Quinta-feira, Julho 9, 2020
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Carruagens prontas a circular

Texto Paulo Barbosa

É esperado que o primeiro trecho do Sistema de Metro Ligeiro de Macau entre em funcionamento na recta final deste ano. A introdução de um sistema de transporte público de metro ligeiro começou a ser estudada em 2002, pouco após a criação da RAEM. Depois de muitos estudos preparatórios, as obras para a sua construção, de grande complexidade técnica, começaram em 2011.

Passados cerca de oito anos, a linha da Taipa está em sistema de teste e as suas 11 estações em fase de acabamento. Já pouco falta para que abra ao público o trecho com 9,3 quilómetros de comprimento que ligará a zona dos Jardins do Oceano (próximo da Ponte Sai Van, cujo tabuleiro inferior será usado para interconectar o metro ligeiro à estação intermodal da Barra, na península de Macau) aos resorts integrados do Cotai, à fronteira da Flor de Lótus (que fará ligação à ilha de Hengqin), ao Aeroporto Internacional de Macau e ao Terminal Marítimo da Taipa, na zona do Pac On.

O epicentro das operações estará montado no Parque de Materiais e Oficina do Metro Ligeiro. Esta infra-estrutura desempenhará um papel fundamental, sendo composta pelo edifício operacional (centro de controlo de operação, onde é feita a monitorização contínua da linha e estabelecida a frequência dos comboios), oficina e edifício de manutenção, parqueamento das carruagens e zona de lavagem. Dentro do Parque de Materiais e Oficinas, há uma linha de ensaio com comprimento de cerca de 600 metros, destinada à realização de testes às carruagens.

Comboio sem condutor

O Sistema de Metro Ligeiro de Macau é movido por um comboio eléctrico de transporte automático de passageiros sem condutor, equipado com pneus de borracha. Segundo o Gabinete para as Infra-Estruturas de Transportes (GIT), que está a promover a gigantesca obra, o projecto tem características ecológicas, com “baixo nível do ruído durante a operação e zero emissões dos gases poluentes”.

A frota de veículos foi fabricada pela empresa japonesa Mitsubishi, que em 2010 levou a melhor sobre duas outras empresas que participaram no Concurso Público Internacional para o Fornecimento do “Sistema e Material Circulante da 1.ª Fase do Sistema de Metro Ligeiro de Macau”.

   Em 2011, após uma sondagem pública que propôs três diferentes designs para os comboios da Mitsubishi, foi escolhido o modelo “Ocean Cruiser”. O modelo é baseado na concepção de Macau enquanto local turístico com frente marítima. O exterior das carruagens é azul pálido e azul escuro, representando o mar. Os desenhos ondulados na cor de laranja nas duas faces laterais simbolizam a luz do sol reflectida.

De acordo com o GIT, as composições vão circular em unidade de duas ou quatro carruagens, tendo a capacidade de transportar cerca de 100 pessoas de cada vez. Cada comboio (calculado com base em duas carruagens) tem 23,5 metros de comprimento, 2,8 metros de largura, 3,8 metros de altura e capacidade para 44 passageiros.

O sistema automático sem condutor tem sido usado com êxito em várias cidades, entre elas Singapura e Taipé. Os seus apologistas alegam que permite ajustar flexivelmente o número de comboios em circulação a cada momento. Garante ainda que as composições sejam pontuais e tem tecnologia capaz de manter a distância fixa da operação segura entre os comboios, evitando acidentes resultantes da operação manual indevida.

As 11 estações de superfície da linha da Taipa estão em fase de acabamento. Cada uma delas terá uma decoração própria, imbuída de elementos culturais e criativos relacionados com Macau. Nos cais de embarque, os passageiros acederão aos comboios após passarem portas automáticas de protecção. Junto de algumas estações está prevista a construção de parques de estacionamento público.

Para diminuir o impacto visual da obra, foi montada uma barreira visual num troço do viaduto na Zona Ecológica do Cotai. A linha tem em conta ainda os futuros pontos de ligação à Estação da Barra e à Linha de Seac Pai Van.

