Sexta-feira, Setembro 17, 2021
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Tudo a mexer

Nasceu em Nova Iorque, na década de 1970, e deve o nome ao local que lhe deu palco: a rua. A street dance (dança de rua, na tradução em português) foi criada pelas comunidades negras e latino-americanas radicadas no país, que encontraram na rua o espaço para se expressarem. O improviso e a interacção entre dançarinos e audiência é o que define a street dance. Historicamente, ficou conhecida como uma dança de jovens e de expressão de comunidades sub-representadas e discriminadas que encontraram na dança e na rua a liberdade e a voz que não tinham. Paz e amor, unidade e respeito foram valores que lhe ficaram colados. Quase meio século depois, é conhecida internacionalmente. Em Macau, também ganhou expressão sobretudo desde 2009, quando vários estúdios abriram dedicados a essa modalidade. Bailarinos, coreógrafos e associações sublinham o contributo que a cultura tem dado à cidade

Texto: Catarina Brites Soares | Fotos: Gonçalo Lobo Pinheiro

Now’z Studio Dance

Abriu há mais de uma década com o intuito de desenvolver em Macau uma cultura já enraizada no Interior do País, e pela qual Mira Chan se apaixonou quando estudava em Cantão. Concluiu os estudos, voltou e, com base na formação que foi obtendo das oficinas que fez, decidiu dedicar-se à dança. É professora no Now’z Studio Dance desde que foi inaugurado, em 2008, e quem fala à MACAU sobre o projecto.

Mais de uma década depois da iniciativa dos fundadores Zero e Ocean, alcançou perto de 600 alunos. “Há cerca de 12 anos, eu e um amigo começámos a aprender street dance em Cantão, enquanto estudávamos na universidade. Comparativamente com Macau, lá já era bastante conhecida, havia muita gente a praticar, professores, competições. Quando voltamos, quisemos trazer a cultura do street dance a Macau e foi assim que acabei a dar aulas no Now’s”, recorda.

A coreógrafa realça que o aumento da procura mostra que a mentalidade mudou na cidade e de que os benefícios associados passaram a ser reconhecidos. Responsabilidade, perseverança, dedicação e a prática de exercício físico são alguns dos que enumera. “Tenho a certeza absoluta que tem impacto na vida de uma pessoa, adulto ou criança, quando é encarada a sério. Se não houver um verdadeiro investimento de tempo e dedicação, se não treinarem e se esforçarem, não vão retirar nada”, afirma.

Exemplifica com o caso dos muitos alunos que passaram pelas suas aulas de jazz-funk e vogue. “Só depois de dois ou três anos é que se notam progressos. Os primeiros anos é de treino, treino e treino. Portanto, a persistência é fundamental”, sublinha.

“As competições, por sua vez, implicam responsabilidade porque é uma prova, têm de memorizar a coreografia, sabem que não podem falhar. Se quiserem ganhar, têm de trabalhar bastante e arduamente”, acrescenta, referindo ainda que a dança é física, e como tal benéfica para a saúde e o bem-estar. “Portanto, é indiscutível que a dança muda de facto a vida de uma pessoa.”

Justifica a procura, que diz ser crescente de ano para ano, à mudança de mentalidade, visível igualmente no maior número de oportunidades, eventos e abertura de privados e Governo à cultura.

Mira Chan frisa que a aposta de privados no entretenimento foi um impulso importante, uma vez que aliado a isso vieram eventos e procura por mais bailarinos. “Há muito mais convites para que os grupos de street dance actuem em eventos públicos”, realça.

Chan acredita que o facto de a cultura estar muito disseminada no Interior do País também terá ajudado para que em Macau crescesse o interesse. “Hoje em dia as pessoas já reconhecem que não se limita a mover o corpo de forma arbitrária, simples e básica. Requer conhecimento, técnica e tempo para se atingir um nível satisfatório.”

A receptividade, a maior procura e oferta acabaram por resultar no desenvolvimento de uma nova indústria e à profissionalização, afirma Mira Chan. Segundo a coreógrafa há cada vez mais gente a fazer da dança trabalho e carreira da street dance.

