Segunda-feira, Setembro 21, 2020
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A artista dos cinco ofícios

O turismo chegou a ser uma hipótese, mas a vida acabou por levá-la pelo caminho que desde muito cedo sentiu que era o seu: o das artes. Crystal Chan é hoje um dos nomes incontornáveis da geração de jovens artistas locais. Há cinco anos em Nova Iorque, onde estuda e trabalha na área, quer voltar a Macau para deixar marca e partilhar o que aprendeu lá fora. Pintar e desenhar é o que mais gosta de fazer, ainda que guarde talento para muitas outras expressões artísticas.

Texto Catarina Brites Soares 

“A nostalgia nem sempre limpa o passado. Permanece uma certa tristeza à deriva, violentamente perturbadora. Esses fragmentos emocionais são peças difíceis de colocar no lugar. Algumas coisas são muito subtis e silenciosas, mas permanecem no tempo. O que faço pretende atender esses sentimentos, provocar uma resposta psicológica nos que a observam que dure além de meras reacções ópticas.” 

É assim que Crystal Chan, ou Chan Wai Man, se apresenta na sua página cargocollective.com/crystalwmchan, onde guarda pinturas e fotografias daquele que já é um espólio vasto apesar da juventude. A arte sempre esteve no horizonte, mas durante algum tempo foi a paixão que trancou numa gaveta por limitações financeiras. Crystal Chan recorda que o interesse começou cedo, ainda miúda, quando teve artes plásticas como actividade extracurricular na escola primária.  

Pintar, diz à MACAU, é no que se sente mais confortável, ainda que se dedique a outras vertentes artísticas. “Pintar é aquela que considero ser a principal, mas é verdade que o meu interesse é transversal a todas as expressões artísticas”, realça.  

Além da tela, Crystal Chan também se dedica à fotografia e vídeo. Aos 15 anos comprou a primeira câmara com o dinheiro que foi juntando das explicações que dava a alunos mais novos e assim deu os primeiros passos noutro ofício no qual se profissionalizou: as artes visuais. Ao leque junta ainda a escrita e a música: canta, toca guitarra, dança e compõe. “Ainda assim, sinto que pintar é aquilo que faço de forma mais intuitiva, de forma mais expressiva. Por mais que me dedique a outras artes, desenhar é sempre àquela que volto. Pintar e desenhar sempre foram os meios que usei para perceber o mundo, que me fazem sentir segura. É ao que dedico mais tempo.” 

O trabalho que tem desenvolvido, continua, vai beber muito à ideia de afastamento, bem presente na vida. Originários da província de Guangdong, os pais seguiram as pisadas de tantas outras famílias do Interior do País e migraram para Macau à procura de uma vida melhor. Seguiu-se um período de instabilidade que os obrigou, assim como à filha, a viver em vários sítios até terem possibilidade de terem uma morada fixa. Em criança, viveu com a família no abrigo da Ilha Verde; foram obrigados a abandonar a área depois de um incêndio que causou grande devastação. “Depois foi-nos concedida uma residência temporária de habitação pública. Antes dos meus oito anos, já tinha vivido em cinco locais diferentes pelo menos. E nos 10 anos que seguiram, voltámos a mudar pelo menos duas vezes de casa.” 

“Sempre tive uma sensação de que não pertencia a Macau. Muita gente diz que Macau é a sua terra, mas nunca tive essa sensação em pleno. Estivemos sempre numa situação um pouco inconstante e instável. Cresci e fui vivendo em diferentes sítios, e isso também contribuiu para essa sensação de afastamento que acho que está relacionada com o facto de estar longe das minhas raízes, o que faz com que me sinta distante das pessoas e dos sítios. É isso que procuro expressar nos meus trabalhos”, resume. 

Os quadros assinados pela artista de 34 anos retêm outras marcas pessoais como emoções que marcaram a infância, como a tristeza, a raiva e a falta de esperança. “Sei que são sentimentos muito opostos. A tristeza é um sentimento de passividade, enquanto que a raiva é um sentimento agressivo. Existem juntos ao mesmo tempo e eu procuro transmiti-los nos meus quadros, por exemplo através das cores.” A ambivalência que sente face ao colonialismo, questões de género, identidade e a família – com a experiência da imigração – são outros temas que trabalha.  

