Segunda-feira, Agosto 3, 2020
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O toque chinês que influenciou a literatura e a arquitectura do Brasil colonial

Texto Sílvio Reis (no Brasil)

Ao longo dos séculos XVII e XVIII foi chegando ao Brasil uma panóplia de objectos chineses – da seda e madeiras aromáticas aos cristais e à porcelana – que, graças à opulência do ouro, alcançaram pequenas cidades do interior do Estado de Minas Gerais e que marcaram para sempre a arte sacra da região. Esses objectos inspiraram a criação das chamadas “chinesices”, termo que designa um tipo de arte que evoca motivos chineses, presentes em várias igrejas barrocas de Minas Gerais. Mais recentemente, pesquisas no campo da história da arte técnica têm possibilitado ampliar o conhecimento sobre a chinesice ou chinoiserie.

“O Brasil ocupou uma posição única no mundo no que diz respeito à influência chinesa.” A afirmação é do historiador José Roberto Teixeira Leite. As chinesices na literatura revelam que a identidade com o orientalismo vai além de pinturas, esculturas e arquitectura de inspiração chinesa no Brasil colonial.   Em diferentes épocas, a literatura reaviva esta história.
Mais estudos estão a ser realizados, mas um dos mais recentes vem da Companhia de Jesus de Embu das Artes, cidade no interior do Estado de São Paulo, que se debruçou sobre as influências orientais na Igreja de Nossa Senhora do Rosário. Esta pesquisa poderá complementar a análise de 200 anos das obras jesuíticas do Brasil, realizada pelo arquitecto Lúcio Costa, que projectou Brasília juntamente com Oscar Niemeyer.

Novos dados e documentos também poderão surgir caso Portugal e a China unam forças e passem a estudar mais a fundo estas questões históricas e literárias das influências chinesas no Brasil colonial.

A dissertação “Eça de Queiroz e o Extremo Oriente” mostra uma visão plural sobre o tema. A chinesice poética de Machado de Assis é imitação da imitação. Guimarães Rosa pode ter-se inspirado numa lenda chinesa para criar amor entre dois homens.

As chinesices no Brasil são uma história viva, com registros artísticos em pelo menos 30 municípios brasileiros de nove estados. Mais do que imitação de costumes europeus, o fascínio pelo exotismo oriental resultou em características bem brasileiras, como a comunhão entre elementos sagrados e profanos em igrejas. O dragão combatido por São Jorge e São Miguel mudou de representação, mas não se associou à prosperidade chinesa.

O ex-director do Instituto Brasileiro de Museus, Angelo Oswaldo de Araújo Santos, comenta sobre a harmoniosa religiosidade católica, africana e chinesa: “Nas ilhargas do presbitério da Igreja de Santa Efigênia de Ouro Preto, templo dos negros forros e da legenda de Chico Rei, aparecem painéis com fascinantes chinesices delicadamente pintadas. São narrativas de histórias fabulosas. Santa Efigênia foi construída sob a regência do estilo barroco, e assim acolheu as chinesices, além de africanismos agora desocultados por estudiosos da talha de seus retábulos. Os africanos e os seus descendentes viveram o impacto da cultura barroca, que prontamente os absorveu em suas volutas.”

Na Revista do Instituto Brasileiro do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) de 1942, o padre e historiador Serafim Leite fala sobre as chinesices na Bahia: “Em nenhum exemplar de arte portuguesa no Brasil vemos como ali a influência exacta, nítida, inconfundível, da beleza oriental. Parece que os pintores estavam possuídos do segredo de todas as chinesices e queriam transmitir-nos, não a floração movimentada e ciclópica, que nos é peculiar, mas o apaziguante de uma iluminura quase irreal, tocada do sentimento de miragem universal das coisas”.

