Sexta-feira, Março 5, 2021
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O último “round”

Texto Andreia Sofia Silva (em Portugal) | Fotos GCS 

Chui Sai On deixa no final deste ano o Executivo da RAEM com a certeza de que a cooperação com Portugal está bem e recomenda-se. O país é, por si só, um parceiro histórico, mas a mais recente visita do governante a Lisboa e ao Porto, a última na qualidade de Chefe do Executivo, deixou claro que as parcerias estratégicas nas áreas do ensino, economia, turismo e justiça estão para continuar. A visita aconteceu entre os dias 12 e 18 de Maio. 

Além dos encontros com o presidente da República Portuguesa, Marcelo Rebelo de Sousa, e com o primeiro-ministro, António Costa, a visita de Chui Sai On ficou marcada pela assinatura de três novos acordos no âmbito da Comissão Mista Macau-Portugal, co-presidida pelo Chefe do Executivo e pelo ministro dos Negócios Estrangeiros português, Augusto Santos Silva.

 

Depois de uma reunião de duas horas, que decorreu no Palácio das Necessidades, em Lisboa, Augusto Santos Silva mostrou-se satisfeito com os resultados obtidos. “Esta foi uma ocasião para a celebração de três acordos muito importantes. Um deles na área do turismo que promove a cooperação entre os institutos e escolas de formação, bem como a cooperação entre as duas agências de promoção do turismo, em Portugal e em Macau. O segundo acordo é mais um passo na cooperação nessa área essencial que é a justiça.”

Este documento foi assinado na presença da ministra da Justiça portuguesa, Francisca Van Dunem, e da secretária para a Administração e Justiça de Macau, Sónia Chan, tendo como foco a extradição de infractores em fuga. 

Manuel Heitor, ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior de Portugal, e Alexis Tam, secretário para os Assuntos Sociais e Cultura, assinaram um terceiro acordo que “irá finalizar a breve prazo um trabalho que vai permitir o reconhecimento automático de graus e diplomas entre os dois sistemas de ensino superior de Macau e de Portugal”, disse Augusto Santos Silva. 

No Estoril, Alexis Tam acordou ainda o funcionamento em Portugal de um pólo do Instituto de Formação Turística, numa cerimónia que contou com a presença da secretária de Estado do Turismo, Ana Godinho. 

Também no Palácio das Necessidades, o ministro dos Negócios Estrangeiros não deixou de reforçar a importância que o projecto da Grande Baía Guangdong-Hong Kong-Macau tem para a política externa portuguesa. Isto porque “a reunião debruçou-se sobre a intensificação das relações económicas entre Portugal e Macau, designadamente no programa de diversificação da economia da RAEM” e sobre “a atenção com que Portugal acompanha o grande projecto da República Popular da China que é a Grande Baía”.

Foi também destacada “a importância do Fórum Macau como plataforma de cooperação entre a República Popular da China, Portugal e demais países da língua portuguesa”. Já Chui Sai On falou do “consenso” atingido de que “a RAEM e Portugal vão continuar a reforçar a cooperação”, tendo sido feito “um balanço dos trabalhos desenvolvidos e dos que serão desenvolvidos”. 

 

O governante adiantou ainda que, depois da visita a Lisboa, e até final do seu mandato, vai “continuar a incrementar a influência que o Fórum Macau representa e reforçar o seu fundo de investimento”. Ficou ainda a promessa de que será dado “apoio a projectos de startups de jovens portugueses para que possam ir até Macau e à Grande Baía”. 

O sucesso chamado português 

Depois de, na passagem de Marcelo Rebelo de Sousa por Macau, ter sido anunciado o projecto de expansão da Escola Portuguesa de Macau (EPM), Augusto Santos Silva agradeceu à RAEM pelos investimentos feitos em prol do ensino da língua e falou dos excelentes resultados obtidos após a transferência de administração. 

