Quinta-feira, Outubro 22, 2020
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Cerâmica de Shiwan conta história e tradições chinesas

Texto Sandra Lobo Pimentel  | Fotos Gonçalo Lobo Pinheiro

Entre Maio e Setembro, estiveram em exposição no Museu de Arte de Macau dezenas de peças da colecção de cerâmica de Shiwan, produzidas nos anos de 1920. A colecção faz parte do espólio do Museu de Arte de Macau e foi coleccionada originalmente pelo advogado português Manuel da Silva Mendes (1876-1931), um “verdadeiro pioneiro do coleccionismo da arte da região de Cantão”. 

Margarida Saraiva, investigadora e curadora do Museu, fez, em 2001, um estudo sobre esta cerâmica da região de Cantão, que faz parte da documentação da instituição. À MACAU falou das características desta arte e de como o advogado português, que chegou a Macau em 1901, influenciou os artistas da época na produção de peças que viriam a fazer parte de uma vasta colecção. 

O estilo próprio da cerâmica de Shiwan pode explicar-se pela confluência entre as tradições locais características da região de Cantão e as novas técnicas introduzidas pelas migrações. Essa vaga migratória do século XIX levou a que esta arte, a partir de Guangdong, se tornasse muito popular fora da China. 

“Uma das características fundamentais desta cerâmica é a riqueza e variedade cromática dos seus vidrados, sendo o branco, o vermelho sangue de boi e o azul os mais frequentes. Destacam-se ainda os ricos e complexos efeitos a fazerem lembrar os sublimes vidrados dos antigos fornos Guan e Ge, vermelho romã, e o azul típico dos fornos Jun”, assinala Margarida Saraiva. 

Um dos traços que também caracteriza esta cerâmica prende-se com o material usado. As figuras humanas da cerâmica de Shiwan apresentam muitas vezes vidrado apenas na área das vestes, surgindo as zonas em que o corpo da figura está descoberto sem qualquer vidrado, uma opção que confere aos personagens representados uma grande expressividade, com pormenores bem definidos nas mãos ou no rosto. Seria este o elemento distintivo que terá conduzido esta cerâmica, em finais da Dinastia Qing, ao apogeu artístico. 

Foram inúmeros os personagens recriados na cerâmica de Shiwan, sobretudo figuras ligadas ao folclore local, lendas, óperas e novelas. Ainda assim, nos finais da Dinastia Qing e início do século XX, assiste-se a uma grande diversificação temática: juntam-se às figuras históricas e heróis populares as pessoas anónimas, os bustos, os nus e crianças estrangeiras. 

Influência de Manuel da Silva Mendes 

O advogado português chegou a Macau no início do século passado, tendo verificado que “aqui não havia um museu digno desse nome e, também, que não havia colecções, nem públicas, nem privadas, que pudessem servir para um museu”, explica Margarida Saraiva. 

“Porque gostava de arte, começou a coleccionar”, principalmente, cerâmica de Shiwan e pintura chinesa. “Mas não foi só um coleccionador. Definiu o que considerava ser importante para uma colecção, por um lado, estudou sobre a colecção e, finalmente, escreveu sobre a colecção que constituiu, encomendando também várias obras a artistas conhecidos do seu tempo. É por isso um pioneiro a vários níveis”, ou seja, “estimulou a criação artística”, sublinha a investigadora. 

 

Margarida Saraiva explica ainda que as encomendas que Manuel da Silva Mendes fez, tiveram um impacto na cerâmica de Shiwan. “Recuperou uma tradição muito antiga desta arte que era a realização de peças que fossem feitas completamente e somente em barro”, explicou. 

Sobre a origem exacta desta cerâmica, tendo em conta que parte é constituída por objectos de uso quotidiano, há vestígios desde o neolítico. No entanto, no que respeita à vertente artística, há quem aponte a Dinastia Sung ou a Dinastia Ming. “Essa questão é difícil de resolver porque existem poucos estudos sobre essa matéria. O facto é que já se produz cerâmica em Shiwan há muitos séculos. Há uma cerâmica de utilização quotidiana e outra que também tinha utilidade, porque era de representações de deuses e divindades e, de alguma forma, servia como ligação ao divino e essa era uma função importante. E depois há as produções do coração, as obras que os artistas faziam nos tempos livres, para além das encomendas, que os próprios apelidaram assim.” 

