Quarta-feira, Dezembro 2, 2020
Inicio Macau O novo visitante de Macau

O novo visitante de Macau

Turismo em Macau

Texto Bruna Pickler

A esmagadora maioria dos visitantes que chega a Macau vem do Interior do País, seguidos de Hong Kong e Taiwan. Mais de 70 por cento têm entre 16 e 35 anos e são funcionários administrativos ou trabalham por conta própria. Combinando estes dados, o perfil do visitante da RAEM está traçado para o futuro: a região está a atrair cada vez mais jovens e profissionais com mobilidade, maioritariamente do Interior do País, que procuram actividades de lazer especialmente focadas na aquisição de produtos, gastronomia e cultura, passando também pelas ofertas diversificadas dos hotéis e resorts integrados. 

As conclusões são reveladas por Leonardo Dioko, director do Centro de Investigação de Turismo do Instituto de Formação Turística (IFT), que conduz, desde 2009, um estudo anual sobre o perfil do visitante que chega à RAEM.  

Em entrevista à MACAU, o investigador explicou como são formulados os questionários e partilhou os dados mais recentes, referentes ao primeiro semestre de 2018. Na abordagem aos visitantes, a primeira questão colocada é sobre o propósito da visita, se em lazer, para visitar família e amigos ou para negócios. “O lazer e férias é o mais mencionado, o que é encorajador, já que Macau tem como objectivo a longo prazo tornar-se um centro mundial de turismo e lazer. No entanto, os resultados também mostram que Macau ainda não é um destino de topo em termos de turismo de negócios.” 

Outra das questões prende-se com as expectativas dos visitantes quanto às actividades a desenvolver durante a estadia. “Gastronomia e compras são as respostas mais mencionadas. É curioso porque, desde que Macau foi distinguida como cidade gastronómica pela UNESCO, mais visitantes têm mencionado a gastronomia, isto desde 2017.”  

A distinção parece estar a cumprir o propósito de chamar a atenção para este tipo de oferta na região. “De facto, é a segunda actividade mais atractiva para os visitantes, depois das compras, para quem vem em lazer. Os dados mostram apenas o panorama da primeira metade de 2018, mas de acordo com o estudo de perfil do visitante, depois desta designação da UNESCO, em Novembro de 2017, a percentagem de visitantes que consideram a gastronomia a maior atracção de Macau passou de seis por cento em 2017, para 29,2 por cento nestes primeiros seis meses de 2018”, indicou Leonardo Dioko. 

Ainda assim, o património histórico e as artes também ocupam uma parcela importante, bem como os resorts integrados, hotéis e casinos. “No entanto, o jogo é mencionado em apenas seis por cento dos questionários”, sublinha. 

 Turismo em Macau

O que mudou 

Dados da Direcção dos Serviços de Estatística e Censos (DSEC), mostram que o gasto médio em compras na RAEM de cada turista que chega do Interior do País ronda as 1200 patacas. Mas, em termos de gastos em alojamento e comida e bebida, são os visitantes de Singapura que estão no topo da lista. Uma média de 782 patacas por visitante, ainda que, na generalidade, “os visitantes asiáticos gastem mais em alojamento e restauração do que visitantes de outras regiões”, sublinhou o director do Centro de Investigação de Turismo. 

Sobre a ideia de que há mais homens do que mulheres a visitarem a RAEM, Leonardo Dioko considera que se trata de “um erro de percepção, provavelmente alimentado pelo panorama do turismo anterior à liberalização do jogo”, explicando que “Macau não era tão conhecido pelo património cultural ou como destino gastronómico, e muitos dos visitantes regulares eram, presumivelmente, jogadores”. 

O director do centro do IFT acrescenta que “poucos dados existem que sugiram que mais homens do que mulheres visitam a RAEM”, pelo contrário. “No nosso estudo fica demonstrado que, na verdade, mais mulheres parecem estar a visitar Macau.” 

Independentemente do género, o que não parece provável é que a maioria dos que entra na RAEM como visitantes deixem de vir do Interior do País. “É muito difícil esse cenário e a história pode servir como prova. Nos anos 1980, quando os japoneses eram os turistas mais comuns no panorama asiático, houve uma tentativa de aprendizagem da língua, em especial os serviços de guias, mas também alguns hotéis apostaram na culinária japonesa e em chaleiras eléctricas e chás de ervas entre as ofertas dos quartos. Agora que os visitantes chineses são os dominantes na Ásia, as mesmas mudanças estão a influenciar o turismo e a indústria hoteleira em todo o mundo.” 

Apesar do crescente interesse em Macau e do ligeiro aumento da estadia média dos visitantes (passou de 1,1 dia em 2015 para 1,2 dia em 2017), Leonardo Dioko não prevê que o número de excursionistas – que no ano passado chegou aos 17,2 milhões – diminua. “É altamente improvável porque Macau continua a ser um destino que fica a curta distância e a maioria atravessa a fronteira terrestre. Uma maior integração e mobilidade nos transportes na zona da Grande Baía vai garantir ainda mais estas visitas diárias, e os excursionistas vão-se manter como um segmento substancial do tipo de visitantes de Macau.”  

 

Turismo em Macau

Diversificação da origem 

Sobre a origem dos mais de 32 milhões de visitantes registados em 2017, o investigador reconhece os esforços da Direcção dos Serviços de Turismo (DST) para promover Macau como destino em mercados diferentes do Interior do País. “Têm aplicado tempo e recursos consideráveis para atrair turistas do Sudeste Asiático, norte da Ásia e sul, em especial, o mercado indiano. Ainda que haja mais visitantes de outras proveniências, a proporção do total que escolhe Macau é ainda pequena e mitigada pela proximidade com Hong Kong, Guangdong ou Taiwan. Macau tem muitas atracções para os turistas de fora da China, mas a concorrência é forte com tantos outros destinos.” 

