Sexta-feira, Outubro 30, 2020
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A mansão que foi a primeira biblioteca chinesa

Texto Vítor Quintã 

Completam-se este ano 60 anos da abertura da Biblioteca Sir Robert Ho Tung, aquela que foi a primeira biblioteca pública chinesa de Macau. Mas a história do edifício tem mais de 100 anos e outros segredos para contar, de um refúgio em tempos de guerra ao primeiro auditório da cidade.

“A mansão foi um santuário para o meu avô durante a Segunda Guerra Mundial, quando o meu avô tinha mais de 80 anos. O meu pai passou várias férias grandes naquela casa quando era jovem e recordava-a com grande carinho”, conta George Joseph Ho, neto de Sir Robert Ho Tung. O casarão a que ele se refere fica no número 3 do Largo de Santo Agostinho e é hoje conhecido precisamente como a Biblioteca Sir Robert Ho Tung. Um ‘comprador’ e filantropo de Hong Kong que deixou a casa em testamento ao Governo de Macau para se tornar a primeira biblioteca pública chinesa da cidade. 

Na altura quase todas as bibliotecas públicas continham apenas livros em português e outras línguas ocidentais. Apesar da maioria da população ser – como é hoje – chinesa, não havia nenhuma biblioteca só com livros em língua chinesa. “Havia apenas bibliotecas populares criadas por associações locais”, confirma o arquitecto Carlos Marreiros. Ainda hoje sobrevive uma delas, o pavilhão da Biblioteca Pública da Associação Comercial de Macau, no Jardim de São Francisco. 

Além do edifício, cuja doação foi lavrada no testamento de Ho Tung em 1955, quando o milionário morreu, a 26 de Abril de 1956, a família juntou ainda um montante de 25 mil dólares de Hong Kong para a aquisição de livros chineses. “Na altura era bastante dinheiro”, diz Carlos Marreiros. Após receber oficialmente a doação, em Abril de 1957, a então Administração portuguesa de Macau não perdeu tempo a comprar um acervo de obras preciosas e raras. 

Tesouros antigos 

A Sala de Obras Antigas e Raras Chinesas da Biblioteca Sir Robert Ho Tung contém actualmente 30 mil volumes. O destaque, diz Gary Ngai Mei Cheong, antigo vice-presidente do Instituto Cultural (IC), é um acervo de cerca de 5000 volumes anteriores a 1912, das dinastias Ming e Qing, as últimas duas linhagens de imperadores a governar a China. O mais antigo, uma publicação do reinado do imperador Jiajing, intitulado Yong da ji (Crónicas das Províncias de Shaanxi, Gansu e Qinghai), foi escrito a meio do século XVI. “Foi um oficial português que sugeriu ao governo comprar as obras mais raras, que vêm da Colecção da Biblioteca Ka Ip Tong, uma família rica cuja decadência levou a que fosse vendida. Ainda tiveram que regatear,” segundo o IC. 

Um dos livros, Extracto do Manuscrito de Weng Fanggang sobre Si Ku Quan Shu (Os Quatros Tesouros do Imperador) foi inscrito em 2010 na Lista Nacional de Livros Antigos Preciosos da China. Gary Ngai destaca também a existência de uma versão completa dos Quatros Livros e Cinco Clássicos, a base fundamental dos ensinamentos do filósofo chinês Confúcio. 

Quando abriu, a 1 de Agosto de 1958, era então a maior biblioteca pública de Macau e Hong Kong. Um espaço que ajudou a manter livros preciosos “relativamente intactos” num período de enormes convulsões na história da China, refere Gary Ngai. Muito sobreviveu à tempestade. “É certo que não é possível comparar, mas estas são obras preciosas, únicas, aqui em Macau, não existem em outros lugares”, de acordo com informação do IC. São muitos os estudiosos e académicos que vêm à cidade de propósito para consultar os documentos. Por isso mesmo, e para permitir que mais interessados de todo o mundo possam ter acesso, a biblioteca tem estado a digitalizar os títulos antigos. 

Em dois anos já foram digitalizadas 16 obras. “Não é fácil porque durante a digitalização, se se encontrar papel de arroz, se se encontrar algum dano, tem sempre de ser pedido o restauro, por isso leva tempo”, explica. Os recursos são escassos para lidar com 5000 livros antigos e por isso só os mais importantes podem ser digitalizados. Ainda assim, o IC pretende partilhar com o público, ainda este ano, os primeiros livros electrónicos do acervo de obras antigas da Biblioteca Sir Robert Ho Tung. 

