Segunda-feira, Setembro 21, 2020
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Luís de Camões: Um jardim, três comunidades

Ocupa um lugar central no imaginário colectivo do povo português, reveste-se de uma importância legitimadora para a comunidade macaense, albergou um dos mais importantes e mais completos jardins botânicos do continente asiático e continua a pontificar entre os refúgios favoritos da população local. O Jardim Luís de Camões é um espaço de convívio, de contemplação e de lazer, mas também de encontro com a história e com a matriz civilizacional de Macau. Em poucos locais a vivência quotidiana e o encontro de culturas e de modos de vida foi, é e será tão tangível e tão evidente. A MACAU visitou o mais emblemático dos jardins do território e conta-lhe o que aprendeu 

Texto Marco Carvalho

A cidade desperta aos poucos de um sono ligeiro. No relógio que se alça no largo fronteiro à entrada do Jardim Luís de Camões, os ponteiros caminham sem pressa para as seis da manhã. Os portões, de uma robustez antiga, permanecem fechados, mas nos bancos que os ladeiam já há quem se entretenha a sorver frugalmente o primeiro cigarro do dia, a olhar para as gordas dos jornais debaixo de uma luz sintética ou a desenhar, contra a claridade difusa da aurora, gestos inefáveis de tranquilidade em rituais com tanto de metódico como de secular.  

Raros terão sido os dias ao longo dos últimos 130 anos em que a sapiente graciosidade dos exercícios e o convite à reflexão e ao equilíbrio a eles inerente não roubaram um esgar de admiração a quem visita o espaço. Ainda imponente no coração de uma cidade que se agigantou, o Jardim abre portas às seis da manhã, mas fervilha de vida muito antes disso: à respiração cadenciada de quem se despede da madrugada com a sólida disciplina do tai-chi juntam-se os ecos de diálogos mantidos quase em surdina, o estertor dos autocarros que chegam e largam com uma cada vez maior regularidade e, de dentro do jardim, dos ramos cimeiros de uma canforeira ou de uma figueira-do-pagode, emerge o estrepitoso canto de um mainá, antecipando um dia quente e soalheiro. 

Francisco Vizeu Pinheiro não estranha a madrugadora e precoce afluência aos parques da cidade por entender que, para uma boa parte dos residentes, os jardins, parques e espaços verdes são uma extensão do espaço doméstico. “Com a habitação de dimensões cada vez mais reduzidas, as casas estão transformadas em arrecadações sem espaço para convidar amigos, sem zonas condignas para a convivência familiar. A alternativa são os jardins”, entende o arquitecto e professor da Universidade de São José. “Posto de uma forma simples, os jardins de Macau são pequenos oásis no meio de uma floresta de cimento. São os pulmões da cidade, onde o ar se afigura mais puro. Não é possível imaginar uma cidade sem ligação ao meio natural, à paisagem.” 

Dos 34 jardins e parques espalhados pela cidade, nenhum outro tem a dimensão histórica, cultural e antropológica de que se reveste o Jardim Luís de Camões. Quase 140 anos depois de se ter transformado em jardim público – o segundo de Macau, atrás apenas do Jardim de São Francisco, na alçada nascente da Praia Grande – continua a pontificar entre os favoritos de quem tem Macau como casa e a atrair visitantes dos quatro cantos do mundo que procuram, por entre o frondoso arvoredo, ecos e testemunhos dos encontros e desencontros que ao longo de quase cinco séculos fizeram de Macau um exemplo único de interculturalidade e cosmopolitismo. 

“É um jardim com grande significado histórico e antropológico para chineses e portugueses, mas não só. É um espaço de vital importância para ingleses e até para os coreanos, por ter sido local de recolhimento para André Kim Taegon, o primeiro sacerdote coreano que estudou em Macau”, atesta Francisco Vizeu Pinheiro. 

Em Macau, como defende Joana Pinto Brum na tese que lhe valeu em 2011 o grau de mestre em arquitectura paisagística, os jardins são o espelho de uma cultura, uma montra para o agir e o pensar da população que deles usufrui.  

