Terça-feira, Junho 2, 2020
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Uma cidade em permanente transformação

Texto José Luís de Sales Marques

Para quem chega a Zhuhai, vindo de Macau, através da fronteira terrestre de Gongbei, a primeira sensação que colhe é a da imersão num mar de gente, cujo destino primeiro é um centro comercial subterrâneo onde quase tudo se adquire por preços mais razoáveis do que os praticados noutro lado da fronteira. Mas, se olhar com atenção para os diversos placards informativos e sinaléctica com percursos e direcções presentes neste enorme shopping, aperceber-se-á que o paraíso de compras também funciona como centro modal para a conectividade de transportes regionais, a partir do qual se pode chegar a vários destinos, entre os quais, Cantão Pequim, Xangai, Guiyang, Changsha ou Guilin, através das magníficas linhas de comboios de alta velocidade.

Zhuhai (‮/‬‭]‬‮.|‬) – cuja tradução literal é o Mar das Pérolas – é um nome familiar para os habitantes de Macau. É a vizinhança do outro lado das Portas do Cerco para onde muitos residentes se deslocam com a maior das facilidades e com muita frequência, para fazer compras, frequentar restaurantes e outros entretenimentos, adquirir uma habitação a preços mais acessíveis, ou apenas para poder desfrutar da qualidade do espaço urbano e do bem-estar proporcionado pelo contacto com a natureza, beneficiando da qualidade e quantidade de espaços ao ar livre que aquela cidade oferece.

Essa familiaridade pode, entretanto, conduzir a uma ideia demasiado simplista do que Zhuhai conseguiu atingir em cerca de 40 anos, desde que foi constituída como Zona Económica Especial da República Popular da China. Por exemplo, Zhuhai apresenta, consistentemente, um dos melhores índices de sustentabilidade urbana entre todas as cidades chinesas, segundo relatórios anuais elaborados pela Universidade de Tsinghua e a consultora McKinsey, que inclui vários factores relacionados com a qualidade de vida da população. Por isso, a cidade é considerada a mais habitável da China. Zhuhai é ainda um dos testemunhos vivos da política de reforma e abertura empreendida, a partir de 1979, que projectou a República Popular da China no mundo e deu início às transformações económicas que a tornaram na segunda potência económica mundial.

Geografia e história

Zhuhai é uma cidade a nível de prefeitura situada na província de Guangdong. O seu nome reflecte o encontro entre o Rio das Pérolas e o Mar do Sul da China. Faz fronteira com Zhongshan a norte, com Macau a sul, Jiangmen a noroeste, e Hong Kong a leste. É a única cidade do Interior do País com acesso directo por via terrestre às duas Regiões Administrativas Especiais da RPC, graças à recém-inaugurada ponte Hong Kong-Zhuhai-Macau.

Zhuhai alberga a cada dois anos a China International Aviation and Aerospace Exhibition, a montra para a tecnologia chinesa nas áreas da aviação civil e militar e na exploração espacial

Tem uma área total de 7653 quilómetros quadrados, dos quais 1724 quilómetros quadrados de superfície terrestre, compreendendo um conjunto de 217 ilhas. Tinha, em 2017, uma população permanente de 1,765 milhão de pessoas.

Zhuhai é o nome recente da localidade que se situava imediatamente a seguir à conhecida Porta do Limite, nome original dado à fronteira situada no estreito istmo que liga a península de Macau ao País, hoje conhecida como Portas do Cerco. Toda essa região, denominada Xiangshan (Montanha Odorífera, em português), era dominada pelo prefeito titular da mesma. Depois da revolução republicana de 1911, que derrubou a Dinastia Qing, Xiangshan passou a denominar-se Zhongshan a partir de 1925, em homenagem ao fundador da República da China, Sun Yat-sen, um dos filhos mais ilustres da região, cujo nome em mandarim é Sun Zhongshan.