No Now’z Studio Dance, há 15 professores e aulas de hip-hop, coreografia, waacking, locking, house, krop MV, entre outros estilos. Este ano, há 450 crianças e mais 150 adultos inscritos. “Sentimos que a procura aumentou. Foi um ano difícil para todos e como as pessoas não podiam sair, acabaram por procurar alternativas. Apesar do contexto, foi um ano excelente para nós. No espectáculo anual que organizamos, participaram quase 600 alunos para uma audiência de 1000 pessoas”, refere a bailarina.

Além dos eventos que participam na cidade e dos espectáculos que organizam todos os anos, os alunos e professores do Now’z Studio também actuaram em Taiwan, Hong Kong, e em várias outras cidades chinesas, como Cantão e Hangzhou. “Também importa referir que ao nível da atitude de vida, também há resultados, o que prova que a dança significa muitas vantagens”.

Enfatiza o caso das crianças, para quem passou a haver oferta no estúdio há cerca de seis anos. “Os resultados são notórios. Ficam mais maduros, têm bom aproveitamento na escola. Mesmo os de 7 anos ou ainda mais novos, são muito dedicados”, sublinha.

Zeal Studio Street Dance

Acabar com a imagem negativa associada à street dance foi uma das motivações por detrás do Zeal Studio Street Dance, que abriu portas em 2010. Don Choi, director e professor, garante que o Zeal foi o primeiro centro a proporcionar treino profissional a quem quer seguir carreira na dança. “Queremos promover a street dance e ajudar a que se acabe com o rótulo negativo que lhe está associado”, afirma à MACAU. “Street dance é energia e é uma forma de arte especialmente atractiva para os jovens, por ser física e ter de encaixar diferentes ritmos que se coadunem com a música”, explica. “É uma cultura que promove o amor e a paz”, enfatiza.

Assim como Mira Chan, também Don Choi nota mais abertura na última década, apesar de reconhecer que há preconceito. “Apareceram vários grupos e também aumentaram as oportunidades de se actuar em público. O próprio Governo tem vindo a apoiar, contratando grupos locais para actuarem em grandes eventos. Tudo isto tem contribuído para o desenvolvimento da street dance e nota-se no aumento de alunos”, afirma.

No Zeal, o número ronda os 60 a 70 por mês, além das equipas de dança residentes que rondam as 60. Pelo menos seis dos alunos que por ali passaram seguiram carreira profissional na dança. “Definitivamente, há um conhecimento maior sobre esta forma de dança, sobretudo desde que apareceram associações e estúdios. Também se nota que os pais mais novos tendem a ser mais receptivos a estes estilos pop de dança do que aos clássicos”, constata.

Em Macau, o estúdio tem participado em grandes eventos públicos e privados. Também já levou os seus dançarinos a Taiwan e ao Reino Unido, onde pela primeira vez uma equipa de Macau competiu no Glasgow UDO World Street Dance Championship.

As aulas são garantidas pelos 18 tutores, todos eles dançarinos profissionais, e um estúdio apetrechado com as condições para as lições de hip-hop, jazz-funk, house, sexy-jazz, kPoplocking e litefeet. A oferta abrange adultos e crianças. “A fundação deste espaço assenta na aspiração de desenvolver localmente a street dance”, refere-se na apresentação do site do centro.

“Houve um salto enorme no que respeita ao desenvolvimento da street dance em Macau nos últimos anos”, reforça Don Choi.

TDSM Kid Dance

Popeye Hong percebeu que queria ser bailarino aos 15 anos. Estudou, formou-se fora, voltou e depois de várias experiências, decidiu que queria fazer algo por Macau, onde cresceu, com o que tinha aprendido.

