Sexta-feira, Abril 10, 2020
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Língua portuguesa: IPOR expande operações para Pequim e Chengdu

Texto Paulo Barbosa

O Instituto Português do Oriente (IPOR), que está sediado em Macau e tem como principal missão difundir a língua e a cultura portuguesas na Ásia, acabou de inaugurar uma delegação na capital chinesa e prepara-se para abrir um centro de línguas na capital da província de Sichuan, onde já está a desenvolver acções de formação para profissionais de saúde.

Em Pequim, a delegação começou a funcionar em Novembro do ano passado, com um curso de formação de língua portuguesa de nível intermédio que tem cerca de 20 alunos inscritos. A delegação é coordenada por Luís Pires, que entrou em funções em Outubro, após ter sido seleccionado para o lugar por concurso público.

Embora existam universidades em Pequim que conferem graus académicos no ensino de português, a certificação por uma entidade internacional é vista como uma área com potencial de crescimento.

Entrevistado pela MACAU na sede do instituto, o director do IPOR nota que há interessados nesta certificação, tais como pessoas que fazem auto-aprendizagem e outras que não estão ligadas a instituições académicas. O objectivo, nota Joaquim Coelho Ramos, é complementar a oferta que já existe em Pequim. “A certificação em língua portuguesa é uma aposta essencial que tem sido comunicada quando, por exemplo, temos reuniões de concertação com o Instituto Camões. Certificar as aprendizagens tem duas vantagens: um futuro contratador sabe a que nível o estudante chegou com as competências definidas pelo Quadro Europeu de Referência; ao mesmo tempo, é útil para a pessoa que fez a aprendizagem”, diz.

A certificação do IPOR é avaliada pelo Centro de Avaliação de Português Língua Estrangeira (CAPLE) da Universidade de Lisboa. O instituto é um local de avaliação do português como língua estrangeira em Macau. Foi agora requerido ao CAPLE que autorize a certificação de aprendizagem em Pequim. A entidade sediada em Lisboa vai avaliar a candidatura em breve.

A formação contínua de professores é outro projecto que deverá arrancar na delegação do IPOR em Pequim em breve. Também nos primeiros meses de 2020 está previsto o início do trabalho de acção cultural externa. “O ensino da língua portuguesa só faz sentido quando contextualizado numa realidade cultural”, argumenta Joaquim Coelho Ramos. “Há uma língua portuguesa ligada à cultura europeia, mas também à cultura africana, sul-americana, etc. Portanto é nesta sustentação cultural que também queremos produzir na aprendizagem da língua portuguesa em Pequim”.

Em termos de recursos humanos, a delegação tem neste momento um formador e poderá vir a ter a mais, de acordo com a necessidades. “Esperamos que a abertura da delegação tenha um efeito bola de neve. Ou seja, tendo uma delegação permanente esperamos que haja uma procura superior”, refere o responsável.

Formação a técnicos da saúde

A implementação do centro de língua portuguesa do IPOR em Chengdu está praticamente concretizada. A presença em Chengdu já tem um historial, dado que a instituição sediada em Macau tem enviado regularmente professores para ensinar português a profissionais da área da saúde na capital da província de Sichuan, a pedido do Centro Internacional de Formação na área da Saúde e do Planeamento Familiar.

A província de Sichuan tem mantido uma relação estreita com os países de língua portuguesa, para onde a respectiva autoridade da saúde começou a enviar, desde 1976, equipas médicas. O Centro Internacional solicitou ao IPOR que complementasse a formação em português a médicos, enfermeiros e técnicos antes de partirem em missões de cooperação e desenvolvimento nos países africanos de língua portuguesa. “Esta formação é fundamental para eles interagirem com os doentes e com os próprios colegas”, conta, Joaquim Coelho Ramos, acrescentando que o novo centro pretende dar resposta imediata à formação em língua portuguesa para pessoal médico e, numa menor escala, para pessoal de enfermagem.

“O que estamos a fazer é um reforço da oferta, que vai abranger outras áreas. Pretendemos, por exemplo, que alguns desses formandos venham a Macau durante um certo período de tempo em cada ano para poderem ter uma experiência em quase imersão, tendo também contacto com mais professores nativos de língua portuguesa. Procuraremos ainda estabelecer acordos que melhorem a experiência destes formandos noutras áreas. Por exemplo, na área da saúde aqui em Macau, com médicos de língua portuguesa”, descreve o director. “Num segundo momento, será para dar resposta ao pedido de formação em língua portuguesa que vem da própria sociedade da cidade de Chengdu e de Sichuan em geral. Isto porque, pelo que tem sido possível aferir, há interesse nesta aprendizagem da língua portuguesa para vários fins”, complementa.

