Sábado, Dezembro 5, 2020
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“Não se pode ter medo de falhar”

“Take a Risk”, filme realizado pelos alunos do Instituto Politécnico de Macau, ganhou três prémios em festivais de cinema internacionais. À MACAU, estudantes e directora-substituta da Escola de Artes explicam a importância do reconhecimento e da cultura como motor da sociedade. 

Texto Catarina Brites Soares 

Justin nasceu em Macau. Terminou o secundário e não quer seguir para a universidade. Tem outros sonhos. O que gostava mesmo era de ser barbeiro e decide arriscar apesar dos receios. Com o tempo, acaba por vingar. Justin é o protagonista de “Take a Risk”, uma história sobre ter a coragem de tentar. O filme foi realizado pelos estudantes do 3º ano do Curso de Licenciatura em Design da Escola de Artes do Instituto Politécnico de Macau (IPM). Ng Weng Ian, Lei Seng Hou e Lai Weng Ian ganharam o “Prémio de Honra de Melhor Documentário de Curta-Metragem” no American Golden Picture International Film Festival; o “Prémio de melhor filme para estudantes” no festival de cinema mensal do New York Movie Awards, e o “Prémio de honra de filme para estudantes” do Oniros Film Awards [ver caixas]. 

À MACAU, os estudantes explicam que Justin podia ser qualquer jovem local e porque consideram a história transversal. “Espero que o filme acabe também por servir de inspiração a todos, principalmente na atenção que devemos dar ao que nos move e aos sonhos que temos, ao que priorizamos quando escolhemos um trabalho e os relacionamentos, sobretudo no caso dos jovens”, realça Ng Weng Ian, a realizadora e directora de fotografia da equipa. 

“A vida acaba por estar dividida em duas fases: os estudos e o trabalho, e o último ocupa-nos mais de metade do tempo. Nem sempre a escolha é satisfatória e há sempre muitos factores a ter em conta. O que gostamos de fazer devia ser também uma parte fundamental”, acrescenta a aluna. 

Ng reconhece que também ela se revê em Justin. À MACAU diz que a experiência com o filme fez com que percebesse que quer filmar. “Senti exactamente a mensagem que procuramos transmitir: a importância de fazermos o que nos apaixona sem medo de falhar. Mais cedo ou mais tarde, todos acabamos por descobrir uma vocação e o caminho”, sublinha. 

Apesar de haver muito trabalho, nem sempre há muitas opções variadas de emprego para os mais jovens, mesmo para aqueles com estudos superiores. Por isso, Ng acredita que nem sempre a formação académica é necessária. “Há dois factores que são sempre importantes: experiência e entusiasmo.” 

Um trampolim 

Neste caso, o entusiasmo, tanto no caso do protagonista da história como dos alunos que realizaram o filme, acabou por ter o melhor desfecho: Justin vinga, assim como o filme. “Sentimo-nos muito felizes e honrados por termos recebido os prémios. É um reconhecimento e um enorme incentivo que nos fez ficar ainda mais determinados e motivados para trabalhar na indústria do cinema”, refere Ng Weng Ian.  

Lei, que até aqui se tinha escusado a responder à maioria das perguntas deixando Ng tomar a dianteira, faz questão de intervir nesta parte. “Reconhecer o que fizemos motivou-nos ainda mais em perseguir o sonho de enveredamos pela área do cinema”, reforça o aluno que se ocupou do som nas filmagens.  

Também a directora-substituta da Escola de Artes, Lai Mei Kei, realça a importância que os prémios tiveram para os alunos e para o IPM, especialmente tendo em conta o contexto particular de pandemia que se vive desde Janeiro. “Foi uma grande motivação para os nossos alunos e pessoal docente ver que o esforço deles foi valorizado internacionalmente. Sempre acreditei que os alunos em Macau tinham talento para o cinema e que só precisavam de oportunidades que lhes permitissem mostrá-lo.” 

“Esta situação que estamos a viver por causa do coronavírus acaba por gerar muito stresse e ansiedade. Temos tantas dúvidas e incertezas sobre o futuro. O facto de o documentário ter sido premiado acabou por funcionar como um grande incentivo. No fundo, o filme mostra que vale a pena perseguir um sonho, e correr o risco de se ser fiel ao que somos e gostamos”, afirma Lai Mei Kei. 

Ainda assim, a professora reconhece que não é fácil quando o sonho se trata de seguir o caminho das artes e da cultura, áreas ainda hoje encaradas com reticências dadas as dificuldade em singrar e conseguir um bom emprego. “Podemos dar o exemplo dos pais. Será que aceitam bem o facto de os filhos seguirem artes? Não será uma questão pacífica numa família mais tradicional, porque é considerado uma área sem grande saída”, salienta, apesar de notar que houve mudanças de mentalidade.  

O investimento do Governo na área das indústrias culturais e criativas, iniciado há cerca de 10 anos, foi determinante, realça a académica. “O facto de o Executivo ter começado a enfatizar a importância da cultura no futuro de uma sociedade fez com que a mentalidade acabasse por mudar um pouco”, diz, com a ressalva de agora outro desafio se impõe: a Grande Baía. 

“Há cada vez mais universidades com a oferta de cursos em áreas culturais e os jovens podem escolher entre estudar em Macau ou no Interior do País. Temos de ser capazes de rever e adaptar o nosso programa. Temos de encontrar um equilíbrio entre a capacidade de inovar e a de nos adaptarmos à sociedade. Hoje em dia tanto a sociedade como a economia mudam tão rapidamente. O desafio é continuar a ser relevante”, aponta. 