Em 2009, quando retorna a casa, era escassa a oferta cultural, incluindo na dança. Quis mudar isso. Junta-se a um amigo e juntos criam o TDSM Kid Dance. “Sentimos que era o momento certo para o fazer. Sou de dança contemporânea. Quando voltei, não havia nada em Macau, e eu e o meu sócio, que estudou comigo, decidimos avançar com uma escola. Ele dava aulas de street dance e eu de contemporânea”, recorda.

Em 10 anos, multiplicaram a oferta, o número de professores (hoje 36) e o espaço com seis salas na zona do NAPE, maior que o primeiro que só tinha uma. “Na mesma altura que o nosso, abriram mais cinco estúdios. Organizamo-nos e começámos a trabalhar em conjunto no sentido de promover a street dance e isso acabou por fazer com que houvesse cada vez mais interesse”, explica o fundador.

Os 700 alunos – perto de 200 adultos e cerca de 500 crianças – repartem-se por várias aulas, como as de jazz A, waacking, jazz-funk, vogue, hip-hop, street jazz e popping.

A curiosidade deve-se a vários factores, realça Popeye Hong. Entre os quais, a imagem que as faixas etárias mais novas têm da dança. “Quem faz street dance é giro, porreiro, tem estilo e pinta, e no fundo é isto que os jovens procuram na fase da adolescência”, indica.

A mudança de mentalidade, acrescenta, também ajudou à subida na procura. “No início, muitos pais apresentavam resistência, não queriam que os filhos viessem aprender street dance devido a uma conotação negativa. Agora, já têm outra opinião. Acho que mudou porque vêem que temos feito um bom trabalho, que os encaminhamos, que lhes dedicamos amor e tempo, e que enquanto estão a dançar e focados na dança, não estão a ocupar o tempo de forma prejudicial. Vêm que a dança os torna pessoas boas, com valores e apreciam isso”, afirma.

Prefere não isolar a street dance de outras formas de expressão artística e lembra que a arte é em si sinónimo de profundidade, beleza e vantagens. “A street dance, como forma de arte, é mais um caminho para nos expressarmos, encontrarmos, afirmarmos o nosso ‘eu’, de encontrar uma espiritualidade. Vivemos tempos exigentes, e a arte, neste caso a dança, é uma forma de encontrar alguma paz. As crianças têm treinos e aulas quase todos os dias, mas vêm porque estão motivadas”, sublinha.

Foi assim com ele próprio. Aos 15 anos percebeu que era a dança que o realizava. Depois da experiência com o grupo na escola Hou Kong, onde estudou, decidiu rumar a Pequim, para se formar na Academia de Dança. Também teve formação nos EUA e foi a audições, numa das que fez na Bélgica, onde foi finalista, acabou por ser afastado e desistiu da carreira profissional.

No ensino encontrou outro sentido para o conhecimento que tinha acumulado. Após uma passagem pelo Conservatório de Macau, onde também leccionou, decidiu criar uma escola de dança e dedicar-se a tempo inteiro ao projecto.

No TDSM, criou dois sistemas de ensino: o regular e o criativo. O primeiro são aulas normais de dança, concebidas para quem a encara como um passatempo; o segundo modelo inclui os alunos que se destacam nas audições que são realizadas anualmente, e em que há um estímulo acrescido e uma componente mais criativa.

Além de se ensinar coreografias, procura-se que os alunos as inventem. “Aqui não se limitam a aprender o movimento, mas como o podem usar. Damos-lhes as bases, mas quero que explorem, que encontrem formas próprias de se expressar”, detalha. “Normalmente, recorre-se sempre à imitação e repetição, e eu não quero seguir esse caminho. Procuro ser mais ambicioso.”

São várias as competições que o TDSM Kid Dance participou, em Macau e fora. Portugal, Espanha, Hong Kong, além das diversas provas pelo Interior do País, foram alguns dos palcos que a equipa pisou.

No horizonte, está a ambição de profissionalizar a escola e fazer dela um projecto maior, capaz de realizar digressões pelo mundo com frequência e que os artistas possam viver da dança.

