Segunda-feira, Setembro 21, 2020
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Ruínas de São Paulo, as mil vidas de um ex-líbris

Foi um dos mais imponentes templos católicos da Ásia, universidade, quartel, museu a céu aberto, atracção turística e até cemitério. O mais conhecido ex-líbris de Macau é ponto de passagem obrigatória para quem visita o território, mas poucos terão noção da rica história da Igreja da Madre de Deus – incluindo a razão pela qual nunca se reergueu e se eternizou como ruína 

Texto Marco Carvalho 

Coberta com talha dourada e pinturas de fino trato e ornamentada com retábulos esculpidos com incomparável detalhe – muitos dos quais da autoria de artesãos fugidos à perseguição a que os católicos foram sujeitos no Japão – a igreja da Madre de Deus, pérola maior do complexo religioso que alojava o Colégio Jesuíta de São Paulo, foi durante dois séculos tida, de forma incontestada, como a mais bela construção de matriz ocidental do Oriente. 

Foi esse, pelo menos, o veredicto de Peter Mundy, viajante inglês que viu a igreja pela primeira vez no Verão de 1637, 34 anos depois do edifício ter sido consagrado à Nossa Senhora da Assunção. É de Mundy uma das mais detalhadas descrições do interior da Madre de Deus que chegaram aos nossos dias. “O tecto da Igreja pertencente ao Colégio (chamada S. Paulo) é da mais bela arquitectura que até hoje me lembro de ter visto, obra de excelentes trabalhadores, feita pelos chinois. Talhado em madeira, tem um curioso revestimento a ouro e está pintado com cores requintadas, como o escarlate, o anilado, etc”, escreveu o viajante inglês em The Travels of Peter Mundy in Europe and Asia 1608-1667. “Dividido em quadrados [o tecto] tem nas juntas de cada um grandes rosetas em talha com abundantes pétalas imbricadas que vão diminuindo em número até terminarem num florão; a mais larga com cerca de uma jarda de diâmetro, e medindo cerca de uma jarda, contada na perpendicular desde o florão ao tecto. A dita igreja tem também uma bela fachada nova com espaçoso acesso por uma grande escadaria; as duas últimas coisas que mencionei são de pedra aparelhada”, detalha Mundy. 

Situada no que era à época um dos extremos da cidade cristã, a Igreja do Colégio de São Paulo manteve-se inalterada até 26 de Janeiro de 1835, dia em que sucumbiu a um incêndio de grande dimensão. Ao final da tarde, as chamas irromperam na cozinha do que fora durante décadas o colégio jesuíta. Pouco mais de duas horas bastaram para que a estrutura ficasse reduzida a escombros; o tecto que 200 anos antes maravilhara Mundy tombou sobre a nave da Igreja. Às 20h15 nada restava das instalações do colégio e na igreja contígua apenas a fachada e parte das paredes de chunambo permaneciam de pé.  

“A exemplo do que aconteceu recentemente com a Catedral de Notre-Dame [em Paris], o recurso a pedra por parte dos construtores e dos arquitectos para erguer as principais estruturas acabou por salvar estes edifícios e impedir que desaparecessem por completo”, sustenta César Guillen-Nuñez, historiador de arte e estudioso das Ruínas de São Paulo. “Ainda sobreviveram algumas relíquias, mas é de todo impossível recriar a esplêndida decoração interior da nave e dos altares laterais da Igreja da Madre de Deus, bem como o tecto, intrincadamente trabalhado por artesãos chineses e japoneses”. 

Muito danificados pelas chamas e pelo calor, os muros foram considerados como um factor de risco para a população, acabando por ser progressivamente desmantelados. Só a fachada permaneceu como um tributo intemporal aos milhares de cristãos japoneses, chineses e europeus que se recusaram a abjurar à sua fé e pereceram nas perseguições de que o Japão foi palco na primeira metade do século XVII. Uma dimensão que é hoje desconhecida da maioria dos milhões de visitantes que assomam ao espaço. “Os turistas que visitam o pequeno Museu de Arte Sacra que faz parte do complexo das Ruínas ou que se apercebem das relíquias e das ossadas que ali são conservadas poderão inferir que o local está, de facto, imbuído de uma dimensão espiritual”, reconhece Guillén-Nuñez. O antigo investigador do Instituto Ricci de Macau publicou, em 2009, uma das mais completas obras alguma vez escritas sobre o antigo Colégio de São Paulo, Macao’s Church of Saint Paul – A Glimmer of the Baroque in China.  