“Os números são eloquentes: nunca, como hoje, houve tantos estudantes a aprender português em Macau, nunca houve tantas escolas que ensinam o português e nunca houve tantos professores. Esta expansão do português na RAEM só é possível devido ao apoio a todas as horas do Executivo da RAEM.”

Na conferência de imprensa de balanço da visita, realizada ainda em Lisboa e antes da partida para o Porto, Chui Sai On garantiu que o dossiê da EPM será acompanhado por Alexis Tam. “Depois do estabelecimento da RAEM temos apoiado sempre a EPM. Durante a visita do presidente da República Portuguesa a Macau destacámos a amizade e o apoio à EPM. O secretário Alexis Tam está responsável por esse projecto.”

Para Chui Sai On, a visita a Portugal “teve um grande significado”, uma vez que acontece no ano em que se celebram os 70 anos da República Popular da China e os 40 anos do estabelecimento das relações diplomáticas entre Portugal e a China, bem como os 20 anos do estabelecimento da RAEM. 

“Pretendemos aprofundar a relação no futuro entre Portugal e Macau. A RAEM, depois de 20 anos, e com apoio do Governo Central, e também com o aproveitamento do Fórum Macau, participa na construção da Grande Baía. Há a perspectiva de que Macau seja um dos lugares centrais deste projecto”, acrescentou Chui Sai On. 

O regresso a Macau fica marcado pela “promoção do empreendedorismo jovem” por parte dos secretários do actual Executivo. “Vamos acompanhar este assunto para proporcionar mais oportunidades aos jovens.”

Chui Sai On falou também dos assuntos abordados nas reuniões com Marcelo Rebelo de Sousa e António Costa. “No encontro com o Presidente da República, o ponto mais importante foi a relação existente entre a China e Portugal, que está numa excelente fase, tendo em conta as áreas da cultura, turismo, comércio, sem esquecer outras áreas da cooperação. Participamos no projecto ‘Faixa e Rota’ e contamos com a participação de Portugal”, frisou.

Legado histórico

A agenda de Chui Sai On ficou também marcada pela inauguração de uma exposição fotográfica intitulada “A concretização com sucesso do princípio ‘um país, dois sistemas’”, num hotel no centro de Lisboa, onde o ministro da Administração Interna de Portugal, Eduardo Cabrita, destacou o legado histórico que os portugueses deixaram em Macau, bem como a participação de Portugal no projecto da Grande Baía e da iniciativa “Faixa e Rota”. 

“Esta relação estreita entre os dois países e Macau é o grande elo de ligação histórico entre Portugal e a China, mas é também um elo de ligação a olhar para o futuro”, disse o ministro. “A aplicação em Macau do princípio ‘um país, dois sistemas’ é a melhor evidência do resultado positivo da cooperação estreita entre os dois países e é uma garantia do reforço permanente da amizade entre os nossos dois povos”, salientou Cabrita. 

Este não esqueceu “a grande comunidade portuguesa em Macau e uma existência de uma presença cultural através da Escola Portuguesa de Macau, de uma comunicação social em português e do reforço das relações de cooperação económica e transmissão de experiências”.

O ministro deu o exemplo da cooperação existente entre a Polícia de Segurança Pública (PSP) de Macau e Portugal, que é “sinal desta maneira de viver, basicamente inalterada, com que todos sonhámos no final do século passado”. 

A comitiva da RAEM foi também composta pelos membros do Conselho Executivo que, juntamente com a secretária Sónia Chan, realizaram uma visita à Fábrica de Startups, situada nos arredores de Lisboa. Leong Heng Teng, porta-voz do Conselho e Cheang Chi Keong, membro e ex-deputado, lembraram a importância de mais medidas de apoio aos jovens empreendedores que querem estabelecer as suas primeiras pequenas e médias empresas.

