Domingo, Setembro 27, 2020
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Medicina Tradicional Chinesa cresce no Atlântico

Texto António Bilrero

Arlindo do Rosário, médico de formação e ministro da Saúde e Segurança Social de Cabo Verde, defendeu, durante o “Fórum de Cooperação Internacional de Medicina Tradicional 2019 da China”, em Setembro, que a história de Macau é um ganho que deve ser aproveitado por todos nas relações entre o Oriente e o Ocidente. Aposta, num tom em que transparece um secreto desejo, que o arquipélago venha a acolher um centro de Medicina Tradicional Chinesa (MTC), também focado em servir África.

Para alimentar o desejo de um dia Cabo Verde ser um centro de MTC virado não só para o país, mas também para África, à imagem do que Portugal faz para a Europa, Arlindo do Rosário fala dos passos que o país insular tem vindo a realizar para implantar aquelas práticas no terreno. “Temos trabalhado com o Parque Científico e Industrial de Medicina Tradicional Chinesa Macau-Guangdong há algum tempo. Como médico e como ministro da Saúde, a preocupação fundamental é que a abordagem do doente seja feita, como é defendida pela Organização Mundial de Saúde (OMS), através de uma abordagem holística. Primeiro o doente, antes da doença. Estamos, por isso, abertos não só a desenvolver a medicina convencional, onde a China também está incluída, como a explorar as oportunidades que a MTC pode trazer a Cabo Verde”, assegurou.

Já sobre a relação entre a MTC e a medicina tradicional praticada em Cabo Verde e eventuais fricções entre ambas, o responsável começou por lembrar que a prática oriental tem sido “desenvolvida ao longo de séculos, estruturando-se e com resultados que são reconhecidos pela própria Organização Mundial de Saúde”. Por isso, prosseguiu, “a introdução da MTC em Cabo Verde não irá trazer, de forma alguma, o desaparecimento das práticas locais existentes. Poderá, inclusivamente, permitir que essas sejam também melhor trabalhadas e reconhecidas e, onde for possível, aproveitá-las. O objectivo é explorar e aproveitar o melhor possível aquilo que as medicinas podem trazer. Da convencional à tradicional”.

Equilíbrio em prol do doente

Confrontado sobre em que medida o recurso às medicinas alternativas pode reduzir custos e elevar a prestação do sistema nacional de saúde, o governante acentuou que “a maior preocupação, enquanto ministro da Saúde, passa por saber e entender o que a medicina tradicional pode trazer para a melhoria da população local”. “É evidente que, como ministro, também sou gestor e tenho de levar em conta a sustentabilidade do sistema. A medicina convencional, pela sofisticação de técnicas, começa a ter um custo muito elevado. Por isso, iremos utilizar a MTC onde for necessário e possível obter resultados satisfatórios para o doente, com custos menos elevados para todos.”

Ainda no âmbito das relações institucionais entre Cabo Verde e o Parque, Arlindo do Rosário recordou a presença nas ilhas de quadros da instituição chinesa para participarem em acções de formação, considerando que “esta área [da MTC] tem vivido um grande dinamismo”. “Já houve, na sequência de um memorando de entendimento assinado em Maio passado em Lisboa, acções de formação em MTC em Cabo Verde, destinadas a técnicos de saúde (médicos, enfermeiros, técnicos)”, esclareceu, destacando que o país “é reconhecido como um Estado que está muito avançado na área da regulamentação” e essa é também a aposta para as medicinas alternativas.

Cabo Verde – continuou – tem “uma regulamentação muito consolidada nas áreas da saúde e da farmacêutica. A entidade reguladora tem essa responsabilidade. A MTC abre-nos desafios importantes e queremos ter, tal como na medicina convencional, um quadro equivalente para a medicina tradicional. A Europa está a dar passos nesse sentido. Queremos apanhar esse comboio e aprofundar e beber experiências para caminhar em terreno firme nesta matéria. O próprio Ministério da Saúde já criou um Gabinete para a Medicina Tradicional, focado nos aspectos da legislação e regulamentação, pressupostos que consideramos essenciais”.