Leonardo Dioko acredita que “o desafio está em melhorar a relação preço/qualidade para os visitantes de fora da China e fazer da sua experiência mais única e valiosa. De outra forma, vão preferir visitar a Tailândia, Singapura, Coreia do Sul ou até o Japão.” 

Apesar dos “bons resultados” da promoção levada a cabo pelo Turismo de Macau, em especial, como destino cultural e gastronómico, há uma componente que, na opinião do director do centro do IFT, tem de ser melhorada. “O sector das convenções e exposições tem de ser uma aposta maior. Precisamos de melhorar as capacidades neste sector e podemos reforçar a nossa posição também como destino de entretenimento.” 

Outro dos aspectos estudados prende-se com a opção de viagem em grupo ou sozinho, muitas vezes associada ao sector do jogo. “Os casinos, por si só, não têm um efeito diferenciador no perfil do visitante a solo ou em grupo, mas o oposto não é verdadeiro. Por exemplo, há diferenças entre a probabilidade de um visitante que está sozinho ir jogar num casino e um que esteja integrado em grupo.” Acrescenta que este comportamento explica a opção dentro dos casinos destinadas a estes clientes, “a começar pelas máquinas de slot, que se destinam a um só jogador, ou mesmo o facto de muitos bares e restaurantes terem lugares sentados ao balcão”, explicou. 

Apesar do número já elevado de visitantes, este vai continuar a aumentar. “O factor mais decisivo para o esquema de vistos individuais é a contínua expansão da classe média no Interior do País e o seu cada vez maior gosto por experiências de luxo.  

Por isso, enquanto a economia se continuar a desenvolver e houver mais dinheiro à disposição e mais mobilidade e transportes, Macau pode receber mais visitantes neste âmbito dos vistos individuais.”  

Leonardo Dioko lembra ainda que a dispersão anual de feriados oficiais chineses “também pode ser um factor importante para que mais visitantes cheguem a Macau através deste esquema”. 

 Macau Tower

Impacto para os residentes 

O sector do turismo em expansão é benéfico para a região, no entanto, o elevado fluxo de turistas em Macau traz alguns desafios. “Na área do trânsito e dos transportes públicos, receio que as probabilidades estejam contra o sector do turismo. É difícil gerir o problema sem adoptar medidas às vezes drásticas, em linha com o que fazem outras cidades. Mas ao contrário de outros destinos turísticos que tiveram de fechar algumas das suas atracções turísticas, isso não pode ser feito em Macau.” 

Há, no entanto, algumas estratégias que podem resultar em Macau. “Por exemplo, a contenção geográfica. Temos o caso do Cotai, que é importante porque concentra o desenvolvimento turístico apenas naquela área. Outra estratégia pode passar pela dispersão de turistas em várias áreas, o que pode resultar, mas pode interferir com a vida dos residentes”, concluindo que, “honestamente, há poucas soluções em que o turismo não tenha impacto nos residentes, porque o contexto de Macau é o de uma área urbana densamente povoada”. 

O nível de satisfação dos residentes mostra algumas áreas mais sensíveis. “De acordo com os dados mais recentes, as maiores preocupações são as condições do tráfego, as atracções turísticas e as enchentes na cidade.” Já os turistas, esses têm mostrado índices de satisfação crescentes desde 2016. “O aspecto que tem agradado mais é a passagem nas fronteiras, o maior número de postos e os canais electrónicos têm trazido efeitos positivos. Outro sector que está a melhorar do ponto de vista dos visitantes é o dos transportes, devido às rotas dos shuttles dos hotéis, o que lhes permite viajar convenientemente. O sector com piores indicações é o dos guias a operadores turísticos.”  

Macau

Chineses lideram turismo mundial 

Os turistas chineses gastaram 221 mil milhões de euros no estrangeiro no ano passado, o que equivale um quinto dos gastos mundiais em serviços de turismo, de acordo com dados divulgados em Agosto pela Organização Mundial do Turismo. Os segmentos de nicho, ou seja, experiências únicas e exclusivas, tais como degustação de uísque ou assistir a Aurora Boreal, foram aqueles que concentraram a maior parte dos gastos. Só em 2017, registou-se um fluxo de 129 milhões de chineses a viajarem para fora da China, um aumento de 5,7 por cento em comparação com 2016. Além de Macau e de Hong Kong, as outras escolhas do turista chinês têm-se alargado para países na América do Norte e na Europa. Portugal também tem beneficiado deste boom do turismo chinês, tendo registado um aumento de 40,7 por cento na entrada de visitantes oriundos da China, ou seja, cerca de 257 mil pessoas, conforme dados do Instituto Nacional de Estatísticas português.

Macau com maiores receitas  

O último relatório da Organização Mundial do Turismo (OMT), divulgado em Agosto deste ano, colocava Macau no nono lugar mundial dos países e regiões com mais receitas de turistas internacionais no ano passado, uma subida de três lugares quando comparado com o ano anterior, num ranking liderado pelos Estados Unidos. O aumento é de 17,6 por cento, mais concretamente: os turistas internacionais gastaram 35 mil milhões de dólares norte-americanos em Macau durante o ano de 2017. Também no ano passado, de acordo com dados oficiais, Macau recebeu um número recorde de 32,6 milhões de visitantes, mas apenas 3,1 milhões foram turistas internacionais. 

ARTIGO