Língua portuguesa vai continuar a ser importante

A visita da comitiva de Macau a Lisboa ficou ainda marcada por um encontro com cerca de 200 estudantes. Durante uma hora, o Chefe do Executivo recordou os tempos em que, ele próprio na pele de estudante, nem conseguia abrir uma conta bancária. Também a secretária para a Administração e Justiça lembrou os tempos em que foi uma aluna do ensino superior em Lisboa. 

Por entre conselhos e sugestões dados aos alunos da RAEM em Lisboa, a secretária garantiu que a língua portuguesa vai continuar a ser necessária em Macau nos próximos anos. “É indispensável a língua portuguesa e essa é a vossa maior vantagem aqui em Lisboa. Pode haver a ideia de que em Macau já não será necessária a língua portuguesa, mas nada disso. Todas as áreas, incluindo a economia ou o direito, precisam muito da língua portuguesa. Depois de regressarem a Macau espero que possam ingressar na função pública.”

O próprio Chefe do Executivo referiu que os estudantes presentes, na sua maioria dos cursos de Direito e de tradução-interpretação de chinês e português, também terão vagas na Administração aquando da conclusão dos seus cursos. 

“Sejam bem-vindos a ingressar no Governo da RAEM, algo que será bom para acumular experiências para a sua vida profissional”, disse. Em resposta à questão de um aluno, relativa às diferenças jurídicas entre as regiões da Grande Baía, Chui Sai On adiantou que Pequim já definiu linhas orientadoras sobre essa matéria.  “Enfrentamos esse desafio na forma como podemos criar um mecanismo que resolva essas diferenças. O Governo Central define as linhas gerais para o planeamento e desenvolvimento da Grande Baía e destaca as diferenças dos sistemas. Nas áreas jurídicas podemos fazer várias justificações sobre essas diferenças por isso espero que depois do estudo os nossos colegas possam fazer bons trabalhos na área jurídica”, concluiu.

A visita ao norte e o diálogo com Kevin Ho

Os dias 17 e 18 de Maio ficaram marcados por um périplo à cidade do Porto, onde foi assinado, no imponente edifício da Câmara Municipal, um novo memorando de entendimento com a cidade, que há 22 anos é geminada com Macau. 

O acordo vai permitir “um maior intercâmbio e cooperação nas áreas da economia, comércio, turismo, educação, medicina tradicional chinesa, empreendedorismo jovem e protecção do património cultural, entre outras”. Na área educativa, destaque para o facto de existir um incentivo a que “os estudantes de ambos os territórios participem activamente no programa de bolsa de estudo ‘Faixa e Rota’, estabelecido pela Fundação Macau”, além de “promover o intercâmbio e a aprendizagem dos estudantes e fomentar a cooperação das instituições do ensino superior, de modo a favorecer a formação de quadros qualificados”, rematou Rui Moreira, presidente da Câmara Municipal do Porto.

Por sua vez, Chui Sai On destacou a importância do intercâmbio de alunos entre as cidades geminadas. “Macau atribui importância ao reforço da cooperação nos domínios da educação, da inovação da ciência e da tecnologia e do intercâmbio entre os jovens. É de referir que foi já criada a Bolsa de Estudo ‘Faixa e Rota’ no âmbito da Fundação Macau, e os alunos da cidade do Porto são bem-vindos a Macau para prosseguirem os seus estudos.”

Moreira deu também a Chui Sai On as Chaves da Cidade do Porto, o que dá ao Chefe do Executivo um estatuto de “cidadão de honra” para a cidade invicta. 

Chui Sai On foi também conhecer de perto os investimentos que o empresário de Macau Kevin Ho está a desenvolver na cidade do Porto, além do investimento que já foi feito no grupo Global Media, que em Portugal opera na área da comunicação social. Kevin Ho vai investir cerca de 70 milhões de euros para renovar um antigo edifício da cidade, que dará lugar a um hotel, além de apostar na construção de um empreendimento residencial na zona da Foz.

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