Domingo, Julho 12, 2020
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Mike Goodridge, director artístico do Festival Internacional de Cinema

“O nosso trabalho é projectar Macau no mundo”

Texto Paulo Barbosa | Fotos Gonçalo Lobo Pinheiro

É o director artístico desde a segunda edição do festival, realizada em 2017. Quando assumiu o cargo disse que iria contribuiu para estabelecer Macau como um ponto de encontro entre o Ocidente e o Oriente em termos de indústria do cinema. É um objectivo alcançado?

Estamos a caminhar para aí. Demora muito tempo e há muitos a alegarem que são o ponto de encontro entre o Ocidente e o Oriente. A grande vantagem que temos em Macau é que somos parte da China. As pessoas que fazem parte da comunidade internacional da indústria do cinema sentem-se muito entusiasmadas com a perspectiva de visitar Macau. É um território associado ao glamour e ao mistério. É a porta de entrada para a China. Julgo que temos uma grande oportunidade para trazer o cinema chinês e os seus talentos para a ribalta internacional. Mas demora alguns anos até que as pessoas passem a levar as coisas seriamente. 

Uma das suas principais responsabilidades enquanto director artístico é delinear o programa. Que objectivos gerais procura alcançar enquanto programador?

Tento apaixonadamente manter o programa tão actualizado quanto possível. Seria muito simples programar os 50 filmes que estiveram em Cannes em Maio, ou aqueles que foram mostrados no Festival de Berlim. Mas queremos que as pessoas de Macau vejam filmes novos e excitantes. Isso é difícil, porque temos que ser competitivos para trazer estes filmes.

O Comité Organizador do festival quer que o IFFAM se transforme num “mega-evento”. Acredita que Macau tem os recursos e a massa crítica para poder organizar um certame que esteja no centro da atenção da indústria mundial do cinema? 

Uma das grandes questões que pus quando comecei foi se haveria um público para estes filmes em Macau. Caso não houvesse, isto seria apenas um fútil exercício de vaidade. Mas há um público e um dos desafios é galvanizar a população local, em toda a sua diversidade, para acolher todos os filmes do festival. Agradou-me muito ver os espectadores que assistem à nossa competição internacional ao longo dos últimos dois anos. Esta é apenas para primeiros e segundos filmes, portanto não há estrelas de cinema. Mas temos casa cheia muitas vezes.

Este ano haverá um novo espaço para projectar filmes, bem no centro da cidade. É de esperar que isto venha a trazer mais público para o festival?

Sim, vamos usar o edifício do antigo tribunal. É um prédio magnífico. Precisávamos de um novo espaço. Temos salas enormes, como o Centro Cultural e a Torre de Macau. São demasiado grandes. O antigo tribunal tem 100 lugares. É mais fácil de preencher e mais fácil de gerir. Não queremos trazer directores da América Latina ou de França e depois colocá-los perante salas enormes e meio cheias. Julgo que o Centro Cultural [Grande Auditório] tem mais de 1000 lugares. É enorme.

Em termos de programação, quer destacar alguns dos pontos altos da competição internacional, que tem o prémio para o vencedor de 60 mil dólares norte-americanos?

Vamos abrir com Jojo Rabbit, um filme de que gosto muito. É realizado pelo neo-zelandês Taika Waititi, com quem  já trabalhei no filme Hunt for the Wilderpeople. Desde então ele foi para Hollywood e tornou-se num realizador de grande sucesso; fez o filme Thor [um super-herói da Marvel] e está neste momento a fazer um novo filme daquela saga. Entrementes realizou Jojo Rabbit. Chamam-lhe sátira, mas não sei se sátira será a melhor designação. É uma comédia generalista, muito arriscada, porque se passa durante o nazismo. É o ponto de vista de uma criança de oito anos na Alemanha. Um miúdo que é um pouco falhado, faz parte da juventude hitleriana, onde é gozado e chamado de “Jojo Rabbit”. E a sua mãe faz parte da resistência. O filme mistura incrivelmente comédia e tragédia e funciona lindamente. 