O início do fim 

Foi no terceiro ano do consulado de Sebastião José de Carvalho e Melo como secretário de Estado dos Negócios Interiores do Reino de Portugal que se consumou o divórcio entre a Coroa e os Jesuítas, com o gabinete do primeiro-ministro a decretar a dissolução da Companhia de Jesus. Em Macau, o édito só entrou em vigor a 5 de Julho de 1762, dia em que as possessões da ordem jesuíta – fossem elas propriedades ou dinheiro – foram confiscadas pela Coroa. No mesmo dia, os discípulos de Santo Inácio de Loyola que ainda permaneciam no território foram detidos pelo contingente militar. 

A Igreja da Mater Dei foi colocada sob a supervisão de um reitor nomeado pela Diocese, ao passo que as instalações do Colégio passaram para a dependência directa do Leal Senado. A partir de 1789, numa medida anunciada como provisória, o Colégio foi transformado num aquartelamento militar destinado a acolher um dos regimentos do Exército. Foi no anexo onde estava armazenada a madeira queimada na messe dos oficiais que irromperam as chamas na fatídica tarde de 26 de Janeiro de 1835. 

O incêndio deixou a Igreja reduzida ao invólucro das paredes e da fachada. O templo sofreu danos tão consideráveis que a reedificação da estrutura não chegou sequer a ser equacionada e foi necessário aguardar quase 70 anos para que a possibilidade fosse reavivada. “Foi tentada a reconstrução nos finais do século XIX e inícios do século XX, mas não avançou por falta de verbas, uma vez que a situação económica de Macau atravessava nessa altura um período difícil”, recorda o arquitecto Francisco Vizeu Pinheiro. “A tarefa de reconstruir a Igreja não teria sido impossível. Existe conhecimento parcial da composição do corpo da igreja em três naves ou espaços com colunas, conhecemos o aspecto do altar mor graças a um desenho de George Chinnery e aos modelos parecidos construídos nas Igrejas de São Domingos e de Santo Agostinho, que aparentemente foram inspiradas pela Igreja da Mater Dei. A torre dos sinos e relógio também é conhecida pela mesma fonte. As fachadas laterais são conhecidas devido a pinturas dos séculos anteriores. A grande incógnita é a decoração interior realizada por artesãos japoneses”, clarifica o também docente da Universidade de São José. 

A 8 de Abril, pouco mais de dois meses após o incêndio, o Senado decide utilizar o espaço de enterramento temporário para os defuntos que aguardavam sepultura definitiva nas paróquias a que pertenciam, numa altura em que a inumação no adro ou no solo sacro das Igrejas era a norma.  

Um ano depois, a 14 de Maio de 1836, a gestão do espaço e das práticas funerárias foi confiada à Santa Casa da Misericórdia, que supervisionou a construção de catacumbas no chunambo das espessas paredes da antiga Igreja e a transformação da antiga nave num cemitério para os indigentes e os membros mais pobres da comunidade católica. 

O novo campo santo só seria colocado a uso mais de um ano depois. A 30 de Maio de 1837, o cemitério da Mater Dei recebe o seu primeiro inquilino e dois dias depois, a 1 de Junho, a administração do espaço regressa às mãos da Diocese. O templo foi utilizado para inumações até 2 de Novembro de 1854, quando a abertura do novo Cemitério Público de São Miguel, a uma milha de distância, tornou obsoleto o pequeno sepulcrário. Muitos dos restos mortais que ali tinham sido depositados durante um período de quase 20 anos foram trasladados para o novo cemitério. 

Como a nave da Igreja da Madre de Deus deixou de ser então solo consagrado, o Senado decidiu para ali transferir outros memoriais e estelas votivas que se encontravam disseminadas pela cidade. Assim sucedeu, por exemplo, com algumas das coberturas das campas do cemitério que a comunidade arménia instalou nas encostas da Colina da Penha. 

