Segunda-feira, Outubro 26, 2020
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“A iniciativa ‘Uma Faixa, Uma Rota’ vai contribuir de forma sólida para a cooperação e relação dos vários países no mundo”

O embaixador da República de Angola em Pequim defende que a política chinesa tem vindo a alterar o paradigma da cooperação mundial e que Angola só tem a ganhar com a adesão à iniciativa “Uma Faixa, Uma Rota”. Em entrevista à MACAU, João Salvador dos Santos Neto diz que as prioridades angolanas na relação com a China são a de atrair investimento e de diversificar as exportações, monopolizadas pelo petróleo 

Texto Catarina Brites Soares 

Que balanço faz da relação entre a China e Angola, desde que assumiu o posto em Pequim? 

Estou há cerca de dois anos em representação de Angola na China. O primeiro ano foi o que se pode chamar de prova de fogo, com um grande acontecimento: a cimeira China-África [Fórum de Cooperação China-África (FOCAC)], que contou com a presença do Presidente Xi Jinping e de mais 54 chefes de Estado africanos para abordar a cooperação com a China. O processo preparatório levou vários meses e exigiu muito trabalho. A cimeira terminou com um plano de acção, no qual consta uma imensidão de aspectos de cooperação; a outra conquista, já num plano bilateral, foi a assinatura de três acordos – um que evita a dupla tributação, o de adesão à iniciativa “Uma Faixa, Uma Rota”, e outro para a construção de um centro de formação no Huambo, em Angola, que vai contribuir grandemente para a formação técnico-profissional dos recursos humanos angolanos.  

Quais foram os principais desafios que encontrou? 

Trabalhamos no plano da diplomacia com vários países e tenho de referir que a China é uma experiência muito particular. Não só pelos níveis de desenvolvimento, mas também porque é uma realidade socioeconómica com algumas particularidades. É dos países com um nível de desenvolvimento mais elevado e é uma das duas economias mais fortes do mundo. É um desafio muito importante, com um aspecto adicional: a China é neste momento o principal parceiro estratégico de Angola.  

Quais são as prioridades de Angola na relação com a China? 

A relação entre os dois países teve uma evolução. Há cerca de cinco, seis anos, Angola estava a desenvolver o plano de reconstrução nacional, que visava reedificar todas as infra-estruturas destruídas pela guerra civil. O processo terminou e agora entramos numa fase, sob o ponto de vista qualitativo, diferente, que passa pela recuperação com vista ao desenvolvimento económico do país. Um dos grandes objectivos é estimular o grande investimento de empresas chinesas para a exploração em conjunto das potencialidades que Angola oferece. É a prioridade de momento. 

O que tem sido feito nesse sentido? 

Neste âmbito, organizámos um fórum há um ano, na cidade de Yanzhou, onde tivemos a oportunidade de concentrar cerca de 150 empresas chinesas, que manifestaram disponibilidade em investir ou reforçar o investimento em Angola. Em 2019, organizámos também um roadshow para a licitação de cinco minas de minerais diversos. São iniciativas de extrema importância no estímulo de investimento chinês em Angola. Também em 2019, fizemos mais dois importantes eventos: a exposição sobre a cooperação entre a China e os países africanos, que teve lugar na China, e a exposição sobre importação e exportação, em Xangai. Angola deu grande importância a ambos os eventos. Esteve presente uma delegação com altos representantes do Governo angolano e empresários. À margem do evento em Xangai, organizámos um fórum económico no qual participaram empresas que já trabalham em Angola e outras que têm interesse no país. Foi mais uma oportunidade de as empresas que já estão em Angola partilharem a sua experiência.  

Que importância tem a relação com a China para o país? 

Temos direccionado a aposta para os sectores que são apontados como estratégicos pelo Governo angolano: agricultura, pescas, turismo, indústria. É a estes sectores que temos dado prioridade. Há um potencial muito grande e acreditamos que há boas oportunidades para que as empresas chinesas possam investir. Gostaria de destacar um processo que considero de extrema importância para empresas chinesas e não só: a privatização de cerca de 195 empresas estatais, de todos os ramos.  

Inclui a privatização de grandes empresas públicas? 

Por exemplo, inclui empresas que fazem parte do grupo Sonangol. A empresa bandeira de aviação angolana, a TAAG, também está neste processo. Já há um conjunto de propostas que estão a ser analisadas. E é aqui que se reflecte essa diferença qualitativa que falava a respeito da relação bilateral sino-angolana. Gostaríamos muito que as empresas chinesas, pelas capacidades que demonstram aos níveis financeiro e tecnológico, pudessem investir e cooperar no desenvolvimento económico e social de Angola.  

Que peso tem a relação com a China na economia do país? Quais são os valores e produtos ao nível das exportações e importações? 

