Sexta-feira, Março 5, 2021
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A Misericórdia que sobrevive na Ásia

Texto e Foto Sandra Lobo Pimentel

Este ano, a Santa Casa da Misericórdia celebra 450 anos, “um percurso muito longo”, diz o provedor António José de Freitas, que fez uma retrospectiva da missão da instituição à MACAU. “Em cada 100 anos, são pelos menos três ou quatro gerações que aparecem. Temos já cerca de 20 gerações e, de facto, é uma longa história”.

A Misericórdia de Macau começou por causa da expansão ultramarina, servindo como apoio às viúvas e famílias dos marinheiros que desapareciam no mar. Na sua génese, não foi a única no continente asiático. “Havia muitas mais Misericórdias aqui na Ásia. Na Formosa, na Coreia, nas Filipinas, na Tailândia. Mas todas elas foram desaparecendo com o tempo por razões várias, sejam financeiras, políticas. Até ao presente, a Misericórdia de Macau é a única que sobreviveu singela em todo o continente asiático. Por isso, vale a pena celebrar estes 450 anos”, recorda o provedor.

O facto da Santa Casa continuar a sua missão deste lado do mundo, ganha ainda mais notoriedade face à mistura de povos e culturas que sempre existiu em Macau. “A missão da Misericórdia também traduz a coexistência pacífica entre várias culturas, e a grande diferença para as Misericórdias no Brasil e em Portugal, também ligadas à língua portuguesa, é que estamos a servir, e continuamos a servir, desde o início, uma população nativa com língua, culturas e tradições diferentes. É este o papel da Santa Casa.”

António José de Freitas é provedor há 20 anos. É, por isso, o provedor do novo milénio e continua a abraçar a missão. “Não estou arrependido porque a causa merece o esforço e o sacrifício, não só da minha parte, mas também de todos os mesários e irmãos. E tem sido neste esforço conjunto que a Misericórdia conheceu novas perspectivas. Depois da transferência de poderes, já lá vão quase 20 anos, fizemos algum trabalho, sobretudo depois de 1999. Quisemos dar uma imagem diferente, deixar a impressão de que a comunidade portuguesa que apostou permanecer em Macau, é composta por pessoas válidas, que conseguem fazer algo em prol da sociedade civil”, sublinha.

O provedor lembra que a era da Região Administrativa Especial de Macau (RAEM), após 1999, mostrou-se fundamental para a continuação do trabalho de solidariedade social da Santa Casa. “Para o governo da RAEM, na nova conjuntura, depois da transferência de poderes, foi importante manter instituições de matriz portuguesa”, defende António José de Freitas, que não esquece a Santa Casa como um espaço que a sociedade civil conhece bem, desde logo o edíficio-sede no Largo do Senado. “É um edifício de memória colectiva para muitas gerações, um espaço privilegiado de bem fazer às pessoas, independentemente da etnia ou credo, e esse trabalho tem sido feito até agora”.

Dos mais novos aos mais velhos

O serviço que a Misericórdia de Macau presta é abrangente, começando pela creche da Santa Casa, que hoje recebe 258 crianças com idades compreendidas entre os seis meses e os três anos, e pauta-se por um ensino bilingue. As primeiras instalações foram inauguradas em 2002, e a creche foi mais tarde ampliada. “A creche funciona nas duas línguas, português e chinês, o que é importante para aqueles que permanecem em Macau e querem assegurar aos seus filhos uma educação pré-escolar em língua portuguesa”.

Além do programa de subsídios de propinas, há ainda a atribuição de prémios aos alunos da Escola Portuguesa de língua não materna portuguesa e chinesa, um incentivo à aprendizagem das duas línguas.

No espectro oposto, a Misericórdia tem também um lar, com capacidade para 135 camas, e o provedor diz que “é uma grande aposta da Santa Casa”. O Lar de Nossa Senhora da Misericórdia, que foi totalmente renovado e ampliado em 2001, é considerado uma das melhores unidades locais para a terceira idade, tanto no que diz respeito às instalações como ao serviço.

Mas a assistência da Santa Casa aos idosos de Macau tem mais de cem anos. O antigo asilo, conhecido popularmente por Albergue das Velhotas, e que no passado funcionou como casa de refúgio para mulheres sem lar, agora restaurado, tornando-se num espaço cultural da Santa Casa na zona do bairro de São Lázaro.

Não esquecendo o apoio aos deficientes, que há muito faz parte da missão da instituição. “Temos um centro de reabilitação de cegos, que acolhe, em regime diurno, várias dezenas de invisuais, cerca de 80, que ali passam o dia de uma forma útil e produtiva”. O centro funciona desde 1960, há mais de meio século.

O Centro de Reabilitação de Cegos, foi durante muitos anos o único centro em Macau de apoio social a deficientes visuais. Renovado em 2003, organiza sobretudo eventos sociais para os invisuais e providencia formação, e promove actividades, como por exemplo, tricotar lã ou entrançar rota.

