Domingo, Setembro 27, 2020
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Triunfos fora de casa

Texto Marco Carvalho 

Um privilegia cores fortes e notórias, o outro a ideia de lassidão e o conforto que a ela está associado. Um cria roupa para quem se quer destacar e diferenciar da multidão, o outro para quem se sente confiante com o corpo que tem e não procura na moda e na indumentária formas de compensar receios e inseguranças. Um cresceu a sonhar com brocados e lantejoulas, passarelas e manequins e o outro desaguou no mundo da moda quase por traquinagem do destino: depois de ter passado parte da infância rodeado de tecidos, de máquinas de tecelagem e de linhas de montagem que “cuspiam” milhares de peças em tudo iguais às demais, apercebeu-se que a moda talvez pudesse ter algo de mais criativo.

Nuno Lopes de Oliveira e Steven Tai são os criadores de moda que mais longe levam o nome de Macau a nível internacional. Apesar de privilegiarem abordagens estéticas muito distintas, uma característica há que os aproxima: ambos têm dado cartas ao longo dos últimos anos nas competitivas passarelas londrinas, onde conquistaram já o estatuto de nomes incontornáveis do panorama da moda britânico.

Com criações que primam pela irreverência, os dois estilistas têm um outro aspecto em comum: o da percepção plena de que no mundo da moda a criatividade não é tudo. Mais do que ser criativo, é importante ter a capacidade de transferir o manancial criativo para mais valias económicas, de transformar uma paixão num negócio e pelo caminho, ajudar o “Made in Macau” a recuperar o prestígio que outrora tinha.

A cidade em que nasceram continua a ser para ambos uma referência e um motivo sempre presente de inspiração, ainda que uma tal influência se espelhe de forma muito distinta nas criações de cada um.

Steven Tai destaca a inspiração que retira da influência visível da cultura portuguesa em Macau e que se reflecte numa paleta cromática em que pontificam cores menos habituais, como o rosa que adorna as paredes e muros do Jardim de São Francisco ou o verde que veste as Casas Museu da Taipa, na zona do Carmo.

Se para Steven Tai, o passado continua a ser um bom conselheiro, para Nuno Lopes de Oliveira a Macau do presente e do futuro – dos reclames luminosos e das fachadas cobertas de luz. Foi esta Macau, a dos possibilidades infinitas, que mais influenciou o designer de moda macaense e é a ela que Nuno Lopes de Oliveira regressa sempre que cria na sua cor de eleição: o dourado.

“Femininas, confiantes,
inconvencionais e fluídas”

Em 2013, Steven Tai fundou a grife homónima. A marca distinguiu-se muito rapidamente por uma abordagem ousada e captivante e é dirigida a mulheres que não temem a excentricidade: “A meu ver, a mulheres “steventai” apreciam a qualidade das roupas que vestem e querem também expressar a sua individualidade, ainda que de uma forma não muito vocal”, assume o estilista, de 34 anos.

Tai notabilizou-se por experimentar com técnicas pouco convencionais e por apostar em silhuetas que fogem ao que é considerado a norma nos bastidores do mundo da moda.

Nasceu em Macau no seio de uma família com fortes ligações à indústria têxtil e ao vestuário, à época o sector da actividade económica que mais influência exercia na sociedade do território. “O facto de ter crescido rodeado de roupa desde tenra idade fez-me perceber de forma intrínseca não só o que é necessário para criar uma peça de roupa, mas também para gerir um negócio”, diz Tai, evocando um período da história de Macau do qual pouco mais resta do que memórias e que o levou a enveredar por um caminho de originalidade.

“Penso que ter tido a oportunidade de assistir à produção de centenas ou de milhares de unidades de uma mesma peça de roupa me legou um sentido precioso de escala, tendo contribuído para que eu percebesse o quão ampla e diversa a indústria da moda pode ser”.

Ao celebrarem a ideia de conforto, as colecções criadas por Steven Tai evocam o vestuário de natureza desportiva e o bem-estar a que está normalmente associado. O estilista aposta em peças largas, que se distanciam do conceito primordial de que a roupa se deve adaptar e moldar ao corpo. “As minhas criações são femininas, confiantes, inconvencionais e fluidas e, de certo modo, é assim que vejo também as mulheres que as vestem”, explica o designer.