Apesar de serem cada vez mais as escolas e os formadores de dança, Popeye Hong é criterioso quando fala da indústria. “Não acho que seja uma área que se esteja a tornar mais profissional em Macau. O que determina se alguém é ou não profissional não é só ter um diploma. Tem de haver um percurso, dedicação, uma carreira. Muita gente começa a dar aulas e só com oficinas e pequenas formações, aqui e em todo o lado. É fundamental haver formação e conhecimento para que se possa ensinar algo”, vinca.

O sucesso de um bom professor, acrescenta, deve-se aos êxitos mas também aos erros. “Eu falhei muito. Vários alunos passaram pelas minhas mãos e desistiram. Mas os erros têm um lado construtivo, obrigaram-me a reflectir e a repensar”, assume.

Na escola de dança, Popeye procura trabalhar com os alunos, sobretudo os mais novos, outras vertentes como o desenho. “Trabalho com as crianças de diferentes formas para os entender, perceber como se sentem”, explica. “Lembro-me de um rapaz que era muito alegre, mas nos desenhos que fazia eram tristes e isso foi um alerta”, exemplifica.

“Através da dança, aprendem a ser resilientes, a superarem-se, a ter confiança. Acredito que é um meio de lhes transmitir uma série de valores. Não se trata apenas de os ensinar a dançar.”

Glee

A street dance é uma das variantes da escola de dança Glee, criada em Macau pelo casal Tomos Griffiths e Emma Seward. A ideia era alargar a oferta de artes performativas no território, quando ainda escasseava, com a aposta em duas vertentes: a representação e a dança. Tom ocupa-se da primeira, Emma da segunda.

Bailarina, produtora e coreógrafa com experiência internacional com artistas de renome, incluindo de street dance, Emma Seward confessa que era inconcebível deixar o estilo fora do projecto. “Assim como outras formas de dança, também tenho experiência e sou apaixonada por hip-hop e outras formas de street dance. Trabalhei para a MTV e fiz parte de vários concertos de artistas de classe A.” Katy Perry, Leona Lewis, Cher Lloyd e Kylie Minogue são alguns dos que fazem parte do currículo da artista.

“Sempre dancei hip-hop. Quando começámos, dava uma aula por semana, depois passou a duas. Agora, são sete vezes por semana”, diz à MACAU a directora criativa da escola, que nota o aumento de alunos, que este ano rondam os 60.

O número, à semelhança das restantes escolas, tem crescido. As sete turmas estão organizadas por idades: entre os 4 e os 7 anos, os 8 e os 13, maiores de 14 principiantes e avançados, street para principiantes, e breakdance para principiantes e nível intermédio.

“Quando os meus alunos cresceram, formaram um grupo. Eram muito bons em street dance. Agora são professores na escola e trabalham comigo sempre que tenho espectáculos fora”, realça. “Somos uma grande família, na verdade. É gratificante observar como inspiram as crianças tal como um dia eu os inspirei.”

Joel Fesalbon e Liam Alexander são o resultado da dedicação de Emma Seward e da aposta da Glee na street dance. De alunos passaram a bailarinos profissionais e professores na escola.

À MACAU contam como a influência da street dance, que ganhou expressão nos anos de 1980, acabou por contagiá-los. “Sempre gostei muito de dançar. Via vídeos do Michael Jackson e imitava os movimentos que fazia. Depois aconteceu o mesmo com o Chris Brown, Husher e outros, e foi assim que comecei”, recorda Joel Fesalbon, bailarino, coreógrafo e professor que se especializou no hip-hop, commercial e jazz.

Liam Alexander também recorda ter começado cedo a interessar-se pela performance e entretenimento. O hip-hop, um dos estilos que está na origem da street dance, foi das danças que o cativou logo.

A paixão comum haveria de os juntar na Glee, que integraram no mesmo ano, em 2010, e onde começaram a levar a dança mais a sério. “O que tenho feito nos últimos quatro anos é levar a paixão a um nível profissional e investir em formação”, afirma Liam, que estudou na Waterfront Theatre College, na África do Sul. “Sinto que há cada vez mais interesse na street dance em Macau, sobretudo nos mais jovens, e que aumentou com as redes sociais. Passou a ser moda, uma tendência”, acrescenta o colega Joel Fesalbon.

