Sexta-feira, Outubro 23, 2020
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A experiência chinesa e o potencial brasileiro

Texto Carla Mendes (no Brasil)

Os chineses têm interesse, capital e experiência para impulsionar as grandes obras de infra-estruturas no Brasil.” Foi com essa declaração que o vice-presidente brasileiro, Hamilton Mourão, encerrou a sua participação na Conferência Anual do Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC), que reuniu em Setembro empresários brasileiros e chineses na cidade de São Paulo. “A China reconhece o Brasil como um importante parceiro regional … É o nosso maior parceiro comercial há 10 anos. A corrente comercial no ano passado atingiu o patamar de 100 mil milhões de dólares norte-americanos, com um superavit de 29,5 mil milhões de dólares norte-americanos a favor do Brasil, as maiores cifras já registadas no nosso comércio exterior”, completou Mourão.

Segundo o governante, no primeiro semestre deste ano, o Brasil registou um crescimento de 28 por cento na exportação de proteína animal, devido a um surto de peste suína africana que levou a China a aumentar a importação de carne do Brasil. Até ao fim deste ano, os números devem expandir ainda mais, já que desde Setembro 25 novos frigoríficos foram habilitados a exportar carne para a China, com efeitos imediatos. O número de entidades habilitadas passa então de 64 para 89 – a maior parte delas está concentrada na produção de carne bovina e de frango. Além disso, a China deu luz verde a 24 empresas brasileiras de laticínios para darem início à exportação de produtos lácteos.

O agronegócio tem sido o sector estratégico nas relações sino-brasileiras, segundo frisou Mourão. “A China reconhece o nosso valor agropecuário. Avançamos para exportação de novos produtos incluindo temas como biotecnologia e agricultura digital. O agro é fruto do desenvolvimento científico, modernas técnicas de plantio directo e irrigação, agricultura de precisão, monitoramento e gestão qualificada de propriedades”, defendeu.

A relação comercial bilateral é a mais importante para o Brasil há uma década, mas ainda limitada a três produtos: soja, minério de ferro e petróleo. Autoridades dos sectores público e privado debateram durante o evento, que também assinalou os 15 anos de existência do Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC), temas estruturais para aperfeiçoar o comércio e investimento entre os países.

Um estudo conduzido feito pelo CEBC e apresentado durante a conferência mostrou que entre 2007 e 2018 o volume investido pelos chineses no Brasil foi de 60 mil milhões de dólares norte-americanos. As autoridades presentes definiram as possibilidades de investimentos China-Brasil como a passar por um momento único. O cenário foi discutido em todas as frentes, incluindo os problemas de logística e infra-estrutura, sectores que interessam à China. Foram observadas também questões envolvendo investimentos em linhas de ferro, portos e aeroportos e investimentos em gás e novas fontes de energia, como a eólica. “Estamos diante de um momento único de investimentos no Brasil. Somos importantes para a China e a China é importante para nossa economia. Devemos fomentar essa relação bilateral”, sublinhou Luiz Felipe Trevisan, director do CEBC. Já o presidente do CEBC, o embaixador brasileiro na China Luiz Augusto de Castro Neves, frisou a necessidade do Brasil buscar novas oportunidades, tendo como maior desafio “delinear isso de forma que seja proveitoso para ambas as nações”.

Entre os empresários presentes, o clima era de confiança no fortalecimento das relações estratégicas. O CEO da Siemens Brasil, André Clark, apontou o interesse de as empresas e bancos chineses de investir mais em todo o mundo e a necessidade de capital para obras no país criarem o ambiente apropriado para o fortalecimento das relações entre os dois países. “Estamos confiantes que o cenário económico global favorece a aproximação entre brasileiros e chineses, com grandes oportunidades de bons negócios para os dois lados”, disse o executivo.

