Terça-feira, Abril 20, 2021
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Música Ritual Taoista: preservar a singularidade de Macau

É uma das 55 novas tradições culturais que passou a fazer parte do património intangível de Macau, alargado pelo Instituto Cultural em Julho. A música taoista, elemento fundamental das cerimónias taoistas, foi desaparecendo com o desenvolvimento da cidade. O objectivo é inverter a tendência. A presença de mais de 200 anos no território fez com que aqui surgisse um estilo próprio

Texto Catarina Brites Soares | Fotos Gonçalo Lobo Pinheiro, Instituto Cultural e Associação Taoista de Macau

A música ritual taoista é um dos elementos indispensáveis nas cerimónias taoistas. O documento sobre a tradição do Instituto Cultural (IC) refere que a música remonta ao período das Dinastias do Norte e do Sul (420-589), conhecendo maior desenvolvimento nas dinastias Song (960-1279) e Yuan (1279-1368). Foi então que se afirmaram as duas grandes escolas que estão na base da manifestação cultural: a Zhengyi e a Quanzhen.

Em Macau, apareceu e enraizou-se pela mão dos sacerdotes taoistas casados da Escola Zhengyi, que migraram da província de Guangdong para Macau em finais da Dinastia Qing (1644-1912) e inícios da instauração da República. No princípio do século XX, também a Escola Quanzhen da Província de Guangdong – a grande referência além da Escola Zhengyi – se instala na região.

Foi nas décadas de 1940 a 1960, contudo, que a presença de ambas as escolas e o ritual ganharam força, coincidindo com o período de prosperiedade na indústria de pesca em Macau. Os casamentos, funerais, a construcção de novos barcos, assim como a celebração de festividades, como o Festival dos Espíritos Esfomeados (15.º dia da 7.ª Lua), eram frequentes, o que fez com que a tradição se enraizasse. 

As cerimónias religiosas, que tinham lugar em terra e no mar, eram realizadas por sacerdotes taoistas casados. Dados do Instituto Cultural indicam que, na altura, havia 28 mosteiros taoistas da Escola Zhengyi, onde viviam cerca de 40 a 50 sacerdotes. Após a década de 1960, e com o desenvolvimento económico do território, as cerimónias religiosas tradicionais foram perdendo peso. As taoistas, assim como a música que as acompanha, não escaparam ao declínio da tradição.

De geração em geração

É com o intuito de inverter a tendência de desaparecimento que o Instituto Cultural incluiu a música ritual taoista na lista de Património Intangível de Macau, do qual agora fazem parte mais 55 novas manifestações culturais perfazendo um total de 70.

Num comunicado emitido na altura, em Julho, o IC referia que a decisão pretende “reforçar a salvaguarda do património cultural intangível de Macau” e “identificar as manifestações deste património que requerem conservação”. A nova lista resultou de estudos do IC e também de propostas das comunidades locais e a título individual.

A família Ng tem levado a tarefa de preservar a música taoista a sério há décadas com uma ligação ao ritual que já dura há cinco gerações. “A única maneira de evitar que a tradição desapareça é assim, de pais para filhos. O meu pai fez isso comigo e eu agora estou a fazê-lo com o meu filho. A transmissão da tradição entre gerações é muito importante, porque até há bem pouco tempo não havia materiais, como livros, nos quais se pudessem encontrar registos sobre a música e se pudesse aprender “, explica Ng Peng Chi.

O presidente da Associação Taoista de Macau, actualmente o único grupo na região que se dedica à tradição, realça que os rituais taoistas são regras e procedimentos que se devem cumprir nas cerimónias religiosas, sendo a música uma componente indispensável.

De acordo com as descrições de Ng e do Instituto Cultural, o estilo difere em função das escolas: a da Zhengyi, de cariz ligeiro e animado, destaca-se pelo forte cunho regional e popular; e a da Quanzhen é mais profunda, contida, refinada e solene.

Em Macau, os rituais taoistas combinam características de ambas as escolas. “Este fenómeno de integração é único e bastante raro mesmo noutros locais. A presença das duas escolas e a imersão na realidade local acabou por resultar no aparecimento de uma música religiosa com características próprias”, sublinha o músico.

O Dharma – instrumento de percussão – é um dos elementos distintivos da música taoista de Macau, que apesar da componente identitária forte acaba por ir beber à da província de Guangdong. “A herança é clara e respeitada com rigor, é transmitida há mais de 200 anos.”

Ainda assim, Ng lamenta que a tradição tenha começado a decair nas últimas décadas, assim como o número de sacerdotes, principais responsáveis por transmitir o ritual. A oralidade era o meio que usavam para ensinar os aprendizes, não havendo registos. É por isso, defende Ng, que há o risco que a tradição desapareça e porque é tão urgente o trabalho de levantamento e anotação que a associação tem levado a cabo. “Um exemplo desse esforço que temos estado a fazer é este livro”, refere, apontando para Música Ritual Taoista de Macau, publicado pela associação em 2009. “É um trabalho muito importante porque explicamos exactamente como se compõe e toca esta música. É um projecto muito ambicioso. Já temos dois livros. O projecto já dura há quatro anos”, detalha.

