Terça-feira, Agosto 11, 2020
Inicio Macau A rainha dos céus

A rainha dos céus

Texto Fernando Sales Lopes

edificação do templo de A-Má, em Macau, está ligada a uma lenda com cor local e assente na territorialidade, como acontece com todas as outras divindades adoradas em Macau a quem se atribuem intervenção transcendente.

Diz a lenda que em Fujian, origem da maior parte das gentes de Macau, muitas embarcações se preparavam para largar carregadas de produtos diversos, transportando gentes e mercadorias para as povoações das costas da província de Guangdong. Na azáfama do cais, uma jovem sem posses para a viagem suplicava para que alguém lhe cedesse transporte em troca de um qualquer trabalho a bordo. Ninguém parecia ver e ouvir os pedidos da jovem. Só um barqueiro, comerciante de chá, se apiedou dela.

Largaram os navios com bom tempo, mas breve se levantou grande borrasca. Durante dias a tempestade foi destruindo e afundando um a um os juncos, levando consigo gente e haveres. Todos naufragaram. Todos, menos aquele que transportava a jovem, que agarrada ao leme trouxe a embarcação safa a águas amenas do que viria a chamar-se Porto Interior de Macau.

Descendo do junco, a rapariga, indiferente à chamada do barqueiro, subiu a colina desaparecendo por entre as nuvens húmidas e carregadas. A nova rapidamente se espalhou pelas gentes do mar.

Reconhecido o milagre como obra da jovem, os sobreviventes ali erigiram um altar em honra de A-Má, acreditando ser a encarnação da deusa aquela pobre mulher. Naquele lugar viria a ser edificado mais tarde o templo em seu louvor.

O templo

O templo de A-Má, o Ma Kok Miu, também conhecido como Templo da Barra, foi construído no século XV, durante a Dinastia Ming, e é o mais antigo templo de Macau, estando classificado como Património Mundial. Serpenteando pela colina da Barra, o templo desenvolve-se por várias capelas dedicadas a Tin Hau, ou A-Má, sendo a última em honra de Kun Iam, a deusa da misericórdia, também ela protectora das gentes de Macau.

Pela colina, entre a vegetação, surgindo ao olhar quando se caminha pela escadaria estão as rochas com inscrições poéticas, que marcam uma presença que testemunha a devoção à divindade ao longo dos tempos. Colina do Vento e do Fogo, assim se denomina este cenário encantador.

O Porto Interior

O Porto Interior era o reino das gentes do mar e dos que viviam da faina da pesca, mesmo em terra, como as inúmeras oficinas e lojas de aprestos marítimos que por ali pululavam, para além dos armazéns de pescado, os chamados lanes. Nos anos 80 do século passado, ainda as águas se cobriam de sampanas alinhadas de braço dado nas festas do Ano Novo Lunar.

O Porto Interior guarda ainda hoje, aqui e ali, signos e sinais dessa vida que já não existe. Claro que ainda há quem viva do mar mas deixaram de ser essas as suas actividades principais, lanes de peixe há alguns mas são mais os restaurantes e o comércio dirigido ao turismo o seu pilar principal. A vida das comunidades locais nesse palco do Porto Interior é marcado pelas festividades ligadas às gentes do mar no Ano Novo Lunar e na Festa de A-Má. Noutros tempos, essas eram as únicas alturas em que as gentes do mar vinham à terra, agradecer à sua protectora a faina farta e a protecção das suas vidas no mar.

Segundo as contas de um pescador já na reforma, durante a década de 70 do século passado existiam mais de mil barcos. Já no início do século XXI, havia cerca de duas centenas, com a tendência da redução de embarcações a ser uma constante. A alteração no movimento portuário na zona, nomeadamente no respeitante à actividade piscatória, deve-se principalmente às alterações económicas e sociais da Macau dos tempos modernos, de mais oportunidades para os jovens, maior desenvolvimento social e melhores condições de vida para os idosos.

