Terça-feira, Junho 2, 2020
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O berço fundacional da China moderna e republicana

 

Texto José Luís de Sales Marques

título que escolhemos para este artigo, dedicado à cidade vizinha de Zhongshan, pode até parecer excessivo para quem se deixe confundir pelo ambiente tranquilo e uma certa placidez que hoje se vive nesta cidade. Mas, na realidade, é completamente justificado, por três razões de ordem histórica.

A primeira, porque foi a partir de uma península da então Xiangshan (o nome antigo da região), chamada Haojing (Espelho da Ostra) que nasceu Macau, o primeiro entreposto estrangeiro na China, por onde passaram mercadorias, pessoas e ideias que contribuíram para a sua modernização. A segunda, porque é a terra natal do fundador da China moderna e republicana, Sun Yat-sen, também chamado Sun Zhongshan, em cuja homenagem Xiangshan foi renomeada em 1925. Por último, pela criação em 1979 da Zona Económica Especial (ZEE) de Zhuhai, uma das quatro zonas especiais que Deng Xiaoping introduziu para iniciar o processo de reforma e abertura da economia chinesa.

 

Geografia e população

Zhongshan (中山) é uma cidade da província de Guangdong, com nível de prefeitura, que integra a área da Grande Baía. Localiza-se a norte de Macau, logo depois de Zhuhai. É delimitada a este por Jiangmen, a nordeste por Foshan e a norte e noroeste por Cantão. Segundo dados oficiais referentes a 2018, possui uma área de 1783,7 quilómetros quadrados com uma população de 3,31 milhões de habitantes, uma das mais pequenas da região. É o que se pode chamar uma cidade de nível médio dentro do contexto da Grande Baía, tanto no que diz respeito ao seu PIB per capita, de 110.585 yuans, como na densidade populacional de 1856 habitantes por quilómetro quadrado.

Zhongshan, que até ao início do século XX se chamava Xiangshan (ou seja, a montanha perfumada), está indelevelmente ligada à história de Macau. Além da sua proximidade, também o Mandarim da Casa Branca, assim chamavam os portugueses ao Mandarim de Qianshan, exercia directo controlo sobre esta península. Outra ligação vem de um dos seus mais importantes filhos, Sun Yat-sen, também chamado de Sun Zhongshan. O fundador da República da China nasceu na aldeia de Cuiheng do condado de Xiangshan (Heongshan, em cantonês), a 12 de Novembro de 1866. Após a sua morte, a 12 de Março de 1925 em Pequim, as autoridades locais mudaram o nome de toda a zona para Zhongshan, em homenagem ao seu filho mais ilustre.

A cidade de Zhongshan é reconhecida como sendo uma cidade jardim e com elevada qualidade ambiental. A zona norte de Zhongshan localiza-se nas aluviões do Rio das Pérolas e conta com importantes áreas de mangal, ricas em biodiversidade e ecologicamente relevantes. A zona sul é bordejada por uma cadeia de colinas, a mais importante das quais a de
Wugui, cuja altura máxima é de 531 metros acima do nível do mar. O clima é subtropical, com elevadas temperaturas e humidade relativa elevada durante vários meses ao longo do ano, ocorrendo tufões com alguma frequência entre Julho e Setembro, bem como chuvas torrenciais, ventos ciclónicos e inundações.

O mangal tem grande importância no ecossistema de Zhongshan, uma vez que uma parte importante do seu território é edificado sobre a sedimentação das margens do Delta do Rio das Pérolas. Assim, o governo da prefeitura ambiciona construir novas zonas de mangal, incluindo uma em Cuiheng.

 

Administração e território

A prefeitura de Zhongshan está localizada na margem ocidental do Delta do Rio das Pérolas e ficará no futuro ligada à grande metrópole de Shenzhen, na margem oriental, através de uma nova ponte de 51 quilómetros, que se prevê esteja construída em 2024. Essa infra-estrutura trará imensas vantagens a Zhongshan, na medida em que esta passará a ter rápido acesso ao aeroporto internacional de Bao’an, em Shenzhen, para além da proximidade geográfica que já possui aos aeroportos de Zhuhai, Macau e Cantão.

