Quinta-feira, Julho 9, 2020
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Do Made in ao Designed in Macau

Texto Marco Carvalho 

“Havia uma companhia em Macau que possuía a quota máxima de exportação que era permitida em todo o mundo”, lembra José Tang Kuan Meng. “Essa empresa era a que mais calças de ganga podia exportar a título individual para França. Por aqui já consegue ter uma ideia da importância que a indústria do vestuário tinha para Macau”, salienta o empresário.

Presidente da Agência Comercial Carmen e vice-presidente da Associação Industrial de Macau, José Tang Kuan Meng vai pontuando a conversa de quando em quando com alusões à vitalidade da indústria têxtil. Imprime uma expressividade improvável à voz quando evoca os 650 trabalhadores a que chegou a dar emprego nas unidades fabris que possuía e desfia as grandes marcas para as quais as empresas locais trabalhavam. O timbre esmorece quando fala da dezena e meia de funcionários que mantém a trabalhar para si “por razões sentimentais” e na irrecuperável implosão de um sector que, no seu auge, chegou a dar sustento a 45 mil pessoas.

“Nos anos de 1980, tínhamos entre 1000 e 1200 fábricas em Macau. Tratava-se de pequenos fabricantes, com dez ou vinte máquinas. Na altura, o sector empregava cerca de 45 mil trabalhadores. Mas à época a população não era tão grande como é hoje. Éramos uns 400 mil”, explica o empresário, procurando colocar a dimensão do sector em perspectiva.

Durante quase 40 anos, entre a segunda metade da década de 1960 e o ano de 2005, a indústria têxtil e do vestuário era uma das forças motrizes da economia de Macau, contribuindo de forma decisiva não só para a modernização do tecido económico, mas também para a internacionalização das perspectivas económicas.

Durante as seis primeiras décadas do século XX, o tecido industrial de Macau era constituído por pequenas e médias unidades de produção de cariz familiar e matriz artesanal que se distinguiam na produção de bens de baixo valor agregado como os fósforos, os panchões e o incenso.

Em 1958, essas três indústrias eram responsáveis por cerca de 40 por cento das exportações. A pesca contribuía com mais de um terço dos produtos que Macau enviava para o estrangeiro – sobretudo para Hong Kong e, em menor medida, para o Interior da China – e a construção naval adquiria menor destaque, com a venda de algumas embarcações às regiões vizinhas.

É de Hong Kong que chega então o maior empurrão ao desenvolvimento de uma economia moderna e competitiva em Macau. Na década de 1950 e nos anos iniciais do decénio que se seguiu, Hong Kong era um dos maiores exportadores de vestuário da Ásia e abrigava a mais bem-sucedida indústria têxtil do continente asiático. Mas, com o estrangulamento das condições de comercialização dos têxteis produzidos em Hong Kong, Macau surgiu como uma opção natural e viável. “Os principais fabricantes têxteis de Hong Kong voltaram-se para Macau. Representantes destas empresas começaram a vir a Macau com o objectivo de estabelecerem parcerias com os empresários locais e montaram fábricas de grande dimensão para operar. Muitos deles investiram grandes quantias de dinheiro sem exigirem nada em troca, porque tinham bem noção do retorno que os esperava”, recorda José Tang.

Durante a década de 1960, a indústria têxtil e do vestuário de Macau cresceu a um ritmo médio anual de cerca de 50 por cento, beneficiando quer do aumento progressivo do investimento de Hong Kong, quer da negociação do chamado “Sistema Generalizado de Preferências” (GSP, a partir da sigla em inglês para Generalized System of Preferences), um regime comercial que rebatia o princípio de “nação mais favorecida” e obrigava os países signatários do então Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio (GATT) a tratar de forma igualitária os países e regiões subscritoras com menor poderio económico. Entre outras vantagens, os estatutos do GSP garantia tarifas preferenciais às economias em desenvolvimento nas quais o peso das importações era substancialmente superior ao das exportações.

Os anos de ouro do têxtil

Um aspecto determinante para a indústria das exportações de Macau foi o facto da economia de Hong Kong ter crescido a um ponto que o “Sistema Generalizado de Preferências” deixou de ser aplicável. Por isso, das unidades de produção que começaram a emergir em Macau, a maior parte pertencia a empreendedores de Hong Kong.

Em meados da década de 1970, o “Sistema Generalizado de Preferências” evolui para um mecanismo de quotas com regras bem definidas. Interessadas em proteger o seu sector manufactureiro e incapazes de concorrer com os salários praticados pelos países em desenvolvimento, os Estados Unidos e as economias europeias patrocinaram a criação de um sistema de quotas.

Com um volume de exportações relativamente incipiente, a economia de Macau foi amplamente beneficiada. “Hong Kong tinha uma quota muito limitada. Macau, como começou a exportar têxteis muito mais tarde, acabou por ser beneficiada por este sistema. O próprio empresariado de Hong Kong mobilizou-se para ajudar Macau a capturar estas quotas”, recorda José Tang Kuan Meng.