 

Séculos de história 

A história do edifício que hoje acolhe a biblioteca começa muito antes da chegada do negociante de Hong Kong. De acordo com o registo predial, a propriedade foi registada pela primeira vez no dia 5 de Abril de 1894. “Existe uma fotografia da zona no início do século XX em que já aparece esta mesma casa”, diz Carlos Marreiros. O arquitecto usa também a existência do que chama uma falsa fachada para datar a construção: “A uma determinada altura, por volta de 1890, foi moda estes pórticos que eram acoplados a edifícios existentes”. 

Por um lado, a arcada era um “inteligente método de controlo climatérico natural”, impedindo o sol de bater directamente na fachada do edifício e criando “uma zona de penumbra e refrescamento”, explica Marreiros. Aliás, os chineses gostavam de dormir a sesta nesta galeria, num tipo de cama desdobrável de lona chamada de ‘burra’, conta o arquitecto. Por outro lado, era também “um meio de ostentação de algum novo-riquismo, era um sinal exterior de riqueza”, diz Marreiros. 

Esta vontade uniu-se no século XIX ao talento de dois arquitectos macaenses, José Tomás de Aquino e António Alexandrino de Melo, para criar a Escola de Macau. “Um hibridismo que tirou o melhor da arquitectura gótica, neoclássica portuguesa e ocidental, e da chinesa e das influências locais e surge depois um estilo próprio”, explica Marreiros. Mesmo as falsas fachadas, defende o macaense, foram uma forma de ajustar uma arquitectura “pombalina, austera” ao clima bem pouco moderado de Macau. 

A mansão começou por pertencer a D. Carolina Antónia da Cunha, que se mudou para lá após a morte do marido, o então Governador de Macau Pedro Alexandrino da Cunha, em 1850. Num caso raro, D. Carolina não regressou a Portugal após enviuvar e acabou mesmo por viver na cidade o resto da vida. Após a morte dela, o imóvel foi arrematado em hasta pública em 1898, passando para as mãos do industrial chinês Chau Tung Sang. Posteriormente, em 1911, foi adquirido por Miguel Rodrigues Morgado. Após a sua morte, a sua esposa Eugénia Marques Morgado herdou metade dos direitos sobre a propriedade, tendo adquirido a outra metade em 1917. 

 

Refúgio de guerra 

Foi então que entrou em cena Sir Robert Ho Tung. “Ele gostava muito de Macau, pela beleza daquela que era conhecida com a cidade das sete colinas”, diz Carlos Marreiros. Não admira que a 27 de Fevereiro de 1918 Sir Robert Ho Tung tenha adquirido o número 3 do Largo de Santo Agostinho por 16 mil dólares de prata. “Mas na verdade ele era um homem ocupado e os seus negócios estavam centrados em Hong Kong”, refere Marreiros. 

A casa de Macau seria usada apenas como retiro de férias, até que tudo mudou no Dia de Natal de 1941, quando Hong Kong se rendeu à ocupação japonesa durante a Segunda Guerra Mundial. Sir Robert Ho Tung mudou-se então de malas e bagagens para Macau, cidade que permaneceu livre, uma vez que Portugal declarou neutralidade durante as hostilidades. Mas a adversidade não fez o milionário perder o reconhecido faro para o negócio. 

Até ao regresso à cidade vizinha, em 1945, o antigo ‘comprador’ “estendeu as suas operações de Hong Kong para Macau, sobretudo durante a ocupação japonesa, mas também depois do final da Segunda Guerra Mundial”, diz Gary Ngai. Segundo uma biografia em língua chinesa de Stanley Ho Hung Sun, publicada nos anos 1990, o magnata do jogo de Macau teve o apoio do tio, Sir Robert Ho Tung, para lançar as raízes da actual indústria dos casinos na cidade. 

George Joseph Ho diz que a família não ficou surpreendida quando o milionário decidiu doar a casa de Macau para ser usada como biblioteca pública. Numa altura em que a cidade estava a ser invadida por vagas de refugiados que fugiam à guerra, “o meu avô ficou muito sensibilizado pela calorosa hospitalidade das pessoas de Macau”, diz o director da Commercial Radio de Hong Kong. Sir Robert Ho Tung “era um homem frugal na sua vida pessoal. Ele não gastava muito com ele próprio, mas acreditava em retribuir as comunidades que o beneficiaram ou que lhe ofereceram um porto de abrigo”, diz George. 

Após a sua morte, o faro que o ‘comprador’ demonstrou para o negócio foi eclipsado pelas acções filantrópicas que deixou em Hong Kong, mas também em Macau. Aliás, a doação do edifício no Largo de Santo Agostinho nem foi a primeira vez que o negociante tinha puxado da carteira para ajudar a cidade. Já em 1951 tinha feito uma doação para permitir a construção de duas escolas – uma masculina e outra feminina – onde hoje se situa a Escola Primária Luso-Chinesa Sir Robert Ho Tung. A contribuição do milionário para Macau foi “bastante positiva”, diz Gary Ngai. 