Acção cultural

Outro projecto do IPOR passa por reforçar a chamada política de acção cultural externa, que já vem sendo desenvolvida pelo instituto em Macau. O IPOR traz regularmente à RAEM músicos, escritores, artistas, académicos e figuras públicas portuguesas. Um dos últimos convidados do instituto foi o humorista Ricardo Araújo Pereira, que encheu por duas vezes o auditório do Instituto Politécnico de Macau e deu uma palestra na Escola Portuguesa de Macau.

O instituto quer que algumas destas personalidades possam ir também a Pequim e a outros pontos da Ásia onde há leitorados de português. Dado que a capital chinesa tem uma missão diplomática portuguesa com um centro cultural, o plano é reforçar o trabalho de articulação entre a embaixada e o IPOR. “Há espaço para articular mais as actividades. Não faz sentido, por exemplo, que um escritor que vem a Macau não tenha a possibilidade de ir a Pequim, desde que essa disponibilidade faça sentido para Pequim, ou seja, que se enquadre no calendário de acção cultural externa da embaixada, que haja uma efeméride a celebrar.”

Para que estas viagens se tornem mais frequentes, o governo português tem estado a criar mecanismos legais como a “empresa promotora da língua portuguesa”. O protocolo é aberto a qualquer empresa que entenda que deve participar no âmbito das suas acções de responsabilidade social e de mecenato.

Nesse âmbito, o Instituto Camões e a operadora local SJM assinaram um protocolo de colaboração. A companhia fundada por Stanley Ho constituiu um fundo para a língua portuguesa, que pretende trabalhar na vertente do ensino do português para fins específicos e na acção cultural externa. Há também um outro mecanismo de apoio, nomeadamente os associados enquanto empresas do IPOR, que são o BNU, a Hovione, a EDP-CEM e a STDM.

Para Joaquim Coelho Ramos, programas como estes são “fundamentais porque Portugal tem uma estrutura de ensino da língua portuguesa muito extensa, que tem que dar resposta às solicitações que lhe são feitas, de acordo com a relação do país com o seu passado”. As autoridades lusas recebem solicitações das mais diversas partes do mundo para serviços como a disponibilização de formação, ou levantamentos de arte de origem portuguesa.

O IPOR conta com 27 funcionários a tempo inteiro que, com o apoio de algumas colaborações, procuram assegurar a vocação prioritária de promover o ensino da língua portuguesa, com uma vertente complementar focada na acção cultural.

Fundado a 19 de setembro de 1989 pela Fundação Oriente e pelo Camões-Instituto da Cooperação e da Língua, o IPOR exerce a sua actividade, além de Macau, em países como o Vietname, Tailândia e Austrália, estando para breve a concretização também de uma representação em Nova Deli, na Índia.

O futuro da língua

É consensual que há um crescimento do interesse pelo ensino do idioma de Camões no Interior do País. Para Joaquim Coelho Ramos, a China exemplifica uma tendência internacional. “Não estou nada preocupado relativamente ao crescimento da língua portuguesa. Há um acordar para a realidade da língua portuguesa como língua global”, diz. “Nesta região em concreto, há três ou quatro vectores que interessa considerar. Por um lado, o carácter instrumental da língua portuguesa. É uma língua de negócios, de interacção com uma estrutura – a CPLP – muito interessante economicamente e isso desperta um interesse pragmático por parte de quem pretende aprender a língua portuguesa”, aponta o responsável.

Há também um vector institucional, com Joaquim Coelho Ramos a comentar que “as relações entre Portugal e a República Popular da China estão num momento muitíssimo bom, e na China querem saber mais sobre a cultura portuguesa”. Esse crescente interesse verifica-se com especial incidência em Macau, de acordo com Joaquim Coelho Ramos. “Notamos que muitos dos nossos estudantes procuram aprender a língua portuguesa por razões afectivas, que vão desde relações maritais, até relações de gosto pela cultura, a arte, a estética”.

Coelho Ramos mostra confiança na perenidade do idioma luso em Macau. “Não estou nada preocupado com o futuro. A língua portuguesa não está aqui a prazo. A sua dimensão instrumental assegura que haja uma dimensão pragmática que a sustenta. O vector emocional garante-nos que vai haver uma relação. As emoções não estão a prazo. Há uma transferência até geracional, que leva a que as pessoas queiram descobrir, mais e mais, a língua portuguesa e as culturas que lhe estão associadas”.

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Novas pontes debatidas por académicos de todo o mundo

O IPOR e o Instituto Politécnico de Macau organizaram o congresso internacional “Macau e a Língua Portuguesa: Novas Pontes a Oriente”, em Novembro passado, contando com a participação de mais de 70 académicos originários de 18 países. No âmbito do congresso, o IPOR lançou o Guia-Lexical Português-Chinês para o Jornalismo, que pretende ser uma ferramenta de consulta dirigida principalmente a estudantes e profissionais da área da comunicação social. Anteriormente, a instituição já tinha lançado guias lexicais bilingues e trilingues paras as áreas da saúde, do turismo, da contabilidade e para a conversação chinês-português.

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