Como “cidade sustentável”, Zhuhai tem sido escolhida para a realização de várias provas desportivas, como uma das etapas da Volvo Ocean Race

O Delta do Rio das Pérolas não tinha a configuração actual, que foi sendo adquirida com a sedimentação ocorrida ao longo de séculos, e os rios Xijiang e Beijiang vertiam directamente para o Mar do Sul da China, na zona onde se situa actualmente a cidade de Zhongshan.

A vila de Xiangshan foi estabelecida em 1152, durante a Dinastia Tang (618-1279). A fortaleza de Qianshan – conhecida por Casa Branca na historiografia portuguesa – foi construída em finais da Dinastia Ming para tratar, a partir de 1554, de assuntos relacionados com a presença estrangeira na península de Haojing (Baía das Ostras) – território que pertencia àquele distrito e onde os portugueses estabeleceram um interposto comercial que ficou conhecido mais tarde como Macau. O Mandarinato da Casa Branca tinha jurisdição directa sobre este território.

Desde então, os destinos de Xiangshan e de Macau passaram a estar fortemente correlacionados. A referida Porta do Limite foi mandada construir pelas autoridades chinesas em 1573, dotada de uma guarnição militar, para controlar o fluxo de pessoas e mercadorias entre os dois lados. As Portas do Cerco, desenhada em forma de arco, que hoje existe integrada como monumento no complexo fronteiriço Macau-Zhuhai, foi mandada construir pela administração portuguesa em 1870. Já o posto fronteiriço de Gongbei foi estabelecido em 1887.

A denominação de distrito de Zhuhai surge em 1953, em substituição da divisão de Pescas de Zhongshan. Zhuhai foi elevada a cidade de nível provincial em Março de 1979 e foi designada como Zona Económica Especial durante a 25.ª sessão da Comissão Permanente da 5.ª Assembleia Popular Nacional, em Agosto de 1980.

Prédios modernos e arranha-céus trouxeram características de metrópole a esta outrora vila de pescadores

Organização administrativa

A cidade está dividida em três áreas administrativas (Xiangzhou, Doumen e Jinwan), às quais se somam três distritos económicos de nível nacional: a Zona Piloto de Comércio Livre de Hengqin, o Distrito de Desenvolvimento Industrial em Alta Tecnologia de Zhuhai e a Zona Económica Portuária de Gaolang (InvestZhuhai).

O centro político-administrativo, económico, financeiro e cultural encontra-se em Xiangzhou. É aí que estão a sede do Governo Popular, as mais importantes instituições económicas e financeiras e algumas das empresas mais significativas da região.

Oposto ao Porto Interior de Macau fica o subdistrito de Wanzai, pertencente a Xiangzhou, conhecida em português por Ilha da Lapa. Esta área, dotada de um pequeno porto que ainda realiza comércio transfronteiriço com Macau usando pequenos barcos tradicionais para transportar produtos do mar e flores, transformou-se recentemente num novo pólo de desenvolvimento comercial e turístico. Para isso muito contribuiu a implementação do Distrito Central de Negócios de Shizimen (Porta em Forma de Cruz), designação que provém já dos primórdios de Macau. Esse pólo comercial está dotado do monumental Centro de Convenções e Exibições de Zhuhai, projectado por uma equipa do estúdio internacional de arquitectura 10 Design liderada pro Gordon Affleck, além de ser constituída por uma torre icónica de 320 metros de altura, diversos hotéis de cadeias internacionais com um total de 1245 quartos, salas para exposições e de conferências, auditórios, sala de teatro e outras instalações.

Zhuhai é agora a única cidade do Interior do País conectada, por via terrestre, às duas regiões administrativas especiais, graças à Ponte Hong Kong-Zhuhai-Macau

O aeroporto de Zhuhai está localizado em Jianwei, distrito onde também fica a estação principal de caminhos-de-ferro e o Porto de Zhuhai. Este distrito alberga a Exposição Aeronáutica da China e o parque aeronáutico de Sanzao, que está dedicado ao desenvolvimento da indústria de aeronáutica civil.

Doumen, o distrito com a maior área, é conhecido pelas termas e pela paisagem montanhosa muito apreciada por visitantes de Macau.

