Sexta-feira, Setembro 17, 2021
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A romper fronteiras sobre rodas

Andar de bicicleta voltou a ser tendência. Para uns, como meio de transporte, para outros como desporto. Em Macau, a modalidade ganha adeptos e atletas que até representam a região em competições internacionais

Texto: Catarina Brites Soares

É cada vez mais frequente verem-se ciclistas pela cidade. Os do passeio, os mais profissionais e os resistentes que, apesar dos obstáculos citadinos e do clima, teimam em deslocar-se sobre duas rodas sem motor.

Aquele que antes era o meio de transporte primordial na região foi sendo substituído pelos carros, autocarros, táxis, motas e passaram a ser poucos, sobretudo os mais velhos, os que resistiram ao sinal dos tempos. Mudaram-se os tempos e as vontades voltaram a mudar. O que tinha passado de moda voltou a ser hábito. A bicicleta popularizou-se novamente um pouco por todo o globo. Em Macau, cresce o número de curiosos e atletas que fazem do ciclismo uma rotina.

Kehn Wong começou a praticar aos 4 anos e competiu durante quase duas décadas. Desde 2015, integra o comité executivo da Associação Geral de Ciclismo de Macau, criada em 1981 e responsável pela modalidade no Instituto do Desporto (ID). “A associação foi criada para agregar os amantes do ciclismo na região, e para promover e desenvolver a modalidade”, afirma à MACAU Wong, agora com 35 anos.

Ao grupo só podem pertencer entidades desportivas registadas no ID, prática que, salienta, repete a de organizações desportivas internacionais como o Conselho Olímpico, a União Ciclista Internacional (UCI) e a Confederação de Ciclistas da Ásia. A associação conta com 17 membros, entre os quais a Cycle Sports Club, Uncle Cycling Team Sports Association e a Macau Victosports Sports Club. Pessoas individuais também podem fazer parte. Até Dezembro de 2020, havia 88 ciclistas, 18 treinadores e 14 árbitros inscritos. “Enquanto organismo público, a associação é responsável por organizar provas, passeios de lazer e por treinar os atletas que representam Macau nas competições internacionais.”

Há equipas locais de três das sete modalidades reconhecidas pela UCI, as únicas autorizadas em Macau: a de estrada e de pista – que treinam em conjunto e contam com cerca de 20 atletas –, e a de ciclismo artístico, que ronda os 30 membros. A maioria dos federados tem menos de 18 anos. A estes juntam-se os outros 30 e poucos que perfazem os 88 ciclistas inscritos na associação e que, apesar de não integrarem as equipas, participam das provas na região.

Os treinos das equipas de estrada e de pista são no Centro Desportivo do Nordeste da Taipa, duas a três horas diárias durante a semana, e quatro a cinco nos fins-de-semana, além do de preparação física em ginásio. Já a equipa de ciclismo artístico tem treinos seis vezes semanais de duas horas, mais o condicionamento físico, em diversos centros desportivos, como o da Taipa, o do Tamagnini Barbosa e o da Nave Desportiva dos Jogos da Ásia Oriental. Normalmente, os treinos são entre as 17h00 e as 20h00.

Quase todos os anos as equipas marcam presença nos Campeonatos da Ásia e do Mundo. A última presença do grupo de ciclismo artístico foi em 2019, na Suíça. No mesmo ano, a equipa de estrada esteve nos Mundiais, em Inglaterra, e nos de 2018, na Áustria.

Em 2016, as equipas locais juniores venceram a Taça da Ásia de pista, na categoria masculina; no ano seguinte foi a equipa feminina a subir ao terceiro lugar do pódio e a masculina ao segundo no Campeonato da Ásia; em 2018, as atletas de Macau voltam a repetir o feito, e em 2019, foram alcançados dois terceiros lugares na Taça Asiática, nas competições feminina e masculina. 

