Terça-feira, Junho 2, 2020
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Prenúncios de uma nova prosperidade

Texto José Luís Sales Marques 

historiador chinês Tang Kaijiang, um reputado especialista na investigação e divulgação da presença portuguesa na China durantes as dinastias Ming e Qing, citando o livro Regni Chinensis Descriptio, de Mateus Ricci (1552-1610), descreve como um capitão da guarda do governador geral de Zhaoqing se deslocou a Macau trazendo uma carta autorizada por este magistrado. No documento convidavam-se os missionários da Companhia de Jesus a se estabelecerem naquela prefeitura, aceitando a riqueza oferecida pelo Governo chinês e construindo uma igreja e uma residência.

Decorria o ano de 1583 e esta cidade da província de Guangdong acabava de se tornar na primeira morada no Interior da China do famoso jesuíta, astrónomo e mais tarde mandarim ao serviço, simultaneamente, de Roma e Pequim da Igreja e do Celeste Império. Mas, porque Zhaoqing e não Xiangshan (Zhongshan), logo aqui ao lado de Macau ou outra das muitas prefeituras que se encontram no longo caminho entre Macau e Cantão? Onde fica e o que é hoje Zhaoqing, no contexto da área da Grande Baía?  São essas as questões que vamos procurar esclarecer junto aos leitores ao longo das próximas páginas deste artigo.

Geografia e população

Zhaoqing é uma cidade com o nível de prefeitura da província de Guangdong, dotada de uma área com cerca de 15 mil quilómetros quadrados, dos quais apenas cinco por cento corresponde à área urbana. A população era, em 2018, de 4,151 milhões de habitantes o que lhe confere uma densidade populacional relativamente baixa, na ordem das 276 pessoas por quilómetro quadrado. A título de comparação, a densidade populacional de Macau ultrapassa os 20 mil habitantes por quilómetro quadrado.

O vasto território é por um lado plano, sulcado por rios e riachos e adornado por lagos e, pelo outro, ladeado de regiões montanhosas a norte e a este, que ocupam 80 por cento da área da prefeitura. É atravessado, no sentido oeste-este, pelo Rio Oeste (Xijiang), afluente do Rio das Pérolas.

As suas belezas naturais fazem desta prefeitura um destino turístico muito procurado aos fins-de- semana pelas populações das cidades vizinhas. O lago Xinhu, as grutas de Qixing e a montanha de Dinghu são algumas das atracções mais populares entre visitantes e amantes da natureza. É a primeira reserva natural da China listada pela UNESCO como uma reserva biosférica internacional.

História e cultura

Zhaoqing possui uma história de dois milénios e começou por ser conhecida por Gaoyao e depois por Duanzhou até à Dinastia Song (920-1279), quando adquiriu o nome que hoje ostenta. Contam os anais da história da China que o Imperador Shenzong (1048-85) atribui ao seu filho Zhao Ji (1082-1135) o título de Rei de Duan, com domínio sobre aquele território. Este último, ao suceder ao pai como Imperador Huizong, mudou o nome da prefeitura para Zhaoqing, o que quer dizer “início de boa fortuna”. As antigas muralhas e a torre de menagem de 19,3 metros de altura permanecem relativamente bem preservadas e podem ser vistas no distrito de Duanzhou, ao longo da rua Songcheng, testemunhando o rico património histórico de Zhaoqing.

Uma figura mítica associada a Zhaoqing é a do justo e incorruptível Bao Gong. Bao Gong, cujo nome é Bao Zheng (999-1062), foi nomeado em 1040 magistrado de Duanzhou. A sua fama eternizou-se, e Bao Gong passou a ser venerado na cultura tradicional chinesa como a personificação da justiça.

Quando os jesuítas Michele Rugierri e Mattia Penella visitaram Zhaoqing em 1582, e aí permaneceram por alguns meses a convite das autoridades locais, a prefeitura era a sede do poder do vice-rei Chen Rui dos dois Guangs, Guangdong e Guangxi. Era, por isso, uma cidade de elevado estatuto, uma capital administrativa dotada de um sofisticado tecido cultural e ambiente político. Esse estatuto manteve-se até ao fim da Dinastia Ming.