Continuamos a ter como produto principal de exportação o petróleo. Existem outros, mas ainda têm uma presença muito residual. O nosso desejo é que se incremente a produção e que outros produtos – nos domínios agrário, das pescas, industrial – possam ser exportados para o mercado chinês. Em Setembro do ano passado, assinámos o acordo de adesão à iniciativa “Uma Faixa, Uma Rota”, e que vem alterar o paradigma de cooperação e de relação entre os vários países do mundo.  

Como olha para a iniciativa chinesa Uma Faixa, Uma Rota?   

Vários países [138 no total e 30 organizações] subscreveram a iniciativa. Gostaria de destacar a importância da política chinesa para alguns projectos que já existem, até no plano regional, na África Austral, da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral, que tem que ver com o domínio dos transportes e comunicação. Estes países trabalham arduamente em projectos de integração cada vez mais sólidos, que encaixam na perfeição naquilo que é o espírito da iniciativa “Uma Faixa, Uma Rota”. Encaramos com bastante seriedade a iniciativa. Temos a certeza de que vai contribuir de forma consistente para a cooperação e relação dos vários países no mundo. 

Que contributo tem o Fórum de Macau nas relações sino-angolanas?  

Do ponto-de-vista da relação política, da cooperação ao nível da lusofonia, Angola é um membro muito activo do Fórum de Macau. Neste quadro, temos procurado que se dinamize a cooperação entre os países e a China. Há um conjunto de factores que podem ajudar no desenvolvimento dos nossos países. Estamos a falar de Estados com níveis de desenvolvimento diferenciados. O Brasil tem um nível de desenvolvimento avançado, Portugal também, depois temos a China que é este grande gigante. Há um grande potencial, mas para que este leque de países possa cooperar, defendemos que os mais desenvolvidos, como Portugal e o Brasil, possam contribuir para o desenvolvimento institucional dos países menos desenvolvidos. É preciso que haja instituições sólidas, dinâmicas, para que todas as oportunidades que existam do ponto-de-vista económico e comercial possam ser bem aproveitadas.  

Qual é a dimensão da comunidade angolana na China?  

Devemos ter cerca de 600 nacionais angolanos tanto em Macau como no Interior do País. Cerca de 90 por cento são estudantes, alguns beneficiaram de bolsas concedidas a partir da cooperação entre os dois países. Temos também bolseiros de entidades não públicas chinesas e temos várias dezenas que estão a estudar na China às suas custas, porque reconhecem que existe um nível de conhecimento muito elevado e escolheram o país para se formarem. Além dos estudantes, temos uma comunidade não muito expressiva ligada aos negócios. A maioria está concentrada na cidade de Cantão, que também regista alguma dinâmica nesta cooperação bilateral. É uma cidade com uma importância muito particular, porque é o destino de muitos angolanos para aquisição de equipamentos e produtos para a sua actividade comercial.  

Ao nível das empresas, como tem evoluído a presença de entidades angolanas na China e vice-versa? 

Sentimos que há um grande interesse das empresas chinesas para investir em Angola. Estamos a trabalhar para difundir as oportunidades de investimento, mas também temos um projecto muito ambicioso de germinação entre cidades chinesas e angolanas. É um processo que devia ter sido reforçado em Janeiro, mas que não foi possível, porque, infelizmente, fomos assolados pela pandemia. Mas agora que a vida económica na China retoma a normalidade e volta à dinâmica anterior à Covid-19, iremos recuperar esta pasta para que possamos desenvolver a cooperação entre as cidades de ambos os países. Acreditamos que através deste projecto podemos levar muitas empresas a investir em Angola. Sentimos que a ideia foi bem-recebida pelas autoridades chinesas com as quais já tivemos a oportunidade de conversar. A cidade de Tianjin, por exemplo, onde já estive e me reuni com as autoridades, mostrou bastante interesse.  

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Relações à lupa 

Angola e a China são parceiros de longa data, com 36 anos de relações diplomáticas. O Presidente angolano, João Lourenço, fez, em 2018, duas visitas à China, sendo a primeira em Setembro, por ocasião da Cimeira China-África, e a segunda, no mês seguinte, numa visita de Estado, tendo em vista o reforço da cooperação bilateral. A China é o primeiro parceiro comercial de Angola e o primeiro importador de petróleo angolano. O volume de negócios entre os dois países atingiu, em 2019, 25.365 milhões de dólares norte-americanos. Dados oficiais confirmam que Angola é, desde 2007, o maior parceiro comercial africano da China, com quem coopera nos domínios, nomeadamente agrícola, académico, agroindustrial, infra-estrutural, petrolífero e tecnológico, entre outros. Estimativas da China Africa Research Initiative, da Universidade Johns Hopkins, mostram que Angola recebeu um total de 36,6 mil milhões de euros em crédito chinês desde 2000.  e conta com mais de 250 mil trabalhadores em Angola, sobretudo na construção e reparação de infra-estruturas, nomeadamente caminhos-de-ferro, estradas e habitações. A China é o país que lidera a lista de importações de Angola, seguida de Portugal, sendo também o principal destino das exportações angolanas. O petróleo, a base de sustento das receitas angolanas, é o principal produto adquirido por Pequim. 

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