É neste âmbito que Manuel da Silva Mendes entra, apesar da colecção do Museu de Arte de Macau ter um pouco de cada uma das vertentes desta arte. 

A certa altura, esta cerâmica começou também a ser utilizada para fins arquitectónicos. “Há muitos templos desta região do sul da China que são decorados com cerâmica de Shiwan, que se caracteriza por temas religiosos, animais simbólicos na cultura e na mitologia chinesa e é uma cerâmica completamente vidrada”, sublinha. Características diferentes tinham as chamadas miniaturas e as produções do coração, em especial, as últimas. “Todas as partes do corpo eram deixadas em barro, e as partes das vestes em vidrado. Isto permitia aos artistas conseguirem mais pormenor na representação das mãos, dos olhos, da boca, do pescoço, e dar mais expressividade às figuras”, explica Margarida Saraiva.  

As peças exclusivamente produzidas em barro fazem parte de uma tradição mais antiga. O coleccionador português gostou dessa característica e encomendou aos artistas seus contemporâneos peças de grandes dimensões para decoração dos jardins da sua casa, que se situava na base da Colina da Penha. “São obras de grande escala, de figuras importantes na cultura chinesa e são feitas pelos melhores artistas da sua época, recuperando uma tradição antiga.” Algumas destas peças fazem parte da colecção do Museu de Arte de Macau, “o que faz com que este museu tenha das melhores obras de Shiwan em toda a região e, talvez, também no mundo”, afirma a curadora. 

Tudo terá começado com as frequentes visitas de Silva Mendes a Shiwan para estudar a cerâmica local, tornando-se o primeiro coleccionador do mundo a conhecer e a pesquisar esta forma de arte. 

Crédito: Gonçalo Lobo Pinheiro

Anos mais tarde, na década de 1920, além de adquirir peças de Shiwan, Silva Mendes começou então a encomendar aos mestres Pan Yushu e a Chen Weiyan, os artesãos de cerâmica mais famosos naquela época.  

O advogado terá convidado Pan Yushu para vir a Macau, e mostrar-lhe algumas estatuetas que possuía, produzidas num estilo europeu. O desejo de Silva Mendes era a produção de uma série sobre o tema dos deuses e heróis chineses, e Pan Yushu aceitou fazer as miniaturas. As pequenas estatuetas foram depois replicadas numa grande escala, numa fábrica de cerâmica em Cantão, com a colaboração do mestre Chen Weiyan.  

Uma parte dessas peças em miniatura foi exibida e faz parte da colecção do Museu. São consideradas um exemplo da renovação desta arte e prova da integração do artesanato tradicional chinês e das formas de expressão artística do ocidente no início do século XX.  

Outra das facetas que envolvem Manuel da Silva Mendes na cultura da arte e coleccionismo em Macau, e que confere importância à sua colecção, fica expressa pelo envolvimento da sociedade civil e o seu empenho para que a cerâmica de Shiwan passasse a fazer parte de um museu. 

Quando o advogado morreu, em 1931, “houve uma campanha de vários artistas, recorrendo aos jornais da altura, reclamando junto do Governo a necessidade de se adquirir a sua colecção de cerâmica”, conta Margarida Saraiva. “Nessa altura, o museu que existia era o Luís de Camões, integrado na Capitania dos Portos, ou seja, era um museu de natureza etnográfica. O director do museu na época pediu uma avaliação para aquisição da colecção”, no entanto, não havia dinheiro suficiente. “O Governo de Macau reuniu vários capitalistas chineses, fundos que serviram para adquirir a colecção e isso é um facto marcante, porque neste processo, estão envolvidas todas as comunidades.”  