Cooperação de longa data

O governante adiantou ainda que, até ao presente, entre médicos, enfermeiros e fisioterapeutas cabo-verdianos, cerca de meia centena já recebeu formação em MTC, esclarecendo que o memorando assinado entre o Governo de Cabo Verde e o Parque “prevê continuar alargar a formação”, um objectivo que classificou “fundamental no presente e no futuro”.

Arlindo do Rosário destacou também a presença de um estudante de Cabo Verde na recém-criada escola de medicina de Macau, na Universidade de Ciência e Tecnologia, considerando que “está dado o pontapé de saída” em mais uma área de cooperação entre o país e a região administrativa especial.

Lembrou, a propósito, que “já há muitos alunos cabo-verdianos a estudar na China, em diversas áreas”, designadamente medicina, e que em Macau “também há alunos a estudar em outras áreas” nas várias instituições de ensino superior.

Acerca da relação com a China e Macau, o governante cabo-verdiano classificou-a como “muito forte, com parcerias fortes”, designadamente através do Fórum para a Cooperação Económica e Comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa (Fórum de Macau). E justificou: “Não estamos a cooperar com a China apenas na medicina tradicional. Presentemente está em Cabo Verde uma equipa chinesa que vai construir o bloco de maternidade e obstetrícia de uma unidade de saúde de referência do país, o Hospital Batista de Sousa, orçada em 15 milhões de dólares norte-americanos. Temos uma equipa médica chinesa em permanência em Cabo Verde desde há 30 anos (que se reveza de dois em dois anos) no Hospital Agostinho Neto. Portanto, a China tem apoiado Cabo Verde não só em termos de equipamentos e infra-estruturas, mas também de formação e assistência técnica”.

“Não vamos perder isso”, garantiu, adiantando que nessa relação Cabo Verde tem para oferecer “uma localização geoestratégica importante, um país estável, seguro e bom para investimentos”.

Chamado a concretizar, Arlindo do Rosário, mostrou ambição, lembrando que, “tal como já se fez com Portugal – Lisboa é a sede de um centro europeu de MTC – porque não pensar também que Cabo Verde possa ter um centro de MTC virado, não apenas para dentro, mas também para o continente africano?”

“Ganhamos em termos de escala, daquilo que queremos oferecer aos cabo-verdianos – uma melhor saúde –, contribuindo também para a região”, assumindo, com convicção: “Trata-se de questões que são colocadas e discutidas com as autoridades, mas é também uma forma de mostrar a nossa visão e ambição, a qual ultrapassa os limites do território”.

Acerca de como observa o papel de Macau nas relações da China com os países de língua portuguesa, o dirigente cabo-verdiano considerou que a história do território “é um ganho importante que deve ser aproveitado”. “Macau, enquanto região que também tem o português como língua, pode ajudar muito na comunicação, além de a própria vocação que decorre do princípio ‘um país, dois sistemas’, ser a ponta de lança para esse relacionamento que se pretende entre o Oriente e o Ocidente”, anteviu.

Por fim, Arlindo do Rosário abordou o futuro da relação com Macau, recordando que há “vários passos a ser dados” e que “os alicerces dessa parceria estão lançados”.

“Vamos continuar a trabalhar e no futuro saberemos como realmente construir o edifício”, concluiu.

Um laboratório na linha do Equador

São Tomé e Príncipe é o mais novo membro do Fórum para a Cooperação Económica e Comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa (Fórum de Macau), para onde entrou vai para três anos (em Março de 2017). E Edgar Agostinho das Neves, ministro da Saúde do Estado insular situado no Golfo da Guiné, em pleno Oceano Atlântico, sonha grande. E sonhar não tem limites: “Fazer de São Tomé e Príncipe, pela riqueza e diversidade no reino vegetal, um laboratório para o desenvolvimento da Medicina Tradicional Chinesa”.

