Segunda-feira, Outubro 26, 2020
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As árvores que viram crescer Macau

Há mais de meio milhar de árvores com o estatuto de antigas e preciosas e a maior parte ostenta uma história que atravessa bem mais do que um século. Testemunharam o crescimento fulgurante da cidade, sobreviveram ao desenvolvimento urbano e são, à sua maneira, testemunhos vivos da memória de Macau. Desde há quatro anos estão protegidas pela Lei do Património Cultural para que, mais do que um testemunho do passado, possam ser também um legado com futuro 

Texto Marco Carvalho | Fotos IAM

Em Macau não há árvore que não tenha a sua própria história para contar, mas num território com uma gesta que se prolonga por quase cinco séculos algumas são mais eloquentes do que outras. Em 2012, o Departamento de Zonas Verdes e Jardins do então Instituto para os Assuntos Cívicos e Municipais (IACM) conduziu, em colaboração com especialistas do Jardim Botânico do Sul da China, de Cantão, um levantamento exaustivo de uma realidade muito específica, a das árvores antigas de Macau. Os especialistas avaliaram factores como a idade, a relevância histórica ou cultural, as características físicas, a altura ou a dimensão da copa. 

Na altura, os investigadores identificaram um total de 795 exemplares que definiram preliminarmente como árvores com interesse patrimonial. Localizadas tanto em zonas públicas como em espaços privados, os espécimes pertenciam a 63 espécies.  

Noventa e oito por cento dos exemplares identificados à época caiam na categoria das árvores antigas de terceira classe, ou seja, exemplares com idades compreendidas entre os 100 e os 299 anos. “A 31 de Dezembro de 2019, data em que foi publicada a lista mais recente relativa às árvores antigas, existiam em Macau 521 árvores, protegidas pelo estatuto de árvores antigas e patrimoniais”, explica Ung Sio Wai, chefe da Divisão de Espaços Verdes do Instituto para os Assuntos Municipais (IAM). “O número de árvores protegidas caiu. A primeira lista abrangia 555 árvores antigas. A redução ficou a dever-se à passagem do tufão Hato, mas também a pestes e a doenças.” 

Antes ainda desse levantamento ter dado origem ao registo “das árvores antigas e preciosas”, as conclusões do exaustivo estudo foram compiladas numa obra tida como fundamental por arboristas e por entusiastas da conservação das espécies. Publicado em 2013 pelo IACM, O Charme das Árvores Antigas é o mais próximo que Macau tem a um guia sobre a diversidade da flora de grande porte.  

Com algumas especificidades em relação às regiões vizinhas – a prevalência das falsas figueiras-do-pagode é a mais significativa – a preservação de algumas das espécies que constam da lista definida pelo IAM – como a descomunal Michelia champaca ou a Plumeria rubra – estiveram sempre muito dependentes do contexto cultural ou mesmo religioso em que pontificam. Locais como templos, igrejas ou cemitérios ajudaram à preservação de exemplares investidos pela população com um grande significado espiritual: conhecidas pela beleza da sua floração, tanto a Michelia champaca como a Plumeria rubra são relativamente frequentes nos jardins dos templos budistas.  

Desde 2004 que o IACM primeiro, e o IAM depois, recorrem ao Sistema de Manutenção e Gestão de Árvores para recolher dados e inventariar todas as árvores existentes na cidade. Até ao início de 2018, o sistema continha informação sobre mais de 25 mil exemplares, mas muitas ainda não estão inventariadas. “O IAM gasta mais ou menos cinco milhões de patacas anualmente com as árvores e as zonas verdes de Macau. Estamos a falar de um universo de cerca de 100 mil árvores”, quantifica Ung Sio Wai. 

Apesar do cuidado que o IAM coloca no acompanhamento e na manutenção das árvores antigas, a perda de exemplares prefigura-se como um mal difícil de evitar. A lista publicada em Outubro de 2016 – e que dava conta da existência de 558 árvores antigas e valiosas em espaços públicos e de 170 em áreas privadas – registava menos 67 espécimes do que os que pontificavam em 2013 no livro O Charme das Árvores Antigas. Em apenas três anos, Macau perdeu quase sete dezenas de árvores monumentais. “Há duas ameaças principais à estabilidade destes exemplares. Uma são os tufões. Outra são doenças, como a podridão radicular. Se as árvores forem acometidas por esta doença deixam de ter capacidade para absorver água e apodrecem”, clarifica o responsável do IAM. 

