Segunda-feira, Janeiro 25, 2021
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A nossa condição

Texto Catarina Domingues | Fotos Gonçalo Lobo Pinheiro

De que forma é que as novas tecnologias influenciam aquilo que nós somos, como nos relacionamos com o outro, o mundo em que nos movemos? Wong Weng Io tem 25 anos, uma jovem carreira enquanto artista e uma aspiração: compreender esta relação entre a identidade e a esfera virtual.

Um conceito importante para a compreensão do trabalho da artista: arte contemporânea. “Pode ser tudo”, começa por dizer Wong Weng Io. Em entrevista à MACAU, a jovem dá o exemplo da “Fonte”, urinol de porcelana branco adquirido por Marcel Duchamp (1887-1968) e uma das obras mais representativas do artista francês, que admitia estar mais interessado em ideias do que em produtos visuais. O conceito readymade de Duchamp influenciou inúmeros artistas pelo mundo inteiro e veio desafiar as tradicionais definições de arte, propondo a elevação de um objecto comum a obra de arte. “Tudo o que vejo na rua e os objectos que encontro pelo caminho podem ser elementos da minha própria arte”, admite Wong. E completa: “Um dos pontos principais da arte contemporânea ou da contemporaneidade da arte é registar o que está a acontecer agora, o que nos afecta mais e de que forma isso se pode relacionar com as outras pessoas”.

“A educação veio romper com a minha forma de pensar”

A própria definição daquilo que é a arte e do que seria o objecto de estudo e de trabalho de Wong Weng Io enquanto artista, foi ganhando forma na Austrália, onde concluiu o ensino superior em Belas Artes no Royal Melbourne Institute of Technology. “Foi um processo muito doloroso, a educação veio romper com a minha forma de pensar e com aquilo que eu julgava que era a arte”,  salienta a jovem.

Wong Weng Io nasceu em Macau em 1993. Ainda consegue recuar até aos tempos do ensino primário, quando participava em concursos de arte entre escolas. Foi aí que experimentou pela primeira vez pintar a lápis e aguarelas a natureza-morta, conseguindo alcançar os lugares cimeiros da competição. “Mas o que eu me lembro melhor é que, de todas as vezes, eu ficava até ao último minuto para acabar o meu trabalho. Tinha a sensação que nunca estava bem”, revela.

Aluna do Colégio Perpétuo Socorro Chan Sui Ki, Wong Weng Io teve apenas Educação Visual até ao oitavo ano, seguindo depois a área de Ciências. Admite, porém, que nunca perdeu o contacto com esse lado artístico. Era ela que “desenhava as coisas para a escola, t-shirts ou logótipos para os clubes de actividades”, diz.

Quando terminou o 11.º ano, mudou-se para Melbourne, para frequentar o ano zero em Artes. “Investi tudo na técnica, porque é um trabalho que exige muita técnica”.

Foi essa dedicação que fez com que o então professor responsável pelo curso a levasse a assistir a uma aula de Belas Artes, um momento que considera decisivo na sua carreira. “Tinha três hipóteses de cursos, Arquitectura, Design Gráfico e Belas Artes, e acabei por escolher a última, por ser a origem, a base”, recorda.

Em 2016, Wong Weng Io regressou a Macau, onde se encontra actualmente a trabalhar como artista, recorrendo a diferentes meios de trabalho, incluindo fotografia, vídeo, pintura ou instalação. Está também ligada à Galeria 1844, na Rua do Infante, que abriu ao público no ano passado, desenvolvendo trabalho como curadora, designer gráfica e crítica de arte.

Nós e a tecnologia

“O meu trabalho prático começa pelo interesse que tenho na minha própria relação com a tecnologia e como esta muda e afecta a minha identidade e a identidade virtual”, nota à MACAU.

Quanto à tecnologia, a artista acredita que esta tem a capacidade de “comprimir o tempo, as relações e a informação”: “No passado, talvez as pessoas sentissem a própria vida a um ritmo mais lento, mas hoje as pessoas conseguem olhar para a própria vida e através dela, porque a informação está em todo o lado”.

Wong abre um link que nos leva ao projecto “Human Condition (Closer to Bliss)”, que completou no último ano de estudos em Melbourne. Numa parede branca, é inserido verticalmente um monitor, que se divide em duas partes: a parte de cima revela um vídeo com um céu azul e nuvens em movimento e a parte de baixo é uma imagem estática do céu e um monte verde. O trabalho explora a ideia de como os monitores apareceram e influenciam a nossa vida.

Para dar forma à instalação, a artista inspirou-se na conhecida obra “The Human Condition” do artista belga surrealista René Magritte. Mas não só: “Interessa-me esta ideia dos dois mundos de Immanuel Kant: no `fenomenal´ estamos a falar do mundo físico, científico;  no `númeno´ é como se fechássemos os olhos e sentíssemos tudo à nossa volta, está dependente da nossa consciência e conhecimento. É um conceito que René Magritte também trabalhou”.

Sem procurar chegar a quaisquer conclusões, Wong Weng Io reafirma no seu trabalho conceitos filosóficos e artísticos. “Não tenho uma forma particular de trabalhar, e concordo com Sol LeWitt, um artista conceptual, que diz que quando escolhes pintar ou desenhar um trabalho mundialmente conhecido e feito num meio mais tradicional, então estás a aceitar a história e a mensagem incluída nesse passado”.

Guardadora de passados

Na exposição individual I upload, therefore I exist, realizada este ano nas instalações da Casa Garden, em Macau, Wong apresentou várias instalações em grande escala para reflectir sobre o relacionamento e o impacto entre a existência humana, a tecnologia, a informação, a manipulação, os dados pessoais e a robótica.

“A omnipresença do texto” foi buscar inspiração a “Ether”, romance de ficção científica do autor chinês Zhang Ran. A artista utilizou citações desse romance, imprimindo-as em centenas de pequenos recibos de compras. Algumas dessas frases aparecem riscadas, o que remete, segundo a responsável da obra, para “o controlo que existe hoje em dia no envio de SMS”.

“A tinta vai gradualmente desaparecer e isso está, de certa forma, relacionado com as SMS, é tudo muito efémero”, afirma.

Já na instalação “A omnipresença das imagens”, foram utilizados 1200 postais feitos de imagens que pertenciam a três categorias: “mundo”, “humanos” e “lixo”, e que funcionavam como uma metáfora para o combate à superabundância de informação e de imagens. No caso do “lixo”, Wong nota: “No futuro, as pessoas vão interessar-se por estes resíduos que foram deixados para trás, e será como uma espécie de loja de antiguidades, ou seja, procuram-se coisas que nunca nos chamaram a atenção”.

Com “A omnipresença do complexo”, a jovem criou uma obra composta por centenas de ecrãs, que revelavam frases de robots a questionar humanos. “Como sabes que és humano” era um dos exemplos.

Já no último espaço, Wong regressou à questão do tempo e da memória, expondo duas mil cassetes que representam o mesmo número de dias de vida. De acordo com a introdução escrita sobre a obra, o passado é aqui um “monte de diferentes caixas desnecessárias de cassetes analógicas, algumas delas impossíveis de aceder devido ao progresso tecnológico”. Nessa mesma sala, podia ler-se em dois painéis luminosos: “I upload, therefore I exist”.

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