Unidades fabris de todos os tamanhos e feitios proliferaram a um ritmo estonteante. “Os empresários de Macau foram suficientemente inteligentes para exportar o mais possível nos anos que antecederam a entrada em vigor do sistema de quotas. Foi essa performance que veio a definir depois os limites das quotas de exportação que foram consignadas ao território”, explica o empresário.

A Nam Kwong Corporation estimava em 1985 que nos 20 anos anteriores Macau teria absorvido investimentos estrangeiros no valor de dois mil milhões de patacas. Deste montante, cerca de 70 por cento teve origem em Hong Kong, sublinhava na altura a empresa. Uma outra fonte – o Almanaque da Associação Industrial de Macau relativo ao ano de 1986 – sublinhava que 60 por cento do investimento no sector industrial canalizado para Macau era oriundo da região vizinha e, em 1994, num período em que a indústria têxtil já tinha perdido parte do fôlego que apresentara durante a década de 1980, o académico Richard Louis Edmonds escrevia que apenas um quarto do investimento feito em Macau no início dos anos de 1990 tinha origem local.

O peso dos têxteis e do vestuário nas vendas de Macau ao estrangeiro passou dos 58,2 por cento registados em 1970 para quase 90 por cento em 1979. Tidas na globalidade, as exportações cresceram à média anual de 27 por cento ao longo da década de 1970, numa tendência que se prolongou pela década de 1980 e pelos primeiros anos da década de 1990, ainda que com níveis de crescimento mais moderados. “O sistema de quotas perdurou por 40 anos e foi abolido apenas em 2005. Macau teve a felicidade de, durante quatro décadas, poder contar com uma indústria têxtil e manufactureira muito próspera”, considera Tang Kuan Meng.

Do 80 ao oito

“Estou em Macau há 14 anos e desde que cheguei até agora sinto que houve uma evolução enorme no panorama local da moda.” O veredicto é de Clara Brito. Quando a designer de moda portuguesa aportou a Macau a indústria têxtil local resvalava lentamente. Da RAEM saíam ainda peças para grandes marcas internacionais, embora grande parte das unidades fabris já estivessem encerradas.

“Neste momento devemos ter entre 70 a 80 empresas registadas na área dos produtos têxteis. Estas fábricas já não estão, no entanto, em operação. As licenças ainda estão válidas, ainda pertencem aos proprietários, mas não há qualquer produção. As fábricas que, de facto, produzem são muito pequenas e neste momento não serão mais do que dez”, acrescenta José Tang Kuan Meng.

Para os designers de moda de Macau, o desaparecimento progressivo das fábricas de confecções têxteis foi ao mesmo tempo uma bênção e uma maldição. Se o encerramento deixou a indústria da moda sem um precioso suporte técnico, obrigou por outro lado os criadores e os criativos locais a optar por novas abordagens ao mercado, como sintetiza Clara Brito. “O percurso natural é deixar de ser a fábrica e, em alternativa, criar empresas que conseguem criar valor, que se conseguem diferenciar e que, de alguma maneira, se conseguem posicionar de forma diferente no mercado.”

Em 2006, quando Clara Brito cria a marca Lines Lab em parceria com Manuel Correia da Silva, a indústria têxtil local era já apenas uma sombra do que fora durante a década de 1980. O sector da moda foi obrigado a autonomizar-se, a tornar-se criativo e a criar sinergias com parceiros de outras regiões, num processo que, no entender de Clara Brito, está ainda longe de terminado. “Quem envereda por esta área em Macau pensa sempre, de uma forma ou de outra, em alguma internacionalização”, admite a estilista. “Temos um mercado local de 600 mil habitantes e aqueles que consomem design – e, sobretudo, o design local – são poucos. Há um caminho longo a ser feito. É um extenso caminho quer ao nível da iniciativa privada, quer dos próprios designers e das próprias empresas.”

Sociedade pós-industrial por excelência, a RAEM há muito que deixou de ter capacidade para competir de igual para igual com países com custos de produção mais baixos. Essa é uma das razões pelas quais Clara Brito defende que, se a indústria da moda quer ser bem-sucedida, é necessário demarcar-se do passado e apostar numa mudança radical de paradigma que passa sobretudo por uma aposta no consumo interno. “Já existem certas cidades onde determinados tipos de consumidores estão a mudar os comportamentos. Começam a optar por uma relação mais exclusiva, a valorizar mais uma certa identidade local, a privilegiar o designer que tem o seu atelier e que aposta em peças exclusivas”, adianta a fundadora da Lines Lab. “Se formos a cidades como Shenzhen, Xangai ou mesmo Hong Kong isso já está a acontecer: a transformação está a passar pela substituição das importações e pela valorização e pelo consumo do interno, dos criadores locais. O caminho passa por aí, por valorizar cada vez mais o Designed in Macau, sintetiza Clara Brito.

Na senda do futuro

“A sustentabilidade é algo muito importante. Como designer de moda, sinto necessidade de monitorizar por inteiro a minha rede de abastecedores com o objectivo de garantir que as pessoas com quem me relaciono profissionalmente operam os seus negócios de forma ética.”