Cuiheng, onde nasceu Sun Yat-sen, é hoje uma nova área em desenvolvimento, chamada de Nova Zona de Cuiheng, destinada a reforçar a cooperação com Macau nas áreas de alta tecnologia, indústrias culturais e saúde, e com um forte interesse em atrair investimento dos países de língua portuguesa. Num acordo firmado em 2014, prevê-se a disponibilização de uma área de cinco quilómetros quadrados, que inclui um parque industrial, uma plataforma internacional de serviços comerciais, um parque de educação e formação e uma zona de cooperação turística e intercâmbio cultural. Numa visita ao Fórum de Macau em Julho de 2015, a delegação oficial de Zhongshan voltou a reforçar a vontade de desenvolver uma relação mais próxima com Macau e os países de língua portuguesa, sobretudo através da realização de projectos na Nova Zona de Cuiheng e da construção de um armazém para os produtos dos países de língua portuguesa.

Por ocasião de uma visita do Chefe do Executivo da RAEM, Chui Sai On, a Zhongshan, em Junho do ano passado, o presidente daquele município, Jiao Lansheng, sublinhou que existiam naquela cidade 600 empresas de grande dimensão da RAEM e que procuravam, também, atrair jovens empreendedores.

O preço relativamente baixo dos terrenos daquele município é um dos factores capazes de convencer uma nova geração de empresários locais a estabelecerem-se naquela cidade. Pela mesma razão, o investimento em imobiliário pela parte dos residentes de Macau na região começou cedo, desde os primórdios da abertura do mercado chinês. A abundância de espaços, a qualidade do ambiente, o fácil e rápido acesso a Macau (cerca de 30 quilómetros), servida de boas estradas e também pelos comboios de alta velocidade entre Zhuhai e Cantão, são outras mais-valias de Zhongshan.

História

A história de Zhongshan é rica pelas mais variadas razões. Como atrás se disse, a actual denominação foi atribuída em 1925, em homenagem ao seu filho mais distinto, Sun Zhongshang. Antes disso, era Xiangshan, a montanha perfumada, graças ao aroma deixado pelas flores que a embelezavam.

A antiga Xiangshan era uma ilha isolada no Delta do Rio das Pérolas. O processo continuado de sedimentação provocado pelas aluviões do Rio Norte e do Rio Oeste na margem ocidental do Delta do Rio das Pérolas transformou toda a região envolvente da ilha numa planície de aluviões, dando lugar ao que hoje é uma grande parte de Zhongshan. É um processo que vem da Dinastia Tang e se prolonga até aos dias de hoje.

Xiangshan pertenceu ao longo da história a várias jurisdições, nomeadamente, ao Condado de Nanhai na Dinastia Qin (221-207), Panyu na Dinastia Han (202AC-9), Dongguang na Dinastia Jin (266-420) e Bao’an na Dinastia Sui (581-618). Foi durante a Dinastia Tang (618-907) que a cidade de Xiangshan foi fundada, incluindo a actual zona de Shiqi. Existem dados arqueológicos que apontam para a existência de presença humana na região desde o Neolítico, há cinco mil anos. Foram descobertas nove relíquias culturais nessa região datados dessa época.

Em 1152, o governador de Dongguan elevou Xiangshan à categoria de condado com jurisdição sobre Nanhai, Panyu e Xinhu, e apenas subordinada a Cantão. Todavia, essas alterações não foram suficientes para elevar a importância económica do condado cujo produto era constituído pela pesca e pela agricultura.

Com a chegada dos portugueses a Macau em 1553, Xiangshan (conhecido por aqueles por Ansão) ganhou novo relevo. O estabelecimento dos portugueses em Macau, na península de Haojing, território geograficamente localizado naquele condado, fez do Magistrado de Xiangshan a autoridade imperial a quem cabia o controlo, em primeira instância, sobre aquela nova realidade política, económica e militar. Como o exercício dessa responsabilidade cabia ao vice-magistrado, este passou a ser também conhecido como o vice-magistrado de Macau e a ficar instalado, em 1743, na fortaleza de Qiangshan, conhecido na literatura portuguesa como Casa Branca.

Dada a importância e complexidade das funções, as autoridades imperiais decidiram elevar o nível do “Magistrado de Macau”, nomeando o Vice-Prefeito da cidade de Zhaoqing para o lugar de “Mandarim da Casa Branca”, que passou a ter uma vasta área jurisdicional que incluía Panyu, Dongguan, Shunde e Xiangshan. Entretanto, o vice-magistrado de Xiangshan, um mandarim de oitavo grau, foi transferido e passou a residir em Wangxia (Mong-Há), situada na península de Macau, a norte das Portas de Santo António e a Sul das Portas do Cerco.

