Quinta-feira, Julho 9, 2020
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Huizhou, o refúgio de Su Dongpo

Huizhou é cidade portuária histórica que soube abraçar as novas tecnologias, sendo hoje um importante centro de produção de telefones móveis e das indústrias petroquímica e informática, a par de um destino turístico e porto fluvial em crescimento. No contexto da Grande Baía, a localização geográfica de Huizhou, entre os dois grandes pólos económicos da província de Guangdong, Cantão e Shenzhen, determina a sua funcionalidade

Texto José Luís Sales Marques

Longe dos principais centros industriais da província de Guangdong, Huizhou (Wai Chao, em cantonês) surge como um território de paz e tranquilidade com uma excelente cobertura vegetal e paisagens de grande beleza reproduzindo. É uma zona urbana constituída por vastas áreas de vegetação luxuriante, abundância de recursos hídricos e ambientes rurais, belas paisagens e um potencial quase ilimitado para o turismo de lazer.

O famoso poeta da Dinastia Song (960-1279) Su Dongpo (1037-1101), nome literário de Su Shi, encontrou em Huizhou, onde esteve exilado três anos, de 1094-97, a inspiração que necessitava para continuar a sua extraordinária obra poética e pictórica. O lago que encontrou naquelas paragens fazia-o recordar um dos espelhos de água mais famosos de toda a China: o Lago Oeste da sua familiar Hangzhou, onde foi magistrado imperial. Assim, o lago até então conhecido por Feng, passou a chamar-se Lago Oeste. Huizhou é uma das cidades classificadas de nível nacional pelo seu património histórico e cultural, com uma longa história.

Geografia e história

Huizhou é uma de cidade com nível de prefeitura, com cerca de 4,8 milhões de habitantes, que pertence à província de Guangdong. Está localizada a sudeste de Cantão, bordeja o município de Dongguan e confronta a norte com Shaoguan. Huizhou integra a área da Grande Baía, com um espaço territorial de 11.347 quilómetros quadrados, dos quais 1157 são áreas urbanas e com uma extensa linha costeira de 281,4 quilómetros de comprimento. A área marítima de Huizhou é, de 4520 quilómetros quadrados, ponteada por 162 ilhas e várias instalações portuárias de qualidade.

É banhada a Oeste pelo mar do Sul da China através da Baía de Daya, conhecida pela sua beleza natural e importância económica no domínio da produção de energia. O rio Dongjiang atravessa a cidade e a prefeitura, e é a principal fonte de abastecimento de água potável para 40 milhões de habitantes da margem este da Grande Baía, incluindo Hong Kong. O acordo para fornecimento de água a Hong Kong data de 1963 e foi autorizado pelo primeiro ministro de então, Zhou Enlai.

A sua população permanente é de 4,880 milhões de habitantes, o que aponta para uma densidade populacional de 430 habitantes por quilómetro quadrado.

A prefeitura é constituída por dois distritos administrativos, os de Huicheng e Huiyang e três condados: Buluo, Huidong e Longmen. A maior concentração de população em Huicheng deve-se à sua condição de centro do poder municipal.

Pertence ao círculo económico e eixo de desenvolvimento constituído pela própria Huizhou, por Shenzhen e por Dongguang.

A prefeitura foi historicamente conhecida pelo nome de Xuzhou e Zhenzhou e está assinalada em documentos coevos como uma divisão administrativa desde a dinastia Tang (618-907), depositária da cultura Lingnan e uma porta de entrada para a zona oriental da província de Guangdong, um entreposto crucial para as trocas comerciais, económicas e culturais e referência central na circulação pela bacia do rio Dongjiang. A maioria da sua população é de origem Hakka e a sua economia baseava-se na produção agrícola e no comércio regional.

Várias figuras revolucionárias da história da China, tais como, Liao Zhongkai (1877-1925), Deng Yanda (1895-1931) e Ye Ting (1896-1946) são originários de Huizhou. Sun Zhongshan (Sun Yat-sen) e Zhou Enlai fizeram trabalho revolucionário na região. Tanto Sun Yat-sen como Zhou Enlai são figuras suficientemente conhecidas, para dispensarem mais apresentações. Entretanto, as outras personalidades aqui mencionadas merecem uma breve referência.

Liao Zhongkai foi uma figura de relevo no Kuomintang (KMT) e o promotor da primeira Frente Unida entre o KMT e o Partido Comunista de China (PCC), durante os anos 20 do século passado. O seu nome foi atribuído ao parque de alta tecnologia Zhongkai, uma das duas plataformas de desenvolvimento de Huizhou com nível nacional. Deng Yanda foi militar de alta patente no exército do KMT, pertencendo à Academia Militar de Whampoa. Deixou o KMT em 1927, após a cisão deste da Frente Unida.  Foi executado em 1931, a mando daquele partido nacionalista. É considerado um mártir na República Popular da China.