Em 2011, a Música Ritual Taoista de Macau foi inscrita no terceiro lote da Lista Nacional de Manifestações Representativas do Património Cultural Intangível da China. Três anos depois, em 2014, Ng Peng Chi foi reconhecido como transmissor da arte no contexto do quarto lote de Itens Representativos do Património Cultural Intangível a Nível Nacional.

Ng sublinha que desde que a Associação Taoista de Macau foi criada, em 2001, se tem feito uma série de acções para preservar a música e volta a reforçar o significado do trabalho de anotação que tem feito com o professor e especialista em música taoista Wang Zhongren. “Juntos, anotámos todas as canções taoistas que foram sendo transmitidas ao longo de quatro gerações da minha família. Já gravámos mais de 500”, refere, orgulhoso.

A associação também criou a Orquestra Taoista de Macau em 2008, e organiza cursos de aprendizagem de instrumentos musicais, como a erhu, a pipa e o guzheng (cítara chinesa). Em 2014, celebrou um acordo de cooperação com a Escola para Filhos e Irmãos dos Operários que visa um programa de formação dos alunos.

Instrutores da Orquestra da associação vão a este e outros estabelecimentos de ensino com o intuito de ensinar a música e assim garantir que a tradição sobrevive. À MACAU, Ng explica que, tanto nas aulas que dá na sede da associação como nas escolas, procura seleccionar os estudantes com mais talento para resgatar novos membros para o grupo.

Para dar mais exemplos do trabalho de divulgação que tem feito, Ng refere os muitos concertos e espectáculos que já protagonizou, como no Museu de Macau, no Jardim Lou Lim Ioc e a participação no “Desfile por Macau, Cidade Latina”.

Acrescenta as viagens como à província de Henan, Taipé e Singapura, além de palestras e exposições que foram organizadas tendo a música taoista como tema. Chama atenção para o trabalho que se tem feito para desenvolver a tradição e inová-la, integrando-a, por exemplo, em novos contextos além do original, as cerimónias litúrgicas; procurando a fusão entre a música, a dança e o canto; e a cooperação com outros grupos artísticos.”Além de ensinar crianças, a forma que arranjei de divulgar e fazer com que a tradição sobreviva foi associar a música taoista a outras manifestações e contextos artísticos, por exemplo já foi usada em concertos de ballet“, exemplifica. Licenciado em Química, pela Universidade Baptista de Hong Kong, e funcionário público, Ng Peng Chi diz que a música taoista é apenas um hobby, mas um hobby que leva muito a sério. “Sinto que é minha responsabilidade passar a tradição e, por isso, é tão importante ir ensinando. Tento sempre passar essa mensagem aos meus alunos, a importância de transmitir a tradição às futuras gerações.”

Características

A música ritual taoista – que combina canto, dança e música – foi desde a sua origem um veículo para transmitir textos canónicos taoistas, ponto fulcral neste estilo. Um texto do Instituto Cultural sobre a presença da tradição em Macau explica que a parte instrumental consiste sobretudo numa qupai (melodia fixa), geralmente interpretada no início e no final das cerimónias, e nos momentos de transição entre rituais. Também acompanha alguns procedimentos e gestos litúrgicos, com o objectivo de criar um ambiente solene.

A música ritual taoista de Macau reúne vários elementos da antiga música imperial chinesa, da música de intelectuais chineses e da música folclórica chinesa, sendo parte integrante da música tradicional da China.

Foi introduzida em Macau a partir da província de Guangdong no início do século XX, resistindo aos acontecimentos e mudanças históricas que foram tendo lugar. Os sacerdotes tiveram um papel determinante para que persistisse e ainda hoje seja um ritual em Macau. Um dos factores fulcrais foi terem conseguido que a Escola Zhengyi fosse integrada na Escola Quanzhen. “Contribuindo assim para a coexistência harmoniosa entre ambas as facções e para o desenvolvimento de um género de música ritual muito rico e verdadeiramente único, no limiar entre o estilo popular e um estilo mais refinado. Actualmente, Macau é um dos locais onde a música ritual taoista das Escolas Zhengyi e Quanzehn de Lingnan se encontra mais bem preservada”, sublinha o Instituto Cultural.

Com mais de cinco séculos, a música ritual taoista caracteriza-se por uma grande variedade estilística. Macau é prova disso, onde a remota presença fez com que absorvesse características locais e elementos das escolas Zhengyi e Quanzhen, e assim surgisse uma música original distinta das músicas taoistas de outras zonas.

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