Terça-feira, Setembro 22, 2020
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Made in Nuno Lopes

Foi dos primeiros estilistas de Macau a ser reconhecido internacionalmente. As suas colecções já desfilaram em muitas das mais conhecidas passarelas do mundo e foram elogiadas por várias publicações conceituados no meio. A Vogue foi apenas uma. Nuno Lopes é hoje uma marca incontornável no mundo da moda britânica. Foi através dela que se afirmou e é com ela que quer também afirmar Macau

Texto Catarina Brites Soares | Fotos cedidas pelo artista

Em criança já passava grande parte do tempo a desenhar. O interesse pelas artes começou cedo, muito estimulado pelo ambiente em que cresceu. A mãe, que conquistou em 1985 o segundo lugar no concurso Miss Macau, e o avô, com um grande sentido de moda, foram dois grandes responsáveis no destino de Nuno Lopes, hoje um ícone no mundo da moda. “A partir de certa altura, comecei a usar a moda como forma de expressar as minhas ideias e a minha criatividade. Procuro que as pessoas se sintam confiantes, especiais e de bem com a vida com o que crio. Ser estilista é fazer o que gosto, mas também um meio para transmitir energia positiva aos meus clientes.”

O que concebe é feito a pensar em toda gente de qualquer idade e sexo, que não leve a vida demasiado a sério e não tenha pruridos em sobressair. “Quero que se sintam atraentes, elegantes e seguras”, refere o artista, que nasceu a 17 de Fevereiro de 1991.

Há outro critério: o respeito por valores como os direitos laborais e dos animais. “A minha marca é ética e consciente. Queremos contrariar o caminho da moda fast-food, que não só destrói a indústria como o ambiente. As roupas devem ser feitas para durar.”

Ainda adolescente decidiu que queria estudar Artes. Procurou opções em Macau mas a ausência de oferta fez com que rumasse até Inglaterra, em 2006, com 15 anos. “Viver tão longe da minha família com essa idade ensinou-me a ser independente. A minha vida em Inglaterra no início não foi tão glamorosa, nem exactamente como esperava.”

Já em terras britânicas termina o secundário na St. Neots Community College e aos 18 anos muda-se para Hertfordshire, para estudar Moda no Oaklands College. Londres foi a paragem seguinte por ser o centro da moda britânica e pela maior oferta de formação em artes. Escolhe a Universidade de Middlesex para estudar Design de Moda, ao mesmo tempo que trabalha num restaurante chinês de comida para fora.

“Apesar de nada ter sido como imaginava quando cheguei, aprendi que quanto mais trabalhas e esperas, mais determinado te tornas”, realça o designer, que antes do desfile de graduação sobreviveu à custa de pequenos-almoços e de chocolates Kit-Kat para não interromper as longas jornadas diárias de trabalho.

A formação, que terminou em 2015, deu-lhe as bases que procurava. Aprendeu a fazer tudo, desde a ideia até ao produto final. Os professores, bem integrados no meio, foram mais um impulso para que vingasse. Entre outras referências, refere o tutor, que trabalhava para Tim Walker, fotógrafo de moda prestigiado, e outro professor que era designer da artista Lady Gaga. “Tudo isto preparou-me e deu-me a experiência que precisava para começar a minha marca e estar ao nível dos critérios internacionais.”

Rapidamente se destaca. Depois do sucesso no desfile de finalistas organizado em 2015 pela Universidade de Middlesex, as criações do designer de moda macaense vestiram vários artistas asiáticos e personalidades como Prince, Paris Hilton e os personagens da série britânica “Years and Years”. Em 2016, foi distinguido com o prémio Revelação nos Fashion Asia Awards e tornou-se o primeiro criador de Macau a chegar às páginas da Vogue.

A principal revista de moda– nas suas versões britânica e italiana – escreve sobre as criações do estilista local, que haviam de ser elogiadas noutras publicações de referência como a Wonderland, Dazed and Confused, Glass Magazine, Harpers Bazar HK, Elle HK e Tatler HK. “Alcancei tudo com muito trabalho, sendo fiel ao meu estilo e único na indústria”, orgulha-se. O estilo próprio é aliás uma imagem de marca. O cabelo que pinta de louro, conta, não foi ao acaso. “Queria criar uma imagem icónica, que me distinguisse. Também sinto que, desde que pinto o cabelo, tudo me corre bem”, brinca.

