Quinta-feira, Dezembro 3, 2020
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O português que faltava

Orientes do Português é a primeira revista académica em língua portuguesa na Ásia. Os directores da publicação Gaspar Zhang, do Instituto Politécnico de Macau, e Maria de Lurdes Fernandes, da Universidade do Porto, explicam que o projecto visa colmatar um vazio que existia na China e na Ásia 

Texto Catarina Brites Soares 

Orientes do Português surgiu há um ano, fruto da parceria entre o Instituto Politécnico de Macau (IPM) e a Universidade do Porto (U.Porto), em Portugal. É a primeira revista científica em língua portuguesa no continente asiático. Destacar as vantagens de Macau como plataforma entre a China e os países de língua portuguesa, promover a consolidação do Centro Internacional Português de Formação em Interpretação de Conferência e da Base de Formação de Quadros Bilingues em Chinês e Português, reforçar a cooperação entre Macau e a comunidade académica de língua portuguesa, elevando o estatuto de Macau no âmbito académico internacional e promovendo o desenvolvimento conjunto do ensino e investigação da língua portuguesa em Macau, na Grande Baía, no Interior do País e na Ásia são algumas das metas da publicação. 

Historicamente, as revistas internacionais de língua portuguesa têm-se concentrado principalmente no Brasil e em Portugal. “Na região asiática, no entanto, ainda não existia nenhuma revista académica de padrão internacional editada em língua portuguesa e dedicada ao estudo da língua e cultura dos países lusófonos”, salienta um comunicado a explicar a génese da revista. 

Gaspar Zhang, director-executivo da publicação, explica à MACAU que foram várias as razões que motivaram a ideia, que já vinha sendo pensada há vários anos. “Primeiro, o facto de não haver nenhuma revista científica do género em todo o Oriente, um vazio que começava a ser incompreensível, dado o crescimento enorme dos estudos de português na China e no Oriente em geral”, afirma. 

A necessidade de possibilitar a publicação de trabalhos académicos dos investigadores que se dedicam aos estudos de português nas mais variadas áreas, como língua, literaturas, culturas, história, didáctica, e que fazem carreira académica nesta área em universidades do Oriente foi outro dos motivos que impulsionou o projecto. “Tanto mais que a publicação de trabalhos científicos é fundamental para o desenvolvimento de uma carreira universitária”, sublinha o também coordenador do Centro Pedagógico e Científico da Língua Portuguesa do IPM. 

Gaspar Zhang – na direcção executiva com Carlos André e Isabel Margarida Duarte – sublinha ainda o desejo de se aprofundar o intercâmbio científico com investigadores de outras latitudes, tendo em conta que a revista está aberta à colaboração de pessoas de todo o mundo, onde quer que estejam.  

A directora Maria de Lurdes Fernandes recorda que o mentor da ideia foi Carlos André. O antigo coordenador do Centro Pedagógico e Científico da Língua Portuguesa do IPM, afirma, lançou o repto tendo em conta a cooperação crescente entre a Universidade do Porto e o IPM, e o interesse em dar maior visibilidade à produção de estudos sobre a língua portuguesa em Macau e na China.  

“Existem há já alguns anos colaborações de docentes da U.Porto em iniciativas várias do IPM, que pretendemos aprofundar e reforçar”, realça a vice-reitora da instituição portuguesa, situada na segunda maior cidade do país. 

“A parceria com a U.Porto tem uma explicação muito simples: trata-se de uma universidade muito prestigiada, que possui já um protocolo de colaboração com o IPM e onde o trabalho em torno de temáticas relacionadas com o ensino do português como língua estrangeira, que é universalmente reconhecido e muito conceituado. O IPM propôs a parceria e a adesão por parte da U.Porto foi imediata, o que prestigia também o IPM”, acrescenta Gaspar Zhang. 

Expectativas 

Quanto a resultados e como pode a publicação ser uma mais-valia, Zhang refere que uma revista científica é sempre uma forma de enriquecimento e valorização. “Desde logo, da instituição que a promove e, portanto, dos seus docentes e investigadores, e também dos seus estudantes.” E acrescenta: “Se, como esperamos e desejamos, forem atingidos níveis de qualidade que permitam que a revista seja reconhecida por alguns dos sistemas de indexação internacionais, isso contribuirá para o prestígio do IPM e para um reconhecimento ainda maior dos seus padrões de qualidade”. 

Já Maria de Lurdes Fernandes, que partilha a direcção do projecto com Marcus Im – presidente do IPM – insiste na ideia de aproximação e cooperação: “Esperamos uma maior projecção dos estudos sobre a língua portuguesa e sobre as relações culturais entre a China, muito especialmente a Região Administrativa Especial de Macau, e Portugal, assim como uma maior aproximação de investigadores e professores de português de ambas as instituições”. 

