Sábado, Dezembro 5, 2020
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Nova vida para a Vila de Nossa Senhora em Ká Hó

Texto Vítor Quintã

Quem desce pela Estrada de Nossa Senhora de Ká Hó até junto do mar já não vê a densa floresta que cobria esta zona isolada de Coloane. Hoje encontra o Centro de Santa Lúcia, onde a organização católica Cáritas acolhe mulheres com problemas mentais, o Centro de Tratamento da Associação de Reabilitação de Toxicodependentes de Macau e um lar de idosos. Mas dificilmente vislumbra, no cimo de uma pequena colina, cinco casas que durante décadas foram um porto de abrigo para os mais marginalizados de todos: os leprosos de Macau e não só.

“Não é fácil conhecer a história por detrás deste local nem sequer chegar lá”, diz o arquitecto Marco Canarelli. Há menos de uma década, a única ligação entre Ká Hó era a linha de autocarro 15, que só passava uma vez a cada 75 minutos. Actualmente a aldeia não está tão isolada, com o 15 a chegar da Taipa de meia em meia hora e o 21A a vir da península de Macau a cada 20 minutos. Ainda assim, é uma viagem que facilmente demora mais de uma hora.

Por isso não admira que poucos se aventurem até Ká Hó, cujo sossego parece a milhares de quilómetros de distâncias das luzes dos casinos do Cotai. “Conheço pessoas de Macau que nunca foram a Ká Hó, o que é inacreditável, uma vez que a região é tão pequena”, diz Marco Canarelli, que vive na cidade há oito anos. “Faz parte da história de Macau, mas poucas pessoas sabem. Tenho um amigo de 36 anos que só foi a Ká Hó três vezes e diz que não há nada para ver”, acrescenta o presidente da Associação Macau-Itália.

“Depósito de lázaros”

E a história da Vila de Nossa Senhora tem como actor principal precisamente um italiano, o Padre Gaetano Nicosia. O Bispo Dom Belchior Carneiro tinha criado a meio do século XVI um hospício no bairro de São Lázaro, na península de Macau, para acolher os leprosos, uma instituição então financiada pela Santa Casa da Misericórdia. Mas nos finais do século XIX foram expulsos dessa área para permitir a expansão da cidade e foram separados, indo os homens para “um depósito de lázaros” em Pac Sá Lan, na ilha de São João. Foram precisos apenas três anos para que os “modestos edifícios” em que viviam fossem destruídos por um tufão, sendo finalmente substituídos por “construção mais substanciais”. Apesar do estigma da lepra, os registos mostram que os doentes eram alvo frequentes de ataques de piratas “que lhes roubavam o arroz e as escassas moedas”.

Após muita residência e mudança de ideias por parte das autoridades, que chegaram a considerar outros locais na Taipa e na península de Macau, inclusive perto das Portas do Cerco, em 1884 as mulheres foram colocadas nas cinco casas do hospício de Ká Hó. Aos leprosos casados é-lhes proibida coabitação, mas é “impossível evitar que tenham correspondência”, lamentava já em 1882 o Administrador do Concelho das Ilhas, tenente José Correia de Lemos. A zona de Pac Sá Lan, que hoje faz parte da Ilha da Montanha, teve de ser abandonada em 1950, com os leprosos a juntarem-se todos em Ká Hó. Isto apesar de uma extensão da vila nunca ter sido concretizada, porque o construtor encarregue da obra contraiu também ele a lepra e desapareceu para nunca mais ser visto, lê-se num relatório da década de 1930.

Arnaldo Acconci diz que os leprosos cultivavam sobretudo vegetais mas sublinha que a maioria da comida “vinha de Macau, de barco, e era deixada numa pequena praia” que ainda hoje existe. Sendo a única comunidade deste género no sul da China, “ninguém lá ia. Nessa altura os leprosos eram tratados como animais, estavam acorrentados” por medo de contágio, recorda o filho mais velho de Oseo Acconci.

Da Sicília para Ká Hó

Mesmo as autoridades portuguesas da altura se referem à lepra como “aquela repugnante enfermidade”. “Tivemos de sacrificar, em nome da higiene pública, a assistência médica directa aos leprosos”, admite o relatório. Na década de 1930 o médico apenas visitava Ká Hó uma vez por semana e ainda menos frequentes eram as visitas a Pac Sá Lan. O tratamento das feridas causadas pela lepra era deixado “nas mãos dos doentes mais inteligentes e educados”, refere o relatório. O documento prometia a construção de um edifício na península de Macau para o tratamento de “alguns dos pacientes”, mas isso nunca aconteceu.