Xiangshan foi desde os primórdios de Macau o seu principal fornecedor de bens alimentares e de mão-de-obra para satisfazer as múltiplas necessidades da nova cidade mercantil e portuária, cuja economia e população não paravam de crescer. Essas novas oportunidades de negócio reflectiram-se positivamente na economia de Xiangshan, que registou rápidos progressos na produção agrícola e atraiu um número elevado de imigrantes. Uma parte significativa do intercâmbio económico e cultural entre a China e o Ocidente tiveram lugar em terras de Xiangshan, um percurso obrigatório para se chegar a Cantão para quem o fizesse a partir de Macau.

Com o fervor revolucionário republicano a irromper no Sul da China e a figura de Sun Yat-sen a emergir como o seu líder, Xiangshan ganhou ainda maior relevo.

Zhongshan foi também uma importante base de resistência anti-japonesa, quando essa potência ocupou a China de 1937 a 1945. Após o incidente de 7 de Julho de 1937, que deu início a esse período, o exército nipónico invadiu a ilha de Sanzao, que pertence agora a Zhuhai, em Fevereiro de 1938. A partir de então, Zhongshan tornou-se numa base revolucionária na Guerra Sino-Japonesa. Apesar de ter sido ocupada em 1940 pelo exército invasor, a resistência patriótica criou a base de guerrilha na colina de Wugui e deu início a uma feroz luta de resistência armada, conseguindo significativas vitórias, contando com importante apoio dos compatriotas de Macau.

Cultura e educação

Várias personalidades importantes da história contemporânea da China são naturais de Zhongshan, como Zheng Guanying. O governo municipal de Zhongshan aposta em proporcionar ao público instalações culturais de elevada qualidade tais como o Centro Cultural e Artístico de Zhongshan, o Centro de Arte Pública de Zhongshan ou o Museu da Rádio e Museu da Cultura Comercial de Xiangshan. A esses centros, junta-se o Museu Dr. Sun Yat-sen, o espaço mais icónico da prefeitura.

Zhongshan prossegue a sua tradição de intercâmbio cultural e de conhecimentos com o exterior através da cooperação com universidades e estabelecimentos de ensino do exterior, nomeadamente da Europa, como é o caso do centro de formação Sino-Alemão para treino vocacional.

 

Economia

As economias de Xiangshan, mais tarde Zhongshan, e de Macau estão estruturalmente interligadas. Até ao surgimento de Zhuhai, quase no final da década passada, Zhongshan era a referência mais próxima, o vizinho do lado em relação a Macau.

Por isso, quando se deu o processo de reforma e abertura da China, vários empresários com origem em Macau começaram a abrir fábricas em Zhongshan. Logo depois, residentes de Macau adquiriram moradias e apartamentos em Zhongshan, atraídos pela qualidade do ambiente, beleza natural e preços muito competitivos.

Organizadas a partir de Macau, as excursões diárias para Zhongshan foram uma das precursoras do turismo internacional na China, tendo por principal atracção turística a visita à casa de Sun Yat-sen, em Cuiheng.

No que diz respeito ao investimento de empresas de Macau em Zhongshan, o estoque de investimento directo de empresas de Macau estava situado em 2017 ao nível de 652 milhões de patacas, um valor que se situa apenas a dez por cento do que as empresas de Macau têm investido em Zhuhai.

O investimento médio por empresa é de cerca de 160 milhões de patacas, segundo dados da Direcção dos Serviços de Estatística e Censos. O baixo número de empresas indicado pelas estatísticas oficiais de Macau, segundo o critério do investimento directo, não quer dizer que muitas outras empresas detidas por residentes de Macau e que estejam registadas como sendo de Zhongshan não possam existir, uma vez que as ligações económicas e comercias entre as duas cidades existem desde a abertura económica dos finais dos anos 1970.

A tendência que se adivinha aponta para que os investimentos de Macau em Zhongshan venham a aumentar, no âmbito da Grande Baía. Estão, neste caso, os acordos assinados entre os dois governos para a criação da Zona Piloto de Cooperação Guangdong-Macau em Zhongshan. Esse acordo, firmado em 2014, está em fase de implementação. A zona interactiva 760 é um espaço dedicado à cooperação na área da inovação aberta aos empresários jovens de Macau, associados ao Macau Young Entrepreneur Innovation Center (MYEIC), apoiado pelo Governo da RAEM.

A economia de Zhongshan possui uma estrutura onde predomina a indústria e a construção. Uma das características mais peculiares do processo de crescimento industrial em Zhongshan foi a especialização de vilas ou zonas na produção de artigos de um único ramo de indústria. Este movimento, sem aparente coordenação institucional, mas obedecendo a padrões de concentração e especialização industriais, criou “cidades-clusters” para as indústrias de candeeiros, electrodomésticos e mobiliário. É um modelo conhecido por “uma indústria, uma cidade” e as mais importantes são: Guzhen, a capital de candeeiros e luzes da China; Dachong e Shaxi, para mobília de mogno; Dongfeng, para electrodomésticos; Xiaolan, para fechaduras de portas e material acústico; e, Shaxi, para vestuário.

