Segunda-feira, Maio 25, 2020
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(Con)Tributo a Macau

 

 

Texto Catarina Mesquita

 

Tomás Ramos de Deus recorda a história da banda que colabora com a Casa de Portugal em Macau – da qual é vocalista e guitarrista – como quem faz contas complexas. Isto porque têm sido cinco anos intensos de concertos e projectos musicais desde que, pela primeira vez, chegou à RAEM acompanhado de Miguel Noronha de Andrade, Luís Bento e Felipe Fontenelle.

Quando em 2012 o grupo de amigos que se apresentava como 80&Tal e que animava as noites do Hard Rock Café Lisboa com covers das décadas de 1960, 1970 e 1980, soube que o espaço homólogo em Macau estava à procura de uma nova banda decidiu candidatar-se à vaga e tentar a sorte.

“Era a oportunidade de sair de um país onde a nossa situação era intermitente e vir para a Ásia que nenhum de nós conhecia. Decidimos encontrar uma voz feminina, a Bianca Adrião, já que o nosso grupo inicial não tinha, e concorrer ao lugar. Seriam três meses de actuações para um público novo, o que era entusiasmante”, conta Tomás.

Conseguido o lugar, chegaram a “um Macau húmido”. O bafo quente das ruas em contraste com os ares condicionados dentro dos espaços comerciais e a comida diferente foram uma mistura explosiva e um teste à resistência dos jovens portugueses. “Independentemente de como nos sentíamos tínhamos de actuar e animar as noites do Hard Rock Macau. Passámos de actuações duas a três vezes por semana, em Portugal, a seis dias por semana, três horas e meia por noite”, recorda o vocalista.

Com um projecto paralelo chamado “Tributo a Beatles”, o grupo já tinha feito dezenas de concertos entre os quais dois no Coliseu de Lisboa e uma actuação para cerca de 60 mil pessoas: experiência não lhes faltava mas o nível de exigência mostrava-se maior em Macau.

O público crescia de noite para noite e o contrato inicial de três meses passou a mais três. Bianca Adrião era então substituída pela cantora portuguesa Mariana Domingues e completava os seis meses imparáveis dos 80&Tal. A banda afirma que foi “a maior experiência a nível de gestão física e emocional” pela qual já passou.

“180 e tal” concertos depois

“Cento e oitenta e tal concertos depois” o grupo de músicos deu por encerrado o capítulo Hard Rock mas não o de Macau. Esse era para ficar sem prazo de validade quando iniciaram a parceria com a Casa de Portugal em Macau (CPM).

“A CPM sempre apostou na valência da música através de aulas de música e de sessões de música ao vivo como, por exemplo, noites de fado. Com a colaboração dos 80&Tal percebemos que poderíamos ter uma banda disponível para participar em diversos eventos”, explica Diana Soeiro, coordenadora-geral da Casa de Portugal em Macau.

Tomás Ramos de Deus, Miguel Noronha de Andrade e Felipe Fontenelle tornaram-se assim o “núcleo duro” de apoio à CPM através da realização de concertos em diferentes eventos culturais, tanto propostos pelo organismo como requisitados por outras entidades oficiais, como a Fundação Oriente, o Instituto Cultural de Macau, a Direcção dos Serviços de Turismo, a Direcção dos Serviços de Educação e Juventude, entre outras.

“Através da valência da música, a CPM conseguiu fortalecer os laços e aumentar as parcerias com estas instituições sendo que nenhuma delas tem uma banda exclusiva”, explica Tomás.

A banda que agora, com uma nova formação, se assume como Paradise Hotel, continua ainda a apresentar o repertório de covers que dava vida aos 80&Tal em algumas actuações mas com a integração na CPM ganhou também “espaço e tempo” para a criação e produção de temas originais. Desde 2014 já foram lançados cinco álbuns com produção executiva da CPM: Tributo a Macau, Pessoa, Rua 25 de Abril, Castelos no Ar e Oito.

Com o lançamento do álbum Tributo a Macau, “foi dada voz a pessoas de Macau e demonstrado o apreço e respeito que temos por elas”, explica Tomás Ramos de Deus. Na primeira edição do projecto foram musicados poemas de escritores ligados a Macau, como Adé dos Santos Ferreira, António Manuel Couto Viana, Camilo Pessanha, Carlos Marreiros, entre outros, enquanto na segunda edição, apresentada este ano, foi dada a oportunidade a outros poetas residentes em Macau, como Catarina Domingues, Carlos André, Gonçalo Lobo Pinheiro, José Basto da Silva, Sérgio Perez e outros, de criarem letras para o projecto.

Já os álbuns Pessoa e Rua 25 de Abril musicam poemas de Fernando Pessoa e de “escritores de renome que mostram um lado mais romântico do 25 de Abril que não só a parte política”, respectivamente.

