIB de 319 biliões de dólares norte-americanos, ou seja 23,8 por cento do total, continua como sendo a referência regional em termos do tamanho da economia e da sua complexa integração nas redes de comércio e de finanças internacionais.

A força da economia de Guangzhou reside na sua grande capacidade e diversidade produtivas, na sua rede de transportes e de logística, no comércio externo e na combinação de um conjunto de serviços que vão desde os seguros à banca, ao comércio de retalho e ao imobiliário. As principais indústrias assentam na produção de ferro e aço, de pasta de papel, na produção têxtil (seda, algodão, juta e fibras sintéticas), no fabrico de tractores, de máquinas e equipamentos, na tipografia, na refinação de açúcar, bem como na produção de electrodomésticos, de pneus, de bicicletas, de equipamento desportivo, de porcelana, de cimento e de químicos. O valor acrescentado industrial de Guangzhou foi de 75,82 biliões de dólares norte-americanos, cerca de 19 por cento do total das nove cidades da província de Guangdong, a seguir a Shenzhen.

As artes tradicionais continuam a ser importantes, bem como o turismo. No seu conjunto, os serviços têm um peso de 68,6 por cento e o sector secundário, cerca de 30 por cento, respectivamente, no PIB de Guangzhou. A Feira de Guangzhou (Canton Fair), que existiu no passado desde 1578, foi reactivada em 1957, funcionando duas vezes ao ano na Primavera e no Outono.

A nível do investimento estrangeiro, Guangzhou situa-se em quarto lugar, com 61,55 biliões de dólares norte-americanos, depois de Hong Kong, Shenzhen e Macau.

Guangzhou é o centro de transporte marítimo, terrestre e ferroviário do Delta do Rio das Pérolas. A linha férrea Guangzhou-Wuhan liga o sul ao centro e norte do país. A linha Guangzhou-Jiulong faz a actual ligação a Hong Kong em comboio normal. Todavia, a linha de alta velocidade que ligará Hong Kong a Guangzhou em 45 minutos entrará em funcionamento ainda em 2018. Diversas auto-estradas ligam a capital da província de Guangdong às cidades costeiras e da Área da Grande Baía. O mesmo acontece com redes de metro ligeiro, que servem para agilizar o movimento de pessoas intra e entre cidades a preços módicos. Zhuhai e Punyu estão ligados por uma dessas redes, utilizada por muitos residentes de Macau. O objectivo último dessa complexa rede de ligações é permitir que qualquer das cidades da Área da Grande Baía venha a estar a uma hora de distância de todas as suas congéneres.

O porto de contentores de Guangzhou é o sétimo maior do mundo em volume, e o maior entre os portos desta megapolis. As autoridades do município criaram em 2015 a zona de comércio livre da Nova Área de Nansha, com 60 quilómetros quadrados, e o porto de terminal de cruzeiros, cuja construção estará terminada em 2019, será o mais importante do género no país.

 

Educação e cultura

A cidade de Guangzhou está dotada de 14 universidades, entre as quais a Universidade de Sun Yat-sen, também conhecida por Zhongshang e Zhongda. Possui a sede no distrito de Haizhu, um campus na cidade universitária localizada na ilha de Xiaoguwei, distrito de Punyu, e outro na cidade de Zhuhai. É considerada uma das 10 melhores universidades da China. A cidade universitária de Xiaoguwei foi criada em 2004, com uma área aproximada de 17 quilómetros quadrados e alberga 10 universidades e o Centro de Ciência de Guangdong, o maior da China. Destacam-se universidades como a Universidade Tecnológica do Sul da China, a Universidade Normal do Sul da China, a Universidade de Assuntos Estrangeiros de Guangdong, a Universidade de Medicina, a Academia de Belas Artes e o Conservatório Xinghai, cujo nome homenageia o famoso músico e compositor chinês Xin Xinghai, originário de Macau.

A cultura de Guangzhou é multifacetada e diversificada, com especial destaque para a cultura de Lingnan, ou cultura cantonense. Esta cultura é originária dos tempos em que o reino Nanyue, que se estendeu entre Guangdong, Guangxi e ainda o Norte do Vietnam. O povo de Nanyue não era Han, mas depois da conquista por esses, no século II a.C., houve naturalmente uma grande fusão de culturas. Mas as características especiais de Lingnan permanecerem em diversas áreas de manifestação e expressão culturais, com influência em Macau, Hong Kong e muitas comunidades de emigrantes chineses espalhadas pelo mundo. Desde já, na língua cantonense, nas suas óperas, poesia e literatura, na famosa arquitectura Lingnan, com expressão máxima no Templo do Clã Chan, em Guangzhou, mas também em templos em Macau, nomeadamente o de Guanyin. Nas casas de tipo Tong Lau, que combinam estilos do sul da China com elementos ocidentais, que estão quase extintas em Macau, mas ainda se podem ver em Malaca e em Singapura; no desenho de jardins, em muitas variedades de artesanato e na Escola de Pintura de Lingnan e na sua excepcional caligrafia.

A gastronomia de Guangzhou e de toda a província de Guangdong é das mais representativas da China e encontra-se entre as grandes tradições culinárias do mundo. Macau e Hong Kong são, muito justamente, também expoentes desta gastronomia, com uma concentração, sem igual no mundo, dos melhores restaurantes dedicados às delicadas iguarias desse tesouro gastronómico.

A construção da Grande Baía, cujos trabalhos vão requerer grande esforço de coordenação e cooperação entre todos os intervenientes, e a procura de uma identidade regional, que não se substituindo a cada uma das identidades locais as complemente com um sentido de pertença à região, vai proporcionar a Guangzhou uma importância acrescida a nível regional e internacional, como um dos pólos naturais de desenvolvimento da Área da Grande Baía.

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