A situação só mudou com a chegada a Ká Hó em 1958 do Padre Nicosia, que já estava a viver em Hong Kong desde 1935, e que acrescentou autonomia à comunidade de doentes. “Tornou-se uma comunidade autónoma, que produzia parte da sua própria comida, porque Macau estava longe, que tinha instalação eléctrica e abastecimento de água”, diz Francisco Vizeu Pinheiro, professor de arquitectura na Universidade de São José (USJ). Oseo Acconci foi um dos poucos a ajudar, nomeadamente importando para Macau uma máquina que permitiu aos residentes na Vila de Nossa Senhora fazer telhas, que depois comprava para utilizar nos seus projectos.

O escultor e engenheiro italiano foi também o responsável pelo projecto da Igreja de Nossa Senhora das Dores, cuja construção, iniciada em 1966, se revelou um desafio logístico. Os materiais de construção tiveram de ir de barco até Coloane, numa altura em que não havia qualquer estrada ou ponte a ligar a ilha, recorda Arnaldo Acconci. Além disso, a zona da igreja foi separada do resto da vila, pois os trabalhadores, muitos dos quais ficaram a viver em Ká Hó durante a construção, tinham receio de que os leprosos se aproximassem, diz o italiano.

Igreja de portas ímpares

“A igreja foi feita da forma mais simples possível e [Oseo] Acconci fê-la de forma gratuita”, sublinha Marco Canarelli. Algo confirmado pelo filho Arnaldo: “Ele não queria nada de muito complicado”. Ainda assim, “é um projecto interessante”, diz Marco, que destaca o exterior em forma de tenda. Mas as surpresas não acabam aí. “O Padre Nicosia queria 13 portas, para simbolizar os 12 apóstolos e Jesus [Cristo]”, recorda Arnaldo. “Por isso o meu pai não colocou o altar no fundo, mas sim num dos lados para assim ter sete portas de um lado e seis do outro”, explica o macaense.

Um dos destaques da Igreja de Nossa Senhora das Dores é um crucifixo de bronze colocado sobre a porta do lado norte, uma oferta de Francisco Messina, “um dos maiores escultores italianos”, diz Arnaldo. “Quando o meu pai estava a construir a igreja, pediu a Messina uma pequena cruz” para colocar no interior da igreja, conta ele. “Mas um dia, porque eles eram bons amigos, subitamente, chegou este crucifixo, que era grande demais. O meu pai teve de repensar e colocar uma estrutura no exterior para suportá-lo.”

Como italiano, Marco Canarelli diz-se “orgulhoso” do trabalho que os seus dois compatriotas fizeram por Macau. “Havia uma forte ligação entre o Padre Nicosia e a família Acconci”, diz ele. Além de ser uma das poucas pessoas a ter a coragem de viver junto dos leprosos, sublinha Arnaldo Acconci, Nicosia conseguiu manter a comunidade viva durante mais de 40 anos através de doações vindas de todo o mundo. “Ele veio da Sicília para o outro lado do globo para tomar conta de pessoas que não conhecia de lado nenhum”, sublinha o italiano.

“Patrimônio social”

E é esta história de serviço aos mais desfavorecidos que o Instituto Cultural de Macau (ICM) quer preservar. O ICM disse que a actual igreja vai “em breve” sofrer trabalhos de restauro. O objectivo, diz o Instituto liderado por Mok Ian Ian, é transformar a igreja “num espaço de exposições para apresentar a história dos serviços sociais prestados pela Vila de Nossa Senhora de Ká Hó e pela Igreja Católica neste local”.

Algo que vai de encontro às esperanças tanto de Francisco Vizeu Pinheiro como de Marco Canarelli. “Para mim, é sempre melhor renovar o que já existe e utilizar para fins culturais, por exemplo fazer um museu sobre esta comunidade, que possa trazer mais pessoas a esta zona”, explica o italiano. As cinco casas da Vila de Nossa Senhora de Ká Hó têm “um significado histórico de património social muito grande”, defende Vizeu Pinheiro, “que é importante manter em termos da nossa evolução social”.

Entretanto o ICM já concluiu o restauro das cinco casas, que estiveram durante muitos anos abandonadas e entregues à vegetação. A intervenção, com um custo avaliado em cerca de seis milhões de patacas, implicou em alguns casos substituir partes da estrutura original já deteriorada por “réplicas exactas”. Vão arrancar mais tarde as obras de remodelação das casas. “A fim de corresponder à história e ao ambiente artístico” deste local, o Instituto planeia no futuro transformá-lo “num espaço de formação e educação artística para jovens e abrir o mesmo ao público local e turistas”.