19h por dia a rodar

O horário da operação do Metro Ligeiro começa pelas seis da manhã e prolonga-se até à uma da madrugada. Isto significa que o sistema funcionará 19 horas por dia, ficando suspenso durante cinco horas em cada noite para obras de manutenção e reparação.

Incluindo o tempo de paragem do comboio na estação, a velocidade média do Metro Ligeiro é de 30 quilómetros por hora, podendo atingir, na realidade e ao máximo, 80 quilómetros por hora. No entanto, dada a curta distância entre cada estação e para garantir o conforto dos passageiros, o GIT diz que a circulação irá ter “uma velocidade mais estável”.

Por não ter em conta a questão dos números dos condutores, a cadência do Metro Ligeiro pode ser mais flexível. Prevê-se que o intervalo entre comboios seja de três a cinco minutos, havendo uma frequência maior durante as horas de ponta, quando a operação vai-se ajustar à cadência de dois minutos entre comboios.

Quanto ao sistema de bilheteira, o Governo esclareceu que este “terá em conta os meios de pagamento electrónico aplicáveis no mercado de Macau”. Não foi revelado ainda qual será o preço dos bilhetes.

Sabe-se que na fase inicial da operação, os passageiros poderão comprar o bilhete simples ou o cartão pré-pago do metro ligeiro, destinado ao pagamento de bilhetes para entrarem na zona paga.

Criada em Março deste ano, a Sociedade do Metro Ligeiro arrancou com um capital inicial de 1,4 mil milhões de patacas. Com a criação da nova empresa com capitais exclusivamente públicos, o GIT será extinto. Os 93 funcionários do gabinete estabelecido em 2007 poderão manter-se na função pública ou transitar para a nova empresa.

Durante os primeiros cinco anos de funcionamento do metro ligeiro, as operações serão garantidas por uma empresa subsidiária da MTR de Hong Kong, que gere o metro da vizinha região administrativa especial.

O secretário para os Transportes e Obras Públicas, Raimundo do Rosário, estimou recentemente que os gastos anuais de operação e manutenção do LRT serão de 900 milhões de patacas. 

 

Um longo caminho da ideia à concretização

A ideia de introduzir um novo sistema de transporte público em Macau, com vista a resolver os problemas de trânsito urbano, foi proposta pelo primeiro Chefe do Executivo da RAEM, Edmund Ho, que abordou o assunto no Relatório das Linhas de Acção Governativa de 2002. Consequentemente, o Governo contratou a MTR de Hong Kong para realizar um estudo prévio para o sistema de transportes em carris urbano de Macau.

Em Fevereiro de 2003, o relatório do estudo de viabilidade da proposta feita por Ho sugeria a adopção do sistema de metro ligeiro. As obras da linha da Taipa arrancariam em 2011, com a construção das fundações do Parque de Materiais e Oficinas do Metro Ligeiro. O trabalho da elevação e montagem das peças pré-fabricadas do viaduto teve o início no primeiro trimestre de 2014, com obras na Rotunda do Aeroporto.

No fim do ano seguinte, chegava do Japão a primeira série de comboios, constituída por quatro carruagens e dois veículos de manutenção. Foram também iniciados os trabalhos de ensaio do sistema.

Relativamente à extensão da rede do metro ligeiro, no segundo semestre de 2018 ficou praticamente finalizada a empreitada de construção preliminar da Estação da Barra do Metro Ligeiro. Seguiu-se o início da empreitada de construção principal da estação. Será nesta estação intermodal que irá ser feita a interligação entre o metro e a restante rede de transportes públicos.

Segundo o GIT, a empreitada de construção preliminar da Linha Seac Pai Van, que irá ligar o grande projecto de habitação social construído na ilha de Coloane à rede do metro, está a ser desenvolvida de forma progressiva.

O estudo da Linha Leste do metro ligeiro teve início no ano de 2018. Este segmento integrará a quinta ligação entre a Península e a Taipa, ligando as Portas do Cerco, a Zona A dos Novos Aterros e o Terminal do Pac On. O percurso da linha de metro na península de Macau está em fase de estudo.

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