Mais recente, a Santa Casa da Misericórdia de Macau iniciou um projecto de loja social. “É um projecto decalcado das lojas sociais que existem em Portugal, mas com as suas adaptações. Aqui em Macau não há distribuição de roupa, o essencial são géneros alimentares”, explica.

O projecto é diferente da Caritas, já que os beneficiários são agregados familiares que trabalham, mas cujo rendimento fica aquém do custo de vida na RAEM”.

A loja social não representa qualquer custo para a Misericórdia, já que são várias entidades que patrocinam o projecto. “Não só as operadoras de jogo, porque são apenas seis e o ano tem doze meses. A outra metade é garantida por outros patrocinadores que temos que procurar. Felizmente, temos conseguido sem grandes sobressaltos”.

Começou há sete anos, em 2013, e vai-se mantendo em parceria com duas entidades que ajudam na selecção dos agregados familiares beneficiários. “A triagem é feita pela Associação Geral dos Moradores e também pela Federação das Associações dos Operários, porque são eles que conhecem as famílias”.

Os patrocínios mensais começaram nas duzentas mil patacas, mas passaram para trezentas mil, de forma a cobrir a distribuição dos bens a 350 agregados familiares.

O provedor não esquece a importância do Núcleo Museológico da Santa Casa, inaugurado em 2001, e que contém uma colecção de relíquias católicas, com peças que datam do século XVI e que testemunham o percurso da cultura ocidental introduzida na China através de Macau.

Bases sólidas para o futuro

O passado da Santa Casa “é de grande dignidade”, diz António José de Freitas, com a missão a manter-se com apoios vários que fizeram a instituição chegar aos dias de hoje. Quanto ao futuro, o provedor assegura que “as bases são muito sólidas, com um fundo considerável”, sem esquecer o subsídio do governo para os equipamentos sociais, “que é igual para todos”, lembra. “A Santa Casa, neste momento, tem todas as condições para, sem grandes sobressaltos, perdurar, no mínimo, mais cinquenta anos, ou seja, até ao quinto centenário. O trabalho, esse, terá de ser continuado pelas novas gerações. “Creio que os mais jovens vão continuar com esta responsabilidade e com esta missão de valores humanitários e de solidariedade”.

A Santa Casa da Misericórdia de Macau tem, no presente, 180 funcionários, o que representa “um grande encargo”, refere o provedor, sendo essa parte da responsabilidade de quem dirige e de quem venha a dirigir a instituição.

“Penso que a Misericórdia pode fazer ainda mais e melhor”, confessa António José de Freitas, mas, “tudo depende da vontade e do apoio dos seus dirigentes”. A renovação desses corpos também está dependente do envolvimento das novas gerações na missão da Misericórdia. Nesta altura, a Irmandade conta com 350 pessoas. “Há pedidos para a integração de novos irmãos, mas neste momento não há vagas. Elas só podem abrir por dissociação ou por óbito de algum irmão”, explicou o provedor. “Não podemos alargar muito mais do que isso, porque tem havido uma tradição. Para ser irmão da Santa Casa, primeiro tem que ser residente permanente da RAEM, depois precisa de ser, no mínimo, de cultura portuguesa, porque aqui tudo funciona em português”.

Evento inédito nas comemorações

A Santa Casa da Misericórdia de Macau fez parte do itinerário de Marcelo Rebelo de Sousa na visita que o Presidente da República de Portugal fez à RAEM no início do mês de Maio. A instituição começava aí os preparativos para a data redonda e com um evento inédito.

No âmbito das comemorações dos 450 anos, Macau recebeu pela primeira vez o Congresso Internacional das Misericórdias, entre os dias 13 e 14 de Maio. “Isto é muito bom para Macau e, sobretudo, para a Santa Casa, porque dá abertura para o exterior. Porque, aos olhos de muita gente, afinal, o bem fazer, a solidariedade, a justiça social, ultrapassa fronteiras e não tem limites temporais”.

Além de uma recepção solene, que assinalou o aniversário da Santa Casa, entre as actividades, realizou-se um debate sobre o património cultural das Misericórdias, que incluiu uma visita aos vários equipamentos sociais, e uma exposição no Albergue.

Na ocasião da passagem dos 450 anos da fundação da instituição, a Irmandade decidiu proclamar dois ex-governadores para irmãos de mérito: o general Garcia Leandro, o primeiro governador que chegou a Macau após o 25 de Abril, que instituiu o voto livre na Misericórdia (até então, o provedor e os mesários eram nomeados pelo Governo), e o último governador antes da transferência de poderes, o general Rocha Vieira, que, “deu sempre um grande apoio à Santa Casa, deixou um subsídio significativo para a Irmandade e atribuiu uma medalha de valor”.

O provedor diz que são individualidades que “também marcaram a história da Santa Casa e, por isso, foram proclamados como irmão de mérito”.

Nestas comemorações, que duraram cerca de uma semana, estiveram em Macau cerca de 200 convidados, em representação de Misericórdias de Portugal, Brasil, Itália, França e Moçambique. António José de Freitas lamenta que em alguns países lusófonos a actividades das Misericórdias tenha terminado, como são os casos de Angola e de Timor-Leste.

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