Já Marcos Jank, coordenador do Centro de Agronegócio Global do Insper, frisou a dimensão dos mercados brasileiro e chinês: “O Brasil é um grande produtor. A China, grande consumidor. Temos mercado aberto em soja, algodão e celulose. Há ainda muito por fazer”.

As principais áreas de interesse dos chineses no Brasil são os sectores de logística, venda a retalho, energia, financeiro e agronegócio, com destaque para grãos e carnes. O embaixador da China no Brasil, Yang Wanming, afirmou durante a sua intervenção que a China deverá consumir o dobro de carne bovina até 2026, o que favorece o Brasil, grande exportador do produto. Wanming garantiu que Pequim quer reduzir ainda mais as tarifas alfandegárias e diminuir os custos institucionais das exportações na relação bilateral com o Brasil. “Perante as profundas transformações económicas internacionais temos que fortalecer as relações Brasil-China, benéfica para os dois países. Há mercado para expandir”, disse.

 

Infra-estruturas como opção

Um estudo levado a cabo pela Inter.B Consultoria indica que, em 2018, o país investiu menos de dois por cento do seu Produto Interno Bruto (PIB) em infra-estruturas. O ideal, segundo a investigação, seria acima de 4,15 por cento para um país com as características do Brasil. Para 2019, a projecção é que a taxa fique em 1,87 por cento, ainda abaixo da média registada desde 2001, que é dois por cento ao ano. “O Brasil precisa, urgentemente, despertar para o facto de que crescimento económico, geração de emprego e de renda passam pelo aumento dos investimentos em infra-estrutura”, afirmou o embaixador Luiz Augusto de Castro Neves, presidente do CEBC.

Para o Brasil, a expectativa é que as relações comerciais com a China continuem em alta, com indicativos de possíveis fortalecimentos. Apenas em 2018 o Brasil exportou para China o equivalente a 64 mil milhões de dólares norte-americanos, enquanto importou 34 mil milhões de dólares norte-americanos, o que representa um importante superavit para a indústria e comércio brasileiro. “Damos grande importância ao desenvolvimento de infra-estruturas, alta tecnologia, transformação industrial tradicional, serviços sociais e novas regiões de crescimento. Queremos estar mais próximos do Brasil”, afirmou Liu He, vice-primeiro-ministro chinês que encabeça a Comissão de Estabilidade e Desenvolvimento Financeiro, em comunicado endereçado aos empresários brasileiros.

O vice-presidente brasileiro ressaltou a série de leilões de infra-estruturas que o Brasil fará este ano, e lembrou o interesse chinês nas privatizações. “Os chineses têm capital e experiência para ampliar e diversificar os seus investimentos no Brasil. E o governo federal conta hoje com uma sólida carteira de projectos e extenso cronograma de leilões que deverão impactar na trajectória de longo prazo do crescimento nacional”, disse.

O secretário especial de Comércio Exterior e Assuntos Internacionais do Ministério da Economia do Brasil, Marcos Troyjo, afirmou que o Brasil está a fazer a sua “lição de casa” não apenas em termos de simplificação tributária e melhoria do ambiente de negócios, “mas também com novos acordos comerciais que vão permitir ao Brasil o acesso às melhores tecnologias do mundo”. “Esse casamento entre oportunidades externas e uma melhoria interna vai acabar resultando não apenas na expansão horizontal que o Brasil oferece a China, mas também na sua maior agregação de valor”, assinalou.  

As autoridades dos dois países terão a oportunidade de debater essas estratégias ao mais alto nível em breve. Já está confirmada, conforme anunciou Hamilton Mourão, uma visita oficial do presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, a Pequim no final deste mês. “Temos procurado construir relações de confiança e criar o ambiente propício para a ampliação e a diversificação das relações económicas com a China”, afirmou Mourão. Por outro lado, o Presidente, Xi Jinping, visitará o Brasil em Novembro para participar na reunião dos BRICS, grupo formado por Brasil, Rússia, China, Índia e África do Sul, que ocorrerá de 13 a 14 de Novembro, em Brasília.

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