Liam Alexander recorda que nem sempre foi assim, dado o contexto histórico em que surgiu. A origem na rua deixou-lhe a marca negativa, que se tem vindo a esbater. A street dance, sublinha Liam Alexander, resulta de uma mistura de várias componentes: contexto histórico, cultura, estilo, dança, música. “Acaba por ser muito especial porque, apesar dos movimentos que a caracterizam, depende muito de quem a interpreta.”

A música que lhe serve de base também é versátil e abrange ritmos como o modern pop, hip-hop e o jazz. “Para me inspirar e criar novas coreografias, ouço muita música e vejo muitos vídeos. Quando há algum movimento que gosto, repito e procuro formas de o recriar, torná-lo meu”, detalha Joel Fesalbon.

Nenhum duvida do impacto positivo do que fazem. Além de provas dadas com as carreiras que com pouco mais de 20 anos construíram, enumeram os ganhos da arte. “Dança é dança, independentemente do estilo. Deixa-nos bem, relaxa-nos e a street dance é apenas uma via ou mais uma via das sensações que a dança provoca, com a diferença de que é de certa forma mais acessível face a outros estilos mais clássicos, como o balé, que implicam anos de treino para se conseguir fazer alguma coisa”, sublinha Fesalbon, que aos 24 anos participou em digressões na Ásia e pelo mundo, e espectáculos de artistas pop como Hua Chen Yu e JJ Lin.

Sobre a dança, resume: “É libertadora, uma excelente forma de exercício e uma forma de criatividade”. “É preciso talento para que se consiga exteriorizar, comunicar sem se dizer nada, usando apenas o corpo. Implica treino, prática e consciência sobre o movimento”, acrescenta.

Os benefícios, continua, são óbvios para profissionais e amadores. “É um escape, a possibilidade de se sair de um espaço mental e físico onde se esteve o dia todo quando se tem um trabalho a tempo inteiro, mas de continuar a exercitar a mente porque se está a aprender algo novo. É como se fosse um puzzle, tem de se juntar as peças para chegar a um resultado que neste caso é uma forma de expressão. Dançar é muito mais do que dançar.”

Macau Street Dance Culture Association

A associação foi criada em 2006 com um objectivo: aproximar os apaixonados pela street dance e assim promover a cultura que lhe está associada. “De todas as formas artísticas de dança é a mais livre e conhecida. Qualquer pessoa pode dançar, independentemente de ter talento ou não. É também por isso que a música tem um papel tão significativo”, afirma Jun Loi, da Macau Street Dance Culture Association (MSDCA). “A cultura da street dance surgiu em Nova Iorque. As pessoas costumavam dançar ou actuar em qualquer lado que fosse um espaço aberto: no parque, na rua, festas. Mais tarde, acabou por se espalhar pelo mundo.”

A Macau também chegou. “Há cada vez mais estúdios de dança, o que contribuiu para o maior conhecimento da cultura. Nota-se que há mais interesse em participar em competições e ter aulas, e que também há mais curiosidade em conhecer a cultura da street dance”, refere.

A criatividade que a vai mudando e o facto de se ter globalizado fazem com que esteja em constante mutação. Prova disso é a selecção musical. Se antes a banda sonora era essencialmente composta por música funk, agora tende mais para remix e k-pop, diz Jun Loi. “Não há rigidez nem critérios que definam que música é adequada ou não para dançar street dance.”

Ao contrário dos estúdios, a Macau Street Dance Culture Association não é uma escola, e a formação que faculta resume-se a oficinas e cursos que inclui nos eventos que organiza. Entre outros espectáculos, competições e actividades, Jun Loi salienta o ‘May We Dance?’, que tem lugar todos os anos em Outubro. “É o maior evento que organizamos e que inclui diversas vertentes. A ideia é que quem gosta de street dance se possa juntar para trocar ideias e resultados”, descreve. “Não temos professores residentes uma vez que não damos aulas. Os professores são os artistas que participam nos eventos. Nos últimos anos, por exemplo, convidamos performers de França e dos Estados Unidos para estarem presentes”, esclarece o presidente da MSDCA.