São oito da manhã e de ambos os lados da alameda que rasga ao meio a entrada do Jardim, há grupos concentrados na ligeireza dos movimentos lentos do tai chi. Na falange mais pequena, constituída sobretudo por mulheres de meia idade, há leques que se seguram com a candura de quem procura manter intacto um dente-de-leão no olho de uma tempestade: a trupe sincroniza os gestos, esvoaça com a delicadeza de uma borboleta e o tempo parece prolongar-se enquanto o ténue ritual se alonga. Ali ao lado, um idoso esguio tenta pendurar uma gaiola de madeira num dos ramos mais baixos de uma figueira-de-goa. 

O Jardim Luís de Camões excede o estatuto de “espelho de cultura” que Joana Pinto Brum evoca na sua tese de mestrado, por potenciar também uma incursão pela história da cidade e pela própria dimensão ontológica das comunidades que ao longo dos séculos se foram instalando no sul da China. O Camões é um jardim de pelo menos três comunidades: a chinesa, a macaense e a portuguesa.  

A comunidade portuguesa encontra na ligação entre o espaço e o vate como que uma premissa legitimadora não só da sua multisecular presença, mas também da própria matriz cultural de Macau, ao ponto de Joana Brum considerar que o espaço é dos poucos locais públicos que é alvo de apropriação cultural e emocional por parte das comunidades portuguesa e macaense. Para a arquitecta paisagista, uma tal apropriação confere ao Jardim Luís de Camões um sentido de proximidade e um sentido de história que não se manifesta em relação a outros espaços similares.  

“É quase desde há um século o palco escolhido pela comunidade para as comemorações oficiais ligadas à celebração de Portugal e das comunidades portuguesas. A memória do lugar, ligada a esta presença, real ou imaginada, do poeta Camões, dão a este Jardim uma ligação, um sentido de proximidade e um sentido de história à comunidade portuguesa e macaense”, defende. 

Uma história que recua às origens de Macau e que tem como protagonista um poeta guerreiro, com tanto de genial como de proscrito: Luís Vaz de Camões. 

Os penedos do poeta 

Desde cedo associado à memória e à obra do mais celebrado dos poetas portugueses, o Jardim Luís de Camões situava-se nos limites do que veio a ser a cidade. A passagem do poeta pela região não é consensual e o diferendo entre os que rejeitam a possibilidade – como o escritor Miguel Torga – e os que a defendem tem dado azo a apaixonados debates desde há mais de um século. 

Tenha ou não escrito parte da sua obra na cidade, a Macau que Camões terá encontrado, retrata Vizeu Pinheiro, não era mais do que um frágil ancoradouro. “No período em que é dada como certa a passagem do poeta por Macau não existia o Jardim enquanto tal. Existiam alguns penedos, um local deserto, bem ventilado e com vistas panorâmicas para o Interior do País e para o ancoradouro dos barcos no Porto Interior, a poucos metros de distância”, esclarece o arquitecto. “Neste período ‘camoniano’, chamemos-lhe assim, não havia casas permanentes, pelo que não eram garantidos o sucesso futuro e a sobrevivência de Macau enquanto entreposto comercial. A situação, tanto de Camões como de Macau, nesse período era incerta. O Jardim Camões é uma homenagem ao começo de Macau, à transformação de uma península deserta, como referem os relatórios dos capitães portugueses, para ser um porto de abrigo no Sul da China.” 

Eduardo Ribeiro argumenta que a passagem de Camões por Macau era, até ao dealbar do século XVIII, um dado adquirido para a população local e que dela ninguém duvidava. O jurista – e conhecido defensor da errância do poeta em Macau – alude a um documento descoberto na Biblioteca da Ajuda por Jordão de Freitas em que a referência ao poeta e às fragas onde terá escrito parte da sua obra é inequívoca. 

Jordão de Freitas infere que o documento teria sido redigido no início do século XVIII por João Álvares, no âmbito de uma reedição dos textos relativos à gestão do Colégio de São Paulo nos primeiros anos da presença dos Jesuítas no território. Para Eduardo Ribeiro, a relação, apesar de não versar factualmente sobre os dias que Luís Vaz passou na cidade, prova circunstancialmente que o poeta se acoitou em Macau. “O documento atesta que quando os missionários jesuítas, no início do século XVII, querem relacionar documentalmente os seus bens de raiz, há uma sua propriedade, sita no cimo do Outeiro do Patane, que confina com os ‘penedos de Camões’”, explica Ribeiro. “Esse documento prova duas coisas: primeiro que era pacífico e publicamente notório que tinha sido naqueles Penedos que Camões se havia acoitado, segundo a memória que o povo tinha disso. Por outro lado, e dado que o documento remonta ao início do século XVII, essa memória pública e colectiva é contemporânea, quase coeva do poeta, reforçando a credibilidade da certeza histórica”, infere o investigador. 