Belezas prontas e recriadas

A literatura complementa a história das chinesices. Segundo Angelo Oswaldo de Araújo Santos, que também já foi duas vezes secretário estadual de Cultura em Minas Gerais e três vezes prefeito de Ouro Preto, “o gosto oriental lembrava aos portugueses de aquém e além-mar que tinham sido eles os senhores do Oriente, ‘dilatando a fé e o Império’, como diz o verso de Camões”. Como explica o especialista, “as ‘chinesices’ foram moda na Europa e, em especial, no mundo português, entre os séculos XVI e XVIII, assim como o japonismo assinalou o final do XIX em França. A conquista do caminho marítimo para o Oriente por Vasco da Gama, em 1498, fez de Lisboa uma porta levantina, pela qual a Europa passou a acolher influências da Índia, da China e do Japão. Os famosos painéis ‘Nambam’ procedentes do Japão, a porcelana da China e os contadores indianos (móveis de gavetinhas), vistos no Museu Nacional de Arte Antiga, em Lisboa, dão testemunho desse gosto pelas formas e cores orientais.”


Quando a cidade de Salvador foi capital do Brasil, entre 1549 e 1763, houve vínculos com a Carreira da Índia, que trazia mercadorias do Oriente e movimentava a produção artística e arquitectónica das ordens jesuítica, carmelita e franciscana. “As imagens sacras de marfim, originárias de Goa, na Índia, influenciaram os mestres santeiros da terracota brasileira do século XVII, na Bahia e em São Paulo. O chamado vermelho de Macau desde sempre encantou o olhar luso-brasileiro”, aponta Angelo Oswaldo de Araújo Santos.

O jesuíta francês Charles Beleville viveu 10 anos na China e mais de duas décadas na Bahia, até 1730. Pesquisadores defendem que ele desenvolveu chinesices em Salvador, no município de Cachoeira e no distrito de Belém. O educador Eron M. Bittencourt, que participa de pesquisas na Igreja Nossa Senhora do Rosário, em Embu das Artes, fala de uma ligação entre a Bahia e São Paulo: “É possível que algum padre que actuou em Embu tenha tido contacto com o seminário ou mesmo com o próprio Belleville. Parte da pintura floral existente em nossa sacristia assemelha-se à pintura do irmão Carlos, como era conhecido no Brasil”. 

“Além disso”, continua Eron, “suspeitamos que a chinesice da sacristia de Embu seja uma forma de relembrar os jesuítas que actuaram no Oriente, sobretudo aqueles que foram martirizados. Essa interpretação é compatível com o tema principal dos caixotões, que trazem no centro símbolos da Paixão de Cristo – ou Arma Christi, como são denominados”.

Na Bahia, predominaram paisagens orientais. Na chinesice de Minas Gerais há cenas da vida quotidiana na China a partir de uma visão europeia.  Segundo o arquitecto Lúcio Costa (1902-1998), num artigo para a Universidade de São Paulo, enquanto na Europa a arquitectura jesuítica se associava à exuberância das construções barrocas, no Brasil foi reproduzida uma beleza pronta, com intervenções marcadas por uma profunda sobriedade. Em Minas Gerais, o uso do galbo de contrafeito confere uma elegante inclinação aos telhados.


“Os olhos amendoados das esculturas em madeira ou pedra sabão, como se vê na obra do Aleijadinho, e os penteados à moda oriental das imagens sacras são também um destaque. A pequena Santa Cecília, no Museu Arquidiocesano de Mariana, um rei mago no Museu da Inconfidência, em Ouro Preto, e a Santa Luzia da Matriz do Bonsucesso, em Caeté, evidenciam o toque oriental incontornável na arte mineira do século XVIII. No Museu Aleijadinho, em Ouro Preto, uma imagem de roca de São Francisco de Paula, atribuída ao mestre, mais parece uma escultura de antiga dinastia chinesa”, aponta Angelo Oswaldo de Araújo Santos.

No livro A China no Brasil, o historiador José Roberto Teixeira Leite indica nove Estados brasileiros com chinesices: Alagoas, Bahia, Minas Gerais, Pará, Paraíba, Pernambuco, Rio de Janeiro, Santa Catarina e São Paulo. Só Minas Gerais tem quase 20 municípios e distritos com pinturas, esculturas e arquitectura chinesice, incluindo decorações de estilo oriental em Conceição do Mato Dentro. 

