Segunda-feira, Outubro 26, 2020
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Vender e comprar com consciência

Nos últimos anos têm surgido cada vez mais pequenas e médias empresas com negócios sustentáveis que visam a protecção do meio ambiente. O seu lema é promover a redução de consumo de materiais poluentes e lembrar que não há um planeta B 

Texto Andreia Sofia Silva 

Numa sociedade muitas vezes acusada de não dar atenção ao meio ambiente, pela ausência de políticas de reciclagem ou de redução de resíduos, há cada vez mais negócios ligados, precisamente, a uma maior consciência ambiental. São pequenas e médias empresas (PME) que querem apostar num nicho de mercado, apesar dos constrangimentos existentes com os elevados custos de operacionalização.  

Nas redes sociais o debate em torno da necessidade de assumir comportamentos mais amigos do ambiente é também cada vez mais frequente. Há vários grupos onde se partilham experiências, como levar as embalagens de casa na hora de ir às compras ou evitar comprar produtos feitos de plástico. No meio desta partilha, nasceram ideias que se transformaram em negócios.  

Criada em Dezembro do ano passado, a “Bottle Free Macau” opera com a instalação de máquinas de detergente da roupa para que se evite a compra de novas embalagens reduzindo, desta forma, o consumo de plástico. À MACAU, Mona, uma das fundadoras do negócio, explica como funciona um negócio que começou na Taipa, junto ao Jardim Cidade das Flores, e que pretende abrir mais 10 máquinas de venda de detergente ainda este ano, em diversos pontos da cidade.  

“O nosso conceito principal passa pela redução do uso de plástico. As pessoas acostumaram-se a utilizar produtos descartáveis, e de cada vez que compram produtos de limpeza estes vêm em embalagens de plástico, mas não existem opções de reutilização deste tipo de embalagens, então acabamos por as deitar fora”, explica.  Desta forma, a “Bottle Free Macau” surgiu como uma forma de levar detergente da roupa a zonas residenciais e áreas públicas para que as pessoas possam reutilizar velhas embalagens. “A forma de utilização é simples, pois basta seleccionar o tipo de produto que se quer no ecrã da máquina, escolher a quantidade, e temos várias opções, de 400ml a três litros, seleccionar o método de pagamento e colocar o recipiente vazia. Leva apenas alguns segundos e, desta forma, pode-se fazer uma contribuição para reduzir, de forma significativa, o consumo de plásticos.”  

A fundadora da empresa assegura que, até à data, o negócio tem corrido muito bem, sem necessidade de grandes investimentos ao nível da publicidade. “Desde o primeiro dia em que lançámos a nossa primeira máquina de venda de detergente, sem qualquer publicidade e apenas fazendo publicações num grupo de Facebook, tivemos centenas de partilhas e comentários. Temos ajudado a reduzir a utilização de embalagens de plástico, evitando que estas criem mais problemas ambientais.” 

Comer melhor  

No caso de Calista Chan, a abertura da loja de retalho “Concept H” surgiu depois de perceber que os seus hábitos diários, incluindo a alimentação, lhe poderiam causar problemas de saúde. “O nosso modelo de negócio é muito simples, e decidimos abrir uma loja de retalho num bairro antigo, onde vivem muitos idosos. Queremos promover, através da loja, uma ideia de consumo mais saudável ou amigo do ambiente, e também providenciamos serviço de entrega de comida vegetariana. Vendemos produtos para supermercados e cafés, promovemos cursos, palestras e workshops para as comunidades locais, bem como exposições itinerantes para funcionários de casinos, universidades e escolas.” 

A fundadora deste negócio garante que tudo é feito para “chegar a mais pessoas de Macau”. “Queremos passar mensagens de estilos de vida mais saudáveis para diferentes comunidades”, acrescentou.  O nome “Concept H” vem dos termos em inglês health (saudável), honest (honesto), no sentido de confiança nos produtos que são vendidos, e home (lar), a fim de levar “boas práticas às famílias”. “Achei que havia uma oportunidade no mercado, uma vez que, na altura, não havia muitas opções [no fornecimento de produtos saudáveis]”.  