Já a Nova Área de Hengqin, situada na Ilha da Montanha, está ligada a Macau pela ponte Flor de Lótus, com um posto fronteiriço aberto 24 horas por dia, e por túnel de acesso ao enclave de um quilómetro quadrado, cedido temporariamente à RAEM por arrendamento, para a instalação do campus da Universidade de Macau. Esta área, cujo estatuto de Zona Piloto de Comércio Livre da Província de Guangdong lhe concede facilidades especiais a nível fiscal, aduaneiro e administrativo, é prioritária para a cooperação com Macau. O mesmo se pode dizer, embora em plano diferente, da Zona Industrial Transfronteiriça Zhuhai-Macau. Regressaremos a essas zonas na abordagem ao tema da cooperação Macau-Zhuhai.

Perfil económico

O PIB de Zhuhai foi, em 2017, de 256,47 mil milhões de yuans, tendo registado um crescimento real em relação ao ano anterior de 9,2 por cento, segundo dados da Direcção dos Serviços de Estatística e Censo de Macau (DSEC). Este número faz com que Zhuhai seja uma das economias mais pequenas da Área da Grande Baía. Todavia, o PIB per capita situa-se entre os mais elevados da megapolis, com o valor de 149.082 yuans (cerca de 23 mil dólares norte-americanos), quase ao mesmo nível do de Cantão, e equiparável a valores da Bulgária e da Roménia.

A estrutura económica de Zhuhai, segundo dados da DSEC de 2017, demonstra um equilíbrio entre a actividade industrial (50 por cento) e a crescente economia de serviços (48,2 por cento), reflectindo as apostas na diversificação da economia empreendidas pelos seus governos. A actividade primária (1,8 por cento), nomeadamente a agricultura e a floricultura, tem uma expressão insignificante apesar da importância que possuem esses sectores nos abastecimentos de bens agrícolas a Macau.

A nível de comércio externo de mercadorias, Zhuhai goza de saldo comercial positivo, com importações na ordem dos 16,4 mil milhões de dólares norte-americanos e exportações na ordem de 27,9 mil milhões de dólares norte-americanos, de acordo com informações disponibilizadas pela DSEC.

A capacidade de atracção de investimento estrangeiro tem sido reforçada nos últimos anos, situando-se o valor acumulado de investimento utilizado até 2017 ao nível de 12,752 mil milhões de dólares norte-americanos associados a 12 mil projectos oriundos de 70 países e regiões, como apontam dados da plataforma oficial InvestZhuhai. Esses valores tenderão a subir rapidamente, já que nos últimos anos o valor anual investido foi de 2,295 mil milhões de dólares norte-americanos em 2016 e 2,433 mil milhões em 2017. Quase metade desses investimentos têm origem em Hong Kong (46 por cento) e tiveram como destino o sector industrial (35,6 por cento), o imobiliário (18,1 por cento) e a actividade de leasing e serviços comerciais (12,9 por cento), segundo dados do Hong Kong Trade Development Council (HKTDC).

A atribuição inicial da qualidade de Zona Económica Especial criou imensas oportunidades de crescimento, mas também alguns grandes desafios, nomeadamente o de superarem uma questão óbvia: Macau, em finais dos anos de 1970 e princípios de 1980, funcionava como uma espécie de economia semiperiférica em relação a Hong Kong,por onde passavam os núcleos de decisão e financiamento para os grandes negócios relacionados com a China e outras regiões circunvizinhas. Por outro lado, Shenzhen tinha mais visibilidade pela proximidade geográfica a Hong Kong e o Delta do Rio das Pérolas funcionava como uma barreira económica e psicológica a separar duas realidades distintas: uma margem oriental mais desenvolvida, com Hong Kong e Shenzhen, e, uma margem ocidental em vias de desenvolvimento, com Macau e Zhuhai.