Marco Canarelli defende mesmo que as casas poderiam tornar-se um local onde as escolas locais poderiam levar os seus alunos para recordar a história da comunidade de leprosos.

Potencial turístico

Francisco Vizeu Pinheiro defende que qualquer plano para Ká Hó não pode olhar apenas para a Vila de Nossa Senhora, mas tem que analisar toda a área envolvente. “Tem uma fábrica de cimento, tem os fumos da central eléctrica, tem depósitos de combustível; em termos de meio ambiente é uma zona que não é muito convidativa”, lamenta o professor da Universidade de São José. Ká Hó “merecia ter a cara lavada”, acrescenta o arquitecto, que sublinha a existência de uma pequena praia e da povoação de Ká Hó. Uma aldeia quase rural, onde ainda é possível ver galinhas e porcos criados à solta.

“Tem muito potencial mas seria preciso um plano abrangente, um masterplan para Coloane”, diz Vizeu Pinheiro, sobretudo em preparação da abertura do túnel de ligação directa ao lado leste do Cotai, facilitando o acesso à vila e ao Terminal de Contentores do Porto. Ele defende uma maior ligação entre a povoação e a Barragem de Ká Hó – “uma zona bonita mas que pouca gente conhece, tirando um acampamento de escuteiros” – e os trilhos nas montanhas centrais da ilha de Coloane.

Ká Hó poderia tornar-se, diz o professor da USJ, uma base para oferecer um novo tipo de turismo, mais virado para a natureza, que incluísse, por exemplo, caminhadas nas montanhas de Coloane ou mesmo passeios de bicicletas em trilhos específicos. “Coloane tem a sua beleza natural, que pode contrastar com a floresta de cimento que é Macau”, diz Vizeu Pinheiro.

“Quando os turistas chegam à Macau, as brochuras falam sempre de Ká Hó”, sublinha Arnaldo Acconci. Mas agora a Direcção dos Serviços de Turismo (DST) quer mesmo pôr a aldeia no mapa dos visitantes. Já no ano passado a DST tinha lançado, em coordenação com outros serviços governamentais, um estudo sobre a possível transformação da Vila de Nossa Senhora em Ká Hó num destino para turismo cultural. “Através de pesquisa e discussão inter-departamental, foram identificados alguns conceitos preliminares de desenvolvimento quanto ao uso das antigas casas dos leprosos, assim como dos espaços públicos exteriores e outras estruturas situadas na área”, disse a Direcção liderada por Maria Helena de Senna Fernandes.

A Direcção dos Serviços dos Solos, Obras Públicas e Transportes (DSSOPT) está agora a “analisar a viabilidade do plano”, referiu a DST. A DSSOPT, liderada por Li Canfeng, confirmou que tem este assunto nas mãos. “Uma vez que o assunto está a ser analisado, enviaremos mais tarde o respectivo parecer à DST”, prometeu a DSSOPT.

Cidade de imigrantes

Para Marco Canarelli, divulgar a história da comunidade de leprosos da Vila de Nossa Senhora em Ká Hó e dos italianos que a apoiaram tem uma importância ainda maior, dada a actual condição de Macau como uma cidade de imigrantes. Afinal, segundo dados dos Censos 2011, seis em cada 10 residentes nasceram fora da cidade, com a maioria vinda do Interior do País. “As pessoas que vêm de fora não têm esta memória”, lamenta o arquitecto.

O italiano defende que conhecer melhor a história de Macau “é importante para melhor compreender o presente” da cidade. “É este tipo de memória que torna Macau diferente das outras cidades chinesas”, acrescenta Marco. A presença ocidental em Macau foi sempre mais consensual, como sublinha Arnaldo Acconci. A vila de Ká Hó era “uma comunidade onde não interessava a nacionalidade, porque a doença toca a todos, seja chinês ou português”, lembra Francisco Vizeu Pinheiro. Os registos mostram mesmo a vinda de vários leprosos remetidos pela Administração britânica de Hong Kong.

Por outro lado, diz Marco Canarelli, a história da dedicação do Padre Nicosia à Vila de Nossa Senhora é “um bom exemplo do que os imigrantes podem fazer por Macau”. O siciliano só deixou Macau em 2011, já com os leprosos reintegrados na sociedade, e morreu no ano passado em Hong Kong aos 102 anos. Lembrando o caso de Loreto Mijares, o filipino que salvou dois residentes durante a passagem do tufão Hato, em Agosto do ano passado, Marco sublinha que “talvez hoje também haja histórias deste género, de pessoas que tenham vindo ajudar Macau e a comunidade”. 

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