Domingo, Setembro 27, 2020
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Mega-ponte: Shenzhen e Zhongshan lideram inovação

Texto Paulo Barbosa

Enganou-se quem achava que a ponte Hong Kong-Zhuhai-Macau ficaria durante muitas décadas como o exemplo máximo da capacidade de realização de grandes obras de engenharia na China. Também no Delta do Rio das Pérolas, a 38 quilómetros a norte dessa nova infra-estrutura, está a ser construída outra ponte que ficará na lista das maiores do mundo, com abertura prevista para 2024.

Orçada em 44,6 mil milhões de yuans (cerca de 50,3 mil milhões de patacas), a ponte vai ligar a relativamente pequena cidade de Zhongshan à metrópole de Shenzhen, sede de algumas das maiores firmas tecnológicas do mundo.

Esta infra-estrutura, designada em língua chinesa como Shenzhong Tongdao 深中通道, esteve 15 anos em fase de projecto antes de ter o financiamento para a construção aprovado pela Comissão Nacional para o Desenvolvimento e Reforma. Cerca de 50 por cento do total do investimento é assegurado pelo governo da província de Guangdong. Os governos municipais de Shenzhen, Cantão e Zhongshan também participam no investimento. O Banco Agrícola da China liderou um consórcio formado por outros 11 bancos chineses na operação de crédito que viabilizou a realização da obra.

Segundo um porta-voz da entidade que está a gerir a construção da ponte, os trabalhos de construção começaram em 2016 e estão a ser facilitados pelos conhecimentos adquiridos pelos técnicos aquando da construção da ponte Hong Kong-Zhuhai-Macau. Mas, em certos aspectos, a ponte Shenzhen-Zhongshan vai mais longe. A nova estrutura usa a solução semelhante à da ponte Hong Kong-Zhuhai-Macau de ter ilhas artificiais e um percurso parcial em túnel, para permitir a circulação marítima sem obstáculos. Será construído um túnel com um total de oito faixas de rodagem. Segundo os responsáveis pela construção, este é “o primeiro túnel de oito faixas com comprimento e largura assinaláveis no mundo.”

Localizado a este do estuário, o túnel será construído em betão armado e terá um comprimento total de 6,8 quilómetros, cinco dos quais submersos. No total, a ponte tem uma extensão de 24 quilómetros.

Embora se possa considerar como uma só ponte, a infra-estrutura terá várias secções, incluindo a de Lingdingyang, com um vão principal de 1666 metros e uma ponte suspensa à qual foi dado o nome da cidade de Zhongshan, com um vão de 580 metros.

Há duas ilhas artificiais construídas nas secções este e oeste, com 15 mil metros quadrados cada e onde ficarão acomodadas torres de escritórios, um centro de convenções, restaurantes e zonas de lazer. A estrutura conta ainda com uma central de operações, uma ligação ao aeroporto de Shenzhen e uma zona de manutenção e de gestão de casos de emergência.

Tal como o túnel, a ponte e seus acessos terão oito faixas de rodagem em toda a sua extensão. A infra-estrutura foi concebida para que os veículos possam circular a uma velocidade máxima de 100 quilómetros por hora. A sua durabilidade será superior a um século.

Mas a lista de inovações não acaba por aqui, de acordo com os promotores da mega-obra: será a primeira autoestrada com entroncamento rodoviário em túnel da China e a primeira vez em que cilindros de aço com diâmetros de dimensão recorde foram enterrados no leito do rio para construir as duas ilhas artificiais. É também a primeira vez que dados obtidos por medições de neutrões são utilizados para detectar possíveis fissuras no aço.

Para que esta e outras inovações técnicas fossem possíveis, o orçamento da ponte será superior ao da ponte Hong Kong-Zhuhai-Macau, embora esta seja mais longa. Na prática, a obra vai reduzir a travessia entre os dois lados do estuário de duas horas para cerca de 20 minutos. O trânsito entre as duas cidades vai deixar de estar dependente da ponte de Humen, que fica mais 32 quilómetros a norte e é a única travessia do estuário do Rio das Pérolas.

O projecto começa na zona de acesso ao aeroporto da autoestrada Cantão-Shenzhen e espera-se que faça uma ligação eficaz ao futuro aeroporto Bao’an de Shenzhen, que tem conclusão prevista para 2024, tal como a ponte. As estimativas económicas indicam que a ligação entre Shenzhen e Zhuhai será economicamente mais viável.

Um painel formado por 40 especialistas e académicos chineses foi criado para supervisionar e dar apoio técnico à construção. Firmas de engenharia como a COWI e o ateliê de arquitectura dinamarquês Dissing+Weitling ganharam concursos internacionais para participar no projecto.

Um projecto para a história

Segundo uma apresentação feita a jornalistas que visitaram recentemente o centro administrativo da obra a convite do Gabinete de Ligação do Governo Popular Central na RAEM, esta “está a ser construída sob condições técnicas extremamente complexas e implica a resolução de elevados desafios para que seja atingida uma alta qualidade na construção”. Foi referido que a ligação entre Shenzhen e Zhongshan “é outro mega-projecto a ser concretizado na história das infra-estruturas na China.”

Em resumo, a ponte é considerada uma das principais infra-estruturas no Plano de Desenvolvimento e Reforma do Delta do Rio das Pérolas (2008-2020); uma obra-chave no estuário do Delta integrada na rede nacional de autoestradas G2518 (que liga Shenzhen ao centro da província de Guangxi) e uma ligação entre as zonas económicas especiais da província de Guangdong – nas quais está incluída a vizinha Hengqin (Ilha da Montanha) – e outras áreas da Grande Baía.

“A obra é de estratégica importância para melhorar a rede de autoestradas nacional e para promover o desenvolvimento integrado das cidades da Grande Baía de Guangdong, Hong Kong e Macau”, lê-se em posters afixados na sala de apresentação da obra, junto ao estaleiro de construção em Zhongshan.

Para além das pontes que encurtam distâncias, as zonas económicas especiais de Zhuhai e Shenzhen deverão ser ligadas por uma linha ferroviária de alta velocidade, cujo relançamento foi anunciado recentemente.

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Data prevista de conclusão: 2024

Extensão: 24km

Estrutura: 2 pontes suspensas, túnel subaquático, 2 ilhas artificiais de 15.000 m2 cada

Capacidade: 90 mil carros/ dia

Tempo de viagem: 20 minutos

Ligações: Shenzhen, Nansha, Qianhai, Cuiheng, Hengqin e Zhongshan

Faixas de rodagem: 4 em cada sentido

Durabilidade: Mais de 100 anos

Velocidade máxima: 100km/h

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