Vivia-se então, no Sul da China, a fase inicial de produção industrial de baixo valor acrescentado para exportação, onde a abundância e baixo custo da mão-de-obra funcionavam como vantagem competitiva. Macau recebia o que Hong Kong já não podia produzir, quer pelo aumento dos salários industriais, quer pela imposição de quotas para exportação aos seus produtos impostas pelas economias desenvolvidas. Depois de 1980, o mesmo fenómeno de transferência passou a funcionar também na relação Macau-Zhuhai. Aos responsáveis de Zhuhai colocava-se o desafio de não se transformarem na periferia de Macau, e foi isso que procuraram fazer e em relação ao qual atingiram sucessos muito significativos.Primeiro, tirando partido dos fluxos turísticos atraídos por Macau, proporcionando oportunidades de visita a uma China profunda, com espaços pitorescos, entre os quais a casa onde viveu Sun Yat-sen; depois, apostando no planeamento urbanístico, que valorizou as condições naturais privilegiadas da região, nomeadamente a famosa Baía de Zhuhai, onde foi traçada um ‘calçadão’, conhecido por Qinglu (ou Passeio dos Apaixonados), com uma escultura icónica para assinalar o significado do lugar.

Depois, aproveitando as suas imensas ilhas e condições naturais, foi criado o Porto Marítimo de Gaolan, que se tornou num dos mais importantes da província de Guangdong.

A criação de zonas de livre comércio atraiu capitais de chineses ultramarinos e investimento directo estrangeiro, construindo uma base industrial que foi muito para além das pequenas e médias unidades industriais de têxteis e vestuário, da sua fase inicial de industrialização. Subsequentemente, várias unidades de média e alta complexidade tecnológica foram instaladas nos diversos parques industriais disponíveis, dotados de infraestruturas e regimes fiscais e laborais favoráveis ao investimento. Pólos de indústrias começaram a formar-se, nomeadamente no que diz respeito ao fabrico de aparelhos de ar condicionado liderado pela Gree, empresa que é líder de mercado mundial. Zhuhai é também líder do mercado mundial na produção de equipamentos e acessórios para a impressão digital, organizando a Remax World Expo, a mais importante do sector a nível mundial.

A diversificação industrial é evidente no leque de ramos eleitos como os seis pilares da indústria da região, nomeadamente, a electrónica e a informação tecnológica, a biotecnologia, o fabrico de aparelhos eléctricos, a produção de energia eléctrica, a petroquímica e a produção de equipamentos de precisão. As prioridades são para a integração de cadeias de valor e a aposta em manufacturas de alta tecnologia, incluindo aquelas que estão associadas ao conceito de cidade inovadora. Em relação à indústria de equipamentos tecnologicamente avançados, o objectivo é a criação de pólos com todas as sinergias que lhes são inerentes, para a construção naval, aeronáutica, ferroviária e automobilística verde. Zhuhai já aderiu à prática da mobilidade partilhada e à popularização de veículos híbridos e eléctricos.

Na zona recreativa e de barcos de recreio situada em Pinsha, instalou-se um dos centros mundiais de construção de iates de luxo, onde pontua a Ferretti, o gigante internacional na construção de iates e barcos de recreio. Zhuhai já faz parte do circuito da famosa Volvo Ocean Race. A aposta no turismo e desportos marítimos estende-se no aproveitamento de mais de uma centena de ilhas na sua jurisdição marítima, e uma linha costeira de mais de 600 quilómetros, com a promoção de eventos de pesca desportiva e a oferta de turismo de resort, nomeadamente de uma unidade da Club Med, e diversos serviços complementares relacionados com a actividade marítima e tecnologias a ela associadas.

O Chimelong Ocean Kingdom é um dos maiores oceanários do mundo.
Há mais de 20 mil espécies de peixes, uma zona para animais dos pólos e um gigantesco tanque de baleias e turbarões

Em 2017, o número de visitantes superou as 22, 8 milhões de entradas, um número considerável para qualquer destino turístico, sendo que uma parte significativa desses registos corresponderá a entradas por residentes de Macau ou através desta região.

