Sexta-feira, Outubro 30, 2020
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“Renascer” em Macau

Texto Catarina Mesquita | Fotos Steven Chao

cenário é de festa. As paredes do edifício do Museu de Arte de Macau (MAM), que agora comemora 20 anos de existência, expõem desta vez obras de enorme valor da época renascentista.

Há mais do que uma razão para comemorar com esta exposição: o 20.º aniversário do museu, os 500 anos da morte de Leonardo Da Vinci, e a primeira parceria do MAM com o British Museum, o primeiro museu público do mundo. “Era um desejo antigo de trabalharmos com o British Museum”, disse Margarida Saraiva, curadora residente do MAM, aquando da inauguração da exposição que traz a Macau 42 mestres do período italiano renascentista como Leonardo Da Vinci, Michelangelo, Rafael, entre outros.

Esboços do mural da capela Sistina e obras que serviram de estudo para a criação da icónica Mona Lisa são algumas das peças que se podem visitar até dia 30 de Junho. Pela primeira vez em Macau é possível apreciar também os trabalhos de Tiziano, Ghirlandaio – professor de Michelangelo – e de Correggio, que inspirou artistas do estilo barroco e rococó.

Um trabalho de perfeição

A época renascentista destaca-se pela expressão fiel do universo desde o detalhe do corpo humano ao retrato de espaços através da aplicação de técnicas de profundidade, volume e tridimensionalidade. E é precisamente isso que a exposição quis marcar: os 52 desenhos originais que compõem a mostra estão divididos em seis secções que destacam a figura humana, o movimento, a luz, os trajes e o mundo natural envolvente aos olhos dos artistas dos séculos XIV e XVII.

Hartwing Fischer, director do British Museum, deixa uma nota com um exemplo a partir da exposição: “O estudo de giz a preto e branco de Tiziano, em papel preparado azul, permite-nos partilhar o momento em que o mestre veneziano encontrou o ângulo preciso da cabeça e a distribuição de luz que expressa a alegria fervorosa de um dos santos observando a figura da Virgem Maria, em ascensão para o céu, numa nuvem, em cima da sua própria cabeça. Tiziano, provavelmente da mesma forma que a maioria dos seus contemporâneos, nunca imaginou que um desenho tão funcional fosse visto fora do seu estúdio, sobretudo depois de ter completado a pintura na igreja veneziana, onde ainda hoje se encontra; contudo a preservação de estudos preparatórios deste tipo atesta a valorização, desde longa data, das suas qualidades artísticas e estéticas. O conhecimento de tais desenhos oferece-nos uma ideia de como as pinturas da Renascença italiana, desde o arranjo das figuras até às expressões e gestos individuais, foram cuidadosamente planeadas no papel, antes do artista pegar no seu pincel. A consciência do desenho subjacente à arte do Renascimento italiano aumenta a nossa admiração pelo esforço envolvido na realização das grandes obras que se encontram tanto em Itália, como em numerosas galerias de todo o mundo”. 

Sarah Vowels, curadora da exposição, sublinhou que o objectivo da mostra é precisamente que “as pessoas percebam a importância e primazia dos desenhos destes jovens artistas”.

Segundo Mok Ian Ian, presidente do Instituto Cultural de Macau, “Raphael desenvolveu as suas próprias técnicas, combinando as dicas secretas de pintura de ambos os mestres, tendo, porém, observado humildemente: ‘não sei se as minhas pinturas são consideradas artisticamente perfeitas, mas estou a trabalhar arduamente para levá-las à perfeição’. Diz-se que Leonardo da Vinci nunca se sentiu satisfeito com as suas próprias obras e que, como resultado, entregava-as sempre com atraso aos seus compradores”.

E isso admira mesmo quem visita o MAM por este dias. Yeona Nari é coreana e mostra-se impressionada com o detalhe dos trabalhos. A visitante passou pelo MAM cativada pelos nomes dos grandes artistas cujos trabalhos não teve nunca oportunidade de ir ver à Europa. “Hoje as técnicas modernas fazem valorizar os trabalhos mais antigos. É mesmo um resultado de paciência. Com uma máquina 3D é possível fazer em segundos o que antigamente levava anos”, sublinha com admiração.

O museu quis introduzir as técnicas mais modernas de impressão 3D – através das quais os visitantes, em especial aqueles com incapacidade visual, podem ter experiências mais tácteis com 16 telas de uma exposição onde o papel tem uma função fundamental.

Mok Ian Ian lembra que “durante o século XVI, o desenho foi gradualmente ganhando uma importância cada vez maior no processo criativo. A popularização da impressão de caracteres móveis resultou num aumento da quantidade de papel disponível a baixo custo, permitindo aos artistas recorrer ao desenho como um meio importante de criar ideias, capturar momentos de inspiração e conceber obras de forma preliminar, o que acabaria por contribuir para a popularização desta arte. Por conseguinte, o desenho não só serviu de modelo para a pintura, mas veio também a tornar-se uma arte passível de ser admirada em si mesma e cobiçada por apreciadores e colecionadores de arte, criando um valor próprio independente.”

