Quinta-feira, Julho 2, 2020
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O super-tufão que pôs Macau à prova

Texto Bruna Pickler 

Às 11 horas do dia 15 de Setembro, a Direcção dos Serviços Meteorológicos e Geofísicos da RAEM (SMG) hasteava o sinal 1 de tempestade em consequência da aproximação do super tufão Mangkhut, que um dia antes havia deixado um forte rasto de destruição. Depois da passagem para o sinal 3, os ventos intensificaram-se e, às 21 horas, ouviu-se por todo o território as sirenes que alertavam a população para a evacuação das zonas baixas da cidade devido ao perigo eminente de fortes inundações, com o sinal vermelho de ‘storm surge’ (maré de tempestade).

O Centro de Operações da Protecção Civil (COPC) entrou então em funcionamento, e conseguiu retirar um total de 5650 residentes das zonas baixas. Os 16 centros de abrigo espalhados pela cidade estavam preparados para receber um total de 24 mil pessoas, mas apenas 1346 pessoas acorreram aos locais.

Na madrugada de sábado para domingo, quando o super tufão estava a cerca de 400 quilómetros de Macau, os SMG elevaram o sinal para 8, tendo sido substituído pelo sinal 9 na manhã de domingo. Com o vento a intensificar-se, acompanhado de fortes rajadas, o sinal 10 entrou em vigor às 11 horas de domingo, com a tempestade a cerca de 180 quilómetros, prevendo-se que cruzaria o ponto mais próximo do território num raio de 70 quilómetros. Ao meio-dia, o nível das águas costeiras subiu rapidamente e foi lançado o aviso preto de ‘storm surge’. O vento que se fazia sentir tinha uma velocidade entre 88 e 118 quilómetros por hora. No Porto Interior, a água chegou a 1,90 metro acima do nível do pavimento. Apenas na noite de domingo, às 20 horas, o sinal foi reduzido para o 8. Ao final da tarde de segunda-feira, dia 17 de Setembro, foram suspensos todos os sinais de alerta de tempestade tropical, num momento em que o tufão Mangkhut já se encontrava a cerca de 740 quilómetros de Macau.

Estava assim registado um novo recorde, com o Mangkhut a forçar o período mais longo de sinal 10 desde 1968 ao ter ficado içado durante nove horas. Foi ainda também mais forte do que o Hato em termos de ventos máximos sustentados que atingiram 173 quilómetros por hora contra os 165 quilómetros por hora do Hato. Já as rajadas máximas foram menos violentas (188 quilómetros por hora) do que as do Hato, que atingiram 217 quilómetros por hora. Ao nível das inundações, a maré alcançou 5,5 metros contra os 5,58 metros durante o tufão de Agosto de 2017.

O COPC manteve-se em actividade por 46 horas para responder ao tufão. Entretanto, pelas 19 horas de 17 de Setembro, o COPC regressou ao funcionamento

normal, referiu Ma Io Kun, comandante-geral dos Serviços de Polícia Unitários, uma das nove corporações e serviços de segurança que integram a estrutura da protecção civil da RAEM, composta também por 13 serviços públicos e nove organismos privados. Durante a passagem do tufão, registaram-se 598 incidentes (a maioria devido à queda de reclamos, toldos, janelas e outros objectos) e 40 feridos, grande parte deles ligeiros.

Também os Serviços de Saúde trabalharam a todo o gás, tendo mobilizado 580 profissionais que, durante 26 horas, providenciaram atendimento médico de emergência, prestação de cuidados normais de saúde (incluindo o Posto de Urgência das Ilhas) e internamento hospitalar.

Na segunda-feira, como forma de facilitar os trabalhos de limpeza da cidade, as aulas de todos os níveis do ensino foram canceladas e os funcionários públicos, com a excepção daqueles ligados aos serviços essenciais, ficaram dispensados do trabalho. Também no dia 17 deu-se a reabertura das pontes que ligam a península à ilha da Taipa e o reinício das ligações marítimas e aéreas.

Executivo satisfeito

O Chefe do Executivo da RAEM, Chui Sai On, elogiou os trabalhos de prevenção e de resposta ao tufão Mangkhut e definiu novas prioridades, nomeadamente o reforço das infra-estruturas básicas. “Todos os membros da estrutura [civil] mostraram o seu profissionalismo. Estávamos preparados para, em conjunto, combater esta tempestade”, assinalou Chui Sai On, acrescentando que “a própria consciência da população subiu”.

Durante uma reunião no Centro de Operações da Protecção Civil numa espécie de balanço pós-tufão, o líder do Governo realçou que o mais importante foi a “ausência de vítimas mortais”. “Não podemos reverter os danos provocados pelas calamidades naturais, mas podemos envidar todos os esforços para que os danos humanos possam ser reduzidos”, frisou. Neste sentido, e apesar de assinalar um balanço positivo na resposta ao último tufão, Chui Sai On garantiu que há, ainda, um longo caminho a percorrer. “Temos de reforçar as infra-estruturas e acelerar, com o Interior do País, a concretização do plano da construção da barragem de marés, além de intensificar a formação da própria equipa nesta área”, disse, definindo assim três prioridades.

O secretário para a Segurança, Wong Sio Chak, defendeu que este ano foi possível minimizar perdas e prejuízos sobretudo devido à cooperação entre as entidades ligadas à protecção civil e à consciência dos residentes, já que “a maioria dos cidadãos obedeceu às ordens de evacuação”.

Wong Sio Chak disse que “os resultados relativamente satisfatórios (…) são consequência do contributo dos diversos serviços do Governo” de Macau e do “aumento de consciência de protecção civil de toda a sociedade”. Wong salientou ainda o facto de as operadoras de jogo terem suspendido a sua actividade no momento crítico da passagem do tufão, o que permitiu “garantir a segurança de vida dos funcionários” e “evitar a pressão de trabalho das forças policiais”.

Durante a reunião, foram também apresentadas sugestões pelos membros da estrutura da protecção civil e por outros serviços com vista a consolidar os planos de resposta às calamidades naturais. “No último ano, o Governo esteve a preparar todo este trabalho para responder às calamidades naturais e para melhorar a capacidade

de redução dos efeitos das calamidades. Foi uma experiência que nós adquirimos, que não foi fácil, e que é preciosa, mas também temos muito trabalho para aperfeiçoar”, sublinhou Chui Sai On.

 

Recuperação em tempo recorde

Os elementos das forças de segurança e o Instituto para os Assuntos Cívicos e Municipais (IACM) deram início à limpeza das ruas da cidade por volta das 7 horas do dia 17 (segunda-feira), tendo desobstruído, em tempo recorde, as principais artérias de circulação da cidade, como mencionou o comandante-geral dos Serviços de Polícia Unitários e comandante de acção conjunta da estrutura de protecção civil, Ma Io Kun.

O presidente do IACM, José Tavares, apontou que entre as 4 horas do dia 17 e as 11 horas do dia 18 foram recolhidas 2545 toneladas de lixo, o que corresponde a um aumento de 20 por cento em comparação com o mesmo período de tempo das limpezas do tufão Hato. Para Tavares, houve “uma maior eficácia da recolha e a frequência de circulação dos camiões”.

O IACM informou ainda que, durante o tufão, registou-se a quebra de 2200 ramos de árvores e a queda de 1500 árvores, tendo sido recolhido um total de seis toneladas de resíduos naturais. No que se refere à segurança alimentar foram efectuadas nos dias seguintes mais de 450 inspecções e destruídas cerca de oito toneladas de alimentos impróprios para consumo.

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