A escolha da letra H relaciona-se também com a mãe natureza. “Como fiz estudos universitários na área do ambiente e, como ambientalista, acredito verdadeiramente que a saúde do planeta se relaciona directamente com a nossa saúde e o nosso comportamento afecta directamente o planeta. Há uma forte correlação e diria que desempenhamos o papel mais influente em todo o ecossistema.”  

Calista Chan já praticava desporto antes de abrir a “Concept H” quando percebeu que provavelmente estaria a fazer tudo errado no que à alimentação diz respeito. “Treinava para a maratona, fazia yoga e estava numa equipa de barcos-dragão, mas continuava a sofrer de obstipação e dores de estômago, então percebi que os meus hábitos alimentares estavam a trazer problemas ao meu corpo. Entre 2010 e 2014, alguns familiares foram diagnosticados com cancro e isso fez-me perceber o quão importante é ser saudável.” 

Ervas sustentáveis 

No caso de Guilherme Martins, o estabelecimento da Mighty Greens surgiu “numa tentativa de escapar ao mundo frenético em que vivemos, de maneira sustentável”, conta à MACAU. “Neste momento o projecto procura incentivar a futura geração a voltar-se para as coisas simples da vida, com um olho na terra, outro no futuro e nas novas tecnologias. A adesão e o interesse crescem organicamente de dia para dia, tal como a pequena semente foi crescendo lentamente.” 

A Mighty Greens aposta na plantação de micro-verdes, um “termo designado para os vegetais que estão num estado de crescimento juvenil, ou seja, aproximadamente entre os 5 a 20 dias após a sua germinação”. “Uma das razões pela qual o projecto consiste em crescer vegetais até esta altura da sua vida é o facto de conterem possivelmente 4 a 40 vezes mais nutrientes que na sua fase adulta. No caso do repolho roxo, por exemplo, 100 gramas de micro-verdes equivale a 103mg de vitamina C, em contrapartida, na sua fase adulta a mesma quantidade de gramas contém apenas 69 mg da mesma vitamina. A próxima vez que for a um restaurante, preste atenção aos vegetais mais delicados no seu prato. Um pequeno manjericão ou um rabanete são pérolas nutricionais.” 

A Mighty Greens funciona mediante encomendas e também promove workshops e iniciativas que ensinam a fazer este tipo de plantações. “Um dos desafios passa por ensinar a maravilha que é começar a plantar vegetais orgânicos no seu próprio domicílio da maneira mais sustentável possível. Já imaginou em apenas sete dias, após uma pequena plantação de brócolos na sua cozinha, fazer a colheita e alimentar a sua família, com a segurança de que o que está a comer não contém qualquer pesticida ou herbicida? Ou beber um shot de erva de trigo que equivale a um quilo de vegetais, ajudando a fazer um detox simples e rápido? É isto que o Mighty Greens procura fazer, incentivar as pessoas a fazer isto, e muito mais”, descreve o criador desta iniciativa. A Mighty Greens aposta também na bio-compostagem com a ajuda de minhocas, sem esquecer a produção de fertilizantes e sementes, tudo orgânico. 

Tudo a granel  

Para contrariar o popular uso de embalagens de plástico, Sou Chon Kit abriu a primeira mercearia do território onde tudo é vendido a granel. A mercearia Mai Lon foi inaugurada em Abril e funciona na rua Nova de São Lázaro. À MACAU, o fundador explicou que a ideia de abrir este negócio surgiu depois de uma acção de limpeza na praia. 

“A praia estava muito suja e cheirava mal, e havia plástico por todo o lado. Limpámos a praia durante cerca de cinco horas e recolhemos dezenas de embalagens de plástico vindas do mar. No entanto, um mês depois, voltei à praia e vi que esta estava novamente suja com embalagens de plástico. Nessa altura, senti que todo o meu esforço tinha sido em vão”, confessou.  

Depois de tentar convencer os amigos a mudarem de postura relativamente ao consumo e ao uso de embalagens plásticas, Sou Chon Kit soube da existência de lojas de venda de produtos a granel sem uso de sacos ou embalagens de plástico em vários países. “Vi que não havia nenhuma loja destas em Macau e decidi abrir o meu próprio espaço.” 