Ye Ting foi também líder militar, que iniciou a sua vida político-militar no KMT e aderiu depois ao PCC, em 1924, e tornou-se numa figura de referência do Exército Vermelho. Viveu em Macau de 1932 a 1942, no número 76 da rua Almirante Costa Cabral, onde nasceram sete dos seus nove filhos. A residência do general Yi Ting é hoje uma casa em memória deste herói da Libertação da China, que está sob a tutela do Instituto Cultural de Macau, que a mandou reabilitar e abrir ao público, em Maio de 2014. É, sem dúvida, um fortíssimo elo de ligação entre Macau e Huizhou.

Cultura

A cultura Hakka ocupa um lugar de grande destaque no panorama cultural de Huizhou. Manifesta-se principalmente na cidade antiga de Pinghai, com destaque para o seu dialecto que evoluiu desde a Dinastia Ming, combinando dialectos do Norte da China com o Cantonense e os subdialectos de Chaozhou-Shantou. Vários festivais, incluindo o das Lanternas, de Ópera, Barcos Dragão e o da Lua, pontuam o calendário de eventos culturais da região, com as suas características peculiares de cada uma das sub-regiões no contexto mais geral da cultura Lingnan, que é típica da província de Guangdong. Uma das festas típicas é a do Cão de Fogo, celebrada na noite do Festival do Bolo Lunar, no condado de Longmen pela minoria Lantian Yao. É baseada na lenda de que “Tan Xian Gong”, o chefe da nacionalidade Lantian Yao, foi alimentado pelo leite de uma cadela, considerada um símbolo do renascimento e amor maternal.  Todas as jovens solteiras são obrigadas a participar duas ou três vezes neste festival. De acordo com as práticas consuetudinárias daquele clã, os animais de raça canina devem ser tratados com todo o carinho e é absolutamente proibido infringir-lhes qualquer mau trato.

Educação

A oferta de programas e cursos de ensino superior em Huizhou é relativamente limitada, considerando a profusão de estabelecimentos de ensino dispersos pelas diversas cidades da Grande Baía.

A Universidade de Huizhou foi fundada em 1921 e oferece cursos em áreas como as engenharias, arquitectura, turismo, belas artes, matemáticas, ciências de vida, economia e gestão, política e direito, entre outras, com graus de simples diplomas de associado até programas de doutoramento.

Transporte e mobilidade

O aeroporto de Huizhou fica localizado em Pingtan, a cerca de 20 quilómetros da cidade. Assegura a ligação com Pequim, Xian, Hangzhou, Chongqing e outras grandes cidades. O acesso a outros destinos faz-se a partir do aeroporto de Baiyun, em Cantão, ou o aeroporto de Bao’an, em Shenzhen.

Viajar de comboio é outra solução com grande popularidade, graças à vantagem e conveniência que o serviço de alta velocidade trouxe para a região. Huizhou é servida pelas linhas de alta velocidade Pequim-Kowloon, que passa por Shenzhen e Cantão; a de Cantão a Shanwei; a de Cantão, na província de Jiangxi, a Shenzhen, conhecida por Ganzhen. A construção desta linha teve início em 2016 e fará a ligação entre aquela província do interior, considerada historicamente local de transição e passagem entre os planaltos do Norte, a bacia de Yangzte e a província de Guangdong, com a linha férrea de Xiamen-Shenzhen. Esta última é parte da linha costeira do sul da China de Hangzhou a Shenzhen, e permite ao turista curioso visitar os dois lagos do Oeste, de Hangzhou e de Huizhou, no mesmo dia.

A linha intercidades Dongguan-Huizhou, que começou a ser construída em 2009, está parcialmente operacional e tem uma ligação ao metro de Shenzhen. A região também está bem-dotada de várias auto-estradas, nomeadamente as de Huizhou-Shenzhen, Cantão-Huizhou e Dongguang-Huizhou.

O porto de Huizhou está fortemente associado ao porto Yantian, em Shenzhen, funcionando em articulação com este, desde finais de 2019, na facilitação de procedimentos aduaneiros e coordenação logística, elevando assim a eficácia dessas duas estruturas portuárias.

Economia

Com a política de reforma e abertura empreendida pelo governo chinês, Huizhou passou a acolher várias indústrias transformadoras, que, nos finais do século passado, contribuíram para que a província de Guangdong passasse a afirmar-se como “fábrica do mundo”.

