Sexta-feira, Outubro 30, 2020
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O homem que cobriu Macau de verde

 

Texto Marco Carvalho 

Hoje espaço de excelência no coração de Macau, o pulmão de uma cidade onde os espaços verdes e as zonas arborizadas escasseiam, a Guia era no início dos anos 80 do século XIX como que um nebuloso e pardo espectro pairando sobre a cidade. Montes áridos e escalvados desenhavam uma Macau cinzenta. 

António Saraiva, engenheiro agrónomo, recorda que “na segunda metade do século XIX a Guia era um espaço penhascoso e inóspito, quase desarborizado. Durante muitos anos a colina sofreu a sorte de tantas outras montanhas, num processo que quase levou à sua desertificação. Foi local de abate de árvores que serviam depois como material de construção, era o sítio onde os residentes da cidade recolhiam lenha e servia ainda como local de pastagem para o gado. Note-se que um dos símbolos da cidade de Cantão é um grupo de cabras, animais capazes de aproveitar pastos muito pobres”. Na altura os rebanhos eram ainda uma visão frequente em Macau. 

António de Paula Saraiva está radicado no território desde 1985, tendo dedicado toda a sua carreira profissional ao estudo dos jardins, da botânica e da evolução do espaço urbano. Autor do livro Árvores e Arbustos de Macau, o também arquitecto paisagista conhece como poucos o andamento e os protagonistas do lento processo de expansão territorial que deformou, primeiro, e conformou, depois, a península, dando à cidade o aspecto que hoje tem. 

Erma e pouco hospitaleira, rasgada por uma magra estrada em terra batida que levava os mais aventureiros ao sopé da velha fortaleza, a Guia ganha literalmente uma nova vida com a chegada a Macau de dois homens que revolucionaram a forma como a cidade se apresentava a quem a ela por mar chegava: Tomás de Sousa Rosa e Tancredo Caldeira do Casal Ribeiro.  

Entre 1883 e 1886, período em que Sousa Rosa assumiu o cargo de governador de Macau, foram plantadas 60 mil árvores em Macau, a grande maioria das quais nas encostas da Guia e das demais colinas do território: “Apenas três meses depois de tomar posse, em 1883, Tomás de Sousa Rosa, nomeou uma comissão encarregada de propor uma série de projectos de melhoramento para a cidade”, recorda António Saraiva. “As ideias de Tomás Rosa enquadravam-se num movimento higienista que percorria a Europa: com o início da industrialização a população das cidades explodiu e a pressão demográfica levou a problemas ambientais graves: falta de água, esgotos a céu aberto, epidemias, falta de espaço. Os políticos e os quadros técnicos mais progressistas e socialmente responsáveis procuraram mudar as cidades de forma a dar resposta a essas situações”, salienta o engenheiro agrónomo. 

Inspirado pelos esforços de requalificação urbana que se apoderaram das principais cidades europeias depois de George Haussmman ter assumido a missão de transformar Paris de burgo medieval numa cidade moderna,  Tomás de Sousa Rosa colocou em curso o primeiro plano sistemático de valorização dos espaços públicos, num esforço em que tem como principal aliado um jovem naturalista de 27 anos: “De entre os 12 pontos que a Comissão criada pelo novo governador abordou destacavam-se questões como a largura das ruas e a altura dos prédios, o abastecimento de água, a remoção do lixo, os bairros insalubres e a arborização”, recorda António Saraiva. “O relator foi Casal Ribeiro que não perdeu tempo e rapidamente passou das palavras aos actos. Servindo-se do Jardim da Flora como base, implantou ali os seus viveiros”, adianta. 

Adquirida no início da década de 1870 para servir de residência oficial do Governador, a quinta e o palacete da Flora foram abandonados ao fim de um par de anos, dada a elevada insalubridade do local. A humidade e o acesso fácil a água em abundância propiciaram, no entanto, as condições ideais para que a empreitada a que Tancredo Caldeira do Casal Ribeiro se propunha fosse bem sucedida, e o jovem agrónomo não desiludiu: “No período compreendido entre 1883 a 1885 foram plantadas 41.760 árvores, quer nas colinas, quer nas ruas da cidade. A missão prosseguiria nos anos seguintes, embora a um ritmo mais moderado”, explica António de Paula Saraiva.  

Nos cinco anos em que exerce o cargo “de agrónomo da província de Macau e de Timor”, Tancredo Caldeira do Casal Ribeiro supervisionou o cultivo e a plantação de cerca de 60 mil árvores, sensivelmente uma árvore por cada um dos residentes a que o território servia de casa à época. 