Jun Loi, como os restantes, enfatiza os benefícios da prática. “Dançar dá força e flexibilidade. Também acaba por nos tornar mais sensatos e pacientes porque dançar com os outros implica um trabalho colectivo”, exemplifica.

O bailarino não tem dúvidas que o impacto é apenas positivo e descarta os argumentos que colaram à street dance o rótulo de má influência. “Primeiro que tudo, não é uma má influência para ninguém. É exactamente como as outras danças. Também requer trabalho para que se alcancem progressos e sucesso, e dedicação. A mentalidade está a mudar à medida que cada vez mais pessoas entendem o valor da street dance”, refere. “É evidente o impacto positivo que tem nas crianças e nos adolescentes.”

Macau Youth Street Dance Association

Foi em Agosto de 2020 que o Rebel Z Base abriu portas e aumentou o já considerável mercado de estúdios de street dance em Macau. A escola herdou o nome do grupo de dança Rebel Z do qual faz parte Jarvis Mo, fundador e presidente da Macau Youth Street Dance Association.

O interesse na street dance, diz o bailarino, é inegável. Os números comprovam-no. Passaram pela escola mais de 400 alunos nem um ano volvido. Em 2021, já superaram os 100. “A street dance é cada vez mais popular na geração jovem porque muitos relacionam-na com a música que ouvem. Hip-hop, popping, locking, breaking e house, cada um destes estilos tem a sua cultura e história”, refere.

Mo realça que as várias escolas que têm aparecido na última década contribuíram para que a cultura se expandisse e crescesse o interesse. “A globalização também ajudou. A influência musical, da televisão, cinema e da cultura pop norte-americanos chega a todo o lado actualmente.”

Rebel Z Base é um reflexo disso. “O nosso grupo andava sempre a arrendar outros estúdios para dançar e gastávamos muito dinheiro. A dada altura decidimos abrir um espaço nosso”, conta Mo.

Além de bailarinos, os membros do grupo passaram a professores, que no total são 10. Coreografia, hip-hop, locking, house, popping, girls’ style, sexy-jazz, jazz contemporâneo, breaking, k-pop são algumas das modalidades que ensinam a crianças e adultos.

Paralelamente ao ensino, o grupo também organiza eventos e espectáculos como o “Choreo Kitchen”, teve lugar em Dezembro de 2020. “O objectivo foi promover a street dance em Macau”, sublinha Jarvis Mo, que tem procurado cumpri-lo através de diferentes frentes.

Mo tornou-se dançarino há 10 anos e há oito que dá aulas. Em 2014, decidiu dedicar-se à paixão a tempo inteiro e de forma mais profissional. Abandonou a licenciatura em Inglês que estava a tirar e passou a ocupar-se da dança.

Nos últimos sete anos, dançou, investiu em formação e organizou eventos com a Macau Youth Street Dance Association. Chegou a trabalhar como dançarino no Interior do País, mas agora está apostado em promover a cultura de street dance em Macau, através da organização de exposições, concursos e do ensino. “O objectivo é formar alunos com capacidade de participar em concursos internacionais”, afirma. Macau, acredita, só tem a ganhar uma vez que são várias a mais-valias da street dance. Disciplina, criatividade, saúde mental, socialização, bem-estar, uma forma de terapia e bons valores são alguns dos que indica. “Se houve marca que a street dance deixou foi precisamente a de ter ajudado muitas pessoas a terem uma vida melhor”, frisa. “Só para dar alguns exemplos de como continua a contribuir para a melhoria de vida de muitos, hoje a breaking dance faz parte das modalidades nos Jogos Olímpicos; o popping é usado como recurso nas terapias de doentes com Parkinson e a coreografia abriu uma porta para que muitos criem algo único”.

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