Em Fevereiro de 1907, João Frick, num artigo assinado sob o pseudónimo de Gonçalo da Gama, nega pela primeira vez a presença histórica de Camões em Macau, numa tomada de posição polémica que deixou inflamados os letrados. Em “A tradição não é história”, Frick sustenta que à data da suposta passagem de Camões por Macau (1557), o entreposto português ainda não tinha sido criado. 

O manuscrito descoberto por Jordão de Freitas na Biblioteca da Ajuda contradiz, no entender de Eduardo Ribeiro, o negacionismo que tem no texto de João Frick a sua tese primogénita. O texto, cuja origem remonta a metade do século XVIII tem por base documentos bem mais antigos, na perspectiva de Ribeiro, autor de obras como Camões em Macau – Uma Verdade Historiográfica e Camões no Oriente. O jurista defende que a passagem onde são referidos “os penedos de Camões” terá sido escrita entre 1632 e 1639, período em que o Colégio de São Paulo foi liderado pelo Padre António Francisco Cardim, clérigo referenciado no mesmo documento em que aparece o nome de Camões. 

Dada a receptividade com que a primeira edição de Os Lusíadas, datada de 1572, é acolhida, não seria de estranhar que os padres da Companhia de Jesus – com quem Camões terá privado de perto durante a breve permanência no Sul da China –  quisessem homenagear o poeta, designando o “chão de patane” onde se erguiam as fragas frequentadas por Luís Vaz com a afectuosa designação de “penedos de Camões”: “Só a partir da publicação – e divulgação rápida, muito rápida, mesmo no Oriente –  do ‘Poema Épico’, é que a comunidade lusíada deseja, orgulhosa, enaltecer o facto e colher também alguns dos louros com que o poeta começara a ser honrado, honrando-se também, dessa maneira, com a presença histórica, ainda muito presente na memória colectiva, do autor de Os Lusíadas”, sustenta Eduardo Ribeiro. 

Defende Eduardo Ribeiro, de resto, que se o propósito da toponímia fosse apenas o de homenagear alguém, uma tal distinção provavelmente não teria recaído sobre Camões, mas sobre alguns dos clérigos influentes que exerceram funções em Macau nos primeiros anos da cidade cristã – o bispo Belchior Carneiro, por exemplo – ou então sobre alguns dos influentes mercadores, como Bartolomeu Vaz Landeiro, Diogo Pereira ou Pedro Quintero. 

De coutada eclesiástica, o terreno onde hoje se situa o Jardim passou para as mãos do Leal Senado em 1762, que colocou em andamento as transformações que estão na génese do actual Jardim, ao permitir, por volta de 1770, a construção de uma imponente mansão. 

A vivenda, desde sempre associada a Manoel Pereira (um rico mercador que fez fortuna em Goa e que se tornou no final dos anos 1700 uma das mais influentes figuras da sociedade local), chegou aos nossos dias transfigurada pela vicissitude dos tempos. Pereira – que terá adquirido a casa e o terreno contíguo por volta de 1815 – é o primeiro proprietário conhecido do que viria a ser, no final do século XIX, o Jardim Luís de Camões, mas não é de todo o primeiro residente da mansão hoje como “Casa Garden”. 

Situada numa zona resguardada de ventos e intempéries, a propriedade foi alugada nos anos finais do século XVIII à Companhia Britânica das Índias Orientais, funcionando durante largos anos – até pelo menos 1833 – como residência do presidente do Select Commitee da British East India Company. E com os britânicos o Jardim floresceu. Literalmente. 

Uma casa, um império e um jardim  

O mais ilustre dos hóspedes britânicos que habitaram o palacete da Quinta da Gruta de Camões terá sido Lord George Macartney, que ultimou a histórica embaixada que o levou a Pequim e à corte do Celeste Império, em 1793. Destinava-se a legação comandada por Macartney a persuadir o “filho do Céu” a abrir as portas ao comércio internacional sem que fosse necessária a intermediação quer dos portugueses em Macau, quer dos mercadores chineses em Cantão. Mas George Macartney regressa a Macau de mãos vazias, alongando-se na cidade por mais algum tempo.  