Conta a história que as autoridades imperiais ficaram fascinadas com os relógios que os jesuítas lhes ofereceram, pelo seu saber científico e conhecimento da cultura chinesa. Depois de uma curta permanência inicial, Rugierri regressou a Macau e, em 1583, voltou com Mateo Ricci para lançar os alicerces de uma presença da Sociedade de Jesus que foi multisecular e atingiu foros de brilhantismo no Celeste Império, atingindo um plano porventura nunca imaginado pelos seus pioneiros. Foi em Zhaoqing que Ricci desenhou em 1583, a pedido do prefeito da cidade, o primeiro Atlas da sua autoria e, o dicionário de chinês-português foi elaborado em colaboração com Ruggieri e outros missionários da Companhia.

O declínio de Zhaoqing deu-se com o fim da Dinastia Ming e a chegada dos Manchus ao poder. Duas facções rivais da resistência Ming estabeleceram-se em Cantão e Zhaoqing em 1646, dois anos após a queda de Pequim em 1644. O imperador Yongli, de nome pessoal Zhu Youlang (1623-1662), foi entronado em Lijiao, Zhaoqing, como o quarto imperador da Dinastia Ming do Sul e reinou entre 1646 até 1662, ano da sua morte, que se deu quando tinha 38 anos de idade.

Com o fim definitivo de uma era e o controlo completo da Dinastia Qing sobre a região de Guangdong, a sede do vice-rei dos dois Guangs passou a estar localizada em Cantão.

Zhaoqing é uma cidade rica em festividades, celebradas com tradicional pompa e circunstância. O Ano Novo Chinês, o Festival das Lanternas, os Barcos-dragão e as Danças do Dragão ou os Festivais do Bambu e da Tangerina são momentos de grande alegria e renovação de uma cultura peculiar.

A gastronomia é um reflexo da fama que adquiriu como terra do arroz e do peixe. O arroz embrulhado em folhas, a carpa dos lagos, a galinha com folhas de chá, as delicadezas feitas com brotos de bambu são algumas das iguarias características da região, uma cozinha de sabores delicados e suaves aromas.

Mobilidade

Zhaoqing é servida pelos aeroportos internacionais de Guangzhou Baiyun e de Shenzhen.  Comboios de alta velocidade da linha Nanning-Cantão, com mais de 70 partidas diárias, fazem a ligação entre a capital da província de Guangdong e Zhaoqing em menos de uma hora, e o mesmo acontece com o comboio inter-cidades Cantão-Foshan-Zhaoqing. As auto-estradas que ligam Guangdong a Guangxi são outra via alternativa, exigindo porém uma viagem mais prolongada e, eventualmente, menos confortável. As viagens de autocarro entre Zhaoqing e Shenzhen ou Zhuhai podem demorar entre 3h30 a 4h30.

Está previsto no plano da Grande Baía o lançamento, em momento oportuno, da linha férrea Luizhou-Zhaoqing. Luizhou é conhecida como a cidade floresta da China e está localizada na Região Autónoma de Guangxi Zhuang.

A rede de transportes inclui oito portos com ligações ao Delta do Rio das Pérolas e localizam-se no rio Xijiang, ou rio Oeste, que é tributário daquele e desagua próximo de Macau. O novo porto de Zhaoqing é um dos 28 portos internos mais importantes do país.

Economia

A modernização da economia de Zhaoqing começou a acentuar-se neste milénio, com relevo para as indústrias ligeiras de equipamentos electrónicos e comunicações, extracção da madeira e indústrias relacionadas, produtos de metais, têxteis, vestuário e outros produtos de fibra. A indústria de cimento aproveitava o recurso natural da região, o calcário, e o processamento de pau-rosa é uma consequência da extracção dessa madeira das suas florestas. O output agrícola e indústrias associadas incluíam a produção do arroz, de vegetais, a pecuária e produtos aquáticos.