Os dois Estados mais representativos da diáspora chinesa no Brasil não possuem tantas chinesices. “Em São Paulo, não houve intensa actividade artística nesse período, ao passo que no Rio de Janeiro a valorização da cidade, por sua transformação em capital do vice-reinado (1763), coincidiu com o advento do estilo rococó, mais afrancesado e menos sintonizado com a herança lusitana. A Vista Chinesa do Rio é um mirante de certo modo recente [data de 1903]”, finaliza Angelo Oswaldo.

 

Lembranças imperecíveis

Machado de Assis (1839-1908) ainda não tinha publicado romances quando lançou o livro Falenas (1870), do qual faz parte a “Lira Chinesa”, com oito poemas livremente traduzidos do Le Livre de Jade, da francesa Judith Gautier. Ao analisar esta chinesice poética, a investigadora portuguesa Marta Pacheco Pinto conclui que tanto a tradução francesa como a versão brasileira de Machado de Assis não são literais. É uma apropriação de conceitos e imagens.

Na sua dissertação de doutoramento intitulada “Eça de Queiroz e o Extremo Oriente”, José Carvalho Vanzelli analisou a obra do escritor português. Durante a diáspora chinesa em Havana, o cônsul Eça de Queiroz denunciou o trabalho escravo dos chineses. Ao mesmo tempo, registrou superioridade eurocêntrica: “É incontestável que o ‘chino’ inspira uma aversão instintiva à nossa civilização superior”. 

Autor de O Mandarim e outros romances que abordam o Extremo Oriente, Eça destacou chinesices como objectos de personagens decadentes da elite portuguesa, que buscavam refinamento na sociedade europeia oitocentista. Na análise do pesquisador, “Eça revela um incómodo na relação entre Ocidente e Oriente e aponta uma impossibilidade de convívio harmonioso que nem a arte, e as imitações chinesices, conseguiram resolver”.

Guimarães Rosa (1908-1967) publicou Grande Sertão: Veredas, em 1956. A personagem Diadorim faz-se passar por homem e conquista o amor de um sertanejo. O escritor mineiro pode ter-se inspirado na lenda chinesa “The Butterfly Lovers”, ambientada em 377 a.C. No conto “Orientação”, Rosa levou um chinês para o sertão brasileiro e justificou: “Tudo cabe no globo”.

Detalhe de um dragão chinês numa igreja da cidade de Mariana


A goiana Cora Coralina estreou na literatura em 1965 e até hoje faz sucesso com o poema “O prato azul-pombinho”, criado a partir de desenhos em porcelana chinesa.      A poetisa traduziu o encantamento brasileiro por histórias desenhadas em utensílios chineses, mesmo que não tenham sido produzidos na China. “Lembrança imperecível”, define a autora.

Monteiro Lobato (1882-1948) criticou este modismo no Brasil:  “…dragõezinhos de alabastro chinês – tudo quanto o negociante de miçanga importa a granel para impingir ao comprador boquiaberto”. Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) reverenciou chinesices na igreja de Nossa Senhora do Rosário, na mineira Itabira, onde o poeta nasceu: “Olha o dragão na igreja do Rosário / Amarelo dragão envolto em chamas / Não perturba os ofícios”.

Da literatura às artes visuais. No período colonial, Debret, Fédora do Rego Monteiro Ferraz e outros artistas registaram construções de inspiração oriental que não existem mais. Guignard encontrou em Minas Gerais cenários ideais para pintar chinesices. Em 1984, quatro selos postais formaram a série “Pinturas chinesices séc. XVIII”, na Catedral de Mariana, Minas Gerais.

O fotógrafo Eduardo Tropia produziu fotos sobrepostas de chinesices em igrejas mineiras para exposições no Museu da Inconfidência, em Ouro Preto. Ele também participou da Bienal de Fotografia da China 2016 (6th Jinan International Photography), onde expôs uma imagem da Igreja de Santa Efigênia, dentro do tema “O retorno à sabedoria oriental”.
Outras artes já complementaram e ainda vão enriquecer a história viv
a das chinesices no Brasil. 

Um dos sete Cristos de chinesices no Museu Ordem Terceira do Carmo, em Cachoeira, na Bahia

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