Memória da cidade a céu aberto 

A decisão transformou a antiga igreja num museu ao ar livre, um livro de pedra aberto para o passado de Macau. Numa altura em que a cidade dispunha de um único jardim público, o de São Francisco, a popularidade das Ruínas como espaço de recreio cresceu de forma exponencial, ao ponto dos membros da Câmara do Leal Senado se terem visto obrigados a investir em medidas de segurança. Enfraquecidas pela escavação de nichos funerários, as paredes começaram a ser vistas como um risco. Construídas numa densa mistura de terra, palha, cal e conchas (a famosa “taipa” ou “chunambo” com que tinham sido erguidas as muralhas da cidade), as amuradas foram numa primeira instância reduzidas à altura de sete metros e meio, antes de serem demolidas por inteiro. Para memória futura – e para permitir que a fachada resistisse a tempestades e tufões – restam os segmentos de parede situados imediatamente junto à fachada, agora dotados do importante papel de contrafortes.  

A intervenção do Leal Senado tornou a antiga nave da Mater Dei relativamente segura, mas deixou os despojos históricos ali depositados à mercê de qualquer um. Muitas pedras e estátuas seculares desapareceram e foram, mais tarde, encontradas em casas aburguesadas ou estaleiros de obras públicas. Algumas ainda foram identificadas do outro lado do Mar do Sul da China, por funcionários da “alcaldía” de Manila quando se preparavam para empedrar uma nova praça. Depois do desaparecimento de algumas das estelas ter suscitado indignação junto da comunidade local, o Leal Senado vedou o espaço e prometeu uma maior atenção às relíquias. As lápides, cornijas e estátuas permaneceram intocadas no recinto até ao final de 1966, altura em que o património passou a ser transferido para vários locais para ser melhor salvaguardado.  

© Gonçalo Lobo Pinheiro

No entanto, numa altura em que a preocupação com a protecção do património era ainda residual, os funcionários responsáveis pela mudança partiram as lápides em pedaços mais pequenos para que o transporte fosse facilitado – algumas pedras chegavam a ter quase dois metros e meio de comprimento.  

Oito estelas foram aquarteladas no Jardim da Flora, onde foram descobertas anos depois por um funcionário do Leal Senado. As histórias de vida e as memórias que contam abrangem quase três séculos, com a mais antiga a evocar a memória de Jorge Botelho, falecido em 1578 e a mais recente, datada de 1835, a comemorar a fundação da Associação Piedosa de São Francisco Xavier. 

Uma empreitada nunca cumprida 

A Companhia de Jesus fixou-se em Macau em 1562 e, três anos depois, em 1565, funda a primeira residência jesuíta na China, com a construção da então denominada “Casa dos Jesuítas”, num terreno situado não muito longe da Igreja de Santo António e cedido pelo comerciante Pedro Quinteiro. É neste local que se ergue o primeiro espaço de culto dos discípulos de Santo Inácio de Loyola em Macau, uma humilde capela em palha e bambu que foi consumida pelas chamas. O despojado templo foi substituído em 1573 por uma construção mais robusta, mas ainda assim espartana: a taipa substituiu o bambu nas amuradas, mas a palha manteve-se como o material de eleição para a cobertura. 

A residência jesuíta foi pouco depois para um ponto mais elevado, na encosta do que já era à época designado de Colina do Monte. Em 1582, ano em que as instalações do Colégio foram alargadas para receber os missionários que paravam em Macau a caminho do Japão, o templo assentava sobre uma estrutura de madeira e estava já coberto por telha. O edifício sucumbiu às chamas e foi reconstruído com as mesmas características nas imediações do local onde hoje se situam as ruínas da Igreja da Mater Dei, templo que vê a luz na sequência de uma nova tragédia. Em 1601, um novo incêndio destrói por completo o templo e parte das instalações do Colégio, não obstante os esforços da população para extinguir as chamas. 

A população cristã de Macau, que à época rondava os 3500 crentes, assumiu o compromisso de doar a quantia de “3000 escudos, se Deus trouxesse a porto seguro o navio que se espera do Japão”, escreve numa carta para Roma o padre Valentim de Carvalho, à época reitor do Colégio e responsável pela residência jesuíta. O montante a que se refere diz respeito a 0,5 por cento do valor total das mercadorias que a nau do trato trouxe esse ano do Japão. 

Apesar da primeira pedra do novo templo estar datada de 1602, a empreitada de construção arrancou ainda em 1601. Dedicada a Nossa Senhora da Assunção, a Igreja foi consagrada dois anos depois, na véspera de Natal, numa Eucaristia celebrada pelo visitador jesuíta Alessandro Valignano. O novo templo estava de pé e o Santíssimo Sacramento foi para ali transferido, mas os trabalhos de construção permaneciam longe de concluídos. Em 1608 uma porta lateral foi acrescentada; a empreitada de decoração e de embelezamento, quer do interior, quer da fachada, prolongou-se por décadas, quase até à época em que a sumptuosa ermida recebe a visita de Peter Mundy. 

