Domingo, Setembro 27, 2020
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A seda na mitologia chinesa

Falar da China é falar da seda. A cultura do bicho-da-seda, a sua transformação como o bem mais valioso do comércio chinês de outros tempos transformou a visão do mundo de então  

Texto Fernando Sales Lopes 

A China começou a produzir o fio de seda há mais de 5000 anos – nas escavações arqueológicas das ruínas de BanPo foram encontrados restos de casulos que atestam a antiguidade da produção de seda na China. Documentos arqueológicos revelaram que na Dinastia Zhou do século 10 a.C. os nobres chineses usavam roupas de seda com ricos motivos, coloridos, estampados e bordados. O material era também usado amplamente pelo povo, certamente em indumentárias menos sumptuosas. Durante alguns longos séculos até à Dinastia Han, só ao Império do Meio pertenciam os bem guardados segredos dos modos e formas de transformar a baba do bicho-da-seda nos mais valiosos e cobiçados tecidos do mundo de então. 

Revelar o processo da criação do bicho-da-seda e a sua transformação a estrangeiros era estritamente proibido, assim como a exportação do bicho-da-seda. O comércio da seda era monopólio imperial, o bem mais valioso da China. A política de sigilo foi o vector crucial para o apetite dos diversos mercados. 

Apenas a China produzia a seda e mais nenhum outro sítio o fazia. O Império Romano era então o maior comprador de seda. A transação do produto era feita em ouro, isso fez com que Roma tivesse uma “crise financeira” provocada por este comércio, pois o ouro começava a escassear em Roma, tendo o Senado chegado, por esse motivo, a proibir o uso da seda na confecção do vestuário. Consta que a determinação terá sido raramente cumprida, pois o luxo, a ostentação era apanágio dos romanos, e a seda era marca de nobreza. 

Antes da Dinastia Song (968-1279) a indústria da seda estava confinada ao norte da China, mas rapidamente chegou ao delta de Yangtzé, assumindo-se como o centro nacional de produção do produto. A exclusividade foi quebrada 3000 anos depois da sua descoberta, altura em que o processo de cultura e confecção foram conhecidos na Índia, na Coreia e no Japão. 

A menina bicho-da-seda  

Conta o mitológico conto que no tempo do Imperador Amarelo havia uma jovem que vivia no campo com o seu pai, tendo apenas por companhia um cavalo que tratava com todo o carinho. O cavalo ajudava nos trabalhos da lavoura e servia de meio de transporte dos produtos produzidos. Transporte para o pai da jovem vender nas feiras os seus produtos e para transportar as cargas.  

De vez em quando, o pai da menina deslocava-se para sítios longínquos por longos períodos de tempo. A menina ficava esperando pelo pai, tendo por companhia apenas o cavalo, distraía-se brincando com ele e montando-o para breves passeios, pois temia afastar-se da sua casa devido aos perigos que podia correr principalmente dos assaltantes que por vezes andavam por aquelas terras próximas. Eram os conselhos do pai que seguia a rigor. Mas, desta vez, a viagem teria sido mais longa, o regresso do pai tardava e as saudades angustiavam a jovem. O cavalo, como se entendesse tal estado de espírito, sentou-se à frente dela com ar triste e com um olhar como se dissesse: o que eu poderei fazer por ti, minha amiga? 

A menina com uma lágrima de saudade virou-se para o cavalo dizendo-lhe: “Morro de saudades do meu pai. Se conseguisses ir buscá-lo agora casava contigo”. De seguida, deu uma enorme gargalhada por ter prometido casamento a um cavalo. Ao mesmo tempo o cavalo relinchou, levantou as patas dianteiras, deu um salto colossal e correu deixando-se perder de vista em breves minutos. Por longos dias a menina esperou, por longos dias o cavalo correu até encontrar o dono, que vendo o animal todo suado e emagrecido, percebeu que a corrida fora grande e ansiou que alguma coisa poderia ter acontecido à sua filha.  

O cavalo deitou-se para descansar um pouco, mas rapidamente se levantou relinchando como se dissesse: “Vamos voltar para casa!”. O pai da menina percebeu, saltou para a garupa, o cavalo virou para a direcção da casa e só parou quando chegou à porta. A menina ficou estupefacta com o que estava a acontecer, agradecendo ao animal por ter trazido o pai de volta.  

O pai, como forma de agradecimento, fez umas festas no pescoço do animal e foi preparar a cocheira com uma boa cama de palha nova e uma refeição especial de boas e viçosas ervas, cenouras e favas secas. Contudo, o cavalo desprezou o banquete, entrando numa excitação nunca vista pelo dono. Esta situação prolongou-se por uns dias. 

Perante esta situação, o pai da jovem perguntou-lhe se ela sabia a razão do estranho comportamento do animal. Ela então resolveu contar ao pai a promessa de casamento com o cavalo, caso ele lhe trouxesse de volta o progenitor de quem tinha tantas saudades. “A minha filha não vai casar com um cavalo. Não pode ser!”, vociferou o homem. “Não vou deixar que isso aconteça!”  

O homem começou a pensar o que fazer, até porque o cavalo não parava quieto, continuando aos pulos e a relinchar desalmadamente. Um dia, sem que ninguém desse por nada, na calada da noite, o pai saiu com o cavalo para lugar distante, matou-o e esfolou-o, pendurando a pele a secar em local afastado das vistas de curiosos. E seguiu para a sua vida. 