Criado há cerca de 25 anos, o curso de Design IPM foi o primeiro de Macau. Hoje é considerado o berço dos talentos artísticos locais. Foi na Escola de Artes que se formaram muitos dos criativos de Macau que se têm afirmado na indústria. Além da formação em Design, a Escola de Artes tem mais duas licenciaturas e um mestrado [ver caixa]. 

A taxa de empregabilidade, refere Lai Mei Kei, oscila entre os 80 e os 90 por cento. A maioria dos finalistas de Artes consegue emprego na indústria depois de terminar o curso. “Não se trata de um workshop ou um curso curto. Damos uma formação completa que lhes permite integrar o mundo do trabalho porque têm as bases. São cursos bastante versáteis ,porque os alunos têm formação prática e teórica nos mais variados campos, como realização, som, imagem, design”, explica a responsável.

 

Arte precisa-se 

Ng e Lei são dois dos cerca de 480 alunos que a Escola recebeu no ano lectivo 2019/2020. A opção pelas Artes e de ficar em Macau para prosseguir os estudos foi deliberada. A meta, frisam, é contribuir para o desenvolvimento da indústria da cidade. “Macau foi onde nasci e o facto de me formar aqui acabará por resultar nalgum contributo para o desenvolvimento do território”, diz Lei. “É uma forma de reconhecer e cooperar com os criativos locais e de expandir o círculo”, acrescenta Ng.  

A aluna insiste na importância de incentivar ao conhecimento e à promoção da cultura por serem elementos determinantes no progresso de uma sociedade. “A promoção das artes faz com que o desenvolvimento seja definitivamente melhor.” 

Já Lei, sempre de poucas palavras, resume: “A arte é um indicador social e cultural. Quanto mais qualidade tem a arte que se faz nesse sítio, melhor será o desenvolvimento dessa sociedade”. 

O mesmo entende a directora-substituta da escola, que frisa a importância de contribuir para o crescimento das indústrias culturais e criativas de Macau. Desde logo, refere, atendendo aos planos do Executivo que tem sublinhado a necessidade de fazer crescer o sector, também como forma de diversificar a economia local, dependente do turismo.  

“A indústria do cinema está a amadurecer. Nos últimos anos, ganhou peso na cidade”, afirma Lai Mei Kei. “A missão da nossa escola é permitir que os nossos jovens saiam com as ferramentas de que precisam. Nós somos o elemento da formação”. 

Ng e Lei comprovam-no. Salientam que “Take a Risk” foi importante porque, e apesar da ausência de experiência, obrigo-os a pôr em prática o que aprenderam. O documentário é o primeiro dos alunos, que tiveram de passar por todo o processo inerente à realização de um filme, desde a selecção do tema, realização, produção, filmagem, edição e distribuição. 

“Sentia que crescíamos e progredíamos a cada filmagem”, afirma Ng Weng Ian.  

Já Lei Seng Hou destaca que é completamente diferente aprender com a prática. “É quando nos apercebemos da importância da equipa.” 

Depois de uma estreia bem-sucedida, os alunos dizem à MACAU que é no território que querem ficar e, como Justin, tentar sem medo de falhar. “É em Macau que quero trabalhar e seguir carreira. Quero concretizar o sonho de trabalhar na indústria cinematográfica. Espero que a comunidade internacional venha a reconhecer os realizadores locais”, diz Ng.  

A meta é semelhante para Lei, que diz ter como objectivo levar Macau mais longe. “Quero que os filmes locais se tornem relevantes no panorama mundial”.  

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Documentário “Blackbears” também foi premiado  

O documentário “Blackbears”, também premiado e realizado por alunos do Instituto Politécnico de Macau, ganhou o “Prémio de melhor filme para estudantes” no New York Movie Awards, e o “Prémio de melhor filme desportivo” do Oniros Film Awards. O documentário de Ho Ka Wai, Long Wing Si, Sio Seng Tak e Lei Ngai conta a história do Urso Negro, uma equipa de basquetebol local, formada em Junho de 2018 que, apesar da escassez de recursos, continua a treinar. Aquela que foi a primeira equipa profissional de basquetebol de Macau marca presença nas ligas profissionais do Sudeste Asiático e noutros eventos regionais de nível profissional. De acordo com os alunos, que o filme teve como objectivo permitir que mais pessoas conhecessem a história da única equipa profissional de basquetebol do território, apoiando os jogadores a continuarem. 

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Filmes reconhecidos por Festivais da Europa e EUA 

O “American Golden Picture International Film Festival” é um dos novos festivais internacionais de cinema. A competição anual de filmes norte-americana tem como objectivo promover produções independentes de todo o mundo. Já os festivais mensais internacionais “New York Movie Awards”, na cidade de Nova Iorque, e o “Oniros Film Awards”, em São Vicente, Itália, são ambos certificados pela IMDb (Internet Movie Database) e listados no site do IMDb, a base online criada há 30 anos, que agrega várias informações sobre cinema e televisão.  

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Incubadora de talentos 

Fundada em 1993, a Escola Superior de Artes veio substituir a antiga Academia de Artes Visuais, no Instituto Politécnico de Macau. Actualmente, tem três departamentos: o de Design, o de Música e o de Artes Visuais. Entre outros intercâmbios, os alunos podem por exemplo frequentar os cursos de mestrado da Academia Central de Belas Artes da China. A escola integra também o Centro Pedagógico e Científico para as Indústrias Culturais e Criativas, criado em 2016, com “a missão de formar mais talentos qualificados”, lê-se na página electrónica da Escola. O Centro, refere-se no mesmo site, “desempenha um papel muito importante não só na formação de talentos (…), como também na investigação científica dessa área, já que a pesquisa científica sobre a criatividade cultural em Macau ainda é insuficiente”. 

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