A majestosidade do templo deixa estupefacto quem o visita. O padre Alexandre de Rhodes, que se notabilizou pela criação do quốc ngữ, o alfabeto vietnamita, elogia-lhe a opulência e deixa-se tocar pela sua beleza. “Tudo, de alto a baixo, é dourado com o mesmo ouro com que se cunham os ducados e os retábulos são de uma perfeição incomparável”, escreve. 

Durante as mais de seis décadas que decorreram entre o devastador incêndio que fulminou “a mais bela das Igrejas do Oriente” e o início do século XX não foi feita uma única tentativa séria para devolver ao templo a magnificência perdida. Foi necessário aguardar 69 anos para que a população de Macau se voltasse a mobilizar e a olhar com estima para as Ruínas de São Paulo, num desígnio que teve o padre António José Gomes como principal artífice. 

Desígnio ou desastre? 

Encorajado pelo comendador Albino da Silveira que financiaria a reconstrução da estrutura, o então responsável pela Paróquia de Santo António convenceu o bispo D. João Paulino d’Azevedo e Castro de que reerguer a Madre de Deus se afigurava não apenas um desafio possível, mas também uma aspiração da maioria dos residentes de Macau. 

A 4 de Dezembro de 1904, o epíscopo celebrou missa nas Ruínas e lançou a primeira pedra para a empreitada de reconstrução. Do alto de um púlpito improvisado, o padre António José Gomes revisitou a história da Igreja, louvou-lhe a intemporal persistência e pediu fundos para a obra. Organizaram-se lotarias, promoveram-se quermesses e festas para angariar fundos, encomendaram-se brindes e brocados na América, mas pouco se conseguiu. A morte de Albino da Silveira dois anos antes e a relutância dos herdeiros em se associarem à empreitada complicaram a missão a que a António José Gomes se dedicou e o projecto acabou por fracassar.  

“Chegaram a ser gizados planos ambiciosos para a reconstrução. Felizmente nunca se materializaram. Estes planos incorporavam a fachada, mas esta teria sido certamente eclipsada pela construção de uma gigantesca cúpula, concebida pelos arquitectos responsáveis pelo projecto de reconstrução”, aponta César Guillen-Nuñez. “Se os planos tivessem avançado teriam transformado por completo o original. A Igreja da Madre de Deus deixaria de ser a que tinha sido construída quase 300 anos antes e cujas ruínas são hoje em dia uma parte incontornável da história e da identidade urbana de Macau.” 

O megalómano plano arquitectónico tinha sido encomendado por Albino da Silveira na recta final do século XIX e, mais do que a recuperação do templo original, previa a construção de um novo centro de culto no local, destinado à futura igreja paroquial de Santo António. “Reconstrução significa recuperar conforme o estado anterior à sua destruição. O estado actual não representa, obviamente, a autenticidade original do edifício, assim como as ruínas de qualquer outro monumento não representam a solução original e autêntica, conforme prevista pelos seus criadores”, sustenta Francisco Vizeu Pinheiro, para quem o acto de reconstrução é sempre e inevitavelmente um gesto de reinvenção. 

Victor Gomes Teixeira, docente da Universidade Católica Portuguesa, afina pelo mesmo diapasão. Com um doutoramento em História, o também professor-visitante da Universidade de São José deixa entender que o insucesso do plano delineado há mais de um século pelo padre António José Gomes foi o melhor que poderia ter acontecido à memória histórica da Igreja da Mater Dei, até porque não é possível conceber a recuperação do templo sem equacionar também a reabilitação, hoje praticamente inexequível, do Colégio que lhe era contíguo. “A recuperação do complexo obrigaria a reconstruir a igreja e o colégio. E, porventura, só faria sentido se o espaço fosse devolvido à Igreja e, particularmente, à Companhia de Jesus. Só animado pelos seus anteriores e únicos proprietários é que recuperaria o significado que há muito perdeu. Seria talvez pior agora tentar refazer o edifício com as características que tinha à data da sua destruição. As ruínas são também importantes se preservadas e integradas, contextualizadas e interpretadas”, defende o académico. “Mais vale manter a memória através da ruína – icónica e com poder visual –, consolidar e integrar em contextos de memória ou adjudicar políticas museológicas e de arte pública escorreitas e genuínas, sem retirar sentido e significado à memória do espaço arruinado”, complementa Vítor Gomes Teixeira.  