 

De portas abertas 

Carlos Marreiros tinha um ano quando a Biblioteca Sir Robert Ho Tung abriu ao público e lembra-se de visitar o edifício a partir dos anos 1970, nomeadamente para procurar “livros de difícil acesso” e ainda para ter aulas de latim. “Havia americanos e russo-americanos que estavam em Macau a estudar acupunctura, e eles viviam de ensinar inglês ou latim”, recorda o macaense. “Eu já queria ser arquitecto mas nunca imaginei que um dia teria um papel naquele mesmo edifício,” confessa Marreiros. 

O jovem arquitecto foi convidado por Francisco Figueira, chefe do então Departamento do Património do IC, para colaborar no restauro da biblioteca, uma operação que tentou manter ao máximo o que já existia. “Criámos uma marquise no primeiro e segundo andar para ganhar espaço na sala de leitura, desinfestámos o edifício que estava atacado pela formiga-branca e introduzimos desumidificadores”, explica Marreiros. 

O jardim da frente, cujos arcos tinham sido fechados, foi de novo aberto ao exterior, diz o macaense. “Era habitual em Macau as casas terem dois jardins, com o jardim fronteiro de boas-vindas, uma tradição tanto portuguesa como chinesa. Eram sempre jardins com flores, que davam beleza e bom cheiro”, refere Marreiros. Já o jardim traseiro era funcional, com canteiros de ervas aromáticas e vegetais de uso na cozinha macaense, e a Biblioteca Sir Robert Ho Tung mantém ainda hoje as árvores de fruto. Duas delas, a maçã de Java e a longane, estão mesmo entre as sete árvores de seis espécies diferentes preservadas neste jardim que fazem parte da “Lista de Salvaguarda de Árvores Antigas e de Reconhecido Valor” de Macau. Uma delas foi danificada durante a passagem do tufão Hato, em Agosto do ano passado, mas foi possível recuperá-la. 

O rés-do-chão do edifício acolheu a primeira livraria portuguesa de Macau, recorda Carlos Marreiros, enquanto o último andar recebeu o primeiro auditório cultural da cidade, o qual tinha capacidade para 100 pessoas e onde chegou a actuar a célebre pianista portuguesa Maria João Pires. “Havia já muitas actividades culturais programadas que precisavam de um espaço, como por exemplo canto lírico e concertos de piano”, explica o arquitecto. Mesmo actualmente, quando a cidade tem já um Centro Cultural e outras salas de espectáculo – incluindo o Teatro D. Pedro V, mesmo ao lado, no Largo de Santo Agostinho –, a biblioteca tem organizado actividades culturais como leitura de poesia e dança. 

 

Presente e futuro 

Após o restauro liderado por Carlos Marreiros, em 2002, o IC decidiu construir um novo bloco no jardim traseiro da biblioteca. “Um belo edifício moderno”, diz o arquitecto. O contraste entre a mansão centenária e a fachada de vidro não impediu a inscrição do edifício na Lista de Património Mundial pela Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO) em 2005. No ano seguinte, a 13 de Novembro, entrou em serviço a nova biblioteca, equipada com uma sala de livros antigos mas instalações e serviços modernos. 

Uma das características especiais do novo bloco é que a fachada é de vidro, permitindo ver a diferença entre a sede antiga e a parte nova e apreciar o jardim. O resultado final é um ambiente diferente das outras bibliotecas, muito tranquilo e sossegado. 

Tanto os residentes como os turistas parecem concordar. Aliás, o jardim da Biblioteca Sir Robert Ho Tung é paragem frequente de quem visita Macau e o jardim traseiro um local popular para tirar fotos bem longe do brilho do néon dos casinos do Cotai. A biblioteca recebeu 280 mil pessoas só em Julho deste ano e mais de 1,6 milhões de visitantes nos primeiros sete meses de 2018, revela o IC. 

Em Julho passado o IC recebeu nove propostas para a transformação do edifício do antigo Tribunal, na zona do Nam Van, na nova Biblioteca Central de Macau. O concurso prevê que o espaço possa receber uma colecção de até um milhão de títulos, 100 espécies de jornais, mil espécies de publicações periódicas e até 160 mil peças de material multimédia. O espaço actualmente usado na Biblioteca Sir Robert Ho Tung para funções administrativas deverá ficar então livre. 

Algo que vem mesmo a calhar, numa altura em que os utentes exigem mais espaço. A futura abertura da Biblioteca Central poderá, por exemplo, permitir à Sir Robert Ho Tung concentrar-se em disponibilizar mais livros sobre arte e literatura, assuntos que ultimamente têm atraído mais leitores, de acordo com o IC, mas também a organizar eventos artísticos de pequena dimensão. 

 

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