Quais são as estreias deste ano?

Vamos ter estreias de Hong Kong e de Macau. E também há a estreia de um filme indonésio muito bom, chamado Homecoming. Não é minha prioridade ter outras estreias porque estamos em Dezembro. Há ciclos de festivais de cinema e estamos no fim do ciclo que começa em Agosto, com Veneza. Antes de nós, na Ásia, há Busan, Tóquio, o Urso Dourado [Taiwan] e Singapura. Não há maneira de termos estreias asiáticas ou mundiais. O que podemos ter é estreias de Hong Kong e Macau, que são parte do mesmo território de distribuição. Se um distribuidor compra filmes para Hong Kong, também compra em Macau.

Falando em filmes de Macau, há cinco estreias, o que é notável, tendo em conta a dimensão do território. Isto vai ao encontro de um dos objectivos iniciais do festival, que é potenciar a indústria local?

Esse é um objectivo muito importante e é parte da missão do festival. Temos vindo a trabalhar em sintonia com o Governo para tentar estimular a cultura de produção de filmes aqui. O nosso trabalho é projectar Macau no mundo. No primeiro ano tivémos o filme Sisterhood, de Tracy Choi, na competição. A Tracy é provavelmente a realizadora de topo em Macau. Ela curiosamente é a produtora de um filme que vamos mostrar, chamado Years of Macau. Há uma comunidade de realizadores e produtores que está a crescer e trabalha de forma estreita, o que é saudável.

A Cinemateca Paixão tem tido uma programação dinâmica, com vários festivais e também com a projecção regular de clássicos do cinema e obras de grandes realizadores. Acha que tem tido um papel como ponto de encontro e inspiração para essa comunidade?

Eles têm programas excepcionais e estão continuamente a expandir o acesso a diferentes géneros de cinema. Serão, é claro, um dos locais de exibição de filmes durante o festival.

Houve a intenção de programar o festival para marcar os 20 anos do estabelecimento da RAEM?

Definitivamente que sim no que respeita aos cinco filmes de Macau. Os temas desses filmes reflectem os 20 anos. Também deslocámos o festival um pouco para a frente no calendário e temos menos um dia de duração, para acomodar os eventos que vão ter lugar em Macau mais para o fim de Dezembro. De resto, a nossa missão é produzir um festival tremendamente bom este ano. Todos os olhos estão em Macau e é uma época muito importante.

No ano passado começaram com uma secção para filmes chineses. Essa competição será expandida?

É uma secção competitiva que me apaixona. O cinema chinês não é apenas do interior da China, inclui Malásia, Hong Kong, Macau, e a região de Taiwan . É uma cultura cinematográfica muito rica. Particularmente para quem vem do estrangeiro, esta é uma grande maneira para se conhecer esses filmes. […] Há realizadores conhecidos num circuito de festivais e cinema de autor. Depois há uma escala mais independente com muitos filmes interessantes a serem feitos. É excitante e vamos ter um grande programa este ano.

A indústria do cinema está a mudar, com países em que as audiências de salas de cinema caem a pique, enquanto na China há um público entusiasta e vasto.

Sim, o que mudou nos passados dez anos é que há um mercado massivo que emergiu na China. É um mercado que não existia antes. Os estúdios de Hollywood estão desesperados por conseguir uma fatia dele e isso é feito através de co-produções, ou com a entrada de actores chineses em filmes americanos. As plataformas de streaming também mudaram a forma como as pessoas vêem filmes. Acho fascinante acompanhar que alterações vão acontecer no futuro.

Há também alterações em termos de tecnológicos, com o 3D e outras técnicas que permitem uma experiência mais imersiva. O futuro do cinema será por aí?