A jovem estranhou a ausência do amigo, perguntando ao pai o que acontecera. O pai disse também achar estranha a ausência, mas que certamente tinha fugido. Tempos depois, andando a jovem pelo campo com as suas amigas, brincando e apanhando flores, viu a pele do cavalo a secar e, raivosa, gritando: “Querias casar comigo?”. Puxa a pele para o chão, batendo-lhe com um pau enquanto repetia: “Querias casar comigo?”  

De repente, veio uma rabanada de vento, a pele do cavalo envolveu o corpo da jovem e voou pelos ares desaparecendo. O pai da jovem juntou gente para fazerem batidas para encontrar a jovem. Depois de muito procurar o homem vê a pele do cavalo presa numa árvore que enrolava algo no seu interior. Era a jovem encasulada, agora transformada num bichinho que deixava escorrer da boca fios dourados e prateados. A menina era o bicho-da-seda, a árvore, a amoreira que a alimentava. Assim foi criada a seda, e a menina ficou a ser a divindade da sericultura.  

Uma outra versão da lenda refere um banquete oferecido pelo Imperador Amarelo aos deuses no monte KunLun. Nessa ocasião, o embrulho com o bicho-da-seda terá voado pelos salões e o casulo terá caído na taça do fervente chá da Imperatriz. Ao agarrar o casulo para o retirar da taça, este começou a deixar escorrer finos fios dourados e prateados. Estava descoberta pela concubina imperial Lei Zu a forma de trabalhar os fios da seda. 

Rotas da seda 

A antiga Rota da Seda abarcava inúmeras rotas comerciais que se relacionavam entre si. O comércio da seda ampliou estas rotas comerciais já existentes, criando uma rede de comunicação numa extensão de 800 quilómetros, desde a actual Xi’an à Ásia ocidental. Era uma actividade comercial que pretendia escoar bens de e para a China e a Europa. O controlo da rota pela China obrigou a grandes esforços militares. Foi o Imperador Wu da Dinastia Han (206 a.C. – 220d.C.)  a conseguir estender a influência chinesa das montanhas até ao Mar Cáspio.  

A Rota da Seda desenvolveu-se em duas grandes estradas comerciais: a rota continental – norte e sul – e a rota marítima. No início a rota ligava Xian a Antioquia, na Ásia menor, mas rapidamente se estendeu até à Coreia e ao Japão, naquela que passou a ser a maior rede comercial da antiguidade. A importância das rotas transcendeu a vertente comercial, pois a passagem por importantes civilizações e culturas, nomeadamente Egipto, Mesopotâmia, China, Pérsia, Anatólia, Itália e Roma, entre outras, abriu uma porta intercultural que proporcionou que esses contactos entre povos de culturas diferentes se transformassem numa gigante porta de entrada de conhecimentos que foram partilhados, por diferentes culturas e civilizações. 

A Rota da Seda teve o seu pico no decorrer da Dinastia Tang (618 – 906), com o esplendor de Xi’an, conhecida ao tempo como a maior cidade do mundo. Nela se cruzava gente de todos os cantos. Ali chegavam conhecimentos de toda a sorte, diferentes usos e costumes, modos de vida, conhecimentos técnicos e científicos. A isso se misturavam novas línguas e culturas e se cruzavam religiões diversas. Conheciam-se e discutiam-se valores, práticas, crenças, como o budismo, o islamismo, o nestorianismo, entre outras. O mundo abriu-se para a humanidade. Conheceram-se as diferenças e as semelhanças, o nascimento de um mundo novo. 

A rota marítima incluía Macau e estendia-se, a Sul, pela costa meridional da China, Brunei, Sião, Malaca, Índia, Pérsia, Egipto, Itália, Portugal, entre outros, nos quais se incluem reinos nórdicos. 

CURIOSIDADES 

  • Na antiga Grécia, que desconhecia como se designava o território de onde a seda vinha, deu à China o nome de “Seres”, que significa, à letra, “Terra da Seda”. Do termo grego vem a palavra sericultura, designando a indústria da criação do bicho-da-seda. 
  • A grande apetência de Roma pela seda diz-se ter tido origem no aparecimento em público de Nero, durante uma peça de teatro, vestindo uma esplendorosa toga de seda. 
  • A criação e manipulação da seda eram tarefas destinadas às mãos de mulheres e crianças. Estas tratavam dos casulos, um material sensível que pedia mãos sensíveis 

O processo 

  • O bicho-da-seda (Bombyx mori) é a lagarta de uma mariposa. A fémea chega a colocar até 500 ovos. Ao nascer, a lagarta alimenta-se de folhas de amoreira por cerca de 40 dias, quando está pronta para fazer o casulo. 
  • As glândulas salivares do bicho-da-seda secretam um fluido fibroso, rico em fibroína e sericina, as duas principais proteínas componentes da seda. Essa substância forma um fio, com o qual o animal tece o casulo. O processo demora de três a oito dias e um único fio pode ter de 300 a 900 metros de comprimento. 
  • Os casulos passam várias horas por um processo de secagem. A alta temperatura mata as larvas. Os casulos, então, são limpos e cozidos em água fervente e sob pressão. Esse processo faz com que as fibras da seda fiquem maleáveis e possam ser desenroladas como um fio. 
  • Os casulos são transferidos para máquinas fiandeiras, onde são desfeitos e transformados em fios. Depois, são colocados em carretéis, para fazer meadas, e estão prontos para a confecção. Para produzir um quilo de seda, são necessários 3000 bichos-da-seda (e cerca de 104 quilos de folhas de amoreira).  

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