Os quase dois anos pelos quais se prolongou a missão diplomática à China estão amplamente documentados no diário de Sir George Staunton, seu secretário pessoal. Na obra, que documenta sobretudo a dinâmica das relações entre as potências europeias e a China imperial, não faltam referências à tradição que dá conta da passagem de Luís Vaz de Camões por Macau. “É chamada de Gruta de Camoens, ao abrigo de uma tradição corrente no Povoado e que conta que o poeta português de tal graça, que certamente residiu durante um período considerável de tempo em Macau, escreveu o seu celebrado poema Os Lusíadas no local”, escreve Staunton em An Authentic Account of an Embassy from the King of Great Britain to the Emperor of China.  

A intervenção britânica no outeiro do Patane sistematizou-se e ganhou uma dimensão científica durante os anos em que a chamada Quinta da Gruta de Camões permaneceu alugada à British East India Company, até 1833. Durante o período em causa (provavelmente entre meados da década de 1780 e 1833), jardineiros, botânicos e boticários vindos de Inglaterra trataram de ali plantar e adaptar uma série de plantas, arbustos e árvores recolhidas por todo o continente asiático, transformando o terreno naquele que foi efectivamente o primeiro jardim botânico do continente asiático. Em 1794, ano em que Lord Macartney dá por encerrada a Embaixada à China e regressa a Londres, o botânico David Stornach faz um levantamento das espécies ali existentes. 

Menos de 10 anos depois, em 1803, William Kerr, botânico real em Kew Gardens, é enviado à China por Sir Joseph Banks com o propósito de recolher e enviar para Inglaterra o maior número de espécimes possível. Durante os oito anos que permaneceu em Macau, Kerr introduziu em Inglaterra exemplares de 238 plantas que recolheu em vários pontos do Extremo Oriente. Entre as espécies que foram cultivadas com sucesso nos Reais Jardins Botânicos de Kew e que foram depois transmitidas a outros jardins europeus estão o bambu sagrado (Nandina domestica), a andromeda japonesa (Pieris japonica) ou a rosa de Banks (Rosa banksiae), espécime baptizado em homenagem à esposa do seu patrão e mentor, Joseph Banks. 

Nos viveiros da Casa da Quinta da Gruta de Camões, William Kerr foi sucedido por Thomas Beale, botânico que durante 18 anos deu seguimento à obra do seu antecessor, recolhendo mais de dois milhares de plantas exóticas, algumas de extrema raridade. “Em termos históricos é importante salvaguardar a importância do trabalho desenvolvido pela Companhia das Índias Orientais a nível botânico, com a recolha de várias espécies da China, que foram estudadas e devidamente tratadas e depois enviadas para a Europa. A deslocação do botânico real inglês a Macau por um período de sete anos é um bom exemplo dessa importância”, ilustra Joana Pinto Brum. 

Graças ao trabalho desenvolvido primeiro por Kerr e depois por Beale, Macau passou a dispor de um dos mais importantes jardins botânicos do mundo. O espaço serviu de viveiro a plantas que acabaram disseminadas um pouco por toda a Europa e a circunstância ainda hoje se reflecte na própria morfologia do espaço. “A sua importância permitiu que chegasse aos dias de hoje, o que não aconteceu com outros espaços verdes da época que, numa cidade em constante mutação, acabaram por dar lugar a espaços com outras funções”, defende Joana Pinto Brum. “A própria vivência deste lugar acaba por acontecer à sombra de uma vegetação que se vê bem estabelecida e que, novamente, incita a esta memória do lugar.” 

Da devoção ao poeta ao jardim público 

A entrada em cena de Manoel Pereira, que terá adquirido a propriedade por volta de 1815, em nada prejudicou o trabalho desenvolvido pela British East Asia Company. Uma parte do espaço acabou alienado para que ali se construísse o cemitério protestante no qual permanecem sepultados alguns grandes nomes da história de Macau, como é o caso do pintor George Chinnery. O campo sacro e a capela protestante ali erguida por Robert Morrison, em 1821, são hoje Património da Humanidade, a exemplo do que sucede com o palacete da Quinta da Gruta de Camões, hoje conhecido pela designação de Casa Garden. 