Dez meses depois da lista ter sido publicada, em Agosto de 2017, o tufão Hato danificou 40 outros exemplares. Nove tiveram de ser abatidos. “Os tufões mais fortes são uma ameaça, sobretudo para as árvores em áreas abertas e expostas. O mesmo acontece para as árvores que crescem num ambiente pobre, por exemplo com espaço limitado para o desenvolvimento das raízes”, adianta Ken So Kwok-yin, director executivo da The Conservancy Association, a mais antiga organização de cariz ambiental de Hong Kong. 

“As condições meteorológicas extremas, como, por exemplo, dias mais quentes, podem favorecer pestes e outros patógenos e encurtar o ciclo de vida das árvores, uma vez que vão colocar em cheque o seu sistema de defesa. Essas condições extremas podem aumentar a exposição a pragas e a infestações e as infecções podem tornar-se mais frequentes”, complementa o ambientalista. 

Os tufões são uma ameaça séria, mas não são o principal inimigo. Esse estatuto tem pertencido ao longo da última década, e de forma incontestada, à podridão radicular, de que fala Ung Sio Wai. A doença – muitas vezes chamada de “cancro das árvores” – obriga todos os anos o IAM a remover mais de duas centenas de árvores na Colina da Guia. “No caso de Hong Kong, de Macau e de Taiwan, a podridão radicular, causada pelo fungo Phellinus noxius, é uma das ameaças mais significativas. É uma doença que teve um impacto muito sério ao longo dos últimos 10 anos e que matou muitas árvores, incluindo árvores antigas e preciosas”, explica Ken So Kwok-yin. 

A praga, que se espalha através das raízes, foi ainda responsável pela morte do pé de canela-da-Indonésia que se encontrava no Jardim da Casa Memorial de Sun Yat-sen, e das famosas figueiras interligadas, conhecidas como “árvore dos amantes”, que foram durante décadas uma das principais atracções do Templo de Kun Iam. 

Com uma elevada incidência nas regiões tropicais e subtropicais, a infecção ainda não tem cura, mas as autoridades do território têm vindo a colaborar com o Instituto de Investigação em Arquitectura Paisagística de Cantão com o propósito de combater a doença. O organismo identificou certos fármacos que surtiram efeitos positivos em testes conduzidos em ambiente laboratorial.  

Sombra, história e majestade 

Das 558 árvores listadas como antigas e preciosas, 555 têm uma história de vida que se prolonga por mais de um século. As outras três são consideravelmente mais jovens, mas entraram no acervo por terem sido plantadas pelos dois primeiros Chefes do Executivo da RAEM – Edmund Ho Hau Wah and Chui Sai On. 

“Há uma série de critérios que podem fazer com que uma árvore seja abarcada pelo estatuto de árvore antiga ou preciosa. O mais imediato e mais frequente é a idade. Numa boa parte dos países e territórios, uma árvore que tenha mais de 100 anos é candidata a esse estatuto. Mas a idade não é um critério único”, explica Chi Yung Jim, professor de Geografia da Universidade de Hong Kong. “Há factores históricos intrínsecos que podem levar à classificação de uma árvore como antiga ou preciosa. Basta, por exemplo, que tenha sido plantada por uma personalidade relevante do contexto histórico e cultural de determinado país ou região”, complementa o académico. 

É esse o caso com as três jovens árvores que completam o registo das “árvores antigas e preciosas” de Macau. A 1 de Janeiro de 2000, pouco mais de 10 dias após a fundação da RAEM, Edmund Ho Hau Wah plantou no Jardim Comendador Ho Yin uma Magnolia alba, num tributo ao seu pai. O primeiro líder da RAEM subiu a colina da Taipa Pequena para ali deitar à terra um exemplar de Machilus chinensis, espécie autóctone das regiões meridionais da China conhecida pelos arboristas como pelo nome Machilus de Hong Kong.  

O exemplar precioso mais jovem a ser adicionado à lista é outro espécime de Machilus chinensis plantado, também na Taipa Pequena, Chui Sai On, no primeiro ano do seu mandato como líder do Governo.  