Actualmente, a economia de Zhaoqing é caracterizada pela presença de um tecido industrial relativamente ligeiro e pela importância do turismo como factores determinantes para o desenvolvimento. O seu Produto Interno Bruto (PIB) em 2018, segundo dados oficiais de Zhaoqing, foi de 220,18 mil milhões de yuans (cerca de 260 mil milhões de patacas). O PIB per capita em 2018 foi 53.267 yuans (aproximadamente 62.500 patacas), ou seja, o mais baixo de todas as cidades das Área da Grande Baía. Com uma estrutura industrial constituída em termos de peso no PIB sobretudo pelos sectores secundário e terciário, a cidade tem apostado no desenvolvimento da indústria de veículos verdes, produção de equipamentos avançados, conservação de energia e protecção ambiental, tecnologias de informação e biomedicina. Está a investir acima de 100 mil milhões de yuans na constituição de clusters dedicados àquelas indústrias. Entretanto, o turismo continua em expansão e o número de visitantes em 2018, de acordo com dados da mesma fonte, chegou aos 13,53 milhões.

 

Zhaoqing é também conhecida como a mina de ouro de Guangdong, com as minas do metal precioso localizadas nas zonas de Gaoyao, Huaiji e Fengkai. As minas de Hetai são consideradas das maiores da China. Encontram-se também outras indústrias extractivas, nomeadamente de calcário, granito, águas minerais e as famosas pedras tinteiro “duanyan”, usadas na pintura chinesa, consideradas as melhores do país. O jade verde é também famoso.

Zhaoqing é apresentada no plano da Grande Baía como principal produtor agrícola da região e corredor de ligação entre o sudeste e o sudoeste da China. A sua inclusão neste mega projecto abre novas perspectivas de desenvolvimento e oportunidades, para que o rendimento per capita dos seus habitantes se aproxime da média da região. As suas condições naturais, a pequena incidência da poluição industrial e o clima favorável são atributos que permitem projectar o desenvolvimento de uma agricultura biológica e sustentável. O plano acima referido prevê a promoção de Huaiji, em Zhaoqing, como base de distribuição de produtos agrícolas “verdes” e seus derivados.

O aeroporto internacional de Baiyun, em Cantão, é o que fica mais próximo de Zhaoqing, a 95 quilómetros e um tempo de viagem superior a uma hora, o que dificulta, em certa medida, a sua inserção em circuitos de turismo internacional. A capacidade hoteleira é também muito limitada, apresentando-se, para já, como destino para o turismo doméstico e regional. O turismo ecológico e cultural é uma das áreas de grande potencial para o futuro. Poderá tornar-se, também, numa espécie de estância de turismo ecológico para os habitantes da Grande Baía.

No que respeita à capacidade industrial, encontra-se em plena evolução o lançamento da nova zona industrial. É, todavia, bastante evidente que Zhaoqing poderá beneficiar do aceleramento da integração do eixo Foshan-Cantão, ao qual pertence.

A localização geográfica de Zhaoqing, no eixo da ligação entre a área da Grande Baía e o sul e o sudeste da China e, através destas ao Sudeste Asiático, conferem a Zhaoqing um papel importante na ligação geográfica e funcional daquela área à iniciativa “Uma Faixa, Uma Rota”. Não é algo novo para Zhaoqing, uma vez que os distritos de Fengkai e Huaji foram pontos de contacto entre o ocidente e a China, na antiga Rota Marítima da Seda.

Com a integração na Grande Baía, o seu potencial turístico será elevado. Desde que gerido com sabedoria e preservando as suas características ecológicas, poderá tornar-se num verdadeiro destino de férias de alta qualidade, associando o turismo ecológico ao património histórico e cultural que possui. Prenunciam-se tempos de uma nova prosperidade.

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