Como base de manufactura avançada e de serviços modernos, Zhongshan conseguiu criar uma indústria de ponta na construção de barcos de recreio, incluindo a reparação de iates de competição, assim como lançar várias plataformas para inovação, com as respectivas incubadoras dirigidas para jovens empreendedores.

A zona de desenvolvimento para a alta tecnologia de Zhongshan alberga cerca de cem empresas produtoras de componentes para a indústria automóvel, um terço das quais fornecedoras directas para as grandes marcas desta indústria. Este ninho de empresas inovadoras segue atentamente as mudanças ocorridas nos últimos anos nessa indústria, nomeadamente a introdução de energias novas, inteligência artificial e outras pequenas revoluções tecnológicas, que a estão a transformar, abraçando essas oportunidades.

Mobilidade

O transporte marítimo na prefeitura é servido pelo porto de carga de Zhongshan, um dos dez maiores portos de contentores da China. O porto de passageiros de Zhongshan, em construção, procurará estabelecer ligações marítimas de uma hora com Hong Kong, Macau e Shenzhen.

Zhongshan está bem servida por uma boa rede de estradas, onde os diversos núcleos urbanos conseguem aceder às vias rápidas principais em 15 minutos. Encontram-se em construção 215 quilómetros de auto-estradas.

No futuro, quando a ponte Zhongshan-Shenzhen estiver concluída, a viagem terrestre entre a Zona Nova de Cuiheng e Shenzhen far-se-á em apenas 25 minutos.

A linha de metro ligeiro Cantão-Zhuhai serve Zhongshan e reduz o tempo de viagem até à capital da província a 38 minutos; Zhuhai fica apenas a 22 minutos.

Da estação de caminhos de ferro de Zhongshan pode-se viajar em comboios de alta velocidade para Pequim, Shanghai, Nanning, Zhengzhou, Kumming and Changsha, entre outas cidades de grande e média dimensão.

Quanto ao transporte aéreo, Zhongshan é servida pelos aeroportos de Zhuhai, Cantão, Shenzhen, Hong Kong e Macau.

 

O lugar de Zhongshan na Área da Grande Baía

Zhongshan é uma cidade média da área da Grande Baía, que procura elevar a sua capacidade competitiva global adoptando uma estratégia de desenvolvimento estimulada pela inovação e implementando medidas de reforma estrutural pelo lado da oferta, como seja, por exemplo a eliminação de empresas estatais que se encontram inoperacionais.

O Global Urban Competitiveness Report, publicado conjuntamento pela Academia Chinesa de Ciências Sociais e a Habitat-ONU, colocam Zhongshan em quarto lugar em termos de competitividade sustentável entre as cidades do Delta do Rio das Pérolas. O valor acrescentado da produção industrial é de 44 por cento e no sector de serviços é de 61 por cento, considerados elevados para a província de Guangdong. O investimento na indústria e na construção aumentaram consideravelmente em termos relativos superiores a 100 por cento. Metade da produção agrícola da prefeitura é destinada ao mercado de Macau, assim como 70 por cento do pescado.

É dada grande importância à Investigação e Desenvolvimento (I&D), que representa 2,4 por cento do PIB, o maior da província. Existem vários centros de inovação, nomeadamente em colaboração com a Suíça e Israel.

No Plano de Desenvolvimento da Grande Baía, Zhongshan surge como uma cidade de ligação e articulação entre as principais cidades desse processo de integração regional. Espera-se que essas cidades aumentem o seu grau de coordenação e cooperação e, simultaneamente, reforcem as suas próprias características e vantagens competitivas.

Uma das importantes áreas de cooperação entre Macau e Zhongshan é na prevenção e resolução dos problemas resultantes das cheias que têm assolado sobretudo as zonas baixas dessas cidades da margem ocidental do Delta do Rio das Pérolas. Como atrás se referiu, Zhongshan tem um papel muito importante no apoio a jovens empreendedores de Macau na área da inovação e na cooperação desenvolvida com os países de língua oficial portuguesa através de Macau.

Dotada de espírito aberto à novidade e inovação e com sólidas raízes históricas e culturais, a prefeitura de Zhongshan encontra no processo de regionalização da Área da Grande Baía fortes motivos para encarrar o futuro com confiança e optimismo. 

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