Para além de reforçarem a nova identidade política do território, os gestos revestem-se de uma outra função. Ajudam a garantir que o registo das “árvores antigas e preciosas” de Macau não seja apenas um testemunho do passado, mas também um legado com futuro. “A única forma de evitar o desaparecimento das árvores antigas e preciosas passa por cuidar e proteger as árvores que estão melhor posicionadas para atingir esse estatuto”, esclarece Chi Yung Jim. “Se uma nova geração de árvores não for protegida, pela experiência que temos em Macau e em Hong Kong, onde as árvores raramente atingem mais do que 200 anos, é uma questão de décadas até que estes exemplares monumentais que ainda restam desapareçam um por um.” 

A ideia de proteger a pensar no futuro não é, de resto, uma novidade. No Interior do País, lembra Ken So Kwok-yin, o quadro legal já abrange o conceito de “árvores protegidas por antecipação”: “Há a ideia de que há árvores que, mesmo ainda não tendo atingido uma idade provecta ou não tendo por agora particular valor, devem ser protegidas porque o mais provável é que venham a atingir esse estatuto. As medidas de protecção também abrangem estas árvores, na perspectiva da sustentabilidade deste tipo de recursos”, esclarece o director executivo da The Conservancy Association. 

Grande parte das árvores mais antigas de Macau está concentrada no Jardim de Camões, onde, segundo o IAM, está plantada uma ameixoeira de Java (Syzygium cumini) com mais de 300 anos. As ameixoeiras de Java não estão entre as espécies antigas e preciosas mais frequentes no território. A falsa figueira-do-pagode (Ficus rumphii) é aquela que tem uma presença mais visível na lista, que conta ainda com um número significativo de bridélias, de espinheiros-da-Índia, de longanes e de canforeiras. “As mais frequentes são mesmo as Ficus rumphii, sendo essa a espécie mais comum em Macau”, confirma o chefe da Divisão de Espaços Verdes do IAM.  

Muito comum em Hong Kong e na província de Guangdong, a figueira asiática (Ficus microcarpa) – também conhecida como árvore do pagode – tem em Macau uma presença mais rara. “Essa espécie é muito semelhante à Ficus religiosa e essa semelhança explica por que razão estas árvores eram muitas vezes plantadas por equívoco nos templos ou nas imediações dos templos. Esse, no entanto, nem sequer é o caso em Macau, onde os exemplares monumentais de Ficus rumphii estão situados na berma da estrada e dos arruamentos. Nos templos é raro encontrar exemplares. De resto, a grande fatia das árvores antigas está situada nas vias públicas”, aponta Chi Yung Jim, co-autor de um estudo sobre as árvores antigas e preciosas de Macau. 

É em Coloane que se conserva o maior número de exemplares protegidos, ao passo que na península os espécimes incluídos no registo do IAM abundam, sobretudo, na Colina da Guia, nos jardins de Camões, da Flora, da Montanha Russa, de Lou Lim Ieoc, de São Francisco e no espaço envolvente à Fortaleza do Monte. Também estão presentes nos passeios das mais emblemáticas ruas de Macau, como a Avenida da Praia Grande, a Avenida Almirante Lacerda ou a Avenida da República. 

Na Taipa, é na zona do Carmo e das Casas-Museu que se encontram alguns dos exemplares mais majestosos e melhor conservados do território, num corredor verde que se estende até às antigas instalações da Fábrica de Panchões Iec Long e se prolonga, depois, pelas zonas húmidas da antiga Baía de Nossa Senhora da Esperança. 

Aquela que é, possivelmente, a árvore mais antiga de Macau, com quase 500 anos, integra o conjunto patrimonial do Templo de Kun Iam. Em 2016, quando a lista das “árvores antigas e preciosas de Macau” foi publicada, o IACM propunha-se colaborar com o Instituto Cultural com o propósito de recolher dados sobre 170 outros espécimes localizados em espaços privados.  

A criação do registo das “árvores antigas e preciosas” está alicerçado na Lei do Património Cultural e é avaliada e actualizada pelos departamentos públicos com autoridade para proteger as árvores em Macau. Os donos, zeladores ou gestores das propriedades onde estas árvores se encontram têm a obrigação legal de as proteger. O regulamento administrativo que consubstanciou a criação da lista define que qualquer actividade que possa danificar, destruir ou comprometer a subsistência das árvores deve ser comunicada ao Instituto Cultural ou a qualquer outra entidade pública responsável pela supervisão dos exemplares protegidos.  

