Quarta-feira, Agosto 5, 2020
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Culturas e línguas a pensar nas novas gerações

 

 

Texto Catarina Brites Soares | Fotos Gonçalo Lobo Pinheiro

 

O edifício grande e moderno de fachada colorida aparece no meio dos prédios altos e esguios que enchem a zona do Canal das Hortas. O contraste dá outra cor à Areia Preta. A Escola Oficial Zheng Guanying abriu portas em 2011 e no início deste ano ganhou um novo edifício. Desde a sua criação, muito mudou.

Há sete anos a escola contava apenas com 106 alunos, divididos por seis turmas. Hoje são mais de 350 estudantes e 19 turmas, desde o jardim-de-infância até ao segundo ano do secundário. Números que segundo a directora do estabelecimento de ensino, Wu Kit, são “prova de que o sistema está a funcionar”.

Hoje é Wu Kit quem lidera a escola que fez questão de mostrar. A primeira paragem foi no pátio amplo e cheio de cor onde os alunos do secundário estavam a ter Educação Física. É uma das disciplinas leccionada em português – língua que só entrou no momento em que também o professor entrou em campo. Antes e enquanto trocavam bolas por cima da rede de voleibol, os alunos falavam em mandarim, incluindo os dois ou três estrangeiros que estavam entre os 16 estudantes. “Os portugueses e estrangeiros falam em inglês entre eles, mas se alguém chinês está no grupo, falam em mandarim.”

Uma das turmas do ano acima – 3.º da primária – dava ao dedo em lugar de dar à língua na aula de Artes Visuais. Ao longo do corredor que leva à sala no primeiro andar, vêem-se as paredes decoradas com trabalhos em português, inglês e chinês. As portas das salas estão fechadas, mas por serem envidraçadas deixam ver o que se passa. “Optou-se por este design que tem como conceito a ideia de transparência”, contextualiza a directora.

Métodos

Rapidamente se confirma que se trata de uma escola onde se misturam idiomas. Do fundo de outro corredor, no piso de baixo, chega-nos uma voz sonante num português perfeito: “Fila. 1, 2, 3. Não se esqueçam de estudar”. E lá aparece mais um grupo de alunos, em fila como foi ordenado, maioritariamente de origem chinesa.

Não é fácil ajustar o ensino quando aos objectivos normais da educação se acrescentam as metas de formar alunos trilingues e de juntar estudantes de diferentes nacionalidades. “É um projeto pioneiro”, recorda Carla Sá, representante de grupo das actividades educativas da disciplina de língua portuguesa do ensino infantil.

O método, diz a professora, tem-se baseado muito na tentativa e erro. “Estamos todos em fase de experimentação. Se aplicarmos uma coisa e der resultado, continuamos. Se não, procuramos outros meios. Agora, estamos a tentar fazer os nossos próprios manuais porque os de Portugal não se adaptam a este contexto”, explica. A docente realça que não servem nem aos alunos nativos nem aos restantes, já que ninguém está imerso num ambiente de contacto constante com a língua.

Leila Silva complementa, referindo-se aos estudantes que aprendem português como língua estrangeira. “Só têm contacto quando estão connosco. Por isso, fazemos muita pesquisa e somos capazes de usar dois e três manuais para ter os recursos necessários e conseguirmos ensinar a língua”, afirma a professora de português do ensino primário.

Já a professora de mandarim Chong Sam Fong diz que não se notam “muitas discrepâncias” entre os alunos, uma vez que o ensino primário tem como finalidade ensinar a ler e a escrever. “Fazemos actividades como conversar três minutos antes de a aula começar; contar histórias em que cada aluno tem de preparar uma que depois vai partilhar com os colegas e receber a opinião do professor. E isso ajuda”, exemplifica a docente do 1.º ano do ensino primário.

Lou Kuok Iong, professor de inglês também do ensino primário, reitera que o truque nestas idades é apostar na oralidade. “Quero que falem a maior parte do tempo para lhes criar o interesse e motivação para aprenderem a língua.” Jogos de mímica e adivinhação são alguns dos meios a que recorre para fazer com que os alunos apliquem o vocabulário que aprenderam.

Desafios

Carla Sá realça que é complicado ensinar línguas numa escola que junta alunos com diferentes níveis e dá o exemplo das aulas de português, onde também há nativos. “Tentamos dar-lhes um apoio maior. Há uma turma, por exemplo, que tem três alunos nativos. Estão num grupo à parte com uma professora que lhes dá português como língua materna”, realça.

Quando só há um aluno, acrescenta, procura-se que haja um professor que dê apoio uma ou duas vezes por semana. “Para ir acompanhando e explicar alguma coisa, já que a professora está com a maioria chinesa.”

A docente ressalva que o desafio não é só para os de língua materna portuguesa, já que grande parte tem o cantonês como língua-mãe. “É preciso lembrar que os alunos que aqui estão também não são falantes de mandarim. É uma língua nova para a maioria.”