O Museu Luís de Camões encerrou em 1989, por ocasião da venda do actual edifício da Fundação Oriente. “O museu ficou sem espaço onde se instalar, e não mais foi vista a colecção, data em que é inaugurado o Museu de Arte de Macau, que sendo uma nova instituição, herda todo o espólio.” 


Lu Yu a tomar chá Autoria de Pan Yushu Início do século XX

“Segundo a tradição, o chá foi inventado por Lu Yu, no período Tang (618 – 906 d.C.). A primeira cerimónia do chá, dizem os taoistas, é a oferenda da taça por Hin-Hi a Lao Tze, que ia entregar-lhe o Tao-te King. O costume do chá, dizem os adeptos de Zen, nasceu das pálpebras de Bodhidharma, que é outra das figuras muito representadas na cerâmica de Shiwan, que as cortou e lançou para longe para impedir que a sonolência se apoderasse dele durante a meditação. As pálpebras caem mais adiante e delas nasce a planta do chá. É por isso que o chá é utilizado pelos monges com a mesma finalidade: mantê-los acordados”, conforme explicam documentos do Museu de Arte de Macau. 

“Se a cerimónia do chá tem todas as aparências de um rito de comunhão que foi visando atenuar a rudeza dos costumes, disciplinar as paixões, ultrapassar os antagonismos guerreiros, e de estabelecer a paz, a sua característica principal é a do despojamento do acto, que visa, acima de tudo, o despojamento da individualidade. Como em todas as artes do Zen o objectivo é que o acto não seja realizado pelo ego, mas pela natureza pura ou pela vacuidade. O chá é, finalmente, o símbolo da essência de que faz parte o si mesmo, mas esta participação não é o vazio do sono, é a vigília intensa e activa no silêncio contemplativo.”  


Pan Yushu: o artista que fazia rostos ocidentais
Pan Yushu: o artista que fazia rostos ocidentais

Pan Yushu é um dos mais afamados artistas da cerâmica de Shiwan, no entanto, pouco se sabe da sua vida, dos seus antepassados ou da sua formação. Sabe-se que viveu na viragem do século XIX para o século XX, sendo desconhecida a data do seu nascimento e terá morrido em 1935. O seu nome era Pan e o seu estilo Yushu, tendo adoptado esse nome artístico.  

Ainda criança foi com o pai e com o irmão para Foshan, importante centro artístico e de artesanato na época, com o objectivo de se dedicarem a fazer estatuetas femininas vestidas de seda. Mais tarde, acabariam por se dedicar à cerâmica de Shiwan. Pan Yushu iniciou-se nesta arte com um dos artistas mais famosos da época: Chen Weyan. Beneficiou ainda do estudo de obras de pintura tradicional chinesa. 

Há controvérsia entre investigadores sobre a possibilidade de Pan Yushu ter ou não estudado no Ocidente, nomeadamente, em França. Durante a I Guerra Mundial, o artista teria ido com o exército do país europeu, justificando as técnicas ocidentes no seu trabalho e no seu estilo, nomeadamente, a preocupação pelo rigor das proporções anatómicas. 

Tinha um estilo muito próprio, que se caracteriza, fundamentalmente, por uma profunda expressividade dramática das peças, uma certa verticalidade, linhas estruturais rígidas, fortes e rectas, uma volumetria cúbica, e zonas corporais bem modeladas. Os panejamentos caem de forma natural e os rostos executados com grande mestria: rugas, olhos, cabelos e os semblantes das obras é sempre ocidental. 

As obras de sua autoria estão marcadas com um selo quadrado, com caracteres que significam “feito por Pan Yushu”. O artista representa o expoente máximo da produção de cerâmica típica de Shiwan. 


Onde fica Shiwan? 

Shiwan é uma pequena localidade que se situada dentro da cidade de Foshan, a capital da cerâmica chinesa, a cerca de 100 quilómetros de Macau. Faz parte da Província de Guangdong. Nesta região existem dezenas de fábricas de cerâmica de diferentes estilos, onde se pode também ver os artesãos a trabalhar.  

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