A vida das gentes do mar, afastadas da terra e a viver toda a sua vida nas embarcações está, felizmente, longe, assim como o analfabetismo que os caracterizava. Hoje estuda-se e procura-se emprego em terra. Macau está diferente; o mercado de trabalho é diversificado. Os reformados deixam de ir ao mar. A sampana deixou de ser a casa do pescador e de toda a sua família. Por isso, o movimento de tancares levando e trazendo gente das embarcações para terra é agora escasso.

O retrato da festa

A festa inicia-se com a dança do leão: leões do norte e do sul percorrem todo o templo, limpando-o dos maus espíritos, dançando ao som de ritmada música. O “brinco do leão”. Assim era conhecida em Macau a sua dança. No interior reza-se, queimam-se pivetes, faz-se vénias às cinco direcções. No templo faz-se a chamada dos que contribuíram para a festa. Em voz alta, o valor da sua dádiva para que os deuses anotem. Confere-se o livro. A folha vermelha com a mensagem. Ela chegará ao seu destino…

De frente para o altar principal, o crente faz a pergunta para si, em pensamento. Levanta as duas tabuinhas (as bui) e lança-as ao chão. Se as faces diferentes ficarem para cima, a resposta ao seu pedido é afirmativa. Se ficarem as lisas, é negativa. Já no caso de serem as arredondadas a ficarem para cima, a resposta não é sim nem não. Então é tentar a sorte mais uma vez!

A ópera

As estatuetas de A-Má são transportadas para o pavilhão onde assistirão à ópera. O “Auto-china”, assim se designava noutros tempos em Macau a ópera cantonense, que marca presença obrigatória em todas as festividades comemorativas dos aniversários das divindades. É sempre a parte da festa mais esperada pelos festeiros, jovens ou anciãos.

Em arriscado número de equilíbrio, os armadores de bambu passam cabos por entre as canas que estruturam o enorme pavilhão. O espectáculo começa a nascer. Por entre os cabos e bambu, coisas e loisas, roupas de fantasias tudo em seu lugar. Caixas de maquilhagem, adereços. Malas arrumadas e atadas. Lâmpadas rodeando espelhos, em camarins sem paredes, mas onde o artista se transformará na sua personagem.

Fim de tarde, a multidão espera calmamente; o espectáculo está quase a começar. O pano sobe, o fumo cria o ambiente, enigmáticos os artistas entram no palco. A saga começa a ser representada, cantada e contada mais uma vez em honra de A-Má, a rainha dos céus.

Aldeia Cultural de A-Má

Embora o tradicional lugar da festa a A-Má protectora seja na Barra, os crentes podem prestar culto às várias imagens da divindade que partilha com outras pelos diversos templos de Macau.

Nomeadamente em Coloane, há um complexo também a si dedicado, onde fica a maior estátua de A-Má do mundo. Inaugurada no Alto de Coloane em 1999, está hoje integrada no Complexo Cultural de A-Má, que foi construído já no século XXI. O complexo de estilo “Qing” começou a erguer-se em 2001. Para além do templo dedicado a Tin Hau, outro dos nomes de A-Má, comporta um museu e um conjunto de lojas de recordações. Também no templo da Aldeia Cultural de A-Má se venera a divindade.

O Festival de A-Má na Aldeia Cultural de Coloane, um evento também dedicado à rainha dos céus, realiza-se anualmente em meados de Outubro. O objectivo é mais cultural e turístico do que religioso, embora esta componente seja importante. Um festival recente, mas que atrai muitos turistas do Interior do País, principalmente da província de Fujian, terra natal da deusa, de Hong Kong, Taiwan, mas também de outras partes.

Em festivais de carácter mais lúdico como este, ou nos tradicionais, a crença persiste. A devoção a A-Má, apesar do declínio da frota pesqueira, não só permanece entre as gentes de Macau, como se tentam ainda recuperar antigas tradições. É o caso da procissão da divindade que regressou recentemente às ruas de Macau depois de um hiato de 70 anos.

ARTIGO