Apesar de ser um dado adquirido que em 1815 o edifício já pertencia a Manoel Pereira, tudo leva a crer que o conselheiro nunca chegou a viver na mansão. O influente mercador morreu em 1826, 11 meses depois da sua futura herdeira – Maria Ana Josefa Cortela Pereira – ter nascido. Maria Ana foi a única filha de Manoel Pereira e da sua terceira mulher, Antónia Vicência Baptista Cortela. 

Em 1838, com 13 anos incompletos, a herdeira de Manoel Pereira contraiu matrimónio com um primo 15 anos mais velho, Lourenço Caetano Marques. Enquanto o palacete e a quinta da Gruta de Camões pertenceram ao casal, ali estiveram hospedados, entre outros, o presidente dos Estados Unidos Ulysses S. Grant, o duque de Alançon (herdeiro do trono francês), o príncipe do Sião e vários governadores de Hong Kong. 

Nos anos em que a propriedade esteve nas mãos de Lourenço Marques acentuou-se a ligação da propriedade do Patane a Luís Vaz de Camões, com o proprietário a ordenar a construção de uma gruta onde foi colocado, em 1840, um busto de greda da autoria de artesãos chineses. Descrito por Artur Levy Gomes no livro Esboço da História de Macau 1511-1849, o primeiro monumento “sustinha em tosco pedestal um frágil busto do poeta, moldado em greda pelos chinas, desgastado pelo tempo e mutilado pelo vandalismo da populaça inculta que frequentava o jardim”. 

Os danos causados à efígie do poeta terão levado à instalação, no início da década de 1850, de um segundo busto – de cor bronzeada “e tirado em greda por artistas chinas” – inspirado no retrato de Camões dado à estampa no frontispício da edição de Os Lusíadas publicada em 1815, em Paris, pelo padre Tomás José de Aquino. 

Em 1887, e segundo escreve o Conde de Arnoso, o busto que evoca a memória e o génio do poeta é já de bronze, feito por Manuel Maria Bordalo Pinheiro (o pai do ceramista homónimo) e fundido no Arsenal do Exército em 1861. A ser verdadeira a informação legada por Bento de França, a peça a que se refere Arnoso terá sido substituída cinco anos depois, em 1866, por um novo busto, mais denso e realista, também da autoria de Bordalo Pinheiro. 

Em 1883, dois anos antes dos “penedos de Camões” serem adquiridos pelo Governo a mando do governador Tomás de Sousa Rosa, o Jardim encarna na perfeição os ideias e a estética do romantismo tardio. É um espaço de opulência e de decadência, de escapismo e de encontro com a natureza, de fuga para um glorioso passado ainda próximo. É assim que Adolpho Loureiro descreve a terna degradação do espaço: “No abandono em que a propriedade tem jazido, as plantas, as admiráveis plantas d’aquele país e de tão favorável clima, desenvolveram-se livre e caprichosamente, e, (…) as ruas do parque estão intransitáveis e cheias de limos e musgos (…). É belo tudo aquilo”.  

Cinco anos depois de João Scarnichia, capitão do Porto de Macau, ter aconselhado o Governo a adquirir o espaço, o governador Tomás de Sousa Rosa – grande responsável pelo processo de arborização das colinas de Macau – paga 35 mil patacas a Lourenço Marques pela propriedade quando soube que o Comendador estaria a negociar a venda da quinta a uma ordem missionária francesa. “Mais do que ser criado, o Jardim foi adquirido em 1885, numa altura em que o ordenamento decidido pela East Asia Company era ainda muito evidente. No entanto, com os britânicos este era um jardim fechado ao público, localizado no extremo da cidade, no então denominado Campo de Santo António, onde também se situava uma das portas da cidade”, recorda Francisco Vizeu Pinheiro. 

Consumada a aquisição do espaço por parte do Governo, numa altura em a população chinesa já conhecia o local por Pak Kap Chau (Jardim do Ninho das Pombas Brancas), não faltaram vozes a defender a manutenção dos resquícios do Jardim Botânico, a advogar a construção de um Jardim Zoológico ou a defender a transformação do palacete – bastante danificado por um tufão em 1874 – num museu. A recomendação só seria acatada mais de meio século depois, com a transferência, em 1937, do Museu Comercial e Etnográfico Luís de Camões para a Casa Garden, onde permaneceu até 1989. 