Novo mundo 

Nova Iorque, onde vive há cinco anos, teve um papel determinante no percurso de Crystal Chan, que diz ter encontrado o que procurava: uma cidade vibrante e muito artística, onde se respira cultura nos sítios mais óbvios, como museus e galerias, mas também fora deles. “Em Nova Iorque a arte faz parte da vida, discute-se, vê-se, e viver aqui fez-me pensar que caminho queria seguir e de que forma queria que o meu trabalho chegasse às pessoas. A cidade tem sido muito importante para perceber que abordagem quero ter”, explica à MACAU. 

A bolsa de Estudos Culturais e Artísticos atribuída pelo Instituto Cultural, que recebeu de 2015 a 2017, abriu o caminho que durante muitos anos acreditou estar vedado. “O aspecto financeiro foi sempre a minha preocupação. Venho de uma família com poucas possibilidades, os meus pais tiveram bastantes dificuldades enquanto cresci, e, portanto, ganhar esta bolsa foi uma enorme oportunidade de estudar arte e no estrangeiro.” 

Começou por uma licenciatura em Belas Artes, na School of Visual Arts, por onde passaram Elizabeth Peyton, KAWS, Keith Haring, Sol LeWitt, Yuko Shimizu – hoje nomes incontornáveis no panorama mundial da arte contemporânea. “Tinha dinheiro para um ano, mas preocupava-me o que faria nos seguintes. Decidi então que ia e se não conseguisse prosseguir, paciência, voltava depois de terminar o primeiro ano.” 

E assim foi. Diz que a sorte voltou a estar do seu lado e os receios foram só isso, receios. Conseguiu financiamento até ao fim do curso, que começou em 2015 e terminou em 2018. Ainda antes de terminar a formação, venceu o prémio Will Barnet Show, em 2017, do National Arts Club, uma competição que junta todos os estudantes de artes de Nova Iorque. Isso também lhe valeu a primeira exposição individual na cidade, num dos célebres espaços artísticos nova-iorquinos. A esta seguiu-se outra mostra individual no Chinese American Arts Council, e logo a oportunidade de trabalhar com o artista nipónico Takashi Murakami, no estúdio que tem na cidade.  

Regressou a Macau, mas por pouco tempo. Recebeu novamente uma bolsa do Governo para continuar a estudar e decide-se pelo mestrado em Artes Visuais, na Purchase College, da State University of New York, onde está desde finais de 2019, depois de ter passado dois meses no Japão.  

Outros caminhos 

Para trás ficaram outros caminhos. Foi em Macau, onde nasceu a 26 de Fevereiro de 1986, que estudou até aos 18 anos, altura em que deixou a cidade pela primeira vez. “Sempre quis estudar artes desde que era pequena, mas Macau não era o sítio certo para isso. Nessa altura, por volta dos anos 2000, a região ainda não tinha um sector cultural forte e o que existia estava limitado a um círculo reduzido e fechado, não era uma área que abrangesse o público em geral e também não havia por parte da cidade uma valorização da arte.” 

Taiwan foi o primeiro destino que escolheu para estudar Design de Interiores, em 2004, na Chung Yuan Christian University, em Taoyuan, perto de Taipé. “Acabei por desistir, depois do primeiro ano, porque não era o que procurava. Apesar disso, Taiwan foi muito importante como ponto de viragem na minha vida. Havia muita oferta cultural, música, exposições, livrarias. Foi uma cidade onde aprendi muito sobre arte e que me nutriu bastante.” 

É então que volta ao território com a certeza de que queria estudar. Desta vez, opta por Gestão Hoteleira no Instituto de Formação Turística por considerar que seria “uma rede importante” que lhe iria assegurar emprego e abrir portas para a outra grande paixão: viajar.  

