Domingo, Maio 16, 2021
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Os jardins da biodiversidade

Fica em Seac Pai Van, por detrás do Parque dos Pandas, e é um tesouro bem guardado. O Jardim Ecológico do Trilho de Plantas Medicinais e Aromáticas e o Jardim de Plantas Medicinais Chinesas do Sul, na Estrada do Alto de Coloane, acolhem cerca de 320 espécies. É o primeiro parque em Macau que conta com diversos recursos naturais e a zona com a maior riqueza em termos de biodiversidade no território

Texto Catarina Brites Soares

O silêncio reina no espaço monopolizado pela natureza, só interrompido pelo som dos pássaros e da água do riacho que nasce no cimo da colina e percorre os jardins. Há vários trajectos possíveis para conhecer as oito zonas dos Jardins Ecológico do Trilho de Plantas Medicinais e Aromáticas e de Plantas Medicinais Chinesas do Sul, que só podem ser visitados com marcação prévia e em grupos. A limitação à circulação visa garantir a protecção ecológica e evitar a danificação das espécies, mas também se deve à presença de plantas tóxicas.

O espaço só está aberto ao público sem limitações no Ano Novo Lunar e no Dia da Implantação da República Popular da China, sendo as restantes visitas acompanhadas normalmente por um guia, que faz o roteiro em chinês, inglês ou português em função do grupo. “Além de preservar as características dos habitats originais e da vegetação nativa, foi ainda introduzida uma ampla variedade de plantas medicinais para fornecer alimento e abrigo a animais e insectos nativos. Os dois jardins são um empreendimento importante na protecção dos ecossistemas naturais de Macau e na conservação dos ecossistemas fluviais”, salienta o Instituto para os Assuntos Municipais (IAM).

Com uma área de cerca de 30 mil metros quadrados, os jardins têm as plantas medicinais agrupadas em zonas, cada uma dedicada a um habitat e ecossistema específicos: a zona de plantas medicinais das terras húmidas, a de plantas medicinais rochosas, a de plantas medicinais da montanha, a de plantas medicinais de bambu, a de plantas medicinais de ambientes escuros, a de plantas medicinais aromáticas, a de conservação de espécies introduzidas de plantas medicinais chinesas do Sul e a zona experimental de ciência de plantas medicinais chinesas do Sul.

Começámos pela zona de plantas medicinais das terras húmidas, a primeira quando se entra pela parte superior dos jardins concluídos em 2019, apesar de estarem abertos a visitas desde 2016. O ambiente pede calma. De repente, sobressai outra faceta de Macau, oposta à do ruído e do movimento habituais no centro. O verde impera e o dia soalheiro deixa ainda mais vivas as cores das várias plantas que se dividem em três grupos: as locais, plantadas pelo IAM; as que foram importadas do Jardim Botânico da Província de Guangxi, face à similitude das condições climáticas; e as nativas, já no local antes da zona ser transformada no jardim.

A cooperação com o Jardim Botânico do Sul da China, subordinado à Academia Chinesa de Ciências, surgiu depois do convite do Instituto para os Assuntos Municipais para elaborar um plano de estudo para um espaço similar em Macau. Em 2015, foi concluído o projecto que tem como prioridades promover “a protecção ecológica, a educação científica, o lazer e proporcionar uma viagem ecológica”.

A pé-de-pato (Schefflera heptaphylla), o crisântemo amarelo (Chrysanthemum indicum), a figueira-brava (Ficus hirta), a flor-do-imperador (Osmanthus fragrans) e o avezim (Ardisia crenata) são algumas das espécies nativas que habitam a área. Mas há outras, únicas do Jardim Botânico de Plantas Medicinais da província de Guangxi, como a cipó-doce (Gynostemma pentaphyllum) e a agrimónia peluda (Agrimonia pilosa).

O espaço está organizado por caminhos e escadas em cimento que nos vão levando pelos diferentes recantos. “Foi tudo construído a pensar na melhor forma de respeitar as plantas e árvores, é por isso que o percurso é acidentado em algumas partes e as escadas têm diferentes desníveis”, explica Hong Pou Ieng, responsável do Departamento de Zonas Verdes e Jardins do IAM.

O mesmo se teve em conta com o riacho que existia na colina. O curso da água foi adaptado de forma a correr ao longo do jardim durante todo o ano, e assim alimentar e albergar plantas e animais. O calor de Macau exige, no entanto, mais cuidados. As regas são essenciais e frequentes, e estão a cargo de uma dezena de funcionários que asseguram o tratamento e a limpeza do recinto. “Cada zona de amostragem é transformada e optimizada de acordo com as características do habitat ecológico existente. Em simultâneo, são introduzidas plantas medicinais com características que se adaptem ao habitat, aproveitando assim para atrair animais e insectos de forma natural, de modo a aumentar a diversidade biológica da zona do jardim”, sublinha o Instituto.

As zonas de exposição de plantas medicinais com flores aromáticas e a de plantas medicinais de terras húmidas foram completadas em 2016, com áreas de 1350 e 1500 metros quadrados, respectivamente. Já a zona de exposição de plantas medicinais de regiões rochosas foi concluída em 2017, com 1850 metros quadrados. Um ano depois, foram finalizadas as obras das zonas de exposição de plantas medicinais de montanha e de exposição de plantas medicinais de ambientes escuros, com 1250 e 1000 metros quadrados de área, respectivamente. Finalmente, o reordenamento das zonas de exposição de plantas medicinais de bambu e a construção da área de conservação de espécies introduzidas de plantas medicinais chinesas do Sul, assim como a zona de demonstração científica do jardim de plantas medicinais chinesas do Sul, terminaram em 2019, com 3000, 1470 e 1280 metros quadrados, respectivamente.