Depois ter estudado e vivido durante mais de uma década em Los Angeles, na Califórnia, e de ter trabalhado durante cinco anos para uma das maiores empresas mundiais de confecção de uniformes, Nicole Tam regressou a Macau com o objectivo de aplicar localmente alguns dos conceitos que absorveu ao longo dos anos em que exerceu o cargo de designer ao serviço da Cintas Corporation.

Em 2015, fundou a ANtitled, uma empresa de consultoria no domínio da moda que conseguiu convencer quatro das concessionárias de jogo a renovar a imagem corporativa dos seus funcionários. Aspectos como a defesa do meio ambiente, a eficiência energética, o conforto dos funcionários e a promoção de mecanismos de inclusão dos trabalhadores são aspectos centrais da identidade das empresas. Nicole Tam procurou acrescentar ao rol uma dimensão ética que passa, muitas vezes, pelo desenvolvimento dos próprios materiais utilizados na confecção dos uniformes.

“O fundamental é pensar que valores se quer transmitir a quem vai, em última instância, utilizar a roupa e perceber que impacto se obteve com as decisões tomadas”, sublinha a directora criativa da ANTitled. “Especializámo-nos na prestação de serviços de consultoria no campo do design de vestuário profissional e de soluções éticas customizadas.” Por isso, Nicole assume que o segredo do negócio está em oferecer um serviço o mais completo possível. “Concebemos a imagem corporativa de acordo com as linhas definidas pelas empresas, seleccionámos os materiais que melhor se adequam e escolhemos o fabricante que melhores garantias oferece em relação ao fabrico do produto final”, complementa a designer.

Com a ANtitled, Nicole Tam alcançou o que a velha guarda da indústria têxtil nunca conseguiu fazer: criar sinergias com o sector turístico. Esta pequena empresa, assegura Nicole Tam, não é exemplo único no que toca à criação de sinergias com as empresas do principal sector económico da RAEM. “Já há muitos empresários e criadores locais que prestam os chamados serviços business to business – contratualizados directamente entre as empresas – às grandes corporações com interesses em Macau”, assegura a consultora. “Estas empresas só têm verdadeiramente impacto em Macau se forem capazes de apoiar talentos locais e de trabalhar com as pequenas e médias empresas, de forma a criar oportunidades de negócio.”

Para o interesse das concessionárias locais terá contribuído em muito a valorização do capital humano ligado ao sector da moda. Clara Brito é licenciada em design de equipamento pela Escola de Belas Artes de Lisboa e fez parte do curso na Escola de Arquitectura e Design do Instituto Politécnico de Milão. Nicole Tam completou este ano um mestrado em Gestão de Moda Global, ministrado em parceria pelo Instituto Politécnico de Hong Kong, pelo Instituto de Tecnologia da Moda de Nova Iorque e pelo Instituto Francês da Moda.

Se a ascensão da indústria têxtil de Macau na década de 1970 se ficou a dever, sobretudo, à injecção de capital oriundo de Hong Kong, a valorização da indústria da moda e do conceito de Designed in Macau que lhe está inerente tem por base uma abordagem cada vez mais fundamentada naquilo que são as necessidades e as potencialidades de Macau.

No âmbito do mestrado que completou recentemente, Nicole Tam entrevistou algumas das principais referências da indústria da moda a nível mundial, num processo com óbvios dividendos para Macau. “Tive a oportunidade de conhecer o Karl Lagerfeld, o Didier Grumbach [antigo presidente da Federação Francesa de Costura], o Guillaume de Seynes [vice-presidente Executivo da Hermès] e vários outros gestores e criadores de topo no universo da moda durante os seminários em que participei em Paris e em Nova Iorque no âmbito da tese de mestrado”, revela a directora criativa da ANtitled. “Todas estas experiências, o conhecimento que adquiri sobre grandes marcas globais e sobre a tecnologia a que recorrem acabaram por ser fundamentais na medida em que me ajudaram a definir a minha estratégia de negócio e a conceber as soluções que pretendo apresentar aos meus clientes.”

Sem a projecção económica e sem a importância estrutural que a indústria têxtil teve na cidade durante quase 40 anos, o sector da moda começa, no entanto, a afirmar-se como uma actividade polarizadora para profissionais de outros domínios. “Sempre que quero organizar uma sessão fotográfica, há pessoas de que me socorro em Macau e a verdade é que não falta talento”, assegura Nicole Tam.

Clara Brito afina pelo mesmo diapasão. A fundadora da Lines Lab e coordenadora da plataforma Munhub [ver caixa] considera que a RAEM está cada vez mais capacitada para organizar eventos promocionais e desfiles de moda sem depender de terceiros. “Isso já não é um problema. E mesmo que não se encontre alguma coisa em Macau, é sempre possível importar”, sublinha a criadora. “Quem organiza esses eventos deve, no entanto, fomentar, muito mais o talento local, porque começa a haver empresas que estão preparadas para assegurar a produção de eventos que mobilizam modelos, maquilhadores e não é necessário inflacionar sempre tudo, pagar cinco ou seis vezes mais a uma empresa de Hong Kong quando em Macau já começa a existir competências a esse nível. Não é de todo necessário.”

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