Identidade

As colecções que desenha partem de temas que o interessam. Foi assim com as três primeiras – ‘Midas Touch’, ‘Social Narcissism’ e ‘Diamond Rain’ – e assim continua. “Todas as colecções que crio são inspiradas em algo que considero relevante. Gosto que haja uma história por detrás e acredito que isso se reflecte na qualidade do meu trabalho. Procuro sempre que as colecções contem uma história.”

A distância não o afastou das raízes, igualmente presentes no que vai criando. O brilho e o glamour são a alma da região aos olhos do artista, que sublinha a identidade única da cidade que viu passar de um território portuário tranquilo para uma pequena metrópole frenética durante os anos de 1990. “Só quando deixei Macau e fui viver para o Reino Unido é que me apercebi de como gostava da cidade.”

Macau inspira-o nas suas mais variadas vertentes, como a história e a arquitectura. “Acredito que as artes se influenciam mutuamente. Assisti a muitas e grandes mudanças na cidade. Gosto que Macau se tenha tornado uma cidade tão glamorosa e ao mesmo tempo preserve a beleza natural que sempre a caracterizou.”, valoriza.“A presença do ouro e do brilho no meu trabalho é um reflexo de onde venho. No fim de contas, Macau é um dos locais mais glamorosos do mundo.”

Macau sempre foi casa, diz. E foi a casa para a qual voltou há quase três anos. É aqui que vive agora com a família, a quem agradece o apreço pelas artes. Destaca o avô – “com um grande sentido de moda e que foi membro da lendária banda Tuna Macaense” – e a mãe – “ícone de moda, fabulosa a vestir-se e designer de interiores”. “A minha família sempre me apoiou e me incentivou a seguir os meus sonhos e paixões.”

A irmã Debora Oliveira, para quem criou o vestido que usou para representar Macau na edição de 2018 do Miss Grand International, também tem um papel importante, companheira de um dos hobbies que mais gosta: dançar. “Divirto-me muito quando o fazemos juntos”, afirma Nuno Lopes, o mais velho de três irmãos. Viajar é outra das paixões do criador de moda, que também é um apaixonado por Ciência, especialmente por astronomia.

O berço

A cidade onde vive agora é pequena face à grande metrópole londrina a que esteve habituado durante uma década, reconhece, mas ressalva que tem mercado. “De qualquer maneira não me limito a Macau. Tenho uma rede internacional através das minhas lojas e vendo para todo o mundo. É a vantagem de ser uma marca online.”

A indústria na China foi outra surpresa, que refere ter atingido um nível excelente e ter excedido as suas expectativas. “Todas as semanas de moda em que tenho participado são grandes producções. A China é um dos maiores mercados de moda e de consumo do mundo. É excelente ter esta ligação”. Além dos desfiles no Interior do País, Nuno Lopes também já deu aulas no outro lado da fronteira.

O Reino Unido continua no entanto a ser paragem habitual, onde vai todos os anos para desfiles. “É importante fazê-lo. Foi a minha casa durante 10 anos e tem uma enorme comunidade criativa que me tornou o designer que sou hoje”, realça. “Também é uma oportunidade de exportar a indústria criativa de Macau e de fazer com que seja reconhecida internacionalmente, de forma a que se melhore a percepção do mercado criativo local.”

Novos investimentos

Aos 29 anos, Nuno Lopes orgulha-se de já ter concretizado muitos dos sonhos que tinha. “Ter sido o primeiro estilista de Macau a ser reconhecido pela Vogue britânica e pela Vogue Itália foi uma grande honra.” A esta junta outras, como ter apresentado colecções na Semana da Moda de Londres e de Shenzhen, ser o primeiro designer local na Sands Macao Fashion Week, de ter ganhado o prémio de Melhor Designer Jovem nos Prémios da Moda da Ásia de 2016 e, recentemente, de ter criado a primeira linha de cosméticos de Macau.

Depois de se estrear no mercado de roupa interior e de fatos de banho, este ano decidiu lançar a Miss Beauty Queen. “É muito natural para mim enquanto artista procurar novos meios para expressar a minha criatividade. Tento traduzir a minha estética para todos os meus produtos. Agora que também me lancei na cosmética, posso ter o controlo total da imagem que quero transmitir.”

Mais importante, frisa, é ser a primeira linha de cosméticos de Macau, passo que considera significativo para ajudar a cumprir o objectivo da região da diversificação económica. “Macau tem mais para oferecer que casinos e bolachas de amêndoa. Tem muitos artistas talentosos.”

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