Licenciada em Arquitectura pela Universidade de Coimbra e com um Doutoramento em História da Arte pela Universidade de Paris I, Alice Santiago Faria sustenta que o trabalho desenvolvido por Casal Ribeiro não só ajudou a mudar a face da cidade, como também teve repercussões em Timor, território que à época estava politicamente dependente de Macau: “É possível que dos viveiros da Flora tenham também saído árvores para Timor ou que, pelo menos, fosse essa a intenção de Casal Ribeiro. No entanto, até agora não consegui encontrar documentação em número suficiente para comprovar esta possibilidade”, reconhece a investigadora do Centro de História d’Aquém e de Além Mar da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. “O que importa realçar, no entanto, é que Tancredo Caldeira do Casal Ribeiro foi um dos obreiros do que foi a primeira estratégia conjunta para o território. Uma estratégia  que entre outras acções, previa a criação de um contínuo verde”, resume a académica.

“A Cintra do Sul da China” 

A política de arborização impulsionada por Tomás de Sousa Rosa e concretizada por Tancredo do Casal Ribeiro não é mais do que uma expressão parcial de uma ambiciosa política geral de ordenamento que se consubstanciou em dois planos de melhoramentos que se propunham transformar o espaço urbano de Macau em termos de habitabilidade e de infra-estruturas: o chamado Plano de Melhoramentos do Porto e o Plano de Melhoramento de Macau. 

Se o primeiro se propunha resolver o grave problema de assoreamento com que se deparavam as zonas de ancoragem da cidade, o segundo colocava ênfase num leque de preocupações até então inéditas: a regularização do traçado urbano, a criação de infra-estruturas tidas como imprescindíveis para a expansão da cidade e a criação de condições de higiene e de salubridade que tornassem possível um crescimento ordenado do espaço urbano: “Os médicos, a par de visionários políticos, são dos grandes impulsionadores deste novo urbanismo. A título de exemplo, cite-se o chefe dos serviços de saúde de Macau, Dr. José Gomes da Silva, o qual em 1870, no seu relatório anual, propunha a plantação metódica de árvores, não só na cidade, mas também nas encostas e nos cumes de alguns montes”, lembra António Saraiva.  

Os dois planos deram azo ao que foi em Macau a primeira abordagem sistemática ao espaço público enquanto espaço de intervenção política, artística, científica e técnica, num esforço interdisciplinar dotado de aspectos que, mesmo nos dias que correm, se revestem de grande modernidade em termos urbanísticos. Enquadradas na questão da reabilitação do Porto – projecto que trouxe até ao território Adolfo Loureiro, engenheiro que deixou escrita uma importante memória descritiva da Macau de finais do século XIX – as políticas de desenvolvimento urbano delineadas previam, por exemplo, a definição de zonas específicas para a instalação de actividades poluentes e perigosas e exibiam uma costela ambientalista incomum para a época: “Casal Ribeiro apercebeu-se da pobreza dos solos de Macau e melhorou-os mediante a incorporação de restos orgânicos: os lixos da cidade e os dejectos dos próprios animais que puxavam os carros do lixo”, exemplifica o engenheiro agrónomo. 

Numa época em que grande parte do território que agora constitui a península estava ainda ocupado por chácaras, pântanos e campos de arroz, o “Plano de Melhoramento de Macau” dispensava grande atenção à arborização das colunas e da orla costeira, bem como à criação de uma rede de recolha e tratamento de esgotos e à adopção de um sistema de recolha de detritos que, à época, tinham natureza sobretudo orgânica. Às propostas juntavam-se empreitadas de maior envergadura – a secagem de pântanos, a execução de aterros e a dragagem frequente de rios e canais – com o fito de travar ou entorpecer os processos de assoreamento das águas que rodeavam Macau. 

Se a construção de aterros e a drenagem de pântanos e o seu subsequente arroteamento se prefiguravam como uma solução dispendiosa, mas definitiva, a ambiciosa execução de um plano sistemático de arborização do território prefigurava-se como o tipo de solução que apenas a passagem do tempo poderia provar adequada e bem-sucedida: entre outros factores, o assoreamento progressivo do Porto Interior e das zonas costeiras andava ligado à forte erosão sofrida pelas colinas durante a época das chuvas, pelo que apenas a arborização do território e a pavimentação das vias se afigurava como a resposta mais adequada a um problema que ensombrava a economia do território. 

Além de recomendar a arborização massiva das colinas, o Plano de Melhoramentos do Porto de Macau aconselhava a criação de jardins, missão que coube a Tancredo Caldeira do Casal Ribeiro.  