Kehn Wong foi dos primeiros a competir por Macau e, nos seus 17 anos de prática em ciclismo artístico, arrecadou medalhas de Ouro nos Jogos Asiáticos, em 2007; nos Jogos do Sudeste Asiático, em 2009; ficou em terceiro nos Mundiais de 2010, na Alemanha, e de 2011, no Japão. “Tive inúmeras oportunidades como atleta. Participei em vários treinos e provas internacionais, e esta experiência tornou a minha vida muito mais fascinante”, reconhece. “O ciclismo artístico começou em Macau nos anos de 1990. Fiz parte do primeiro grupo. Fascina-me inventar movimentos na bicicleta”, acrescenta o antigo atleta, que abandonou a carreira em 2012, quando integrou os corpos da associação. Três anos depois assumiu o lugar que agora ocupa no conselho executivo, responsável por criar condições para que os aficionados como ele possam praticar e competir.

Por ano, são realizadas cinco provas de ciclismo artístico e cinco de estrada. “Este ano, vamos organizar mais uma competição para a estrada porque a procura é cada vez maior”, sublinha. De fora, fica o ciclismo de pista. “Faltam infra-estruturas. Criamos as condições para haver treinos porque é semelhante ao ciclismo de estrada. Desde que seja possível que os atletas consigam alcançar velocidades elevadas, estão capacitados para depois competir na pista”, assegura.

A par dos eventos locais, a associação organiza competições e passeios a cidades no Interior do País, suspensos por agora devido à pandemia. “Temos procurado diversificar, tanto em Macau como no Interior do País, para fomentar o interesse na modalidade e corresponder às expectativas do público”, salienta Kehn Wong. “O espaço em Macau é muito limitado e, por isso, é impossível organizarmos grandes eventos. De acordo com as regulações internacionais, é desejável que uma volta tenha 15 quilómetros. A península de Macau tem mais ou menos essa dimensão, mas é impossível fecharmos a zona para as competições. Este é talvez o maior obstáculo que encontramos.”

“É uma cidade com elevada densidade populacional e com muito trânsito. As condições não permitem que as pessoas façam ciclismo com facilidade, tanto de lazer como de competição.”

Andy Leong, árbitro na associação, reforça que os percursos na cidade são curtos, nos quais participam apenas cerca de 120 ciclistas em oito categorias – organizadas por sexo e idade. “No Interior do País, nota-se que houve um desenvolvimento rápido nos últimos anos. Há mais de 20 corridas internacionais e mais de duas mil no país por ano. Além de haver organizadores e participantes profissionais.”

Em Macau, organizadores, treinadores, atletas e árbitros são amadores já que nenhum faz da ocupação profissão e têm de se dedicar a outros trabalhos. A clivagem nota-se noutros aspectos. “As corridas em Macau são a uma escala bastante modesta por causa da área da cidade e do trânsito. No Interior do País, a dimensão é diferente. Normalmente, as provas de estrada incluem um percurso de um ponto a outro sem repetição do circuito, em zonas de turismo famosas, que permitem aos participantes desfrutar da vista. Os percursos nas cidades atraem multidões de espectadores. Tanto nuns como noutros, há centenas de participantes, ao contrário do que acontece em Macau, onde ronda a centena”, refere Leong.

A província de Guangdong costuma ser o destino mais frequente para os eventos da associação, principalmente em cidades como Zhuhai, Cantão, Zhongshan ou Zhaoqing.

Falta o terreno

Alan Che tem participado sempre que pode. Membro da associação desde o ano passado, as três décadas que leva de prática da modalidade impedem-no de ficar indiferente às voltas mais extensas. Elogia os passeios do outro lado da fronteira sobretudo por isso: o espaço. “Os percursos em Macau são pequenos. No Interior do País são enormes e percorremos distâncias sem termos de andar na estrada, o que é desejável não só por ser muito mais interessante mas também muito mais seguro”, sublinha o membro do conselho executivo.

