Segunda-feira, Janeiro 25, 2021
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A arte que dá cor às ruas

Preferem paredes a telas, ruas a galerias e estética a mensagem. São conhecidos como graffiters e hoje, aquilo que fazem, é considerado arte. Em Macau, o graffiti começou a ganhar espaço, mas de forma tímida. Hoje há cada vez mais cor nas paredes e nos muros da cidade

Texto Catarina Brites Soares | Fotos Gonçalo Lobo Pinheiro

Pat Lam é o graffiter mais conhecido na cidade. As tags e desenhos do artista de 35 anos são fáceis de encontrar, sobretudo em Macau, mas também estão presentes na Taipa e em Coloane. O talento valeu-lhe o reconhecimento público. Além do que faz por iniciativa própria, já desenvolveu projectos de arte urbana para governos e entidades privadas locais e de fora.

O interesse pela street art começou aos 13 anos, depois de ver um grupo de adolescentes portugueses a fazer graffitina rua. Já pintava e desenhava, mas apenas no papel. “A forma de desenhar era completamente nova para mim. Foi uma porta para um mundo artístico novo”, conta à MACAU Pat Lam, conhecido como PIBG (iniciais de ‘pat is bombing graffiti’) – bomb é o termo usado para cobrir uma área de graffiti.

Disléxico, sem grande talento para os estudos, encontrou a expressão que procurava na pintura, que deixou de ser suficiente na sua forma mais tradicional. O espaço que lhe faltava na tela e no papel, encontrou-o no graffiti, a fórmula perfeita por juntar criatividade e acção. “Sou muito activo e pintar no papel começou a tornar-se aborrecido ao contrário do graffiti, que requer movimento. É completamente diferente. Pintar na rua é mais desafiante. Senti que estava a explorar uma área nova.”

Foi por causa de PIBG que Carl começou a interessar-se pela street art. “É o graffiter mais conhecido e mais sénior de Macau. Tudo começou no secundário. Levou-me a um espaço abandonado e foi quando fiz o meu primeiro graffiti. Desenhei umas letras. Nunca me vou esquecer”, recorda.

Foi assim o início da amizade que acabaria em parceria. Em 2019, por exemplo, voltaram a pintar juntos, mas desta vez no evento “Don’t think, just paint”, quando PIBG convidou vários artistas locais e de fora a pintar uma parede no Pátio da Claridade, uma referência da arte urbana no território.

“Há uma diferença entre criar algo que depois vai ficar numa galeria ou noutro espaço privado, onde apenas uma minoria tem acesso, ou ter um trabalho numa zona pública, onde toda gente pode apreciar”, sublinha Carl, valorizando o papel da arte urbana, que teve origem nos Estados Unidos na década de 1970, e que designa manifestações artísticas que têm lugar no espaço público.

As ideias vai buscá-las à Internet, ao trabalho de outros artistas, no fundo a tudo o que o rodeia. Até às embalagens de marcas, a que presta atenção para ver como combinam forma e cor. Tudo serve de inspiração a Carl, cujo interesse pelo graffiti e arte urbana começou em criança, muito antes de se inaugurar nas paredes.

Foi também jovem que Kelvin Mac começou. Estreou-se com a ajuda de um colega, a quem via desenhar a tag no caderno da escola com frequência e pediu que o ensinasse. “Gosto de arte e de desenhar, mas não gosto da forma tradicional de o fazer, em tela ou pintura a óleo”, refere o graffiter de 33 anos e que trabalha num restaurante a tempo inteiro.

Estética Vs. mensagem

Kelvin Mac, com a tag K3LL, confessa que não tem pintado muito nos últimos anos. Quando dedicava mais tempo ao graffiti, chegou a fazer trabalhos para o Instituto Cultural, Serviços de Turismo, Instituto para os Assuntos Municipais, entre outras entidades públicas e privadas. “Não procuro transmitir uma mensagem. A minha preocupação é apenas a estética, ou seja, a cor, a forma, o grafismo, a grafia.”

O mesmo acontece com Carl. “Por norma, a street art é feita em zonas com movimento e muita agitação. A arte urbana tem de procurar estar integrada nesse ambiente. O graffiti acaba por provocar um certo stresse visual nas pessoas que já estão expostas a tanto ruído.”

Também foi assim com PIBG durante algum tempo. No início, limitava-se a desenhar a tag, sem mais pretensões. Só procurava aperfeiçoar a assinatura e pintá-la de várias formas. À medida que foi crescendo, mudou. “Decidi que queria explorar outras vias e passei a fazer trabalhos com significado”, realça o artista, que gosta de explorar o tema da aliança entre o homem e o animal.

À MACAU explica que, por norma, quem faz street art começa pela tag e, com a experiência, opta por um de dois caminhos: o do writer ou o do desenhador.

Ao writer, continua, apenas lhe interessa a letra, encontrar um estilo e uma grafia que o distinga. “Nunca mostram quem são, apenas querem que se saiba e se conheça a sua tag, o nome. Procuram quantidade, querem que a tag esteja espalhada o mais possível”, explica.

Já o desenhador procura qualidade. “Depois há os artistas que se identificam com ambos, que é o meu caso. Muitas vezes só pinto a tag, outras vezes faço desenhos.”

As ruas da arte

Os lagos de Nam Van, vários espaços na Taipa e em Coloane, como as fachadas de muitos edifícios na zona das vilas, são alguns dos pontos onde a assinatura e os desenhos de PIBG se encontram, depois de ter sido convidado pelo Governo, com quem também já cooperou para o Festival de Luz.