Às indústrias manufactureiras, donde se distinguem as de componentes electrónicos, equipamentos de audio-visual e indústrias tradicionais como têxteis e vestuário, acrescentam-se as pesadas, com destaque para as petroquímicas. As empresas CNOOC (China National Offshore Oil Corporation) e a Shell foram responsáveis por aquele que, a dada altura, foi o maior investimento estrangeiro na China, o complexo petroquímico de Baía de Daya.

A Zona Petroquímica de Baía de Daya é a primeira a nível nacional em termos de escala de integração dos processos de refinação petroquímica. Possui uma área total de 65 quilómetros quadrados, dedicados principalmente à refinação do petróleo e produção de etileno. Estão instaladas neste complexo mais de 20 empresas originárias dos Estados Unidos, Japão, Holanda, Coreia de Sul, entre outros, num total de cerca de 100 projectos.

O cluster destas duas indústrias poderá vir a gerar um valor global de produção na ordem de um bilhão de yuans, quando se aproximar do limite da sua actual capacidade.

Para além das petroquímicas, destacam-se as indústrias da informação electrónica, a produção agrícola e agro-industrial, centro de logística e indústrias verdes. Por outro lado, a alta tecnologia tem vindo a ser desenvolvida de forma acelerada nos últimos anos.

Huizhou, que compreende não só a cidade, mas também os seus arredores, possui ainda várias áreas dedicadas ao desenvolvimento industrial avançado, tais como a zona Huizhou Dayawan (Baía de Daya), a zona de processamento de exportações e a zona industrial de alta tecnologia Zhongnan. Aqui, está instalado o parque Zhongkai para a informação electrónica, dedicado a sectores emergentes desta indústria, entre as quais, o sistema Beidou de navegação por satélite, a inteligência artificial e a internet das coisas.

A incubadora Zhongkai Smart Park, a primeira em Huizhou resultante do aproveitamento de uma antiga fábrica, está dotada com uma área de trabalho com 24 mil metros quadrados de área e um edifício residencial de 10 mil metros quadrados. Está também prevista a construção de uma base para empresários jovens de Hong-Kong e Macau, no âmbito dos projectos de cooperação na área da Grande Baía. O parque de alta tecnologia de Zhongkai conta com mais de 3000 empresas provenientes de 10 países e regiões, entre as quais, a Sony, Coca-Cola, Siemens, Schneider, Bridgestone e Sumitomo.

Está em curso um processo de intercâmbio entre jovens de Huizhou e Macau, tendo sido realizada uma visita àquela cidade por uma delegação de Macau, em Julho de 2018.

Outra das plataformas já planeadas servirá para a cooperação industrial China-Coreia do Sul. O parque Ecológico e Zona Inteligente de Tonghu é conhecido como o Silicon Valley de Guangdong. Foi inaugurada em Abril de 2018 e integra projectos de empresas internacionais como a Cisco, TCL e Biel.

O PIB nominal de Huizhou foi de 417,74 biliões de yuans em 2019, e o PIB per-capita para o mesmo ano foi de 86.043 yuans. É, em termos deste último indicador, a nona cidade da área da Grande Baía. Como se constata, é uma cidade de média dimensão, no que diz respeito ao PIB e à população. Mesmo assim, por estar localizada na margem este do Delta, cuja proximidade a Hong Kong beneficiou do crescimento e integração daquela região administrativa especial, o seu PIB cresceu dez vezes desde 1999.

Em comparação, as taxas de crescimento são ainda mais elevadas para Dongguan, de 22 vezes, e Shenzhen, de 18 vezes, ambas situadas na mesma margem do delta do Rio das Pérolas e mais próximas da Região Administrativa Especial de Hong Kong (RAEHK ). Por outro lado, prefeituras comparáveis com Huizhou, como Zhaoqing e Jiangmen, do lado oeste do Delta e mais próximas de Macau, registaram crescimentos do produto interno bruto durante o mesmo período apenas de cinco e seis vezes mais, respectivamente.

Huizhou conta com uma força de trabalho de 2,9 milhões de pessoas e uma taxa de desemprego de 2,3 por cento. O comércio externo de Huizhou atinge o valor global de 50,6 mil milhões de dólares. Os sectores da indústria transformadora avançada e da indústria transformadora têm um peso elevadíssimo na composição do valor acrescentado industrial, respectivamente de 62,2 por cento e 40,5 por cento, do total.

Huizhou está integrado na cadeia de valor de Hong Kong e Shenzhen para a indústria fabril, como local para o fabrico inteligente de produtos inovadores complementando as funções de logística e inovação daquelas duas cidades. É também base para a indústria de energias limpas e renováveis.