O interesse pela bicicleta começou aos 5 anos, quando Alan Che, agora com 42, vivia em Coloane e era possível andar à vontade. “Naquela altura, os carros eram poucos e as crianças podiam circular sem preocupações. Era um passatempo, mas também um meio de transporte. Andávamos na vila, íamos aos parques e à praia de Hac-Sá para nadar e fazer churrascos”, recorda.

Macau mudou e ficou mais difícil circular, mas Che continuou a andar de bicicleta. Sozinho ou em grupo, costuma ir para o campus da Universidade de Macau, para a zona de A-Má, na Barra, e Coloane. “É divertido fazê-lo com companhia, podemos falar e partilhar.”

Pelo meio lembra outra experiência de há dois anos, quando se estreou no Passeio de Cicloturismo de Primavera, organizado anualmente pela Associação Geral de Ciclismo aquando do Ano Novo Chinês e que costuma juntar perto de 150 participantes. “Fui com o meu filho. O passeio durou meio-dia e foi uma forma diferente de celebrar com outros residentes”, sublinha. “Fiquei desiludido porque está suspenso devido à pandemia. Espero que possa ser retomado o quanto antes.”

O ciclismo de estrada é um hábito recente que começou em 2019, bem mais tarde que o de montanha, que sempre foi o predilecto pela velocidade e adrenalina. Fez provas de BTT na China, Hong Kong e Tailândia. “Gosto de BTT porque estou próximo da natureza”, refere.

Em Macau, é proibido e foi por isso que Alan Che foi obrigado a sujeitar-se ao asfalto com a pandemia. “Não se podia viajar e como queria continuar a treinar, mudei. Faço ciclismo de estrada há cerca de um ano e é mais desafiante”, realça. “Associo o BTT à diversão e à adrenalina, e a estrada à velocidade e à competição com os outros.”

A superação é um dos motivos que faz de Andy Leong um fã incondicional do desporto. É o único em Macau com um certificado internacional de árbitro de ciclismo. De forma detalhada, explica a exigência do desporto dada a diversidade de pavimento – que pode ser alcatrão e asfalto, subidas e descidas, sempre a altas velocidades. “Na última Tour de França, o recorde foi 101 quilómetros por hora”, enfatiza; e a adaptação ao clima – que tanto pode ser quente, com mais de 35 graus, como frio, ao nível dos quatro graus negativos, húmido, chuvoso, com vento ou mesmo neve.

Leong fala também da resistência que se cria face à duração da corrida – que pode durar horas, dias ou semanas. “Na Volta a França de 2019, o vencedor chegou ao fim com quase 83 horas a pedalar acumuladas”, assinala. Há também a dificuldade dos percursos, por vezes com troços de elevada inclinação, e a resiliência física e psicológica. “Tem de se continuar apesar dos problemas mecânicos ou dos acidentes.”

Aos reptos, junta ainda o de ser uma modalidade que exige estratégia e trabalho de equipa. “O vencedor pode ganhar a volta sem sequer ter vencido uma única etapa”, sublinha. “O apoio entre colegas é decisivo. Por norma, os companheiros trabalham para o sprinter ganhar a final”, explica. “A entreajuda é fundamental no pelotão, acidentes e no percurso. É preciso garantir que os atletas têm sempre líquidos e alimentos.”

Desafios do amadorismo

Leong nunca competiu. Escolheu ser juiz de prova e obteve a qualificação de árbitro internacional na categoria de BTT, em 2000, quando tinha 25 anos. Em 2001, obteve o mesmo título para o ciclismo de estrada; e em 2003 para o de pista. “Há cerca de 180 árbitros no mundo na categoria de estrada – 11 na Ásia, seis na Oceânia, 25 nas Américas e os restantes na Europa. Desde que obtive o título na categoria de estrada, em 2001, apenas mais uma pessoa conseguiu. O processo é muito rígido”, sublinha. “Depois de se completar o curso da UCI, que abre de três em três anos num país asiático com uma quota entre 10 a 20 vagas, tem de se fazer um exame. Cada candidato só pode fazê-lo duas vezes no máximo, e entre os 24 e os 50 anos”, detalha. “Na Ásia, há falta de provas internacionais nas quais possamos ganhar experiência e a língua também é uma barreira. Muita gente pergunta porque decidi obter a qualificação de árbitro internacional. É uma pergunta à qual não sei responder”, confessa.