A estes juntam-se trabalhos para a Transmac, para a qual pintou alguns dos autocarros públicos; a DIOR, com quem continua a colaborar; e outros projectos no Interior do País, a convite dos governos regionais. A parede gigante que coloriu em Foshan é um dos exemplos que realça. Já teve também oportunidade de mostrar a sua arte no estrangeiro. A convite da associação “Meeting of Style” fez, por exemplo, trabalhos em Copenhaga, capital da Dinamarca.

Enquanto mostra fotos dos projectos, não contém o desabafo: “Gosto da aventura e da adrenalina associadas à arte de rua. Faz parte, e é por isso que a rua continua a ser o espaço onde mais gosto de desenhar. Adoro ir a fábricas abandonadas, onde não há ninguém, e de ficar lá a pintar”. O hobbie é antigo, começou na infância quando começou a procurar zonas onde pudesse dar azo à imaginação sem constrangimentos.

Leva as tintas agarradas ao cinto com uma câmara portátil no capacete para gravar o processo criativo que tem lugar depois de trepar edifícios abandonados. É lá no cimo que dispara os sprays que dão forma à ideia que já leva na cabeça.

Mostra mais uma foto das centenas que guarda no telemóvel para registar os trabalhos e diz: “Fiz este depois do devastador tufão Hato. Estava angustiado com a situação e queria fazer algo. Só me restava recorrer à arte para animar as pessoas e desenhei isto: “home” e “hope”, que significa “There is hope when there is home” [Há esperança quando há um lar], por debaixo da ponte. Escolhi aquele sítio porque toda gente passa por ali e podia ver”, descreve, referindo-se ao graffiti na parede de cimento que se vê da Ponte Nobre Carvalho, onde as palavras “hope” (esperança) e home (lar) se sobrepõem.

Exemplos de fora

O momento, acredita, foi oportuno pelo contexto, mas também porque hoje a população local é mais receptiva à forma de arte. Pat Lam diz que as pessoas, em geral, não sabem distinguir graffiti de outras formas de arte urbana, mas já consideram que o graffiti é uma mais-valia para a cidade. “Houve uma mudança de mentalidade. Mas falta gente nova a fazê-lo. Somos os mesmos de sempre. Acho que a falta de interesse se deve à mentalidade asiática: não dá dinheiro. A maioria pensa como poderia sobreviver a partir disto.”

Kelvin concorda que a mentalidade mudou. “Hoje já se reconhece que o graffiti é arte”, sublinha. “Durante muito tempo, apenas se pensava que estávamos a danificar o espaço público.”

A globalização e a Internet, acrescenta Carl, ajudaram a que a expressão artística se espalhasse e fosse aceite, tanto em Macau como no resto do mundo. “Actualmente, a maioria das pessoas já aprecia. Já aparece em actividades públicas, videoclipes, produtos, e até é usada como design e forma de decoração de interiores. É cada vez mais valorizada.”

O artista assume, no entanto, que a subcultura – de que o graffiti faz parte – apareceu tarde e demorou a desenvolver-se em Macau face a outros territórios, como as cidades do Interior do País e aos vizinhos Hong Kong, Taiwan . “Sempre foram um exemplo que seguimos de perto. Aqui também nos temos esforçado para promover o graffiti e outras formas de arte urbana para que os artistas locais possam ser reconhecidos internacionalmente como os dessas regiões.”

A falta de espaço, aponta Kelvin, é um dos obstáculos para que a arte urbana não tenha a mesma dimensão: “Sem paredes não há graffiti e Macau não tem assim tantas ou outros espaços públicos onde possamos pintar. Há muitas limitações.”

Os meios e recursos, como o espaço, também são referidos por PIBG, que salienta que a street art, ao contrário do que acontece em Macau, é muito conhecida e apreciada no Interior do País assim como no resto da Ásia. “Só no ano passado, houve mais de 380 eventos relacionados com arte urbana na China, o que dá uma média de um evento por dia. Foram convidados vários artistas norte-americanos, ingleses e de outros países, os melhores do mundo, para desenvolverem projectos”, elogia.

Também ele teve experiências além-fronteiras similares, individualmente e com o grupo GANTZ5, que criou em 2004 com mais quatro graffiters, que se tornaram amigos pelo interesse em comum. “Começámos a fazer projectos em grupo e a ficar conhecidos, e foi assim que nos começaram a convidar para desenvolver trabalhos lá fora, em cidades chinesas, em Hong Kong eTaiwan , onde participámos em festivais e eventos de arte urbana. Estivemos em Pequim, por exemplo, numa exposição no 798 [bairro artístico]. Também estivemos em Taiwan para uma colaboração com várias marcas, e em Macau, como grupo, colaborámos com o Governo, por exemplo, com trabalhos para museus”, exemplifica.

“Não há limites para o que um artista pode mostrar nas ruas. Às vezes implica pequenos atropelos à lei, uma dimensão mais transgressora, mas tudo isso faz parte e é importante perceber que nem sempre é assim. Há muita arte urbana que é concessionada e legal”, sublinha Carl, que reforça que o objectivo primordial da arte urbana é justamente sair dos lugares convencionais destinados à exposição e apresentações artísticas como espaços culturais.

A preocupação do artista de rua é que a arte seja o mais acessível possível e é, por isso, que preferem as ruas aos teatros, cinemas, bibliotecas e museus.

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