Conforto e descontracção são duas noções centrais no trabalho desenvolvido por Tai. Os conceitos são depois potenciados ora por tecidos únicos, ora por materiais e técnicas inovadoras que dão azo ao que a imprensa da especialidade definiu como “uma mistura única entre intelecto e inteligência”, entre bem-estar e luxo.

A descontracção e o arrojo associados às suas colecções abriram-lhe as portas dos principais centros mundiais da indústria da moda. A London Fashion Week – Semana da Moda de Londres – é um dos quatro grandes eventos anuais do panorama internacional da moda, mas a antecâmara do maior evento britânico já não é um mundo estranho para o jovem designer. Nascido em Macau, mas criado na cidade canadiana de Vancouver, Tai foi em meados de Setembro um dos grandes destaques do certame não apenas pelas criações que apresentou mas também pela forma como foram apresentadas.

“Por muito que parte do negócio da moda passe por vender uma narrativa, essa narrativa não pode ficar imune a responsabilidades sociais e aos efeitos que pode ter em adolescentes e jovens mulheres”, defendeu.

Esta não foi, no entanto, a primeira vez que o jovem designer assumiu o desafio de abalar desde o seu âmago – a passarela – a indústria da moda. Quando não está a batalhar preconceitos e a desconstruir estereótipos, Tai investe-se a si mesmo da tarefa de abrir novos mundos ao mundo da moda.

Em Fevereiro, o criador uniu esforços com a ILMxLab, a divisão da LucasFilm responsável pelos efeitos especiais nas películas da saga “Guerra das Estrelas”, com o intuito de produzir o primeiro desfile alguma vez organizado em realidade aumentada.

Tai bebeu inspiração em Macau – o próprio convite para a apresentação da colecção era uma colorida réplica de uma nota de 500 patacas – e em aspectos da cultura tradicional do território e o sucesso da aposta foi imediato. Londres rendeu-se à ousadia e ao talento do estilista, com a imprensa a referir-se ao trabalho do jovem designer como “arrebatador”.

A primeira apresentação de moda a combinar realidade aumentada e realidade virtual valeu a Tai referências na imprensa da especialidade como a “Women’s Wear Daily”, a “Vogue International” e o “The Guardian” que destacaram a steventai como a marca a seguir por parte de quem quer conhecer melhor os novos protagonistas e as novas tendências no âmbito da indústria da moda britânica.

A forma como as suas criações foram recebidas ao longo do tempo convenceu-o a consolidar a própria marca. O jovem criador adoptou um modelo de negócio particular, que coloca ênfase na procura. Com cerca de duas dezenas de espaços de exibição no Japão, no Sudeste Asiático, na Europa e no interior da China, Tai recuperou a prática que era comum junto dos alfaiates de outrora e trabalha ao abrigo do modelo “feito por pedido”, o que significa que o produto é produzido apenas depois de um pedido nesse sentido ter sido formulado.

Os espaços que mais têm contribuído para a alavancagem económica da marca “steventai” são as valências que o estilista explora no Japão e em Xangai e que merecem, por isso, uma atenção particular do criador em termos de estratégia de negócios: “Estamos a ultimar a remodelação dos espaços de exposição da “steventai” em Paris, em Xangai e em Tóquio. Estas montras, chamemos-lhes assim, deverão estar concluídas durante o mês de Outubro e eu estou muito entusiasmado com esta perspectiva”, assegurou o criador e empresário.

“Glamorosas, mordazes e sensuais”

Por seu turno, as peças de Nuno Lopes de Oliveira conquistam pela exuberância e por uma energia electrizante. O designer não esconde também a influência que Macau exerceu e continua a exercer sobre a sua forma de estar na moda e sobre o seu processo criativo: “Entendo o facto de ter nascido em Macau como uma grande influência na minha carreira, porque a cidade em que cresci não é esta cidade que hoje conhecemos”, assume. “Quando decidi que queria ser um criador de moda, Macau estava a passar por uma fase de crescimento, com hotéis de grandes dimensões a despontar um pouco por todo o lado. Estava tudo coberto de ouro. Ver a minha Macau desabrochar fez-me perceber que eu próprio não tinha atingido todo o meu potencial. A forma como Macau cresceu é algo que me deixa orgulhoso, que me inspirou e me continua a inspirar”, reconhece Oliveira.

Em 2006, com apenas 15 anos, assumiu a moda como companheira para o percurso de vida e rumou a Londres, onde se licenciou em Design de Moda pela Universidade de Middlesex. Na capital britânica cruzou-se com outras influências mas em momento algum deixou de ter Macau como referencial e principal motivo de inspiração.