Ainda assim, a lei nem sempre é suficiente para evitar que árvores que viram Macau crescer ao longo dos séculos escapem ao abate. “As árvores são normalmente abatidas quando o IAM considera que a árvore pode causar perigo ao público ou a estrutura já não é estável. Quando isto acontece, a possibilidade de abate é ponderada”, explica Ung Sio Wai. “No Jardim de Lou Lim Iec, por exemplo, havia uma falsa figueira-do-pagode que o IAM conseguiu, numa primeira intervenção, poupar ao abate. Mas a estabilidade da árvore acabou por se deteriorar e dois anos depois teve de ser abatida”, lamenta o responsável do IAM.  

Resistentes na selva urbana 

Num estudo publicado em 2017 – meses antes do tufão Hato – Chi Yung Jim e Allen Hao Zhang colocavam o número de árvores com interesse patrimonial de Macau nas 793, tendo por base o levantamento feito cinco anos antes pelos especialistas do Jardim Botânico do Sul da China. Apesar de a quantidade de exemplares ser substancial para um território de dimensão tão reduzida, a generalidade das árvores antigas não são assim tão longevas, considera Chi Yung Jim: “Com a longa história de Macau, seria de se esperar que fosse possível encontrar exemplares com uma idade mais avançada e não é o caso. Quando falamos de árvores antigas no contexto de Macau, estamos a falar de árvores com 100, 120 anos”, ilustra o professor de Geografia da Universidade de Hong Kong. “A quase ausência de árvores com uma idade mais provecta acaba por reflectir um dos principais problemas que as árvores com um valor patrimonial enfrentam: a enorme pressão a que estão sujeitas devido ao acelerado desenvolvimento urbano”, complementa o académico. 

Os investigadores, que compararam a realidade dos ecossistemas urbanos de Macau com os de Cantão e Hong Kong, procuraram avaliar os exemplares existentes no território em relação a quatro aspectos. Abordaram características como a diversidade das espécies, a sua distribuição espacial, a dimensão, idade, conservação e os habitats em que subsistem, tendo por base características como os atributos das árvores ou a natureza dos lugares onde estavam situadas. “O mais das vezes estas árvores são peças centrais de um ecossistema, abrigam e interagem com outras espécies vegetais, servem de habitat a répteis, aves e a pequenos mamíferos. Para além da importância biológica, há ainda exemplares que se revestem de importância cultural e religiosa, como é o caso da figueira-do-pagode, a árvore debaixo da qual Siddharta Gautama, de acordo com a tradição budista, alcançou a iluminação”, observa Chi Yung Jim. 

Os dois investigadores chegaram à conclusão de que o universo das “árvores antigas e preciosas” é relativamente diversificado em Macau, abarcando 63 espécies distintas, mas nota-se a prevalência de quatro espécies dominantes, dentre as quais a falsa figueira-do-pagode (Ficus rumphii) é a mais abundante. 

Mais raros e menos disseminados, os exemplares monumentais de espécies como a figueira-asiática (Ficus microcarpa), a canforeira (Cinnamomum camphora) ou o longane (Dimocarpus longan) são também relativamente vulgares. “No caso de Hong Kong , a Ficus microcarpa – espécie também conhecida como banyan chinês ou figueira-asiática – é a mais frequente quando falamos de árvores antigas e preciosas. É uma espécie nativa da China e da faixa tropical da Ásia, onde é relativamente abundante. No caso específico de Macau, há uma particularidade que eu não consigo explicar e que é a predominância, entre as árvores antigas, da Ficus rumphii”, explica Chi Yung Jim. 

Outra conclusão que salta à vista tem a ver com a saúde e o estado de conservação dos exemplares situados nos passeios e na berma da estrada, que é notoriamente mais frágil do que a dos exemplares situados em jardins públicos, em igrejas ou em templos. “O alargamento e a expansão das ruas, por um lado, e a construção em altura, por outro, limitam o acesso das árvores a elementos essenciais como a água ou a luz. Com as raízes contidas e a expansão limitadas pelo betão, pelo alcatrão e por outro tipo de barreiras artificiais, as árvores perdem vitalidade e estão mais sujeitas a pestes e a doenças”, aponta o académico da Universidade de Hong Kong. 

O padrão, sugerem os investigadores, espelha uma relação muito próxima entre as características físicas dos espécimes e o tecido urbano da cidade e providencia pistas sobre as estratégias de conservação de árvores de interesse patrimonial e a gestão do espaço urbano, com uma história e uma estrutura urbana similar à de Macau. 

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