Apesar da determinação, o fundador da mercearia confessa que, no início, o negócio não correu pelo melhor, mas que isso está a mudar. “Quando abrimos a situação era fraca. Apesar de muitas pessoas estarem interessadas, havia poucos a implementar este conceito. Também não tínhamos muitos produtos. Mas, mais tarde, começámos a ter mais oferta disponível e os clientes começaram a habituar-se a este conceito de compras sem embalagens.”  

Sou Chon Kit adiantou que são os mais velhos que acabam por ser os mais curiosos. “Eles sentem dificuldades em comprar produtos sem sacos ou embalagens. Passo algum tempo a explicar-lhes a actual crise ambiental e os benefícios dos produtos orgânicos e aí eles gradualmente começam a trazer os seus sacos e embalagens de casa. Isso leva-me a crer que tenho sido bem-sucedido.” 

Apesar de não considerar este tipo de negócio uma tendência, mas sim uma atitude de cada cidadão, Sou Chon Kit acredita que continua a ser muito difícil educar as pessoas para que usem menos plástico. “Se os produtos apenas tiverem uma embalagem muito básica, é necessário muito tempo para explicar isso a fornecedores e clientes.” 

Apesar dos desafios diários de manter uma mercearia amiga do ambiente, Sou Chon Kit gostaria de expandir a Mai Lon. “Quero abrir mais lojas para que as pessoas possam ter uma vida mais sustentável. Também espero poder cooperar com as escolas e ensinar as próximas gerações através de actividades como a limpeza das praias”, frisou.  

Maior consciência  

Calista Chan confessa que, à medida que foi mantendo as portas abertas do seu negócio, foi notando um maior aumento da consciência ambiental da população de Macau. Acontece que a maioria simplesmente não sabe como começar a reciclar ou usar menos recursos.  

“À medida que fomos percebendo que as pessoas estão mais conscientes sobre a questão ambiental, começámos a utilizar mais produtos verdes como material reutilizável. Penso que a maior parte das pessoas conhece a importância de viver de forma mais sustentável, mas a maior parte não sabe como deve fazê-lo.” 

“Quando fazemos entregas, encorajamos os nossos clientes a trazerem os seus próprios recipientes, e também comprámos em Hong Kong copos e embalagens biodegradáveis. Alguns clientes propuseram-nos alguns descontos caso tragam as suas próprias embalagens. Em 2017, cobrávamos uma pataca por cada saco, o que se transformou numa medida de sucesso para pouparmos muitos sacos de plástico.” 

Essa política de taxação sobre os sacos plásticos foi implementada recentemente pelo Governo da RAEM para todo o comércio a retalho. Calista Chan acredita, porém, que muitas pessoas ainda pensam que essa “não é uma grande questão, ou há mesmo pessoas a pensar que se trata apenas de uma moda”.  

Mona, co-fundadora da “Bottle Free”, destaca o facto de o Governo da RAEM ter já algumas medidas implementadas no que toca à sustentabilidade, uma vez que os negócios que aderem à reciclagem podem pedir apoio financeiro para a compra de equipamento para essa finalidade. “Ainda assim, penso que podemos investir mais recursos para educar as pessoas para que estas usem menos plásticos. Temos de nos focar no gasto de resíduos e acreditamos que o nosso Governo pode fazer isso, e as pessoas estão dispostas a fazê-lo.” 

Calista Chan acredita que a comunidade local tem ido por um bom caminho. “A sociedade está preparada para o próximo passo em termos de regulação, tal como banir produtos descartáveis ou implementar um sistema de reciclagem. Alguns voluntários começaram a criar pontos de reciclagem nos parques, e têm sido bem-sucedidos no último ano”, rematou a fundadora da Concept H.  

Joe Chan, activista ambiental, sugere a redução de impostos para este tipo de negócios, a fim de facilitar o processo de importação de produtos. Isto porque “o preço de muitos produtos amigos do ambiente continua a ser relativamente mais alto se compararmos com outros, uma vez que as empresas ou quintas de produção orgânica investem mais para não usarem químicos poluentes e para darem melhores condições aos agricultores”.  