Um dos primeiros sinais da vontade de diferenciação de Zhuhai em relação às cidades vizinhas foi a construção do seu aeroporto, aberto em 1995. Localizado a 50 quilómetros do centro e a 25 quilómetros de Macau, ocupa uma área de grande dimensão e tem uma pista capaz de receber as maiores aeronaves. O aeroporto serve cerca de 30 destinos domésticos e passou a ser também utilizado para organizar a China International Aviation and Aerospace Exhibition, a montra para a tecnologia chinesa nas áreas de aviação civil e militar e na exploração espacial. Existe desde 1996 e é bianual, atraindo a atenção de muitos visitantes e profissionais ligados ao sector.

Infraestruturas e conectividades

Como atrás se referiu, Zhuhai é a porta de entrada de Macau para o vasto Interior do País. A sua bem servida rede de infraestruturas é constituída por autoestradas, caminhos-de-ferro e metro, o aeroporto de Jinwan e a rede de portos marítimos e fluviais.

Na estação de Gongbei, pode-se aceder ao metro intercidades Cantão-Zhuhai, bem como às linhas de caminho-de-ferro do sistema integrado da China.

O porto de Gaolan é o único porto de águas profundas da margem ocidental do Delta do Rio das Pérolas, e um importante centro de transportes marítimos na região. O Porto de Jiuzhou inclui um terminal de contentores e outro de passageiros servido por barco rápido, que a ligam a Hong Kong e a Shenzhen.

O funcionamento da Ponte Hong Kong-Zhuhai-Macau vai permitir àquela Zona Económica Especial reposicionar-se como uma placa giratória entre os dois lados do Delta e um centro modal de transportes para toda a Área da Grande Baía. O efeito dessa nova realidade no desenvolvimento do sector turístico, por exemplo, irá potenciar as vantagens competitivas de Zhuhai.

Educação e cultura

O Governo Popular de Zhuhai apostou, desde o início, na abertura de universidades de prestígio, que são frequentadas anualmente por dezenas de milhares de alunos. Para isso ofereceu diversos incentivos, incluindo a concessão sem encargos de terrenos para a construção dessas unidades. Por consequência, foram instalados campus das conhecidas universidades de Jinan e de Sun Yat-sen, ambas com sede em Cantão, a Universidade Industrial de Harbin, a Universidade de Ciência e Tecnologia e a Universidade Normal, ambas de Pequim. Esta última estabeleceu uma parceria com a Universidade Baptista de Hong Kong em Abril de 2005, para a instalação do United International College, a primeira  joint-venture entre estabelecimentos de ensino superior do Interior do País e de Hong Kong, no núcleo universitário de Tangjiawan. Este núcleo, localizado numa zona histórica de Zhuhai, junto à baía de Jinxing, foi projectado pela Sherwood de São Francisco, com o objectivo de criar um ambiente paisagístico e ecológico de excelência para a implantação de quatro universidades e outros serviços complementares.

A aposta na cultura levou recentemente à construção da Ópera de Zhuhai, edifício desenhado pelo arquitecto Chen Keshi, da Beijing Institute of Architectural Design, em forma de bivalves na posição vertical, que projecta a sua forma sobre a baía de Zhuhai, com excelentes efeitos estéticos.São conhecidos os festivais de jazz de Beishan, que costumam atrair vários amantes desta forma de expressão musical, provenientes de Macau e de outras cidades na região.

O edifício da Ópera de Zhuhai, foi desenhado pelo arquitecto Chen Keshi, da Beijing Institute of Architectural Design, em forma de bivalves

Cooperação com Macau

Macau e Zhuhai gozam de uma estreita relação de cooperação e interdependência. As autoridades dos dois lados procuram encontrar fórmulas mutuamente proveitosas para essa cooperação, que existe desde tempos remotos, e que foram reforçados a partir de 1999, com a criação da RAEM. Mesmo antes, as autoridades portuguesas, em cooperação com as autoridades do Governo Central e de Zhuhai, conseguiram manter um fluxo ininterrupto no fornecimento de bens alimentares, mesmo quando as circunstâncias eram difíceis no Interior do País. Essa cooperação permitia que os produtos chegassem a Macau a preços razoáveis, com garantias de qualidade e de segurança alimentar, através de mecanismos eficazes de coordenação.