No terceiro ano, rumou à Grécia, onde fez um estágio. “Foi uma experiência espectacular, aprendi muito. A mentalidade das pessoas e como vêem o mundo. Cresci em Macau e nunca tinha tido um contacto muito próximo com os portugueses. Não tinha a mínima consciência de como a Europa funcionava.” O interesse pelo continente leva-a a prolongar a estadia e fica para viajar cerca de dois meses. “Conheci muitos artistas: fotógrafos, ilustradores, pessoas da área do cinema, pintores. E esse contacto fez-me começar a perceber do que gostava.”  

Ainda assim não foi logo que escolheu seguir o que sempre quis. Quando voltou a Macau, confessa, ainda estava um pouco perdida, e, por isso, retomou a tempo inteiro o trabalho num resort integrado que tinha em regime de part-time da altura em que era uma estudante.  

Depois de outra viagem à Europa paga com as poupanças, surge a oportunidade de trabalhar na publicação bilingue Macau Closer. Foi também convidada para se juntar à equipa da primeira edição do Festival Literário de Macau – Rota das Letras, em 2012, e expor os seus trabalhos numa das mostras do evento.  

O acolhimento favorável e o incentivo de James Chu, na altura presidente da associação Art for All (AFA), motivaram-na a dedicar-se de forma mais séria à pintura. Tornou-se membro da AFA e começou então a integrar mais exposições colectivas, numa altura em que a associação local estava a lançar-se além-fronteiras. Hong Kong, Austrália e Singapura foram algumas das paragens onde a associação foi para promover a arte local. Nova Iorque foi outro dos destinos escolhido pela AFA, em 2013, que, depois de conseguir financiamento público, pôde assegurar parte das despesas dos artistas. Crystal Chan decidiu ir. “Ver o meu trabalho na feira de arte foi um enorme incentivo. Em Macau, sentia que as pessoas gostavam do que eu fazia porque me conheciam. Em Nova Iorque senti que gostavam, sem saber quem eu era. Passei algum tempo na cidade, fui a galerias, exposições, museus, e gostei mesmo.”  

Hoje não só não lamenta como sente que a decisão de escolher estudar em Nova Iorque teve um impacto enorme na carreira. “Um dos meus professores, um grande pintor, disse-me uma vez: ‘Se és pintora, se é essa a tua área, não tenhas vergonha em assumi-lo. É isso que tu és’. Com o avanço da nova tecnologia e face ao interesse das pessoas em novas formas artísticas, é difícil assumir que se é só pintor, que se trabalha do modo tradicional. Esta experiência aqui ajudou-me muito a perceber como posso ser pintora e fazê-lo sem complexos.” 

Entre outras mostras, os trabalhos assinados por Crystal Chan estiveram na 1.ª Bienal Internacional de Mulheres Artistas de Macau e no estúdio do famoso fotógrafo londrino Nick Knight. Exposições a solo conta com várias no currículo. A primeira, em 2014, na Livraria Portuguesa, com o título Living in the Memories of the Future Self, seguiram, em 2015, Forever Someone Else, na Art For All de Pequim, e Am My Own Landscape, no Albergue SCM. Mais tarde, em 2018, inaugura mais duas: I Am My Own Landscape, no New York Chinese American Arts Council, e no New York National Arts Club, depois de ganhar o Will Barnet Award Solo Exhibition. No ano passado, voltou a mostrar os trabalhos na exposição individual Idle hands are the devil’s playthings, na Macau Art For All Society. 

Voltar a casa está nos planos, sobretudo agora que reconhece que Macau está muito diferente. “O desenvolvimento económico ajudou bastante. A oportunidade que concede aos residentes locais, como eu, de estudar, é importante, e é um algo que quero retribuir, por exemplo partilhando o que aprendi”, afirma. “A minha família está em Macau e será sempre uma cidade à qual vou voltar. Agora que já passei cinco anos em Nova Iorque sinto que também terei sempre um espaço aqui. Mesmo voltando, sinto que serei sempre uma cidadã do mundo.” 

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