Primeira paragem

O mapa logo à entrada ajuda a ter uma ideia da organização do espaço, detalhado pelas placas em madeira que indicam onde estamos. Começamos pela zona de plantas medicinais das terras húmidas. Hong Pou Ieng chama a atenção para a Eugenia operculata, que considera um bom exemplo de um tipo de espécie plantada pelo IAM com bons resultados. Ela é usada para fazer chá com propriedades medicinais.

Logo depois paramos junto ao lírio dourado, com dois tipos de flor: vermelha e branca. “Também é frequentemente utilizado para fazer chás medicinais, que levam cinco tipos de flores, a branca é uma delas. Neste caso, plantamos uma espécie variada de cor vermelha por motivos pedagógicos, para ensinarmos e mostrarmos outros tipos”, ressalva a técnica do IAM.

Descemos mais um pouco para voltar a suspender a caminhada na pata-de-pato – assim designada pelo formato da folha – e outra das plantas locais usada nos chás; e logo a seguir encontramo-nos com uma das mais raras e bonitas do jardim, que também deve o nome à forma. A barba-de-tigre ficou assim conhecida pela flor com uma zona mais escura de onde saem fios esbranquiçados que lembram os bigodes de um animal. “É um dos focos de atenção dos mais novos”, realça Hong .

A responsável fala também da Tacca chantrieri André, que, entre outras propriedades, elimina o calor interno, desintoxica e regula a circulação. É eficaz contra gastroenterites, indigestão e inflamações na garganta, elucida a placa com detalhes sobre a espécie.

No jardim foram plantadas dezenas de tipos de plantas nativas e frequentes em Macau, como a Dendranthema indicum, a Plumeria rubra e a Lonicera japonica, ingredientes do chá de cinco flores (wu hua cha); e a Schefflera octophylla, uma planta de mel de Inverno importante na região, e que também é um dos ingredientes principais do chá medicinal de 24 sabores.

Com a cooperação do Jardim de Plantas Medicinais da Região Autónoma de Guangxi, foram também introduzidas mais de 150 espécies de plantas medicinais adaptadas ao habitat, como a Gynostemma pentaphyllum, Rhizoma et radix baphicacanthis cusia e a Eupatorium fortunei. O jardim é ainda casa para plantas raras, como a Cibotium barometz, que integra o grupo de II classe de protecção nacional, plantada para assegurar a preservação da espécie.

Tudo ao natural

Mais uns passos e entramos na zona de plantas medicinais rochosas, na fronteira com a zona de plantas medicinais das terras húmidas. Menos povoada por causa dos rochedos, Hong Pou Ieng recorda que o panorama nada tem que ver com o que era quando o jardim abriu. Hoje, conta, já são várias as plantas que crescem junto às rochas. Também aqui foram plantadas espécies para atrair borboletas, como limoeiros e a erva-príncipe, recorrente na gastronomia asiática. “A construção dos espaços teve em conta a demografia do local, atraindo animais de forma natural e assim aumentar a diversidade biológica. Toda a plantação é orgânica e não são utilizados quaisquer pesticidas sintéticos. A ideia é privilegiar e respeitar os processos da natureza, por isso temos plantas que são importantes para os animais e vice-versa. Não usamos pesticidas nem outros químicos”, reforça.

Descemos sempre com o riacho como companhia e viramos à esquerda no cruzamento que aparece, optamos pelo bambual. A diversidade que vinha preenchendo a visita dá lugar à homogeneidade contrariada apenas pelas cores – maioritariamente amarela e verde – dos bambus, que também servem de reserva para alimentar, em caso de urgência, o casal de pandas a viver no Parque de Seac Pai Van.

Todas as plantas estão sinalizadas com informação em chinês, português e inglês: além do nome, também constam propriedades e efeitos. Por todo o jardim, há também placas com jogos, questões e informação mais detalhada sobre a biodiversidade da área. As tabuletas lúdicas estão sobretudo na zona de demonstração científica do jardim de plantas medicinais chinesas do Sul, onde, por exemplo, um dos sinais informa que as flores desabrocham no Dia de Tung Ng, durante as corridas dos barcos-dragão.

O tempo ainda chega para mergulharmos na zona de conservação de espécies introduzidas de plantas medicinais chinesas do Sul, onde, entre outras, ficamos a conhecer a Catharanthus roseus, tranquilizante mental, amiga do fígado e da tensão arterial. A tabuleta, que avisa também que a planta contém toxinas e recomenda que não se toque ou colha, acrescenta aos efeitos medicinais a eficácia no combate de tumores malignos, leucemias e linfomas.

Já na zona de exposição de plantas medicinais com flores aromáticas, Hong mostra-nos a Antiaria toxicaria, também conhecida como Árvore da Seta Envenenada pelas propriedades venenosas. A selva branca que possui contém propriedades altamente tóxicas, que podem levar à morte. Reza a história que os caçadores untavam as pontas das flechas com a selva venenosa para atingir os animais. Se atingido, um animal conseguiria dar no máximo sete passos a subir, oito a descer e nove em terreno plano antes de sucumbir. Na medicina tradicional chinesa, algumas partes são usadas como tónicos cardíacos e produzem efeitos eméticos, anestésicos e antipiréticos.

A visita guiada termina depois, volvidas quase duas horas, que se esgotam num ápice. A incursão teria de esticar por muitas mais para se desfrutar em pleno dos jardins onde a diversidade é palavra de ordem e cada parte é uma descoberta.

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