Turismo

O ambiente plácido e pleno de belezas naturais de Huizhou e a sua distância relativamente pequena dos grandes “dragões” económicos da Grande Baía, nomeadamente Shenzhen, Hong Kong e Cantão, posiciona-a como destino de fim-de-semana para a região este do Delta do Rio das Pérolas. Com um produto turístico multifacetado, oferece atracções de cariz arquitectónico, ambientes urbanos típicos, cultura e cenários naturais. Fica a uma hora de HK em viagem de comboio de alta velocidade.

O Lago Oeste é a atracção turística mais importante. Vários pagodes centenários, uma rede de espelhos de água, um parque natural e várias pontes, entre elas a de Jiuqu, com as suas nove curvas e em estilo de pavilhão chinês, garantem um passeio memorável. Este lago, cuja extensão foi severamente reduzida durante um certo período de pressão imobiliária, deve a sua fama não só à beleza natural e ambiente paisagístico, que ainda possui, mas também à associação do seu nome a Su Dongpo.

Este grande poeta, pintor e calígrafo, magistrado e político da Dinastia Song, foi exilado para Huizhou por ser crítico das orientações políticas do governo daquela época. A China conta com vários lagos homónimos, o mais famoso dos quais é o de Hangzhou. Enquanto magistrado em Hangzhou, Su foi responsável pela realização de várias obras nesse Lago Oeste, que o tornaram num dos ícones turísticos mais famosos de toda a China e uma referência frequente na literatura e arte nacionais.

Das muitas paisagens naturais que se podem contemplar em Huizhou, a que impressiona mais pela originalidade é a baía de Xunliao. Esta, é uma língua de terra com 105 quilómetros quadrados, formações rochosas com formas de animais e que entre pelo Mar do Sul da China com a configuração de duas distintas baías.

O Monte Luofu é conhecido pelas relíquias taoistas e termas naturais que aí se encontram. É considerado um monte sagrado, com uma área de 250 quilómetros quadrados, localizado na margem norte de DongJiang, no condado de Buluo. Existem vários templos budistas e taoistas distribuídos pelas suas encostas, entre os quais o templo de Wa Sau Toi, associado a estilos e escolas de artes marciais de origem chinesa.

O santuário ecológico para tartarugas gigantes na área de Huidong, com uma praia de um quilómetro de extensão, é um dos poucos existentes na China contribuindo para a preservação desta espécie animal. As tartarugas têm grande significado na China, associado à ideia de longevidade.

A cultura Yao, com as suas relíquias, tradições populares e o folclore, distribuídas por uma área de 40 hectares, oferece uma experiência turística fascinante. A sul, os locais mais procurados são as praias costeiras e a cidade marítima de Pinghai.

A oferta hoteleira é variada, constituída por unidades mais pequenas de tipo   até hotéis pertencentes a cadeias internacionais bem conhecidas nesta região.  A restauração é também muito variada.

Huizhou na Área da Grande Baía

A localização geográfica de Huizhou, entre os dois grandes pólos económicos da província de Guangdong, Cantão e Shenzhen, determina a sua funcionalidade no contexto da área da Grande Baía. Como uma das cidades cuja economia possui uma escala média na região, pertence ao eixo de desenvolvimento Shenzhen-Dongguan-Huizhou. Por outro lado, estando na fronteira da região, faz de charneira com as zonas costeiras a norte e de porta de entrada para as economias desta área.

É uma cidade verde, mas onde a indústria petroquímica e electrónica são os dois pilares do seu sector secundário, uma aparente contradição que é resolvida com uma gestão cuidada dos seus recursos e do ambiente ecológico.

As Linhas Gerais do Planeamento para o Desenvolvimento da Grande Baía Guangdong-Hong Kong-Macau, emitidas a 18 de Fevereiro de 2019, prevêem, a dado passo, a construção de entrepostos importantes, nomeadamente em Zhuhai, Foshan, Huizhou, Dongguan, Zhongshan, Jiangmen e Zhaoqing, aproveitando as suas vantagens próprias. Isto é, a construção da área da Grande Baía é um processo de integração inclusiva, onde as economias mais fortes e especializadas, os quatro grandes motores, estimulam o desenvolvimento e competitividade individual das outras cidades.

No conjunto, as sinergias construídas a partir das características próprias de cada cidade, a dinâmica de cooperação entre elas e uma gestão macro de toda a região permitirá, que o objectivo de fazer da Grande Baía uma zona boa para se viver e trabalhar, com elevada competitividade internacional e que contribua para o desenvolvimento sustentado de todo o país, possa vir a tornar-se realidade , até 2035.

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