Em meados do século XX, escreve o padre Manuel Teixeira no seu livro Toponímia de Macau, a Diocese ainda conservava em seu poder cerca de 20 mil patacas em acções no âmbito de um mecanismo designado de “Fundos da Reconstrução de São Paulo”, mas o propósito de reerguer a igreja não voltou a ser evocado. A reconstrução, reconhece o padre Manuel Machado, antigo chanceler da Diocese de Macau, reveste-se de uma dimensão interessante em termos históricos, mas completamente desnecessária em termos religiosos. “Não sinto que seja uma necessidade. Agora, que seria interessante, seria interessante”, sustenta o sacerdote. “As Ruínas são hoje em dia, sobretudo, um ponto turístico, um ex-líbris de Macau. Não me parece que seja possível recuperar a dimensão religiosa que o espaço outrora teve. Agora, se a quem vai visitar as Ruínas for explicada, por exemplo, a simbologia do que está na fachada, o que sobra da Mater Dei continuará a ser um ponto de catequese e de evangelização. É essencial que os turistas se apercebam que estão perante um testemunho importante. No entanto, para a Igreja, é pouco mais do que uma memória material”, admite Manuel Machado. 

Mais do que reabilitar a estrutura ou de zelar pela salvaguarda do que resta, para César Guillén-Nuñez o fundamental é mesmo garantir que a dimensão da memória histórica do espaço não se perde. “O pequeno museu que existe actualmente nas Ruínas de São Paulo é maravilhoso. É melhor evocar o esplendor antigo da Igreja da Madre de Deus e deixar algo à imaginação de visitantes e turistas, como faz e bem o museu, do que deitar tudo a perder com uma reconstrução incompleta.” 

***

Uma vez igreja, sempre igreja 

O primeiro grande complexo da Companhia de Jesus em Macau é hoje uma atracção turística por excelência, mas a dimensão espiritual do espaço não está inteiramente obliterada. As Ruínas de São Paulo recebem pontualmente celebrações de natureza eucarística e litúrgica, como a que a 4 de Dezembro de 1904 colocou em andamento a fracassada campanha que visava a reconstrução do templo [ver texto principal]. 

Para a história ficou também a missa rezada a 10 de Novembro de 1964 pelo Cardeal D. José da Costa Nunes. O antigo bispo de Macau foi nomeado pelo Papa Paulo VI para o cargo de legado papal para as comemorações do IV Centenário das Missões da Companhia de Jesus em Macau e do IV centenário da chegada dos primeiros missionários católicos ao território. 

A mais recente celebração eucarística realizou-se a 19 de Outubro de 2019, 15 anos depois das Ruínas de São Paulo terem recebido uma missa pela última vez. O espaço revelou-se pequeno para tanta gente: mais de duas mil pessoas preencheram por completo a escadaria de acesso à antiga igreja para assistir à celebração da Eucaristia com que a Diocese de Macau assinalou o Mês Missionário Extraordinário, efeméride decretada pelo Papa Francisco para celebrar os 100 anos da carta apostólica “Maximum Illud”. 

Celebrada em cantonense, mandarim, português e inglês e conduzida pelo bispo de Macau, D. Stephen Lee, a missa ofereceu aos católicos uma oportunidade rara, no entender de Jenny Lao-Phillips, docente da Universidade de São José. “A razão pela qual a Diocese escolheu este local é pelo grande significado histórico que ostenta. A Catedral de São Paulo foi, a determinada altura e durante algum tempo, a maior do Extremo Oriente. Era aqui que os missionários eram preparados para as missões de que eram incumbidos. Vinham para Macau, eram aqui preparados e depois partiam para a China, para o Japão e para outras partes da Ásia”, explica a académica, que fez parte da comissão organizadora do evento. “É um espaço de grande significado para a Igreja Católica. No final do ano passado, pedimos autorização ao Governo para aqui voltar a celebrar a missa. A autorização deixou os católicos locais radiantes porque não é todos os dias que algo desta importância acontece nas Ruínas.” 

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