Penso que quando vamos ao cinema e pagamos um bilhete, tem que nos ser oferecido algo especial. O problema com muitos filmes hoje em dia é que eles não valem o preço de um bilhete, particularmente quando as pessoas têm tanto que ver em casa. É um desafio. Temos um convidado das nossas conferências para a indústria chamado Fabien Riggall que tem uma companhia na Grã-Bretanha chamada ‘Cinema Secreto’. É um conceito fantástico. Ele pega em filmes clássicos e transforma a ida ao cinema numa experiência teatral. O espectador paga 60 ou 80 libras [entre 620 e 830 patacas] e é levado a sítios de projecção secretos. A experiência pode envolver, por exemplo, mudar de roupa e vestir um smoking, como James Bond, vendo o filme entre mesas de casino, bebidas e comida. É um conceito enormemente popular.

Há dez filmes incluídos na competição internacional. Que critérios usou para os escolher?

Este concurso é para realizadores que estejam a fazer o seu primeiro ou segundo filme. Eu e a minha equipa procuramos filmes que realmente se destaquem. […] Por exemplo, temos um filme animado da Índia, um filme muito britânico, um filme francês realizado por um italiano e protagonizado por uma actriz alemã, um filme americano dirigido por um russo, que é muito engraçado, chamado Give me Liberty. Depois há Two/One, um filme fascinante realizado por um argentino e que se passa entre o Canadá e a China. 

Isso reflecte o lado global da indústria. Portanto, há uma tentativa de mostrar filmes de diversas proveniências?

Não fazemos isso deliberadamente. Não procuramos ter filmes só porque são de um determinado país. Isso acontece de forma orgânica. Os consultores da programação tendem a defender alguns filmes com paixão, assim como eu.

Paralelamente ao festival, há um “mercado de projectos” e uma série de conferências, entre os dias 6 e 8. Estes eventos visam criar condições para o surgimento de uma indústria local de cinema?

Sim. Havendo um guião, um realizador e um produtor estão reunidos alguns elementos [para se fazer um filme]. Esses profissionais vêm cá, pomo-los em contacto com financiadores, agentes de vendas, distribuidores e outros produtores. Há centenas de reuniões, nas quais se podem propor projectos. Este ano temos uma história de sucesso. Trata-se de um filme do Laos que vamos passar na nossa secção Panorama Mundial. Chama-se The Long Walk e estava no nosso mercado de projectos em 2016. É muito bom. Esteve em Veneza e em Toronto e eles [os intervenientes no filme] estão muito contentes com Macau. É assim que devia funcionar sempre.

Imagino que para os directores e produtores em muitos países do Sudoeste Asiático precisam deste tipo de apoio.

Sim, e é também importante para eles que os guiões tenham exposição, comentários e críticas [que permitem melhorar o projecto].

Esta edição será a primeira em que se vai realizar um concurso de curtas. Em que consiste?

São oito filmes feitos por estudantes de universidades do Interior do País, Macau e Hong Kong. É uma maneira de tentar cativar potenciais realizadores com uma idade mais precoce do que a do primeiro filme. Em anteriores edições mostrávamos o ‘Local View Power’ [um programa organizado pelo Centro Cultural de Macau], mas este ano quisemos expandir este programa de curtas.

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Juliette Binoche é a estrela de serviço

Um festival de cinema é, quase por definição, um evento social. Assim também acontece em Macau. No ano passado, Nicolas Cage esteve presente na gala de entrega de prémios. Para esta edição, o embaixador de talentos ocidental é Juliette Binoche. Comentando a vinda da laureada com o Óscar de melhor actriz secundária em 1997, pelo desempenho no filme “O Paciente Inglês”, Mike Goodridge disse que “a principal missão do IFFAM é mostrar o melhor do cinema mundial e não há ninguém mais representativo do que Juliette Binoche para mostrar o que isso significa”. A francesa junta-se à actriz de Hong Kong Carina Lau e ao músico sul-coreano Kim Junmyeon como embaixadora do evento. A sua agenda em Macau vai incluir presenças na exibição do filme “The Truth”, na iniciativa “Em conversa com Juliette Binoche” e na cerimónia de entrega de prémios do festival, que decorre a 10 de Dezembro.

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