Este desejo saiu ainda mais reforçado depois da recente presença em Macau para participar no “Fórum de Cooperação Internacional de Medicina Tradicional 2019 da China”. Para o ministro, o país está apostado em desenvolver e fazer crescer “o sector da medicina tradicional, designadamente com o apoio do Parque Científico e Industrial de Medicina Tradicional Chinesa para a Cooperação entre Guangdong-Macau”. “Mas, para já, a prioridade é preparar São Tomé para beneficiar de uma futura ligação ao Parque”, disse o governante.

Edgar das Neves reconheceu que São Tomé é “um pequeno país insular, mas estrategicamente bem colocado na geografia do mundo”, assegurando que o convite para vir a Macau “foi recebido com todo o cuidado e tratado ao mais alto nível, o que revela a importância que os responsáveis dão à MTC”.

Em troca, São Tomé pode funcionar também “como uma plataforma de divulgação”, defendeu, apontando o caminho: “A formação e a investigação no âmbito da MTC não deve servir só o país, mas virar-se para todo o mercado que está à volta na região do Golfo da Guiné, que congrega uma população de 200 milhões de pessoas”.

Quanto ao papel que a MTC pode trazer ao desenvolvimento do sistema nacional de saúde de São Tomé, Edgar das Neves respondeu, sem hesitações: “O desenvolvimento que a MTC tem tido ao longo dos anos obriga-nos, necessariamente, a incorporá-la como um complemento importante – uma nova valência – para fortalecer, enriquecer e estruturar melhor o Sistema Nacional de Saúde”.

“São Tomé – prosseguiu – tem um clima tropical húmido, uma vegetação equatorial e, naturalmente, uma riqueza vegetal e animal muito diversificada, as quais podem e devem ser devidamente exploradas e estudadas como contribuição com todos os parceiros e para a investigação científica.”

Visão holística

Para Edgar das Neves, hoje em dia, em matéria de saúde pública, “há a obrigação de ter uma visão muito mais holística, mais transversal de tudo isto”. “Não vemos a MTC só sob o aspecto da cura em si, mas através de uma série de elementos que giram à volta da medicina, da saúde, e como é que esta pode contribuir para o desenvolvimento”, acentuou.

Por isso, continuou, “o Governo quer ‘casar’ a medicina convencional, em geral, e a MTC, em particular, com o desenvolvimento. E este tem um eixo que é muito importante para São Tomé e Príncipe: o turismo”.

“Estando mais fortalecidos na área da medicina tradicional e, com esta devidamente implantada, isso dá-nos mais tranquilidade, mais segurança, tornando o país mais atractivo para todos aqueles que queiram girar à sua volta. São Tomé tem um grande potencial turístico e é cada vez mais procurado como destino. Tudo isto, junto, torna-se numa alavanca muito importante para o desenvolvimento do país e da região onde está inserido”, disse.

Fez ainda questão de esclarecer o sentido de “atractivo” e “seguro” a partir da visão de quem lidera a área da Saúde num país como São Tomé. “Quero que se olhe para o mundo e se veja a dimensão que a MTC tem e, em paralelo, pensar em São Tomé e Príncipe do futuro, virado para um turismo estruturado. Tudo isto tem de vir necessariamente colado à publicidade que se fizer do próprio país. Além dos aspectos curativos, temos de incluir também as componentes de formação e de investigação. Há aqui o sonho de um dia ver São Tomé como um laboratório, entre aspas, para o desenvolvimento da MTC”, explicou.

Mas esse caminho ainda vem longe. Para já há que deixar o sonho e regressar à realidade. E essa passa por acelerar os modelos de ligação/cooperação entre São Tomé e Príncipe e o Parque. Nesse âmbito, o governante reconheceu que o país ainda “não está preparado para concluir, neste momento, qualquer acordo” com aquela instituição. “Já temos ideias e intenções que manifestámos e que foram bem acolhidas pelos responsáveis do Parque Científico e Industrial de Medicina Tradicional Chinesa para a Cooperação entre Guangdong-Macau. Saímos daqui [Macau] muito mais entusiasmados e encorajados em avançar com o projecto de desenvolvimento da MTC em São Tomé”, admitiu.