Os dourados resplandecentes da sua cidade foram a imagem de marca em 2015, no desfile de final de curso que o catapultou para a primeira linha de uma nova geração de talentosos e promissores criadores britânicos e continuam a sê-lo três anos depois, ainda que o jovem criador tenha alargado o espectro cromático da sua mais recente colecção com o objectivo de conquistar novos públicos e novos segmentos de consumo: “Para a minha mais recente colecção fui buscar inspiração ao YouTube e à paleta cromática utilizada por influenciadores como Jeffree Star”, desvenda o criador, de 27 anos.

Nascido no seio de uma família com fortes ligações ao mundo da moda (a mãe conquistou em 1985 o segundo lugar no concurso Miss Macau), Nuno Lopes de Oliveira criou para a irmã um sumptuoso vestido que usou para representar Macau na edição de 2018 do Miss Grand International.

O combinado que criou foi como que a síntese mais que perfeita do percurso meteórico que o jovem designer experienciou ao longo dos últimos anos. Formada por um refinado vestido de noite e por um extenso manto de onde brotam lótus dourados de diferentes dimensões, a peça não ilude o inconformismo que sempre pautou o percurso de Nuno Lopes de Oliveira, mas também não trai nem a abordagem estética apurada que diz ter herdado da mãe, nem o sentido de pertença a uma Macau que encontra, garante, repetidamente caminho para as suas criações.

“As minhas criações são glamorosas, mordazes, sensuais e esteticamente agradáveis”, ilustra. “Quem as usa tem sempre um grande desejo de se evidenciar, de se diferenciar dos demais. Elas entusiasmam quem as usa e constituem como que declarações de estilo. Este ano vou, ainda assim, procurar também criar algumas peças com uma natureza mais comercial”, admite Oliveira.

Depois de se ter evidenciado no desfile de finalistas organizado em 2015 pela Universidade de Middlesex, o designer de moda macaense foi contactado por um conhecido DJ londrino que mostrou interesse nas suas criações. Nesse mesmo ano, Prince vestiu roupas concebidas por Nuno Lopes de Oliveira em frente de milhares de pessoas em Trafalgar Square.

Desde então, as suas criações já vestiram vários artistas asiáticos e personalidades como Paris Hilton e Years and Years. Em 2016 foi distinguido com o prémio Revelação nos Fashion Asia Awards e tornou-se o primeiro criador com as raízes a cem por cento em Macau a chegar às páginas da Vogue.

Depois de triunfar fora de casa, Nuno Lopes de Oliveira obteve recentemente a consagração dentro de portas, ao desfilar lado a lado com algumas dos maiores nomes da indústria: “Fui um dos convidados da Macau Fashion Week, organizada pelo grupo Sands China. Depois, rumei a Xangai para participar num certame internacional onde estiveram presentes vários outros criadores de Macau”, explicou o estilista, evocando duas das mais recentes etapas ao longo do percurso.

 

MACAU NO CORAÇÃO

Com visões muito distintas do acto de criação e com trajectos também eles substancialmente diferenciados no mundo da moda, Nuno Lopes de Oliveira e Steven Tai afinam, no entanto, pelo mesmo diapasão no que toca à relevância da criatividade como motor de afirmação de uma marca: “Ser criativo pode ser um trunfo, mas apenas no âmbito da criatividade”, reconhece o estilista macaense Steven Tai. “À medida que vamos ganhando experiência compreendemos que é necessário ser-se criativo, mas também é preciso direccionar essa criatividade de forma a que seja comercialmente viável. Só assim é possível transformar uma paixão num negócio e dar resposta a certas tarefas de natureza administrativa”, complementa.

Com o coração em Macau, os pés em Londres e os olhos no mundo, Nuno Lopes de Oliveira tem na ligação à capital outro raro ponto em que a sua carreira converge com a de Steven Tai. Para um e para outro, a “City” continua a ser a passadeira onde todos os sonhos são possíveis: “Viver em Inglaterra abriu-me os horizontes porque me fez compreender os vários tipos de indústria com os quais posso e poderei trabalhar”, assume Oliveira. “Se não tivesse ido para Inglaterra não me teria apercebido de que é possível ser bem sucedido profissionalmente no âmbito das indústrias criativas”, assume o designer, sem medo de ser feliz.

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