O próprio Casal Ribeiro é quem estabelece, no relatório que entrega ao Governador, as metas e a visão do que almejava atingir com o seu trabalho: “O aformoseamento dessas montanhas que, cobertas de vegetação, poderão transformar esta Colónia em verdadeira Cintra do Sul da China”. 

O criador de jardins  

Quando Tancredo Caldeira do Casal Ribeiro chegou a Macau a península estava dotada de um único jardim público, o Jardim de São Francisco. 

Apesar da cidade estar ainda, grosso modo, contida dentro das muralhas, os espaços verdes rareavam. Ao Jardim do Chunambeiro, nas mãos da Igreja, juntavam-se as coutadas particulares da Horta da Mitra, do Jardim da Flora e do Palacete da Gruta de Camões. Tudo o mais era desolação.  

Em 1870, o médico José Gomes da Silva alude, no relatório anual que fazia chegar ao Palácio do Governo, à necessidade de se promover “a plantação de árvores não apenas na cidade” mas também “nas encostas e nos cumes de alguns montes”. 

A Coelho do Amaral, que ocupou o cargo de Governador entre 1863 e 1866, é atribuída a criação do primeiro jardim público de Macau. Herdeiro do horto religioso anexo ao antigo convento de São Francisco, o jardim apresentava um traçado rectangular, bem diferente do actual: tratava-se, então, de um espaço íntegro, ainda que acometido de um certo desmazelo e esquecimento. Só em 1935 é que a abertura da Rua de Santa Clara acelera a desfragmentação do espaço. 

Em 1882, um ano antes de Tancredo Caldeira do Casal Ribeiro ter iniciado o primeiro plano sistemático de arborização do território, Constantino José de Brito – relator da Direcção das Obras Públicas da Província de Macau e de Timor – dá conta das obras de melhoramento de que o Jardim de São Francisco é alvo. 

Com a chegada a Macau de Casal Ribeiro tudo muda. Inspirado no trabalho de arborização impulsionado em Hong Kong, o jovem agrónomo propõe-se importar o modelo para o território: “Resolveu-se fazer a experiência no princípio da encosta do Monte da Guia, no terreno a partir da Estrada da Victoria até ao primeiro lanço do caminho que em ziguezague sobe até à fortaleza. A exposição sudoeste desse terreno também era favorável, porque assim menos havia a recear das lestadas rijas que por vezes açoutam com violência as árvores, e de que o novo plantio com certeza se ressentiria”, escreve Tancredo do Casal Ribeiro no relatório que entregou ao Governo, no final do primeiro ano em que desempenhou funções em Macau. 

O primeiro ensaio, conduzido com árvores adquiridas em Hong Kong para testar a viabilidade do projecto, deixou o jovem agrónomo entusiasmado: dos 3500 pés adquiridos na colónia britânica, apenas 110 não vingaram. Casal Ribeiro avança assim para a segunda fase do projecto: cria de raiz um viveiro que serve de sustentáculo à empreitada. Quando os rebentos apresentam maturidade suficiente para ser transplantados, as equipas de operários que trabalham às ordens do jovem agrónomo lançam-se à conquista das encostas da Guia e das demais colinas do território.  

“Casal Ribeiro teve o mérito de recorrer não a uma única espécie, mas a um leque delas. É verdade que o pinheiro predominava, ao ponto da Guia ser ainda hoje conhecida em chinês como “Chon San”, o Monte dos Pinheiros”, lembra António Saraiva. “Os pinheiros serviram de “espécie pioneira”, aquela que abre os solos áridos, proporcionando condições para outras espécies, mais exigentes, através de sementes trazidas pelo vento ou contidas nos dejectos dos pássaros, se estabelecerem, num processo que em ecologia se denomina de “sucessão”, complementa o arquitecto paisagista. 

As intervenções mais notáveis foram as que consubstanciaram a criação do Jardim da Vitória, do Jardim Vasco da Gama e do passeio público que na recta final do século XIX ligava os dois espaços, mas Casal Ribeiro poderá ter sido também, no entender de António Saraiva, uma peça-chave na aquisição, em 1885, do Jardim Camões por parte do Governo de Macau: “Tomás de Sousa Rosa foi o responsável pela compra, em 1885, por 30 mil patacas, do Jardim Camões. O espaço já era ajardinado, mas estava votado a um certo abandono. Como Casal Ribeiro era o técnico do Governo para esta área é de admitir que tenha sido parte na decisão”.  

Os espaços verdes hoje existentes na península são sensivelmente os mesmos que foram intervencionados há quase um século e meio por Tancredo Caldeira do Casal Ribeiro, algo que deixaria os contemporâneos do jovem agrónomo pasmados. 

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