O álbum Oito, lançado em 2018, foi proposto pelo escritor Yao Feng e é um produto de fusão: são oito poemas chineses traduzidos e interpretados em português ao som de alguns instrumentos usados nas músicas chinesas como o erhu e o dulcimer.

A missão de educar

Ainda do conjunto de álbuns lançados pelo colectivo musical faz parte o projecto infantil Castelos no Ar. Segundo o vocalista da banda, este revelou-se “muito desafiante”. “Fazer música para crianças é complicado porque este público é exigente e tem de ser conquistado à primeira. Uma música fácil ao ouvido de uma criança requer um grande trabalho da nossa parte para criar uma melodia forte, mas simples ao mesmo tempo”, sublinha Tomás.

Arregaçadas então as mangas foram musicados poemas de autores portugueses de renome, como Alice Vieira, José Jorge Letria, Luísa Ducla Soares, Sophia de Melo Breyner e até mesmo Fernando Pessoa na sua escrita para o público mais jovem.

De todos, este foi o álbum com maior aceitação. Tomás conta que aquando da realização de um concerto por ocasião da celebração do Dia Internacional da Criança, no Jardim de Infância D. José Costa Nunes, as crianças sabiam cantar as canções. “Quando cantam uma música feita por nós é um sentimento de missão cumprida. Estamos a educar as crianças com um conteúdo que não é demasiado infantil mas, ao mesmo tempo, se ajusta à idade e à capacidade de interpretação delas”, afirma o músico.

A escolha dos temas que apresentam em todas as actuações e a forma de os interpretar – não só para o público infantil – faz parte da missão de educar o público que a banda tem em Macau.

O grupo refere que vê no público chinês um enorme respeito para com o seu trabalho. “Apesar de não dançarem e cantarem tanto como os portugueses, por exemplo, o público chinês tem demonstrado gostar muito do nosso trabalho, seja quando estamos a tocar rock ou até mesmo, em algumas ocasiões, fado.”

O vocalista chegou mesmo a aprender a canção em mandarim “Tong Hua” que arranca sempre muitos aplausos à ala chinesa. “Já a cantei mais vezes que outras músicas em português [risos]. Tenho de aprender outras!”

Os elementos da banda dão também apoio à Escola de Artes e Ofícios da Casa de Portugal em Macau, onde Tomás Ramos de Deus, Luís Bento e Paulo Pereira dão aulas de guitarra, baixo, saxofone, clarinete e bateria, respectivamente, tanto a crianças como a adultos.

“Uma das grandes vantagens da colaboração permanente da banda com a Casa de Portugal foi o facto de termos alargado também o nosso número de professores de música”, lembra Diana Soeiro.

O mais valioso dos tempos

A agenda da banda é preenchida. Concertos para crianças em escolas ou no Centro Cultural de Macau, a presença no arraial tradicional de São João ou um tributo a Fernando Pessoa por ocasião dos 130 anos sobre o nascimento do escritor são alguns dos exemplos de um mês de Junho agitado e diversificado.

Porém, os membros do grupo musical confessam que apesar de Macau lhes ter trazido mais trabalho lhes deu mais tempo e, consequentemente, mais qualidade de vida.

“Aqui obtivemos a liberdade mental para conseguir compor e desenvolver projectos que gostamos e que em Portugal não conseguíamos concretizar por estarmos tão preocupados em ter trabalho para conseguir pagar as contas”, conta Tomás.

Miguel Noronha de Andrade tem a seu cargo o estúdio da Casa de Portugal, na Areia Preta. É lá que o músico tem desenvolvido o trabalho de produção dos projectos da banda. Já Luís Bento, baterista da banda, continua a tocar com o colectivo mas é à SOMBENTO, empresa de apoio técnico de som e iluminação de espectáculos da qual é responsável, que dedica grande parte do seu tempo.

Paulo Pereira que já colaborava com a CPM desde 2012, altura em que se mudou para Macau, foi amiúde participando em vários espectáculos da banda com o seu saxofone. Hoje, o artista já participa na grande maioria dos projectos da Paradise Hotel.

Após o regresso de Felipe Fontenelle a Portugal, em 2017, para se dedicar à sua carreira a solo, juntou-se recentemente à banda o músico australiano Ivan Pineda, responsável pelos sons do baixo.

É das músicas da sua infância como o rock dos anos 1980 e 1990 que é feita a história da banda, mas é também dos sons que ouvem, compõem e que têm tocado em Macau. Quando se fala de um eventual regresso a Portugal, Tomás Ramos de Deus diz que não há planos para breve.

Feitas as contas complexas de cinco anos intensos, o vocalista da banda diz, sem hesitações, que aqui criou uma “bela família”. Família essa que mora numa casa de todos, a Casa de Portugal em Macau.

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