A vice-reitora reforça que a publicação poderá cumprir o papel se aproximar investigadores e estudantes das duas entidades de ensino, e potenciar o conhecimento mútuo, os interesses comuns e a projecção do conhecimento sobre a diversidade do português e das múltiplas culturas que nele se expressam. 

Apesar de o projecto ter o carimbo do IPM e da U.Porto não se limita aos académicos e estudantes daquelas entidades. “Uma revista com a natureza desta e com as dimensões que pretendemos que tenha, só é possível com uma forte colaboração dos potenciais interessados, onde quer que exerçam a sua actividade”, explica Gaspar Zhang. 

O primeiro número, publicado em 2019, é disso exemplo. A revista reúne uma panóplia de artigos assinados por autores locais, do Interior do País, do Brasil, de Portugal, da Coreia do Sul e da Dinamarca. A lista de países, ressalva o académico do IPM, é “bastante maior” caso se considere a totalidade dos textos submetidos. “Isso significa que os autores publicados são apenas a parte visível do trabalho realizado para a publicação. São apenas a ponta do icebergue”, vinca. 

O processo de selecção, assegura o professor, segue “escrupulosamente” o sistema adoptado pelas revistas académicas internacionais de referência. Cada artigo passa por uma primeira avaliação por parte da Comissão Redactorial, constituída por professores do IPM e da U.Porto, a que se segue, se a comissão considerar o artigo pertinente, o envio a dois especialistas da área em questão. “São eles que julgam o mérito científico, mas com total desconhecimento da identidade do autor”, garante Gaspar Zhang.  

Entre os especialistas, há investigadores que trabalham em Macau, mas não só, tendo em conta que, como explica o director-executivo, seria impossível contar só com esses uma vez que não existem no território especialistas em todas as áreas necessárias.  

No primeiro número, estiveram envolvidos cerca de 50 investigadores na arbitragem científica, de Macau, do Interior da China, de Portugal e do Brasil, assim como de Itália, Moçambique, Dinamarca, Alemanha, Inglaterra, Espanha e França. “Existe a vontade partilhada de promover uma grande abertura a todos os trabalhos de qualidade que possam ser inseridos no conceito e nos objectivos dos Orientes do Português. O critério é, por isso, o da qualidade e novidade dos estudos”, acrescenta Maria de Lurdes Fernandes.  

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Número especial: Malaca Casteleiro 

O linguista português, será o protagonista do próximo número da revista Orientes do Português, que sairá este ano. No site oficial da publicação, a equipa escreve que dias antes do anúncio da chamada para artigos do segundo volume, deu-se o falecimento de João Malaca Casteleiro, também membro do Conselho Científico da Orientes do Português. “Figura importantíssima para a difusão da língua portuguesa no continente asiático e para o cenário da língua portuguesa em Portugal e no mundo, faz todo sentido, então, que dediquemos um número especial à memória do Professor João Malaca Casteleiro, honrando, desta forma, o imenso legado que nos deixou.”  

O contacto do português com línguas orientais; a elaboração de vocabulários para o ensino e aprendizagem do português como língua estrangeira no Oriente; a análise e a historiografia dos dicionários bilingues que conjuguem o português com o chinês, o japonês ou outras línguas orientais; a influência do Acordo Ortográfico de 1990 sobre as relações dos países da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa com o Oriente e impacto no ensino da língua portuguesa nos países asiáticos; assim como a história e o desenvolvimento do português nas várias comunidades orientais são alguns dos tópicos a que será dado destaque na próxima edição.  

Malaca Casteleiro é uma das figuras centrais na elaboração do novo Acordo Ortográfico e na difusão do português na China e em Macau. Morreu em Fevereiro deste ano, aos 83 anos. 

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Orientes do Português ao detalhe 

A linguística portuguesa, o contacto do português com outras línguas, o ensino e aprendizagem do português como língua não materna, assim como as manifestações artísticas, literárias e culturais dos territórios e comunidades onde a língua portuguesa tem influência, são os temas sobre os quais versa a revista, aberta a contribuições com metodologias de investigação e correntes de pensamento científico sobre as mesmas áreas. O site da publicação (http://orientes-do-portugues.ipm.edu.mo/) refere que a revista tem como missão divulgar o conhecimento científico produzido por investigadores, docentes e outros profissionais da língua portuguesa, em particular os que a ensinam português como língua estrangeira na China e outros países asiáticos, mas aberta, igualmente, a investigadores com outras origens. 

A encargo do Centro Pedagógico e Científico da Língua Portuguesa do Instituto Politécnico de Macau e da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, a revista, com periodicidade anual e gratuita, inclui textos em português e inglês, e tem uma edição online e em papel. Estão vedados trabalhos já publicados ou em vias de publicação. A Orientes do Português só aceita trabalhos inéditos e originais.

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