Com a criação da RAEM, os mecanismos de cooperação com Zhuhai passaram a ser coordenados ao mais alto nível. As reuniões de coordenação sectorial obedecem a mecanismos formais e realizam-se regularmente.

O investimento directo acumulado de Zhuhai em Macau situou-se, em 2017, ao nível de 282 milhões de patacas (cerca de 35,3 milhões de dólares norte-americanos), com 310 empresas, um valor médio relativamente pequeno. Quanto ao stock de investimento de Macau em Zhuhai para o mesmo ano, o montante atingido, ultrapassando os seis mil milhões de patacas (cerca de 750 milhões de dólares norte-americanos), com 31 empresas, representa um valor médio de investimento bastante elevado. De notar, também, o registo de acréscimos significativos desde 2015, o que pode indicar o aproveitamento das condições oferecidas nos planos de desenvolvimento da Nova Área de Hengqin.

O Conselho de Estado aprovou, em Dezembro de 2014, o estabelecimento da Zona Piloto de Livre Comércio da China (Guangdong). Essa zona piloto, oficialmente lançada em 2015, está articulada com a cooperação e desenvolvimento de Guangdong com as regiões administrativas especiais de Hong Kong e Macau, e é constituída por três áreas, totalizando 116,2 quilómetros quadrados: Nansha, que inclui o seu porto, com 60 quilómetros quadrados; Qianhai-Shekou, que inclui o porto, em Shenzhen, com 28,2 quilómetros quadrados; e, Hengqing, em Zhuhai, com 28 quilómetros quadrados. Neste último caso, que a área referida não chega a ocupar metade dos 131 quilómetros quadrados da ilha.

Os objectivos desta zona piloto de livre comércio é, em síntese, contribuir para aprofundar o processo de reforma e abertura da China, introduzindo uma ecologia favorável ao desenvolvimento económico, incluindo a facilitação de comércio e investimento, padrões de regulação e regulamentação de níveis elevados e de acordo com boas práticas internacionais, participar na iniciativa “Faixa e Rota”, entre outros.

O posicionamento planeado para a Nova Área de Hengqin é o de capitalizar a sua ligação a Macau e o de apostar na estratégia de transformar essa ilha numa base internacional de serviços e turismo de lazer, bem como contribuir para a diversificação económica de Macau. Quanto a este último aspecto, o Governo de Macau e entidades privadas têm já estabelecidas em Hengqin diversos projectos, entre os quais o “Parque Industrial de Medicina Chinesa Guangdong-Macau”, dedicado à investigação e inovação na área da medicina chinesa. Dentre os investimentos privados constam centros comerciais, complexos de restaurantes ou zonas criativas. Segundo a página oficial da cidade de Zhuhai, são esperados investimentos que totalizarão 10,9 mil milhões de dólares norte-americanos.

As autoridades de Hengqing também apostam na ligação com os países de língua portuguesa, incluindo o ensino do português em programas extracurriculares para crianças da Escola Primária nº. 1 da ilha.

Macau e Zhuhai são duas regiões vizinhas, com uma agenda de cooperação transfronteiriça muito diversificada e complexa, onde se colocam vários desafios, nomeadamente na gestão do ambiente e de recursos naturais, que são praticamente comuns. Com o processo de integração da Grande Baía em curso, Macau e Zhuhai terão que trabalhar ainda mais em estreita cooperação, promovendo as suas respectivas vantagens comparativas, que são complementares, de forma a garantir um futuro ainda melhor para as suas populações.


NÚMEROS

 

Área

1724 km2

217 ilhas

 

População

1,765 milhão

 

PIB

RMB 256,47 mil milhões

 

PIB per capita

RMB 149.082

 

Visitantes

22,8 milhões

 

Divisões Administrativas

Doumen, Jinwan e Xiangzhou

 

ARTIGO