Refere que enquanto empresários, ciclistas e organizadores que participam nas provas internacionais são profissionais e vivem disso, a arbitragem é um posto voluntário. “É bastante desafiante porque preciso de trabalhar de forma ainda mais profissional que alguns deles. É muito stressante porque as corridas a esse nível são muito competitivas com pessoas de todo o mundo e de diferentes culturas.”

Obrigado a dividir o tempo entre a família e o emprego, Andy Leong diz que reduziu a actividade como árbitro para quatro a seis competições por ano de estrada e de pista. “Já tive várias experiências excepcionais”, ressalva, com orgulho. Destaca a Eagle Tour da Malásia, em 2002, quando se estreou ao nível internacional; a Tour of Qinghai Lake; o Campeonato do Mundo, em Madrid, em 2005 – a sua estreia num evento internacional de primeira classe; os Jogos Asiáticos, em Cantão, em 2010, e o Campeonato da Ásia, em 2019, no Urzebequistão.

A paixão pela modalidade foi também o que levou Valentino Carvalhosa a juntar-se ao grupo em 2018. Além de outras funções que desempenha na associação, é o treinador da equipa de estrada. “Queria representar Macau internacionalmente”, afirma.

Tailândia, Taiwan, Japão e Coreia são destinos que pisou em nome da região com a equipa bandeira. “Um dos campeonatos da Ásia foi em locais onde nunca tinha estado como o Uzbequistão, Índia e Cazaquistão”, realça.

Das experiências que teve fora como atleta acrescenta as corridas de 200 quilómetros nos Interior do País, nas quais diz participarem milhares, e em Taiwan, dividida em dois dias, a primeira etapa de 135 quilómetros e a segunda de 170 quilómetros.

O interesse pelo desporto começou há 12 anos, motivado pela vontade de perder peso e de se manter saudável, e por constatar que a bicicleta era uma forma de chegar onde outros meios de transporte não o levam. “Posso ir a locais distantes e de difícil acesso. Recordo-me de umas férias em Itália, em que me juntei a um grupo de bicicletas e estive numa capela impossível de aceder de carro”, exemplifica.

Alan Che nota que a modalidade está a ganhar adeptos. “Sobretudo desde a pandemia. Vê-se que as pessoas em Macau estão mais preocupadas com a saúde e começaram a fazer mais exercício, incluindo ciclismo”, afirma.

Valentino Carvalhosa corrobora, com a ressalva: “Há um interesse crescente pelo ciclismo desde a pandemia. Mas as corridas são cada vez mais difíceis de organizar por causa da quantidade de obras.”

Kehn Wong também constata que há mais interesse. “Não apenas em ciclismo, mas em geral. Nota-se a diferença nos últimos anos e isso é visível pelo número de participantes nas nossas competições e eventos, mas também pelo número de ginásios que apareceram na cidade.”

Um dos grandes objectivos da associação é alargar as variantes de ciclismo que podem ser praticadas em Macau, como o BTT. “Sei que há atletas que gostam, mas não podemos organizar competições porque essa modalidade ainda não foi autorizada. Não há percursos para as bicicletas de montanha. É uma questão que tem de ser resolvida”, promete Kehn Wong.

Enquanto isso, a estrada é a alternativa. Os aventureiros chegam a atravessar a ponte Nobre Carvalho com a bicicleta na mão em busca do que quem gosta de ciclismo mais aprecia: distância.

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