Pelo meio, uma data de relevo: em 1923, o Governador Rodrigo Rodrigues institui uma tradição que ainda hoje se mantém. No dia 10 de Junho, o cerne das cerimónias do Dia de Portugal e das Comunidades Portuguesas celebra-se no Jardim, sendo colocadas coroas de flores junto ao busto de Camões por crianças de vários estabelecimentos de ensino, que declamam também – em português e em chinês – os versos do poeta.  

Mais do que comemorar o homem, sustenta Eduardo Ribeiro, a celebração evoca o humanismo do poeta e é um hino à humanidade comum às três comunidades que ao longo dos séculos transformaram o mais emblemático dos Jardins de Macau. “Camões foi o primeiro escritor europeu a cruzar o Equador e a ‘experimentar’ em primeira mão a África, a Índia e a China. Em contacto com outros povos e outras nações e outras culturas, teve a ocasião de perceber cedo a diversidade do outro”, defende o jurista e investigador. “Camões condenou a opressão sobre os outros povos e a escravatura; condenou a ganância, a corrupção e a guerra; advogou a compreensão do outro e a tolerância entre os povos; celebrou a dignidade de outras raças e culturas. Tudo isto são valores universais que, na sua época, não eram tão comumente apreciados como são hoje. Era um homem à frente, muito à frente do seu tempo.” 

***

O outro jardim das artes  

O Jardim Luís de Camões foi desde cedo alvo de intervenções que procuraram exponenciar a sua beleza natural. Uma das primeiras – e mais significativas – reporta-se à edificação, por volta de 1866, da gruta onde se abriga o busto de bronze esculpido por Manuel Maria Bordalo Pinheiro. O espaço é formado por três grandes rochas dispostas numa posição quase megalítica. Debaixo delas o busto do poeta e um pedestal granítico onde estão inscritas as três primeiras estrofes do primeiro canto de Os Lusíadas e a respectiva tradução em língua chinesa. 

Antes disso, em 1787, já o explorador naval francês Jean-François de Galaup, conde de Lapérouse, tinha obtido por parte das autoridades locais autorização para construir um miradouro no ponto mais alto do Jardim, para ali conduzir estudos astronómicos, numa altura em que as frotas francesas ancoravam com frequência ao largo da ilha da Taipa. 

Lugar de cultura e também de ciência, o Jardim Luís de Camões foi-se tornando ao longo dos anos um dos espaços mais ricos de Macau também em termos de estatuária e arte pública. Na parte central do Jardim, está a escultura “Abraço”, da autoria de Irene Lisboa. A obra foi concebida em 1996, sensivelmente ao mesmo tempo em que foram instalados, no início da escadaria de Pedra que leva à Gruta de Camões, os painéis temáticos em calçada portuguesa que retratam vários episódios de Os Lusíadas. Os painéis foram adaptados por Jorge Estrela a partir dos desenhos de Lima de Freitas e aludem a cada um dos cantos da obra, retratando episódios como o Adamastor ou a ilha dos Amores. 

Santo André Kim Taegon, sacerdote coreano que estudou em Macau entre 1837 e 1842, tornou-se o primeiro mártir cristão coreano quando regressou ao seu país natal, tendo sido martirizado quatro anos depois de se ter despedido. A estátua que o homenageia, situada frente a uma cascata artificial que escorre a partir de dois grupos de rochedos naturais, foi doada pela Igreja Católica à Diocese de Macau em 1986. 

Para além dos conjuntos artísticos, o Jardim tem uma pequena biblioteca, um parque infantil e aparelhos de manutenção física e foi há seis anos alvo de uma intervenção significativa: “O Jardim Camões é datado, sem dúvida. O esforço para o tornar mais aberto ao público foi reforçado em 2012, com a remodelação do largo que lhe é fronteiro, deslocando a zona onde estão situados os caixotes de lixo e concentrando as paragens de autocarros. A iniciativa libertou espaço para a zona pública do largo, que agora se prefigura como um complemento ao próprio Jardim”, explica Vizeu Pinheiro. 

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