Mais educação precisa-se  

Apesar das dificuldades, Joe Chan tem notado que, nos últimos cinco anos, têm surgido em Macau mais negócios ligados a esta área, além do mercado de clientes estar a ficar cada vez maior. Contudo, muitos deles sofrem constrangimentos.  “A maior parte dos negócios tem passado por desafios para se manter. Muitos [empresários] desistiram e passaram a operar online para reduzir os custos de operação.” “Há uma pequena percentagem de negócios que estão ligados à sustentabilidade. Isso deve-se ao facto da nossa população ser mais pequena se compararmos com outros locais, além de que há uma pequena parte das pessoas que estão conscientes dos conceitos ecológicos, o que faz com que o mercado seja muito pequeno para as empresas sustentáveis que queiram operar em Macau”, frisou Joe Chan.  

Apesar de Macau ter hoje mais negócios verdes do que no passado, e mesmo com a implementação de uma taxa sobre o uso de sacos de plástico, aceite por uma grande maioria da população, na opinião de Joe Chan é preciso apostar mais na educação. “Há falta de legislação que motive as pessoas a mudarem a sua forma de fazer compras, uma vez que a maioria se preocupa mais com o preço do produto do que com a efectividade do mesmo, já para não falar do impacto que este tem para o meio ambiente.” 

A educação de que fala o activista poderia servir também para uma maior transparência entre produtores, vendedores e consumidor final, uma vez que, aponta, muitos de nós não sabemos o que estamos verdadeiramente a comer ou a usar. Ao termos mais educação neste âmbito, poderemos procurar alternativas. “Quanto mais conhecermos os riscos mais teremos capacidade para comprar produtos que até podem ser mais caros, mas que são melhores para o nosso corpo e para o ambiente.” 

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Os dados do ambiente em 2019  

  • Qualidade do ar no nível “bom” e “moderado” registada em 89 por cento dos dias do ano em 2019, uma diminuição face a 2018 
  • Concentrações médias anuais de partículas PM10 e de PM2.5 registadas nas estações de monitorização de qualidade do ar reuniram os valores padrões, mostrando uma tendência de descida 
  • Taxa de recolha de resíduos recicláveis de 16,8 por cento, inferior a 2018 
  • 73.2 dB (A) foi o nível de ruído registado, em média, na Estação da Avenida de Horta e Costa, considerado o mais alto de entre todas as estações  
  • O Governo gastou do orçamento público 1,7 por cento na área da protecção ambiental  
  • Mais 5,3% de resíduos sólidos urbanos produzidos face a 2018  
  • Mais 4,3% de electricidade consumida em 2019 face a 2018, num total de 5549 milhões de KWh 
  • Mais 2,1% de água facturada face a 2018, num total de 92.815 milhões de metros cúbicos  
  • Subida de 5,3% do consumo de energia por unidade do PIB em relação a 2018, devido à subida do consumo final de energia e descida do PIB 
  • 86% da energia eléctrica consumida foi adquirida ao exterior 

Fonte: DSPA, Relatório do Ambiente 2019 

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MIECF, uma feira onde o ambiente tem a palavra  

Constituindo uma prova em como Macau quer ter uma palavra a dizer em prol de melhores práticas ambientais, é organizado, todos os anos, o Fórum e Exposição Internacional de Cooperação Ambiental de Macau (MIECF, na sigla inglesa). Este ano iria decorrer a 13.ª edição, mas devido à pandemia da Covid-19, o Instituto de Promoção do Comércio e Investimento de Macau (IPIM) decidiu cancelar a realização do evento, marcada para Março. Em 2019 o MIECF contou com a presença de várias personalidades internacionais que fazem do meio ambiente a sua luta e profissão, como é o caso de Pimenta Machado, vice-presidente da Agência Portuguesa do Ambiente, que participou no painel “Soluções para o Desenvolvimento Verde: Água Limpa”, ao lado de um outro português, Rui Cernadas, do grupo ECOserviços. De Timor-Leste veio Demétrio Amaral de Carvalho, que discursou ao lado de António Trindade, CEO da CESL-Ásia, além de governantes de Macau e de Hong Kong. O programa da 12.ª edição do MIECF esteve focado no projecto da Grande Baía Guangdong-Hong Kong-Macau e na cooperação com os países de língua portuguesa.  

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