Segunda-feira, Setembro 21, 2020
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Jovens da diáspora recuperam origens

Há um ressurgimento do interesse pela cultura macaense entre os mais jovens. Esta é a principal conclusão de uma sondagem feita em 2019 no âmbito do “Projecto de Estudos Portugueses e Macaenses” da Universidade de Berkeley 

Texto Paulo Barbosa | Fotos Naty Torres e Macau Film Production

Os resultados preliminares do estudo “Projecto de Estudos Portugueses e Macaenses”, pela Universidade de Berkeley, nos Estados Unidos, demonstram que cerca de 65 por cento dos respondentes são adultos em idade activa (entre 19 e 64 anos de idade), uma percentagem superior àquela que foi obtida em sondagens semelhantes feitas em 2012 e 2013, quando 70 por cento daqueles que participaram tinham idade igual ou superior a 70 anos. 

O académico Roy Xavier tem vindo a estudar sistematicamente a diáspora macaense ao longo dos últimos sete anos. Em entrevista à MACAU, considera que os mais novos mostram crescente empenho em não perder as suas raízes culturais. “Tenho visto a actual geração a tentar preservar e documentar as suas histórias familiares e estabelecer ligações digitais com outros em diversos países que partilham raízes étnicas, culturais e históricas”, diz. 

Segundo o investigador da Universidade de Berkeley, a dimensão e características da comunidade macaense em termos globais continuam a não ser bem conhecidas e estudadas. “Esta pesquisa tenta compreender como esta cultura continua a desenvolver-se entre as gerações mais novas, que cresceram tomando contacto com ela através de familiares radicados, na maior parte dos casos, fora de Macau e da Ásia. Permite também estimar o tamanho mundial da população e perceber como aprenderam a cultura e como continuam em contacto com ela embora estejam longe de Macau e das raízes familiares”, conta Roy Xavier.  

“Descobri que cada família tem pelo menos um membro que recolhe fotografias e materiais, escreve ou grava entrevistas com parentes mais velhos, guarda certificados de nascimento e outra informação. Muitos também estudam árvores genealógicas ou estão activamente envolvidos em associações culturais para partilhar informação. Antigamente recolhiam esses materiais apenas para uso dos seus filhos e familiares. Mas agora estão a usar as redes sociais para disseminar e recolher mais informação”, enfatiza o investigador.  

Comunidade online 

A Internet gera sentimentos globais de pertença e a comunidade macaense reflecte essa tendência. Cerca de 90 por cento dos participantes na pesquisa usa o Facebook para manter a ligação com outros membros da comunidade, havendo pelo menos 27 grupos de macaenses criados naquela rede social, mais 14 do que em 2013. Serviços de mensagens instantâneas estão também generalizados. 

Para Roy Xavier, o surgimento da Internet veio ajudar a manter ou a reforçar um sentido de comunidade entre pessoas que estão dispersas em vários pontos do mundo, mas que partilham origens. “Antes de ter aparecido a Internet, e em particular as redes sociais, era praticamente impossível manter tais contactos. (…) A minha pesquisa demonstra que um alto grau de coesão cultural pode ser alcançado pelos luso-asiáticos e pelos macaenses, especialmente porque a proactividade é característica do uso das redes sociais, e as interacções online provocam respostas enviadas por smarthphones e outros aparelhos digitais”.  

Espalhados pelo mundo 

Mais de 72 por cento dos sondados afirmaram ter relações familiares com Macau, enquanto 52 por cento referiram ter antepassados em Portugal. Cerca de 33 por cento dos respondentes têm origens em Xangai e há também quem tenha ligações a Goa, Cantão, Malásia, Singapura e Timor-Leste. No total, foram referidos 35 países como locais de origem familiar.  

De acordo com os resultados preliminares da pesquisa, cerca de 66 por cento dos entrevistados vive nos Estados Unidos e apenas 1,7 por cento em Macau. Para Roy Xavier, é um facto histórico que a comunidade macaense sempre foi minoritária na sua própria terra. A tendência é cada vez mais notória.  

“Há provavelmente menos de três mil macaenses a viver em Macau, e talvez menos de dois mil em Hong Kong. Há muitos mais nos EUA e em cerca de 35 países por todo o mundo. Podemos confiar na fiabilidade destes números, que resultam de uma análise à informação disponível online”, afirma Roy Xavier. “Há comunidades no Canadá, Austrália, Brasil e Portugal, assim como outras mais pequenas na Malásia, Tailândia, Índia, Japão, Filipinas e Timor. É mais rigoroso historicamente chamar a este grupo ‘luso-asiático’, visto que muitos provêm de Goa. Os macaenses são parte deste grupo mais vasto e partilham muitas das suas origens culturais.”  

Identidade macaense 

Em termos de identidade cultural, todos os participantes na pesquisa referiram ser portugueses de origem asiática, enquanto 61 por cento se identificaram como macaenses. Vinte por cento disseram ser euro-asiáticos e 17 por cento afirmaram ser portugueses.  

A sondagem demonstra a grande dispersão geográfica da comunidade. As respostas bastante díspares quando à origem dos participantes “podem ser um reconhecimento do multiculturalismo que existe nas suas famílias, que é uma consequência da abertura histórica de Macau a muitos grupos étnicos”.  

Para Roy Xavier, os elementos que definem a identidade da diáspora macaense têm profundas raízes históricas. “Vários grupos vieram comerciar e estabelecer-se em Macau, resultando numa sociedade multifacetada que se desenvolveu ao longo de quase 500 anos”, explica o académico. “Há várias características únicas que definem a cultura macaense: o catolicismo romano, um patuá que já não se fala mas continua a ser culturalmente relevante, a centralidade da família (imediata, não extensiva), a cultura associativa fundada em tempos ancestrais e que persiste, um talento para os negócios e o empreendedorismo e a mundialmente famosa cozinha macaense”. 

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Documentos históricos doados à Universidade de Berkeley 

Mais de metade dos participantes na pesquisa mostrou interesse em contribuir para o projecto de estudos portugueses e macaenses que está a ser conduzido pela Universidade de Berkeley. Roy Xavier revela que a maioria dos documentos que tem sido enviada são cópias digitais, embora também haja doações de originais e de livros. “Muitas pessoas enviam cópias de fotografias e de artigos que escreveram, alguns contendo relatos familiares, registos de entrevistas com familiares mais velhos, árvores genealógicas, certificados de nascimento e outra documentação”, refere Roy Xavier. O académico também tem contactos com várias associações macaenses espalhadas pelo mundo e está a concluir um livro sobre a história dos luso-asiáticos, ao qual vai dar o título Crónicas Macaenses. Está também envolvido na recolha de informação para a “Galeria Portuguesa”, do Museu de História de Hong Kong, que tem abertura prevista para 2021. 

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De olho nos negócios 

Devido ao crescimento robusto da economia chinesa, há também um maior interesse por parte de membros da comunidade macaense em fazer negócios na China. Mais de 37 por cento dos entrevistados afirmaram já ter familiares envolvidos em investimentos em território chinês. E 59 por cento disseram ter interesse em saber de oportunidades profissionais relacionadas com os “portugueses da Ásia”, ou em fazer turismo cultural relacionado com a comunidade lusófona. 

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