O ministro escusou-se a fixar uma data para a assinatura de um futuro protocolo entre o país e o Parque, a exemplo do que tem sido estabelecido por com outros membros do Fórum. Mas realçou que as autoridades de São Tomé o querem fazer “o mais rápido possível”, admitindo que tal possa acontecer por ocasião da próxima reunião ministerial em Macau, em Junho de 2020.

Voltando a carregar na tecla de “nada se faz num dia”, Edgar das Neves adiantou que as autoridades são-tomenses vão aproveitar as experiências do que vem acontecendo em outros países africanos de língua portuguesa”, acreditando que, com isso, “podem ganhar algum tempo”. “Saímos de Macau com uma visão muito mais ampla e um sentido de responsabilidade acrescido. E sabemos o que temos de fazer e como o fazer. Não há como voltar para trás. Agora esta ligação à MTC tem de ser feita de uma forma estruturada, com sustentabilidade, para não haver recuos. Seguramente, se tivermos de cá voltar nos próximos tempos, traremos na bagagem mais coisas para mostrar aos parceiros”, assegurou.

Entre o que São Tomé pode ‘beber’ das experiências de terceiros, Edgar das Neves apontou, entre outros exemplos, o quadro legislativo comparado aplicável para esta área em São Tomé. “Esses são desafios que já constam das atividades do Ministério da Saúde. A regulamentação e legislação, de uma forma geral, o enquadramento, como tudo se vai encaixar com a medicina convencional. E há ainda um outro aspecto, no mundo de hoje, incontornável: a mediatização. A comunicação social vai ter de jogar um papel importante na divulgação, informação e comunicação. No fundo, participar para uma mudança de mentalidades, sabendo-se que estas só avançam com mais e melhor conhecimento, educação e formação”, afirmou.

A relação entre as medicinas, convencional e tradicional são-tomense, mereceu também um comentário de alguém que, além da responsabilidade política enquanto governante, é médico de formação, com este a assegurar que “começa a haver esse encaixe” no sector. “Já devíamos estar mais avançados, mas como disse atrás, vamos agora regressar com uma visão mais alargada, a qual vai obrigar-nos a acelerar esse enquadramento entre a medicina tradicional local e aquilo que são os verdadeiros conceitos da medicina tradicional. Todo este trabalho tem de ser realizado também junto de todo o sector, de médicos, enfermeiros e técnicos de saúde. Temos de trabalhar, informar, sensibilizar para esta realidade. E é um trabalho que não se faz de um dia para o outro. Vai-se fazendo. Há essa complementaridade. As medicinas, convencional e tradicionais, não se sobrepõem, complementam-se”, lembrou.

Edgar Agostinho das Neves reconheceu igualmente que a recente abertura em Macau de uma escola de medicina, na Universidade de Ciência e Tecnologia, pode contribuir para estreitar a ligação entre as partes, aproveitando a presença no Fórum de Macau. “Macau tem excelentes condições para que nos próximos tempos possamos fazer alguma cooperação no quadro da formação, a diferentes níveis, designadamente médicos, e outros especialistas do sector, como enfermeiros, técnicos de apoio ao diagnóstico, enquanto vectores centrais do Serviço Nacional de Saúde de São Tomé e Príncipe”, assinalou.

O governante qualificou ainda o relacionamento entre São Tomé e a China como “excelente e desenvolvendo-se em diferentes domínios de cooperação”. “Nessa relação tem-se cumprido o que foi rubricado, designadamente o apoio directo da China ao orçamento de Estado de São Tomé, nas infra-estruturas e no projecto de combate ao paludismo”, adiantou. “Cooperação é dar e receber. As relações estão muito bem definidas. Está muito claro o que podemos dar e o que contamos receber. Repito, a relação é boa e abarca áreas que vão da protecção e reforma de infra-estruturas, formação de quadros, luta contra o paludismo. A China tem tido uma intervenção, ao nível da cooperação, bastante vasta”, elogiou.

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