Margarida Saraiva reitera. “O papel, a base de qualquer desenho, é uma invenção chinesa. É a grande disponibilidade de desenho de papel na Itália da Renascença que faz com que o desenho tenha a importância que tem”.

Breve história da Renascença

Na longa história da arte, o grande movimento de cultura e pensamento que foi a Renascença resultou da revitalização dos mercados nas áreas urbanas da Europa durante o período final da Idade Média, bem como do crescente conhecimento das civilizações grega e romana

Naquela época, os intelectuais italianos da nova geração acreditavam ser sua missão reanimar a idade de ouro da Grécia e Roma antigas e fazê-la prosperar novamente. Este período foi considerado “a era da descoberta do homem e da descoberta do mundo”. Os ideais humanísticos propiciados pela cultura, a qual por si só é de natureza hereditária, prevaleceram, impulsionando assim o nascimento e o estabelecimento do novo mundo.

A manifestação de novos pensamentos e espíritos foi alvo de grande atenção na cena artística italiana. As duas qualidades determinaram a tendência representativa como princípio fundamental na arte clássica, tendo exercido uma grande influência no desenvolvimento da arte europeia nos séculos seguintes.

No domínio da pintura, os artistas dos inícios da era renascentista procuraram criar a ilusão de espaço tridimensional usando materiais bidimensionais, permitindo aos espectadores ver a obra de arte como um retrato da vida real, uma imagem palpável, perceptível e compreensível. 

Os “Três Grandes” – Leonardo da Vinci (1452–1519), Michelangelo Buonarroti (1475–1564) e Raphael Sanzio (1483–1520), os representantes do auge do Renascimento – desenvolveram mais aprofundadamente os estudos dos seus antecessores do século XV, integrando perfeitamente razão e emoções, realidade e ideal, na criação das suas obras.

Tal integração contribuiu então para um elevado grau de harmonia entre formas e espaço, estabelecendo um protótipo clássico para a arte representativa. Embora a arte seja apenas uma das abordagens através das quais Leonardo da Vinci esperava compreender o mundo, três das suas obras-primas, A Virgem dos Rochedos, A Última Ceia e Mona Lisa, continuam a ocupar uma posição elevada que mais ninguém jamais conseguiu alcançar. Michelangelo, 23 anos mais novo do que Da Vinci, é conhecido como o “mais importante escultor do Ocidente”, tendo evidenciado uma destreza técnica inigualável no imponente fresco em grande escala no tecto da Capela Sistina, no Vaticano, e nos movimentos corporais realistas da sua antiga escultura, David. Raphael, o mais jovem entre os “Três Grandes”, teve um fim prematuro com 37 anos de idade, sendo considerado o autor dos mais delicados retratos de Virgem Maria na história da arte ocidental, cujas obras foram sempre consideradas como sendo a perfeita manifestação do espírito da arte clássica. As obras-primas destes três mestres serviram igualmente como pontos de referência artísticos para as gerações seguintes.

Uma outra figura representativa que sintetiza, juntamente com os “Três Grandes”, as gloriosas conquistas artísticas do Renascimento italiano é Tiziano (1488/90–1576), o qual envidou esforços ao longo de toda a sua vida para criar um estilo artístico com uma vitalidade exuberante e uma magnificência sumptuosa. Os feitos artísticos de Tiziano e dos “Três Grandes” estão estreitamente relacionados com as suas conquistas no domínio do desenho. Segundo registos históricos, o desenho é a base das artes visuais na arte ocidental, constituindo uma disciplina, uma formação fundamental, uma forma de criação artística, bem como uma obra de arte. Não só pode servir de “rascunho”, como, em si mesmo, constitui uma obra de arte. Desenhos do corpo humano são fruto dos estudos anatómicos de Da Vinci, conhecidos pela sua impecável precisão anatómica. A Virgem e o Menino com Santa Ana, obra criada com carvão em papel acastanhado, constitui uma das suas obras de desenho, tendo sido inaugurada em Florença. Nesta obra, o pintor adoptou uma técnica sem precedentes conhecida como ‘sfumato’, a qual consiste na ligação suave entre as áreas de luz e de sombra numa figura, sem bordas evidentes.

A técnica permite o uso de múltiplas camadas para produzir um efeito tridimensional. Segundo alguns académicos, “os fundamentos da Renascença encontram-se nos desenhos”. Os artistas da época preocupavam-se com a autenticidade visual e levavam consigo os seus blocos de desenho para poder desenhar a qualquer hora, em qualquer lugar.

Leonardo da Vinci, que já contava com inúmeras conquistas no domínio das artes e da investigação científica, exerceu uma profunda influência sobre Michelangelo, Raphael e Tiziano.

A apresentação estereoscópica das pinturas durante a Renascença procura manifestar, nas palavras de Leonardo da Vinci, o “relevo” na apresentação, fazendo com que as figuras humanas e as dobras dos panejamentos “aparecessem” na tela. Na opinião de Michelangelo, “a pintura deve ser considerada excelente na medida em que se aproxima do efeito de relevo”, tendo Raphael, por sua vez, aprendido também a técnica de composição piramidal de Leonardo da Vinci.

A tendência artística de uma época não pode tornar-se predominante com base no trabalho de uma só pessoa, como é o caso da Renascença.

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