De pequenino…

É unânime a opinião de que faz diferença entrar no ensino infantil. “É onde tudo começa”, sublinha Carina Rodrigues. “E agora já têm português aos três anos. Foi uma alteração bastante importante. Estamos a ter muito sucesso. Têm um contacto muito suave com a língua e depois, com quatro anos, a aprendizagem já está muito mais coesa. Crianças que estão no início, com três, quatro ou cinco anos, motivam-se muito mais facilmente”, diz a professora de língua portuguesa do ensino infantil.

A educadora garante que os nativos não saem prejudicados. “Acabam por ser meninos que ajudam muito. Sentem-se incentivados porque têm ali o momento deles de ensinar aos amigos. Ainda só há oralidade, não há escrita, e por isso só têm a ganhar”, defende.

Wu Sok Chong, representante do Conselho do Ensino Infantil, reforça os resultados quando a aprendizagem das línguas começa cedo. “No segundo semestre, já conseguem falar mandarim”, garante.

Geração trilingue

Não foi ao acaso que a escola foi criada. Daqui pretende-se que saia um perfil de aluno distinto em Macau, idealmente “fluente nas três línguas que caracterizam a escola”, refere Lou Kuok Iong. Carla Sá é mais modesta: “Têm de, pelo menos, ser bilingues. O ideal é serem trilingues. Esse é o nosso sonho. O que esperamos é que, por serem miúdos expostos a diferentes culturas, sejam pessoas diferentes”, acrescenta a professora, que sublinha de seguida: “Vai com certeza sair daqui uma geração especial”.

É um dos professores que melhor pode avaliar. Entrou quando a escola abriu portas. Assume que projetos educativos com a ambição do plurilinguismo têm os seus perigos – como a mistura dos idiomas –, mas os anos que já leva na Zheng Guanying mostram-lhe que o trilinguismo deixou de ser só uma meta. “Já se notam reflexos. Do mandarim não tenho dúvidas. Do inglês também já lhes vejo algumas diferenças e no português também”, assegura Carla Sá, tendo por base os alunos que têm feito o percurso na escola.

Leila Silva reforça: “Vê-se que há interesse dos próprios alunos [no português]. Não é uma disciplina imposta. E a prova é que no próximo ano vai haver mais turmas bilingues”.

Uma visão de fora

Ana Paula Dias, autora de uma tese de doutoramento sobre a Zheng Guanying, sente que a escola “ganharia muito” com uma maior percentagem de alunos de outras nacionalidades. “Ajudaria a consolidar os objetivos relacionados com a aprendizagem de línguas e com a formação de indivíduos interculturais”, explica a investigadora do Centro de Estudos das Migrações e Relações Interculturais da Universidade Aberta de Lisboa.

A formação e a qualificação dos recursos humanos, tendo em atenção a fisionomia do projecto, assim como a estabilidade do corpo docente, são outros factores que a investigadora considera que podem ser aperfeiçoados. “De qualquer forma, este modelo de escola representa, indubitavelmente, uma mais-valia no contexto de Macau e uma oportunidade para elevar a proficiência linguística dos alunos”, defende Ana Dias, cujo trabalho se centrou no modelo da escola e nos professores.

Os três anos que acompanhou o projeto permitiram concluir que o modelo de ensino tem “um grande potencial” para a formação de alunos plurilingues, tendo em conta que o mandarim é a língua veicular desde o infantil, a par do português e do inglês, este último introduzido mais tarde no ensino primário.

Apesar da investigação não se ter centrado nos estudantes, a investigadora diz que no caso dos portugueses e de alunos cuja língua materna não é o chinês foi possível confirmar que se tornam totalmente proficientes em mandarim e capazes de acompanhar o ensino em chinês. “Quanto à proficiência dos alunos chineses em português e inglês não tenho dados, mas dada a maior carga horária que esta escola dedica ao ensino de línguas é possível prever que a sua proficiência seja superior ao que é habitual em escolas cuja carga lectiva é inferior. Esta é a única escola em Macau que apresenta esta orientação para o ensino trilingue reflectida no seu currículo e projecto pedagógico.”

Ana Dias aponta ainda o esforço da escola em providenciar o reforço do ensino do português como língua materna aos alunos de nacionalidade portuguesa, além do apoio de português para alunos chineses.

As actividades de animação da leitura em português na biblioteca, entre as quais “Os pais também sabem contar histórias”, são outras iniciativas que elogia por permitirem que a língua seja aprendida e vivida em contexto. “Muito diferente do método tradicional baseado apenas na memorização e repetição de vocabulário ou frases.”

A investigadora lembra que a Zheng Guanying é de Macau, para os alunos de Macau e dirigida à maioria chinesa e não uma escola “feita à medida para as necessidades dos alunos portugueses ou estrangeiros”. Por isso, ressalva: “Quando os pais optam por colocar os filhos num sistema de ensino em que a língua veicular não é a língua materna dos alunos, há obviamente dificuldades acrescidas”.

A imersão num meio linguístico e socioculturalmente diverso do contexto de origem (no caso dos portugueses) e o contacto com diferentes mundividências e formas de actuação (no caso dos chineses), continua, nem sempre são isentos de conflito. “Mas isso é positivo porque leva as pessoas a discutir ideias”, realça.

No caminho certo

O Diego é português, tem quatro anos e está no 2.º ano do ensino infantil. Fandy tem nove e está no 3.º da primária na escola onde também estuda o irmão Ducker, com 14 anos, que está no equivalente ao 8.º ano. Aos irmãos chineses juntam-se os irmãos Marilisa, de oito anos, e Giovanni, de seis – filhos de uma japonesa e de um italiano –, que também estudam na Zheng Guanying. Ela está no 3.º ano da primária, ele, no 1.º do infantil. Saturnino e a irmã Filumena, filhos de pai nepalês e mãe macaense, são mais dois dos alunos do ensino infantil do projecto-piloto Zheng Guanying.

A escola convenceu os diferentes pais por ser trilingue e multicultural. Passados seis anos desde que abriu portas, os encarregados de educação esperam mais daquela que é a primeira e única instituição em Macau com ensino em mandarim, português e inglês desde o infantil até ao final do secundário.

Diana Massada optou pela Zheng Guayning por achar que era uma escola válida e uma iniciativa que Macau precisava. “Temos a ideia de que as escolas chinesas são bastante rígidas e muito trabalhosas. Conheci este projecto e interessou-me”, recorda a mãe do Diego que queria que o filho aprendesse chinês por ser a língua mais falada na região, e que estivesse integrado na sociedade e não crescesse num ambiente só português ou internacional.

A oferta linguística também pesou para Coco Dell’Aquila quando teve de decidir onde estudariam Marilisa e Giovanni. “Não somos de Macau e achamos que a possibilidade de aprenderem o mandarim é o mais importante. Aqui aprendem chinês, português e inglês. Não se pode exigir mais de uma escola pública. É incrível que o Governo tenha tido esta iniciativa e criado este projecto”, elogia a empresária japonesa a viver em Macau há nove anos com o marido italiano.

O multilinguismo repete-se na lista de motivos que levou a macaense Elfrida Faria e o marido nepalês a escolherem a Zheng Guanying. “Queremos que os nossos filhos aprendam mandarim e português”, já que em casa se fala inglês e um pouco de cantonês. Mas há mais expectativas com a passagem pelo projecto-piloto. “Espero que os meus filhos cresçam num ambiente agradável, feliz e descontraído. As notas não são a minha prioridade.”

O ensino dos três idiomas também foi o que convenceu Chong Kit Hong, influenciada pela família que insistiu que seria uma mais-valia para Fandy e Ducker aprenderem as duas línguas oficiais de Macau. “A maioria das escolas privadas não tem aulas de português. Acho que a Zheng Guanying lhes vai dar boas perspectivas”, acredita Chong, que excluiu um ensino exclusivamente em língua portuguesa porque queria que os filhos também tivessem uma educação em chinês. “Não falo português e poderiam surgir problemas de comunicação caso tivessem uma formação exclusivamente em português”, esclarece.

Prós e contras

O ensino do português é, aliás, a primeira grande vantagem para Chong, também presidente da Associação de Pais da Zheng Guanying. “É muito importante que a escola se foque na língua portuguesa. A eventual desvantagem que encontro se prende com o facto de terem menos horas de inglês face a outras escolas”, refere.

Coco Dell’Aquila confessa que estava céptica em relação ao português no caso de Giovanni, porque, ao contrário da irmã que esteve no Jardim de Infância D. José da Costa Nunes, não passou por uma escola de matriz portuguesa. Os receios desapareceram rapidamente. Foi um dos alunos aprovados no sistema de ensino bilingue que a escola implementou este ano letivo no 1.º ano dos ensinos primário e secundário. “São fluentes nas três línguas da escola, e ainda no japonês e no italiano, porque eu e o pai lhes falamos nas nossas línguas. Nunca pensei ouvir os meus filhos a falarem mandarim. É a primeira língua deles e depois o português”, realça.

A mãe japonesa só vê vantagens na escola. A pluralidade linguística e o ambiente são as duas que destaca. “Estão muito mais estáveis do que estariam numa escola internacional, onde estudam sobretudo expatriados que vão e vêm. As relações de amizade que estabelecem estão sempre a terminar. Aqui estão expostos a um ambiente multicultural e multilingue, e ao mesmo tempo estão em contacto com a cultura local duma maneira muito intensa porque estudam com crianças locais.”

Diana Massada elogia as instalações “fantásticas”, a dedicação dos funcionários, a facilidade de comunicação com a escola – que garante sempre tradução em português ou inglês nas reuniões – e o apoio quando os alunos têm dificuldades.

Ainda assim, ressalva, haverá sempre um confronto cultural no caso dos portugueses e ocidentais. “Dos pais e não das crianças porque os miúdos adaptam-se facilmente ao contexto. Temos uma estrutura mental que nos faz olhar para as coisas com o nosso modelo de pensamento. Nestas idades não estamos preocupados se escrevem ou lêem e ali estão. O meu filho já escreve e tem trabalhos de casa. São questões que nos confrontam”, explica.

E resume: “Como uma mãe chinesa me dizia, esta é uma escola chinesa, mas muito mais flexível e leve para os chineses, e um pouco mais pesada para nós, face ao que estamos habituados”.

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